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Identidade

Poemas neste tema

Felipe Larson

Felipe Larson

A ARTE DE PODER VOAR

Há alguma coisa diferente pairando no ar...
Pareço estar, alegremente, vendo o mundo girar.
E quem se importa com isso?
O estado que me encontro se que vai passar
Para apagar as marcas feitas ao chão
Pois tenho no peito um humilde coração
Você não sabe o que é querer ficar só
Ficando somente com o meu silêncio
Tendo uma razão pra ficar aqui
Pra ver se encontro meu caminho
Quero mostrar a vida com toda sua nitidez
Agora o pensamento parece mais sereno
Vejo você, mesmo assim, não me entende,
E a noite custa a chegar
Quero me por pra fora, me sentir mais puro,
Como se eu pudesse voar ao céu
Onde ninguém pudesse alcançar pra me buscar

668
Felipe Larson

Felipe Larson

VOU MAIS ALÉM

Diga seu nome
Hasteie a bandeira
A estrela some
Você diz que é besteira
E ao teu sinal
É que vou saber

Nas horas mortas
Sempre iguais
E com as sobras
O que a gente faz
E o estado de lombra
Já é tão normal

Vou mais além
Do que posso ir
E quem quiser ir também
É só me seguir

A mão esconde
O seu rosto
Será que é vergonha
Abre seu jogo
E o teu segredo
Eu vou descobrir

Os melhores momentos
São aqueles vividos
E nós vamos indo
Até muito bem
Só temos medo
De não nos entender

593
Antonio Porcchia

Antonio Porcchia

Prelúdio

Que nos assusta tanto do silêncio?
Por que chamar em nosso auxílio o ruído?
(Sons harmoniosos, rudes ou violentos,
porém ruídos ao fim. Ao fim sons).

Tememos do silêncio a eloqüência?
Encontraremos ao fim nós mesmos,
responder a pergunta que a ciência
não pode responder em seu silêncio?

Quem sou, por que estou neste mundo,
qual é a razão de minha existência?
Vale o chorar silencioso, vale o rir alegre?
Valem, enfim, a luta e a violência?

Deixemos que o silêncio nos inunde
para que Deus responda no silêncio,
no vértice mesmo em si fundem
o empenho divino e nosso empenho.

Assim conhecerá a alma sua resposta
e a dirá a mente, sem palavras,
celebrando do culto a grande festa
que com a chave do silêncio se abra.

706
Felipe Vianna

Felipe Vianna

IDIOSSINCRASIA

Homem,
Quem és tu?
Sem personalidade,
Sem caráter.

Que entre a turba
Exacerbadamente
Idiossincrático se faz.

Do emendado
Ao mais rebelde
Não foge nunca
Desta estirpe social.

II

Quem és tu?
Insurgente idiota
Que, para fugir da rota,
Idiossincrático se faz.

III

Vulgo certo,
Emendado, correto.
Burro de carga
Da ideologia te faz.

11/06/2001

907
Felipe Vianna

Felipe Vianna

RIO CORRENTE

Marília, Marília,
Meu primeiro amor,
Wagner assim me questionou:
- Por que deixaste o teu amor?
Se eu fosse tu,
Casava com ela.
Respondi-lhe sem pestanejo:
- Se eu fosse eu,
Também casaria com ela, mas,
Ela não é mais ela.

25/05/2001

620
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Sonha Alonso Quijano

O homem se desperta de um incerto
Sonho de espadas e de campo plano
E se toca a barba com a mão
e se pergunta se está ferido ou morto.
Não o perseguirão os feiticeiros
que hão jurado seu mal baixo a lua?
Nada. Apenas o frio. Apenas uma
Doença dos seus anos postreiros.
O fidalgo foi um sonho de Cervantes
e don Quixote um sonho do fidalgo.
O duplo sonho os confunde e algo
está passando que aconteceu muito antes.
Quijano dorme sonha. Uma batalha:
Os mares de Lepanto e a metralha.

Retirado de La rosa profunda (1975)

1 889
Felipe Vianna

Felipe Vianna

AMOR

Quando o amor
Deste poeta
É atingido,
Sê esperta!

Um homem forte?
Papel muralha
Depende da sorte.
Fique alerta!

Não me machuques,
Vem, eu te chamo.
Peço, me ame,
Pois eu te amo.

15/07/1997

623
Felipe Vianna

Felipe Vianna

DE UM JOÃO NINGUÉM

Meu sonho é ser alguém!
Quem, eu?
Sim, eu!
Um João-sem-terra,
Um João-ninguém.

Quero ser importante,
Ser visto e respeitado;
Um ser elegante,
Um objetivo a ser almejado.

Meu futuro será brilhante,
Meus caminhos serão grandes,
Serei maior que minha estatura,
Não terá estátua a minha altura.

Postumamente meu nome será lembrado,
Pela história relevado.
Esta rua em que me encontro,
Seu nome será Felipe Vianna;
E ponto.

28/08/1999

754
Felipe Vianna

Felipe Vianna

VIDA

Dança dourado luar
No reflexo espelhado do mar.
Este amor platônico
As ondas vêm à praia chorar.

Choras porque tens consciência
Que o que tens é só referência
Já que a verdadeira lua não podes abraçar
Deves contentar-te apenas com a luz do luar.

Mas o que é a vida
Se não apenas um espelho
De uma coisa já ida
Que nunca veio.

24/06/2001

845
Felipe Vianna

Felipe Vianna

LOUCURA

Loucura é:
Mostrar o meu Eu ao teu Tu
E se o teu Tu achar louco o meu Eu
Não permitas, Deus,
Que eu seja o Tu.
Pois, se todo louco é feliz,
Mais vale curtir o éden de minha loucura à
Curtir o teu Tu das jaulas da sociedade.

25/05/2001

847
Eduardo Alves da Costa

Eduardo Alves da Costa

Quero que o saibas

Quero que o saibas, linda Inês:
meu coração é português.
E dentro do peito fareja latidos
da alma que há muito me fugiu.

Ando sem alma, já se vê,
à procura de não sei quê.
Talvez um cheiro, uma cor, um som
- memória do tempo em que eu,
cidadão de Viseu,
vivia na bolsa seminal de meu pai.

O que foi ele buscar no mundo?
O azul profundo que há nos mares
quando se os tem interiores;
novos amores, terras mais vastas.
Não são assim os descobridores?

Pois meu coração é assim:
navegante à deriva, naufrago em mim!
1 400
Isaac Felipe Azofeifa

Isaac Felipe Azofeifa

Poema IV

Tu me deixas aqui ou partes comigo?
Estou dentro de ti ou é que me chamas?
Vives única em mim ou encontro o mundo em ti,
contigo?

A ordem das coisas em que te amo,
onde começa ou acaba?
Agora está o silêncio aposentado
na rosa do ar
e uma árvore perto trina entre os pássaros
para sombrear teu sonho ou é meu sonho?

É esta uma prisão ou acaso o vasto céu
começa aqui onde teus pés
tocam juntos a terra, ou é a lua?

De pronto entro na luz que já habito
e meus olhos se encontram com tua testa.
Busco sair de ti e te levo dentro
de mim, sem encontrar-te.
Sem como, onde ou quando.

Cego na luz com meu olhar aberto
a tanta multidão de ti que ando
extraviado na noite na metade do dia.

949
Germán Carrasco

Germán Carrasco

Para uma aprendiz de Espanhol

Sons que raspam a garganta como certos sabores,
ruídos na rugiente Babel, ritmo e rareza de uma língua
cujo ronco raspar fricando alvéolos retumba
certa rudeza ou rugir de raça rara, erres
tribais, endogamias, difíceis, o último de aprender
em uma língua: linguagem refinada da poesia ou um
áspero blues, se prefere: delirario:diário de lírios e delírios
mas já que desordem como a de teu cabelo sem ir mais longe
é uma desordem dinâmica, por aí temos de começar: de rosa.

760
Rafael Alberti

Rafael Alberti

Pregão

Vendo nuvens de cores!
as redondas, vermelhas,
para suavizar os calores!

Vendo os cirros arroxeados
e rosas, as alvoradas,
os crepúsculos dourados!

O amarelo astro,
colhido o verde ramo
do celeste pessegueiro!

Vendo a neve, a chama
e o canto do pregoeiro!

1 280
Virgínia Schall

Virgínia Schall

Secretamente

Seus olhos estão perigosamente dentro
de mim
aqui fizeram morada
e estão como Deus
em toda parte
se interpondo
entre a paisagem mais próxima
entre a fresta de luz e a imagem
tangenciando meu olhar
que não sabe olhar puro
que se trai a cada segundo.

Seus olhos estão perigosamente pousados
sobre mim
como borboleta em flor
cobrindo minha pele em ternura
suaves como seda
a farfalhar sobre os poros
e os pelos.
Luzes que incendeiam
em sublime música
meu corpo aceso em sede
Sombras sobre minha noite
embalam meu sono
devassando meus sonhos
onde secretamente me assombram
estando fora e sendo dentro
espelhos de amor intenso
e imenso.

Nossos olhos estão perigosamente
em comunhão
a despeito da separação
que a vida nos impõe.
E nossas vidas
sob risco
entre sermos felizes
ou tristes
e nossos destinos
por um triz
entre sucessos
e desatinos.
Secretamente
espreitamos-nos
como caminhos
à beira
de atraentes abismos.

962
Eliana Mora

Eliana Mora

Noite de mendigo

Fui seqüestrada nas entranhas
desta noite
por uma espécie de Senhor
da madrugada
Era meu corpo a implorar
por um abrigo
tal qual imensa ilha
desgarrada

Ele insistia em relembrar mistérios
entumecia agredia
(desterrava)
E evocava um outro tipo
de tremor
Algo que fosse o avesso
(uma morada)

Amanhecia
e as plantas já secavam
daquelas gotas tão iguais às
do meu corpo
E a viagem (ante o sol)
se transformava
em mais algum delírio que
desponta
de uma louca (e tão mendiga)
madrugada

(25 de março de 1999)

867
Fátima Andersen

Fátima Andersen

Não sei

Não sei de mim
se daquilo que parece ser
me perdi.

Deixei que a vida me vivesse e,
perdendo-me da vida,
a vida perdeu-se.

E menti muito,
para ser melhor
poeta.

907
Márcia Fasciotti

Márcia Fasciotti

Madrugada

É claro!! Sempre estava afim!
Uma noitada, música,
burburinho de vozes,
matizadas em vários tons...
Mais uma dose!!!
Estalar de copos, gargalhadas...
Mistura de sons!!!
É a boemia insone
exibindo falsa alegria,
procurando encher de amores
a madrugada vazia...
Já gostei...
...já fui assim!!
Hoje, a insônia, desabafo no papel...
Encontro marcado comigo!!!
Que ironia!!
Sou no momento, minha melhor
e mais fiel companhia...

789
Eliana Mora

Eliana Mora

Espanto

Se um dia
saio a dizer
o que me vai na cabeça
muitos irão se espantar
[alguns vão até estranhar]

Mas na verdade eu teria
uma história a revelar

E o resumo seria
um aqui jaz
elegia
ou canto a enaltecer
a tal de vida
[promessa]
meio sem eira nem beira
meio sem voz
[de coleira]

Com a dona desta vida
arrematando seus cantos
como faz a bordadeira
[para o pano não rasgar]

(18 de setembro de 1998)

769
Angela Santos

Angela Santos

Pulsão

Falo
sem nome que te designe
sabendo de ti tão só o sinal

És fome de mãos
que as minhas segurem
és fome de um corpo
onde o meu se encontre
és fome de ser,
és fome de vida
e fome de mim…

Pressinto-te
convulsiva pulsão
que me refaz
à medida que se desfaz,
no meu ser estilhaçado,
explosões comedidas…adiadas…

Esta fome é a minha
e não tem nome..
esta fome sou eu
feita ou desfeita em pedaços
ausências, esperas,
gritos e silêncios
adiamentos, cansaços.

1 049
Angela Santos

Angela Santos

A Sós

Vai!
hoje só preciso de mim

Vai!
deixa ficar a tua imagem
o teu riso
teus gestos infantis
para que neles eu beba
a nostalgia
do tempo sem memória

Vai!
hoje só me quero a mim!

1 037
Angela Santos

Angela Santos

Mulher

Mulher,
num corpo mar
ser navio e aportar ao largo desse teu abrigo

Em minha mãos
deixar crescer a flor dos afectos mais fundos
e te entregar todos eles
ao toque delicado destas mãos de mulher
corpos irmãos em sua dança de heras,
orvalhados corpos de um amor matinal
mulher nos teus braços ser
mulher confirmada no teu seio irmão,

E sentir a grandeza do momento que nasce
no instante maior de sabermos ser
duas almas tocadas pela força do amor
dois corpos amantes que em si mesmo buscam
a razão suprema do acontecer.

1 020
Maria Isabel

Maria Isabel

A hora vazia

Onde as humildes palavras
Que ingenuamente disseste?
Onde os gestos dos teus braços
Nascidos para enlaçar?

Cansaste. O sol do deserto
Secou tua alma de fonte.
Morreu nos dedos do inútil
A tua frágil canção.

Não mais ouvirás soluços,
Não mais na noite deserta
Descobrirás desesperos.
Corpos virão sobre as ondas,
Diante dos teus olhos secos.

Houve uma voz nos teus lábios
Quente e viva. Quando foi?

Hoje a fadiga, hoje o sono.
Hoje, trágica e vazia,
A hora de contemplar.

753
Angela Santos

Angela Santos

Sagração

Contigo
quero ir
ao fundo de um sonho-guia
perder-me nas veredas do teu ser
fundir nos teus os meus sentidos

Em ti beber o secreto aroma
que ao corpo aflora
no instante em que o amor
sem prévio-aviso
nos toca

Cumprir-me contigo,
viagem adiada à raiz de mim,
nascente e foz do meu desejo
desaguando em ti.

Provar-te, inteira,
ao jeito da Eva subversiva
perder-me e encontrar-me
no que regresso ao que sou
na limpidez da alma que se olha
no instante maior da sagração do corpo
que se doa.

1 022