Angústia

Poemas neste tema

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ó Forma da Minha Forma

Ó forma da minha forma
ilumina estes flancos frios, esta mão crispada.
Que eu respire, túmulo, mas vivo.
Tanta espera vã,
tantos espelhos de máscaras.
Eis-me desconhecido e nu
para receber por rosto um sopro.
1 031
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Cimo da Diagonal

No cimo da diagonal
em que se levanta a torre oblíqua
sobre um jardim
de claridades verdes
a realidade é o espaço
em que o abandono fulgura como um centro.
960
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Opaco

Para o mínimo olhar a terra negativa,
os poços infantis,
lanças, palmas, dentes,
concavidades, placas, declives.

Não já a flor nem a folha soberana
mas os impulsos negros, a incoerência viva
do informulado: algo entre
vermes e excrementos explode

no opaco. Onde as palavras
circulares, concêntricas
se apagam.
979
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Árida

Que pedra de música
subsiste
na argila cega?
Que navios no subsolo?

Ouço a sombra árida
do corpo, ouço os animais
sem água
nas caves clandestinas.

Onde as vogais do fogo
no fulgor do vento?
982
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Inicial Constante

Fuga que restitui: ritmo
de cinzas. Obscuro
destino na aragem
das artérias.

O longínquo respira num corpo
de penumbra.
No alento se abre
o labirinto.

Visão do ilimite compacto.
Surge
o inicial constante.
Unidade vertical de um convertido abismo.
937
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Igualando-Me Ao Fundo Sem Saber

Igualando-me ao fundo sem saber
num acorde último, insondável,
vejo um muro e o nada em que ele se ergue
no excesso de uma evidência inicial.
1 067
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Há Quem Procure…

Há quem procure sob abóbadas e abóbadas
um reflexo de sol
há quem procure com a respiração rouca
o silêncio de um nome
a denotação de uma pedra

Há quem procure na trama da distância
uma hélice para uma boca
há quem se erga entre destroços e sementes apodrecidas
para escrever no solo com as mandíbulas crispadas
um nome sem sombra

Há quem destine à modulação de algumas cores
a forma viva e voraz de uma mulher
e encontre só o branco ferozmente árido
há quem procure com antenas incandescentes
uma espádua de álcool na abstracção das areias

Há quem julgue que já não há tempo para reflectir
na noite sem veias
e caminhe de encontro a um muro negro
há quem tenha perdido a sensação do intacto
e procure ainda uma lâmpada mas as lâmpadas extinguiram-se
há quem se decida a não esperar a não ouvir a não chamar
993
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Secreta E Branca

Secreta e branca
agita-se
sem flancos
à beira do vazio
1 137
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

As Pernas São o Grito

As pernas são o grito
no rosto     no ventre     A língua
contra a língua
ou antes as duas línguas que a destroem

Vertigem dos limites
contra a vertigem
Explosão     esta figura
ao atingir a superfície branca
988
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Trazem As Marcas do Suor da Noite

Trazem as marcas do suor da noite
Trazem a noite
E são já a noite
na velocidade branca desta escrita

Nulos impenetráveis (habitáveis lâmpadas?)
perdidos nos seus nomes
perdidos vivos

Não são já eles e são eles que
1 037
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Acende-Se Algo Na Garganta

Acende-se algo na garganta
A língua distensa ainda verde
dirá talvez o odor da tempestade
e o silvo terrífico nas chaminés

Mas o que está a arder tão baixo
é quase imperceptível
quase nulo
como este voo raso sobre o vazio
933
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dançam Mas Não Na Praia Dançam Apenas Não Se Sabe

Dançam mas não na praia Dançam apenas não se sabe
o quê numa orla nocturna móvel Deserto na praia A
terra perdeu todos os sinais As únicas referências
são as do jogo Um obscuro combate para quê?
O que roçam os dedos ou o que eles segregam é um
muro de névoa ou uma muralha de astros
981
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Algo Se Duplica

Algo se duplica
e inclina-se
refracta-se
num novo espaço em que se recompõe
Vertigem densa angústia do não igual de um outro qual?
O acaso decisivo
e o gesto imprevisível
negam ao espaço a multidão de imagens
927
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Figura Na Profundidade

Uma figura na profundidade
no centro móvel foge
e deixa um intervalo de luz
uma obscura arcada para os dedos
na intensidade da luz ou do escuro
Parte-se a serpente    se
e são pedaços

vivos na noite que se agitam
1 019
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Precipício: Vento Na Face

Precipício :     vento na face

um nome

a lâmina de um nome
491
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Quase

Quase

a garganta forte     a respiração do tronco

obsessão branca

a casa do nome

com o vento das ervas

e o fogo sem o nome
1 020
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Tronco: o Tronco do Tronco

O tronco:    o tronco do tronco

na boca

sem saliva
1 111
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Permanece Ainda Enterrado Pobre

O que permanece ainda enterrado     pobre

no vazio nocturno

minha terra latente

no tempo sem sinais em que os sinais prolongam

os sulcos de uma sombra maquinal e branca

e o meu desejo é uma imagem

minúscula

uma pobre frase com duas árvores nuas
925
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sob a Palha do Sol As Sílabas

Sob a palha do sol as sílabas

soçobravam

intensidade próxima da cegueira

no cérebro da terra as fissuras abriam-se

e a boca sem caminho o seio sem o outro seio

nas lajes sem contacto à superfície nua

no obscuro deserto

de basalto
994
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Os Dedos E Os Dentes

Os dedos e os dentes

sem mãos

sem boca
495
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

87. o Sol Sobre a Pedra a Marca Verde

87
O sol sobre a pedra a marca verde
a resolução do ar     a erva
só com a cabeça deserta

porquê? porquê e não porquê
com o sol nos cabelos com o sol
entre as árvores e sem a alegria
dos animais e a água.

Entrando na espessura sob as manchas
do silêncio sem amor mas no silêncio
das folhas eu vivo pelas pedras.
887
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

86. Desobstruindo o Espaço Só Esta Mancha

86
Desobstruindo o espaço só esta mancha
e esta casa sem fogo é apenas uma marca
e esta pedra o sinal da busca
e esta pedra e esta pedra.

Uma pergunta: que espaço
ou casa
para a alegria para a livre força?

Dando lugar ao espaço    à luz
e estas pedras sem cinza
esta mas não esta marca
quase feroz tão inútil ou tão certa?
816
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

85. Vagos Sinais Dentes Na Pedra

85
Vagos sinais     dentes na pedra
sem solução de árvore
marcação de um traço único

este, não o rosto, este
limite que não transponho que
não tem além o além o fogo azul

e

que nenhuma sombra atravessou
porque subsiste ou não algum ardor
porque os dentes enterram-se na pedra.
454
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

84. a Incerteza E a Certeza Dessa Escrita

84
A incerteza e a certeza dessa escrita
não filha de um futuro
na folha     chamamento
dilacerante e no entanto mudo.

E que incerta insistência, fogo vago
sobre casas desertas, sobre quartos
de insectos
quanta inércia quantas pálpebras

caídas     e a sombra
de um só corpo se existisse
a dúvida criando este suporte.
950