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Poemas neste tema

Moacy Cirne

Moacy Cirne

Poema final

o homem só,
velho e cansado,
olha para a frente
e nada vê.
olha para os lados
e nada vê.
olha para o fim do mundo
e nada vê.
entre
o espanto dos suicidas
e
o silêncio dos desamados,
o homem cansado,
velho e só,
olha para o poema
e nada vê.
será
que os sinos
dobrarão por ele?
1 275
Boris Pasternak

Boris Pasternak

Ser famoso não é bonito.

Ser famoso não é bonito.
Não nos torna mais criativos.
São dispensáveis os arquivos.
Um manuscrito é só um escrito.
O fim da arte é doar somente.
Não são os louros nem as loas.
Constrange a nós, pobres pessoas,
Estar na boca de toda a gente.
Cumpre viver sem impostura.
Viver até os últimos passos.
Aprender a amar os espaços
E a ouvir o som da voz futura.
Convém deixar brancos à beira
Não do papel, mas do destino,
E nesses vãos deixar inscritos
Capítulos da vida inteira.
Apagar-se no anonimato,
Ocultando nossa passagem
Pela vida, como à paisagem
Oculta a nuvem com recato.
Alguns seguirão, passo a passo,
As pegadas do teu passar,
Porém não deves separar
Teu sucesso de teu fracasso.
Não deves renunciar a um mín-
Imo pedaço do teu ser,
Só estar vivo e permanecer
Vivo, e viver até o fim.
(tradução de Augusto de Campos)
.
.
.
949
Hilda Machado

Hilda Machado

O nariz contra a vidraça

como a paisagem era terrível
mandou se fechassem as janelas
o nariz contra a vidraça e o fla-flu comendo lá fora
genocídios, promessas, plenilúnios
O festim de Nabucodonosor, a vitória dos pó-de-arroz
as dores do pai e os gritos de amor
são agora aquarelas pitorescas
O nariz contra a vidraça
melhor ainda atrás da persiana
ela com seus preciosismos
unhas feitas entre desfiladeiros de livros
barricadas contra o sublime e o medo
Discretavoyeuse
o sofá combinando com o tom das exegeses
a polidez dos móveis, avencas, decassílabos, filmes russos
perífrases sobre paninhos de crochê
e em vez de carne poemas no congelador
Anônima, dizia sempre à manicure
e apesar das mãos que enrugam
as unhas bem curtas e o esmalte claro, por favor
Um dia, o leite derramado na cozinha, saiu
garras vermelhas, bateu à porta do vizinho
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Josée Lapeyrère

Josée Lapeyrère

excerto do poema 1/0

4.
você se lembra você se lembra que primeiro
dançamos sobre o vulcão mas onde
deixamos as frutas? ali onde tombou
a carta eu finalmente cedi ao fim
eu cedi eu terminei por ceder eu cedi e foi
delicioso eles desapareceram em uma limusine
negra eu desviei de um beijo para a vida foi
o que ela disse oh! não precisa
falar disso eles não vão suportar ela ainda
por cima põe este vestido que parece continuar
a pele eles construíram sua vida como
um teatro no campo é um trabalho duro
manter o jogo o máximo de tempo
possível antes que tudo desmorone e deslize
para fora do campo mas ele gosta de pôr fogo é um
peixe que morde as maçãs e ela é uma galinha sim
uma galinha que dá alfinetadas nele
hoje é outra coisa que vai me dar
prazer há gestos que surgem
entre as duas portas eles não foram
previstos e as pequenas cortinas nas janelas
o espaço das paredes azuis levarei apenas
algumas sacolas e meus livros de estudo
a primeira flecha foi um
mal entendido melhor que todos os outros
ela saiu do grande movimento
giratório imediatamente perdi a
idéia da possessão
(tradução inédita de Marília Garcia)
:
souvenez-vous souvenez-vous d'abord
nous avons dansé sur le volcan mais où
avons-nous laissé les fruits? à l'endroit où la lettre
est tombée j'ai finalement cédé à la fin
j'ai cédé j'ai fini par céder j'ai cédé c'était
délicieux ils ont disparu dans une limousine
noire j'ai basculé du baiser vers la vie voilà
ce qu'elle a dit oh ! il ne faut pas
parler de ça ils ne vont pas le supporter elle a
encore mis cette robe qui semble continuer
la peau ils construisent leur vie comme
un théâtre en campagne c'est un rude métier
de tenir le jeu le plus longtemps
possible avant que tout ne bascule et ne glisse
hors du champ mais c'est un incendiaire c'est
un poisson qui mord les pommes c'est une poule oui
une poule qui sait faire jouer ses couteaux à lui
aujourd'hui c'est autre chose qui me ferait
plaisir il y a des gestes qui naissent
entre deux portes ils n'étaient pas
prévus et des petits rideaux aux fenêtres
le long des murs bleus je prendrai seulement
quelques valises et mes livres de classe
la première flèche fut
un plus beau malentendu que tous les autres
elle est sortie du grand mouvement
giratoire j'ai de suite perdu
l'idée de la possession
.
.
.
1 003
António Pocinho

António Pocinho

iscas

Quando se comem enguias fritas, a poesia parece a pior forma de recriar a vida. Não há metáforas para quando se pega no garfo para levar à boca sejam iscas, seja mão de vaca, seja chispe, ou até ensopado de borrego.
A fruta já se presta mais a ser cantada, mas não enche tanto.

847
Adão Ventura

Adão Ventura

Paisagens do Jequitinhonha

Quem dança no vento
no ventre das águas
do Jequitinhonha?
Quem percorre o leve
de breves passos
nas margens do Araçuaí?
Quem detém dos pássaros
o ziguezaguear de vôos
recompondo sombras
sobre lixívias e lavras
de Chapada do Norte?
Quem imprime
em argila
a singeleza dos gestos
dos artesãos de Minas Novas?
1 146
Luiza Neto Jorge

Luiza Neto Jorge

A Divisibilidade: a Invisibilidade a Dois

A mulher divide-se em gestos particulares
o homem divide-se também. Se o átomo é
divisível só poeta o diz.

a mulher divide-se em gestos
extremos coloridos arenosos destilados.

dois homens são duas divisões de uma
casa que já foi um animal de costas
para o seu pólo mágico.

A divisibilidade da luz aclara os mistérios.
A mulher tem filhos. Descobrem-se
partículas soltas um dedo mínimo
o peso menos pesado da balança
um cabelo eloquente em desagregação

Gestos estrídulos dividem a mulher
o homem divide-a ainda.

1 301
Sierguéi Iessiênin

Sierguéi Iessiênin

Pobre escrevinhador, é tua

Pobre escrevinhador, é tua
A sina de cantar a lua?
Há muito o meu olhar definho
No amor, nas cartas e no vinho.
Ah, a lua entra pelas grades,
A luz tão forte corta os olhos.
Eu joguei na dama de espadas
E só me veio o ás de ouros.
944
Fernando Assis Pacheco

Fernando Assis Pacheco

Fecit

Este livro é teu que me aturaste
desvairos saüdades amorios
desde o primeiro mal cozinhado verso
ó cúmplice
um que me lê com respeito e vagar
a quem devo chamar prestante amigo
neste mundo de tanta cabronada
o livro é o que é nenhum enleio
nenhuma assinatura a baixo preço
não estou nessa tal lista e tem também
a confissão banal dos mil cagaços
de morrer (dores intercostais músculos
caindo na barriga da perna)
como se eu fosse à noite um filho terno
e teu, leitor, que o não desamparaste
*
Peçam grandiloqüência a outros
Acho-a pulha no estado actual da economia
*
E não sublinhem o que não escrevi
*
A ti compadre irmão saúdo e já termino
com só o fósforo duma estrela
na lixa do fim da tarde
(todos os poemas inVariações em Sousa, 1987)
1 052
Fernando Assis Pacheco

Fernando Assis Pacheco

A namoradinha de organdi

Como na dança ritual dos patos colhereiros se te amei
foi a cem por cento da minha capacidade metafórica
mas copiado de livros onde o herói sempre enviuvava
cruzei imensas vezes sob a tua varanda com glicínias
pensando numa cena infeliz à moda do Harold
eu sonhava contigo?
eu assoava-me ao pijama!
982
Henry David Thoreau

Henry David Thoreau

Fazer todos os dias

Fazer todos os dias um bom dia, essa é a mais elevada das artes.
2 899
Vincent Van Gogh

Vincent Van Gogh

Eu sonho a minha pintura,

Eu sonho a minha pintura, e então eu pinto o meu sonho.
3 645
Sócrates

Sócrates

A eloquência é a arte

A eloquência é a arte de aumentar as coisas pequenas e diminuir as grandes.
3 241
Salvador Dalí

Salvador Dalí

Não tenha medo da perfeição.

Não tenha medo da perfeição. Você nunca a vai atingir.
3 211
Pablo Picasso

Pablo Picasso

Eu não procuro, eu acho.

Eu não procuro, eu acho.
3 881
Pablo Picasso

Pablo Picasso

A inspiração existe, mas tem

A inspiração existe, mas tem que te encontrar trabalhando.
3 338
Pablo Picasso

Pablo Picasso

Eu não fiz, vocês é

Eu não fiz, vocês é que fizeram, eu só pintei.
3 322
Pablo Picasso

Pablo Picasso

A qualidade de um pintor

A qualidade de um pintor depende da quantidade de passado que carrega consigo.
2 980
Pablo Picasso

Pablo Picasso

Se sabemos exactamente o que

Se sabemos exactamente o que vamos fazer, para quê fazê-lo?
2 929
Pablo Picasso

Pablo Picasso

Há pessoas que transformam o

Há pessoas que transformam o sol numa simples mancha amarela, mas há aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol.
3 631
Mark Twain

Mark Twain

Um clássico é um livro

Um clássico é um livro que todo mundo admira, mas que ninguém lê.
2 767
Mark Twain

Mark Twain

A vida ideal consiste em

A vida ideal consiste em ter bons amigos, bons livros e uma consciência sonolenta.
3 083
Groucho Marx

Groucho Marx

Acho a televisão muito educativa.

Acho a televisão muito educativa. Quando alguém liga o aparelho, vou para outra sala e leio um livro.
2 879
Friedrich Nietzsche

Friedrich Nietzsche

Nunca avaliemos um artista pela

Nunca avaliemos um artista pela medida de suas obras.
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