Escritas

Cidade

Poemas neste tema

Micheliny Verunschk

Micheliny Verunschk

Amiga

Amiga,
lavei os pratos,
mas a mágoa
mastigou-me
o inteiro dia
— esse pedaço
de carne crua
com nervos difíceis
aos dentes,
que sou —.
Se ao menos
eu pudesse banhar
meus pés
na bacia de ágata
do meu avô,
não perdoaria tanto
meus sentimentos
mesquinhos
e debruçaria-me
sobre o balcão
sem rir
e seria
mais triste e grave
e, claro, vestiria luto
por tudo
que foi morto
na minha e tua amizade.
Mas, como vês,
Não sei da bacia branca
donde eu sairia
apaziguada.

862
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Pássaro

O PÁSSARO SOBREVOA A CIDADE

As asas são meros instrumentos
que aos olhos se moldam

E o universo é um pequeno trecho
em suas aspirações,
que na virtude de galgar
espaços delineou sua missão
(a reconstrução)

E o pássaro voa
libertinamente no
azul poluído da cidade,

UM GRANDE PÁSSARO HOMEM

607
Millôr Fernandes

Millôr Fernandes

Poesia Escapista

Aqui, onde estamos morando,
O lugar não pode ser mais belo.
São duas colinas e, conseqüentemente,
Um vale. Há um rio. E há um lago.
Doutrinas não há, a não ser as do
"Centro Acadêmico Dom Casmurro".
Mas isso é distante.

De manhã vê-se se o céu está claro
Ou nublado.
Previsões só as sobre o decorrer
(Meteorológico) do dia.
Planos — os de ir a pé ou a cavalo
Para o banho diário.

Os temores locais são poucos:
Se a ponte de madeira fica pronta antes
De São João,
Se o leite chegará para o fornecimento
De manteiga.
Não há estação de rádio.

Alguns benefícios do mundo de 60
Nos chegam pela estrada — penicilina,
Tecidos, matérias plásticas,
Adornos pessoais.
Por milagre, ninguém pede jornais.
Mas as mulheres daqui são bem tratadas
E, felizmente, nada naturais.

Muito prazer de corpo, muito ar.
Luz, água, cavalos, muita vida animal.
Definitiva ligação ao essencial.
Poucos temores, poucos riscos.
Muito pouca aflição:
A China é antiga como antigamente
Não há televisão.

Mas vem, de algum recanto sutil,
A informação
E se planta e cresce insuspeitada
Com outro nome que, traduzido,
Um dia será lido.
Pois é com alegria que o menino
Entra pela casa com um cão,
Seu amigo, seu primeiro grande amigo,
E o apresenta: "Papai, ele se chama Desintegração.

3 104
Micheliny Verunschk

Micheliny Verunschk

Déjà Vu

Olhos que passeiam
pelo boulevard,
pegam o bonde
e imaginam
ou sonham
ou querem
estar no trenzinho caipira.
Olhos que passeiam
pelo boulevard,
tropeçam na calçada
e brincam
ou fingem
ou querem
estar apaixonados.
Olhos que passeiam
pelo boulevard,
fumam um cigarro
tomam um sorvete
assobiam uma cantiga
escrevem um bilhete
cumprimentam outros olhos
e fazem do boulevard
seu eppor si muove.

1 004
Maria Inês Gambogi

Maria Inês Gambogi

Nem a palavra amor

Patrocínio, 1978
Nem a palavra amor
sendo pronunciada
sem obstância, o amor.
Nem o seu nome
consegui pronunciar
que tão só nossos corpos
revimos

Reduzi a costume
o que eu sentia de nosso
devendo, pensei, abandonar.
Reduziu o cerne
a uma situação inominável
a um anterior defeito de prosa.
Neste volume me aguardou em reações comuns.
Opressa e devagarinho
comecei a limpar o fato
tornando a sala passiva.

660
João Mello

João Mello

Esta é a Cidade

Esta é a cidade. Quem caminha
sorvendo seus odores coloridos?

Caleidóscopicos sons
inebriam os músculos
como doces agulhas

Quem sente o calor do chão
luz de vidro e água
intensa e rumorosa como
um afago?

As crianças percorrema cidade
atrás do tiroteiro
como aves barulhentas. A rota
desta guerra
elas sempre a conheceram

Há uma farra em cada esquina
onde tambores renovados
fazem explodir toda alegria antiga

A liberdade é uma visível linha
de fogo nos olhos dos homens.

1 124
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Meninos

Meninos do morro
descem do morro
não pedem socorro
se pegam a socos
defendem o osso
da carne em ruínas

emudecem como sopro
do trem da Central que avisa . . .

No céu dos brasis
há meninos louros
negrinhos, caboclos
meninos moços, heróis
do sem fim

Meninos do morro
também há meninas
franzinas, despidas

Tentativa de ser
sopro de vida

885
Magna Celi

Magna Celi

Vereda

Quero penetrar a grota recôndita
do viver,
e colher
uma realidade madura.

Viver não é aceitar os fac-símiles
amontoados dos ancestrais,
viver é dar cambalhotas com um sorriso
e enfrentar com fé uma guinada:
fazer o mundo amoldar-se a nós.

341
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Urbano

A cidade dorme,
mas não dormem os
homens,
que espreitam a cidade,
com seus olhos de fome.

São iguais os homens,
mas desuniforme a fome.

De dia a cidade não
dorme,
e seus homens passeiam
nas ruas
alguns cabisbaixos, outros
resolutos

São iguais os homens
mas distintos os caminhos

A cidade os acolhe
A cidade os exibe
A cidade os discrimina

São iguais os homens
num contexto relativo.

865
Maria da Costa Lage

Maria da Costa Lage

Haicai

A chuva a descer,
como tristeza fininha,
vai filtrando o ser.

A bola batida
no pingue-pongue estonteia,
assim como a vida.

835
Maurício Batarce

Maurício Batarce

O Espelho da Vida

Quem não sonhou um campo
Para se livrar da cidade?
Quem nunca,
Navegando em pensamento,
Mirou-se nas águas cristalinas de um riacho?
Quem nunca se viu jazido
Sob uma árvore frondosa?
Quem jamais se identificou
Com paz e tranqüilidade?
Quem nunca aspirou
Um modo de vida além do seu?
Quem, em hipótese alguma,
Deixa-se deitar sobre a areia da praia,
Ou sobre as gramíneas do campo?
Quem nunca respirou as estrelas?
Quem não tem atração pelos ruídos da noite
E pelas sombras adentrando o quarto?
Quem apartaria de si uma aventura misteriosa?
Quem pensa em se aproximar
Da realidade e do quotidiano?
Quem não gosta de aspirar o ar marinho?
Quem nunca enfrentou fantasmas?
Quem se arrepende de relembrar?
Quem não tem prazeres?
Quem nunca navegou com a brisa no rosto?
Quem nunca preferiu a vida à morte
Ou a morte à vida?

935
Masako Akeho

Masako Akeho

Haicai

Casa de vespas
zunindo em círculos
palavras picantes

O morro iluminado
do barracão sem luz
choro de criança

872
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

O Vento no Rosto

Descalços, andávamos no campo,
molhávamos os pés na relva verde.
Íamos atrás do vento.
Sentávamos, todas as tardes, no alpendre,
a olhar os passarinhos
apanhando migalhas.

- Esperando encontrar o que nos resta
do corpo.

976
Marcelo Almeida de Oliveira

Marcelo Almeida de Oliveira

Sementemente

Do concreto armado rachado
nasceu a semente doente,
raízes sedentas cavaram o asfalto,
do esgoto fedido se fez nutriente.
E por milagre talvez, vingou a semente;
galhos tortos, mas fortes;
folhas disformes, mas verdes;
um pouco estranha, sem dúvida;
um tanto linda, sendo vida.
Do seu galho mais alto se abriu uma flor,
do lisérgico entardecer roubou sua cor,
farol fosforescente a noite ilumina,
esperando o beija-flor de alumínio;
cibernético (o beijo).

739
Moacir Amâncio

Moacir Amâncio

Beduíno

esses olhos nunca viram a chuva
eles navegam o vento
devassam o absoluto
- a ausência de portos -
de dentro de um sopro

1 029
Mário Hélio

Mário Hélio

6 - VI (Clariluz)

ontem à noite
eu vi teu espírito sobrevoar a cidade
e apagar silenciosamente
todas as luzes.

942
Mário Hélio

Mário Hélio

15-V(Evangelho)

quantos poetas prováveis
inventam rimas prováveis
neste instante provável!
muitos disseram milhares de fórmulas,
mas quantos provaram
o simples sem teorias?
é isto escrever poesia?
tecer um camafeu absurdo, relativabsoluto?
morrer de medo no escuro,
escrever cartas de amor,
depois querer que a humanidade beba
esse cauim azedo?
quantos neste minuto improfíquo
gastam três minutos de alegria
num poema gasto
que depois de feito produz que efeito?
quantos tantos morrem de febre de pranto
e querem que a razão dos outros acate
esse momento tão pessoal.
quantos outros abarrotam as gavetas
de papéis manusados plenos de arabescos
a que chamam poesia.
felizmente são poucos os loucos
que cultivam esta arte mal dita poesia.

572
Machado de Assis

Machado de Assis

A um Legista

Tu foges à cidade?
Feliz amigo! Vão
Contigo a liberdade,
A vida e o coração.

A estância que te espera
É feita para o amor
Do sol com a primavera,
No seio de uma flor.

Do paço de verdura
Transpõe-me esses umbrais;
Contempla a arquitetura
Dos verdes palmeirais.

Esquece o ardor funesto
Da vida cortesã;
Mais val que o teu Digesto
A rosa da manhã.

Rosa . . . que se enamora
Do amante colibri,
E desde a luz da aurora
Os seios lhe abre e ri.

Mas Zéfiro brejeiro
Opõe ao beija-flor
Embargos de terceiro
Senhor e possuidor.

Quer este possuí-la,
Também o outro a quer.
A pobre flor vacila,
Não sabe a que atender.

O sol, juiz tão grave
Como o melhor doutor,
Condena a brisa e a ave
Aos ósculos da flor.

Zéfiro ouve e apela.
Apela o colibri.
No entanto, a flor singela
Com ambos folga e ri.

Tal a formosa dama
Entre dois fogos, quer
Aproveitar a chama . . .
Rosa, tu és mulher!

Respira aqueles ares,
Amigo. Deita ao chão
Os tédios e os pesares.
Revive. O coração

É como o passarinho,
Que deixa sem cessar
A maciez do ninho
Pela amplidão do ar.

Pudesse eu ir contigo,
Gozar contigo a luz;
Sorver ao pé do amigo
Vida melhor e a flux!

Ir escrever nos campos,
Nas folhas dos rosais,
E à luz dos pirilampos,
Ó Flora, os teus jornais!

Da estrela que mais brilha
Tirar um raio, e então
Fazer a gazetilha
Da imensa solidão.

Vai tu, que podes. Deixa
Os que não podem ir,
Soltar a inútil queixa.
Mudar é reflorir.

2 189
Luiz de Aquino

Luiz de Aquino

Discurso de posse

A cidade — era assim que a chamávamos — não era mais que meia dúzia de ruas casca-lhadas, vermelhas, determinadas por casas hu-mildes onde habitavam pessoas igualmente hu-mildes, além de uns poucos e austeros senhores que jamais imaginávamos em mangas de cami-sa. Na praça, a única praça, o maior edifício era a igreja, mutilada em uma das torres, presidindo o largo onde, poucos anos antes, um jovem prefeito começara a construir o jardim. Aborta-do o projeto pela redemocratização que se se-guiu ao término da Segunda Grande Guerra, fi-cou apenas um calçamento em quadrado, já de-lineadas as alas de travessia.
Aquele começo de urbanização do único logradouro público de convívio e lazer — início inevitável de dezenas de novas famílias e que se resumia ao quadrado de cimento, postes orna-mentais e mudas crescentes de fícus em cada canto — é o cartão-postal que mais evoca a in-fância na remota e esquecida Caldas Novas das boas imagens. O despertar para o turismo nos anos 20 de mim, ou, se preferirem, a casa do tempo que vai de 1965 a 1975, foi significativo. Amadureceu o homem, transfigurou a cidadela.
Hoje, a lembrança dos anos verdes não confere com o cartão-postal que lhe deveria equivaler. As lembranças da paisagem são re-motas. Ficou o recordar do modo de sentir, do jeito de crescer. Há a lembrança das histórias contadas por minha mãe e que serviam para evocar o sono, um livro de páginas amareladas e capa dura, os Contos da Carochinha lidos com voz de acalanto, o beijo na testa, a oração de pedir que Deus nos protegesse e de esperar per-dão pelo dia de alegrias, como se fosse pecado ser criança e feliz.
Desde os mais tenros anos, os acordes em saraus musicais e suas inevitáveis conseqüênci-as, as serenatas, mostravam a carícia dos versos, vestidos em vestes as mais nobres, quais sejam as linhas melódicas. Era ainda um tempo de re-viver preciosidades de Chiquinha Gonzaga, Er-nesto Nazaré, Zequinha de Abreu, Noel Rosa e Lamartine Babo, mas sem desprezar as novida-des, e a novidade mais interessante era Luiz Gonzaga, cantando versos de Humberto Teixei-ra.
A esse ambiente, atribuo a razão de fugir das escalações para o joguinho de bola ao lado da igreja, preferindo dedicar-me a um novo e solitário passatempo, a leitura de imensas pilhas de gibis, descobertos entre os tesouros do primo Rogério, estudante interno em Araguari. Aquele acervo me convenceria, anos depois, que seu dono não teria sido um aluno 0brilhante, mas sempre o respeitaria por ser o responsável, entre outras qualidades e valores morais, pelo prazer descoberto do manuseio dessas coisas feitas em papel e tinta, pelas inebriantes viagens pelo des-conhecido e pelo inusitado a partir das páginas dos livros.
Tanta delonga sobre a infância para tentar justificar o ofício de escriba, a qualidade que me permitiu a sobrevivência nesta terra em que o berro do boi e a extensão monótona dos arais e dos vergéis valem mais que o cultivo das letras.
Acredito nas letras e nas mulheres e ho-mens de letras. E essa crença remonta aos anos dos primeiros aprendizados. Sou do tempo em que estudar os versos era indispensável, mas versejar era considerado uma prática afeminada. Nos primórdios do curso ginasial, no sempre amado Colégio Pedro II, questionava esse con-ceito ao observar que os versos que nos davam de beber foram, em sua quase totalidade abso-luta, criados por homens. E homens que tiveram força na história e geraram famílias que deles se orgulhavam. Já naquela época, no chacoalhar do trem de todos os dias a caminho do colégio, o ritmo das rodas duras sobre os rijos trilhos e o jogar inquieto dos vagões insinuavam versos. Imaginava-me Bandeira a criar a onomotopéia: "Café-com-pão, café-com-pão, café-com-pão... Voa fumaça, corre cerca, ai, seu foguista, bota fogo na fornalha que eu preciso muita força, muita força, muita força..."
Sim, o menino precisava força. Não a for-ça dos tenazes conquistadores de espaços geo-gráficos, nem a força dos que erguem obras físi-cas ou constroem impérios. Geógrafo de forma-ção, parece que nasci para historiar. E como a força de que precisava não era para construir maravilhas da engenharia, o jornalismo foi cres-cendo como opção e prazer, tornando-se profis-são pouco após ter vindo a lume meu livro de estréia.
Leitor de colunistas como Adalgiza Nery, Stanislaw Ponte Preta e Nelson Rodrigues, em tempos da vivência adolescente na velha capital federal, encontrei em Anatole Ramos e Carmo Bernardes meus preferidos após o retorno ao Planalto Central, ambos cronistas no semanário Cinco de Março, depois no matutino O Popu-lar, teimosos em contestar o regime, hábeis em dizer pensamentos em letras de forma de modo a engambelar os censores.
Com o tempo, aprenderia a apreciar ou-tros notáveis homens de letras de nossa terra, em textos de jornais e de livros, e vou restringi-los aos membros desta Casa para não fazer desta peça, escrita para a fala, um enfadonho desfilar de nomes a que sou grato pelo bem que me fizeram ao espírito e pelo aprendizado. Fi-quemos, pois, em Bariani, Eli, Bernardo, Castro Quinta, os irmãos Mendonça Teles, meu velho amigo Coelho Vaz, meu quase irmão Brasigóis, Eliézer Penna — meu editor no já citado Cinco de Março —, Asmar e Bittencourt — compa-nheiros na Folha de Goiaz — e Eurico Barbosa — com quem convivi no Diário da Manhã.
A Carmo Bernardes atribuo o ato da pro-vocação para que me oferecesse ante as senho-ras e os senhores membros desta Academia. Demorei-me a tomar a decisão, e o fiz no mo-mento em que vagava a Cadeira número 8, do meu velho mestre José Sizenando Jayme, sendo vencido pelo notável Isócrates de Oliveira, vigá-rio de minha infância na pacata Caldas Novas. Naquela disputa, uma certeza nos norteava — assegurar um lampejo de continuidade na Cadei-ra, pois que o eleito, como seu antecessor, nas-ceram em Pirenópolis, cidade natal de meu pai e meu torrão preferido pelo sedimento das ori-gens.
Acredito que o fato de vir a ocupar a Ca-deira número 10, a mesma que ocupava Carmo Bernardes, cumpre uma ação de destino. Acom-panhei seus escritos de resistência desde os primórdios de 1963; preocupei-me quando de seu exílio nas lezírias do Araguaia, nos tempos tumultuados do golpe militar de 1964, e pude rir, feliz, ao ouvir que o general Riograndino Kruel, um dos líderes do sectário golpe, o teve por guia de pescaria, sem saber de sua vida. So-zinhos, na solidão dos lagos piscosos do Bana-nal, no limitado espaço de uma canoa, tendo entre ambos não mais que varas, linhas, iscas e molinete e uma espingarda. Talvez providencial, fosse Carmo sanguinário.
Carmo Bernardes trazia na índole a tradi-ção do bom mineiro, o homem da terra, o caipi-ra, na mais pura das acepções do termo, o ho-mem silencioso, observador, que pisa com segu-rança o terreno porque sabe que o mato reserva surpresas ao pé descalço. Mas corajoso o bas-tante para expor sua opinião, espalhar ao mundo sua indignação e mostrar aos que se julgam po-derosos que o poder de verdade é maior que a chance que conseguem alguns de manipular o patrimônio público a bel-prazer. A estes, a his-tória reserva a verdade de suas naturezas; a ho-mens como Carmo, fica assegurado o lugar que lhes cabe por direito de vida, qual seja o reco-nhecimento e o respeito de seus pósteros.
Não gostaria de biografá-lo; muito já se escreveu sobre ele.
Não tenho estatura crítica para apreciar sua obra, e isto já se fez no âmbito acadêmico, até mesmo em redações de mestrado e teses de doutorado. Nunca fui mais que um mero leitor , aprendiz de sua verve. Com ele, em suas crôni-cas e artigos da década de 60, tive excelentes lições de jornalismo — a principal delas talvez seja a prática que cultivo de não pôr em letras de forma o nome de quem não o mereça.
Por patrono, tenho o também jornalista Moisés Augusto de Santana. Vilaboense, nasci-do no dia 7 de fevereiro de 1879, quis ser mili-tar. O temperamento irrequieto e a indisciplina de homem
850
Leão Moysés Zagury

Leão Moysés Zagury

MOmento 1

O tempo passa
você chega:
- Calor
- Ternura
-Emoção
Enquanto o tempo passa.

O tempo nos diz coisas
Nossos ouvidos - nossos cúmplices
imprimem, não sei onde,
os murmúrios - ilusões.

E o relógio marca o tempo:
acordar !

os m

731
Luiz Moraes

Luiz Moraes

Limites

Vi sofrendo
Outro irmão
Em busca de pão e amor
Na rua deserta
Igual a um profeta
Ou um bicho qualquer
Mais bicho não o é
No céu já não pensa
Perdeu sua crença
No pátio da Sé
Nem um trocado
Sapato furado
E agora como é?
A fome lhe dói
O rato lhe rói
É um bicho ou não é?
Tem medo do escuro
Queria ser duro
Como foi José
No lixo sua mesa
A gula indefesa
Para saciar
Engole impurezas
Vomita tristeza
E começa a chorar
Cheguei mais perto
Para ver de certo
Se aquilo era um cão
Era um homem sem colo
Caído no solo
Dos homens sem mãos

925
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Poor Folk at the Bus Station

Poor folk travel. At the bus station
they crane their necks like geese to see
the place-names on the buses. The look on their faces
betrays their fear of losing something:
the suitcase that holds a transitor radio and a coat
of chilling drabness on a day without dreams,
the mortadella sandwich at the bottom of their bag,
and the suburban sunshine and dust beyond the viaducts.
Amid the uproar of loud-speakers and the wheezing of buses
they are seared of missing their connection
hidden in a haze of time-tables.
Some dozing on benches awaken with a start
though nightmares are the privilege of those
who fuel the hearing of bored psycho-analysts
in rooms as antiseptic as the cotton-wool that
plugs the nostrils of corpses.
Standing in queues poor folk adopt a serious expression
combining fear, impatience and submission.
How grotesque poor folk are! And how their stench
offends us even at a distance!
They have no concept of social graces and no idea
how to behave in public.
A nicotine-stained finger rubs an itching eye
that has nothing but matter to show for its dream.
From a sagging swollen breast a trickle of milk
drips into a tiny mouth familiar with tears.
On the platform poor folk come and go, leaping and clutching
baggage and parcels,
they ask silly questions at the ticket offices,
whisper mysterious words
and gaze at magazine covers with the starfled look
of someone who does not know the way to the threshold of life.
Why all this coming and going? And those gaudy clothes,
those yeflows reminiscent of palm oü that injure the delicate sight
of passengers forced to endure so many unpleasant odours
and those glaring reds one associares with a fun-fair or circus?
Poor folk do not know how to travel or dress.
Not even how to live: they have no concept of comfort
although some even possess a television set.
In truth, poor folk do not know how to die.
(They invariably have a sordid, vulgar death)
Throughout the world they are a nuisance,
unwanted travellers who occupy our seats
even when we are seated and they travel on foot.

Os Pobres na Estação Rodoviária Poema em Português

1 233
Valéry Larbaud

Valéry Larbaud

Noite de Verão

As horas, uma a uma, tempo adentro,
Percorrem seu trajeto sem retorno.
A noite na cidade, um templo morno,
Refaz o seu girar que não tem centro.

O amor é um clube chic onde não entro:
Anoto mentalmente seu contorno,
Corrompo a portaria com suborno,
Mas tudo é superfície, não há dentro.

Prosseguem as mulheres, sempre lentas,
Seu adejar de carnes opulentas.
São pernas, coxas, seios como frutas

Penetrando a substância de meu gozo.
E a boca das senhoras absolutas
Eu sorvo, num espasmo silencioso.

887
Laura Amélia Damous

Laura Amélia Damous

Torres da Sé

Garças altivas beliscam
o céu
sangram estrelas
que se desfazem em luz
noites azuis
de maré alta
orquestram hinos e preces
minha cidade faz
o sinal da cruz
adormece

949