Árvores florestas e montanhas

Poemas neste tema

Frei Francisco de São Carlos

Frei Francisco de São Carlos

Canto I [O torto Cajueiro se adornava

(...)
O torto Cajueiro se adornava
Das purpúreas folhinhas, que brotava.
Cobria-se de flores a mangueira,
E o ar embalsamava a laranjeira.
A sua fruta d'ouro, que em doçura
Vence a Aristeo, caía de madura.
O terno Sabiá buscando amores
Já saudava por entre os mil verdores
Do copado pomar, seu senhorio,
A chegada das águas, e do Estio.
(...)


Publicado no livro A Assunção (1819).

In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.5-
1 251
Frei Francisco de São Carlos

Frei Francisco de São Carlos

Canto III [Ó Musa, dá a meus versos a doçura

(...)
Ó Musa, dá a meus versos a doçura
Dos frutos, de que vou dar a pintura.
(...)
Entre as folhas gigantes laceradas
Dos bananais espessos arranjadas
Lourejam suas filhas, aguçando
O apetite, e os olhos afagando.
(...)
No mesmo ramo encanta a formosura
Da fruta em flor, da verde, ou já madura:
Mostrando a natureza aqui reunido,
Quanto noutras sazões tem repartido.
(...)


Publicado no livro A Assunção (1819).

In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.72-7
1 369
Frei Francisco de São Carlos

Frei Francisco de São Carlos

Canto VI [Não vedes acolá como apartada

(...)
Não vedes acolá como apartada
Colina, ora de silvas erriçada,
Ninho de serpes, plácida guarida
De feras? Será então no cume erguida
Casa à Virgem, medíocre na altura,
Mas no risco primor de arquitetura.
Que ostentará por timbre de memória,
O título pomposo desta Glória.
(...)
Por marmóreas escadas a subida
Conduz ao alto, e ao pórtico da ermida.
Sobre lajedos de granito em quadro
Descansa a base, que ali tem um adro.
Dos lados peitoris; descanso, e meio
Dos olhos pastearem seu recreio,
Situação risonha, sobranceira
Ao mar, entre a vaidosa cordilheira
De rochas e de serras mil erguidas,
De palmas e arvoredo abastecidas.
(...)


Publicado no livro A Assunção (1819).

In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.19
1 239
Frei Francisco de São Carlos

Frei Francisco de São Carlos

Canto VI [Vedes na foz aquele, que aparece

(...)
Vedes na foz aquele, que aparece
Pontiagudo, e escarpado? Pois parece,
Que deu-lhe a providente natureza,
(Além das obras d'arte,) por defesa,
Na derrocada penha transformado
Nubígena membrudo, sempre armado
De face negra, e torva; e mais se o croa
Neve, e trovões, e raios, com que atroa.
Que co'a frente no Céu, no mar os rastros
Atrevido ameaça o pego, e os astros.
Se os delírios da vã mitologia
Na terra inda vagassem, dir-se-ia;
Que era um desses Aloidas, gigante,
Que intentou escalar o Céu brilhante.
Que das deusas do Olimpo namorado
Foi no mar por audaz precipitado.
E as deusas por acinte lá da altura
Lhe enxovalham de neve a catadura.
Do seio pois das nuvens, onde a fronte
Enconde, vendo o mar até o horizonte;
Mal que espreita surgir lenho inimigo,
Pronto avisa, e previne-se o perigo.
(...)


Publicado no livro A Assunção (1819).

In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.185-186

NOTA: Descrição do Pão-de-Açúcar inspirada no episódio do gigante Adamastor, d'OS LUSÍADAS (Canto V, estrofes 37 a 61
1 222
Capinan

Capinan

Semeadura

I

A terra é nova, o tempo é outro.
Inútil a insistência dos agricultores
Para arrebentar com o mesmo método
O solo.

A terra é nova, insisto, o tempo é outro.
Inútil a insistência dos agricultores
Em lavrar a floração do solo.
O sol.

A terra é nova, o tempo é outro.
Inútil a insistência dos agricultores
Em tornar virente o solo.
O homem.


In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 50

NOTA: Poema composto de 3 parte
1 236
Pedro Nava

Pedro Nava

Aterrissage

Um risco nos íngremes
e queda vertical de reticência de sóis.

Brilhos mica,
facetas duras,
multiplicando a paisagem
como os olhos simultâneos de um inseto

Tropicão, trambolhão
salto
pulo
rodopio
e a bola, espirala, resvala, rebola,
encarola,
desenrola

e de novo
reta como uma bola,

rola...

ROLA
e voa e vai varando vertiginosa o vácuo vago
e assoviiiia fino no espaço oco...

UMA PEDRA ROLOU PELA ENCOSTA DA MONTANHA.


In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP

NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em sua primeira carta a Pedro Nava, datada de 9 mar. 1925: "O lirismo inicial existe nos poemas que você me mandou e está muito bem exprimido, comoventemente, no Aterrissage (proponho Aterreação, Aterreagem, invente, que diabo!) quando você põe com maiúsculas aquela frase tão bela, concisa, simples, imensa 'Uma pedra rolou pela encosta da montanha' deslanchando uma comoção grande na gente. (...) O que eu tenho medo é que você fique nisso só e comece a escolher dentre as sensações de você as que milhor se prestam pra certas demonstrações ou emprego legítimo de certas realizações processuais da poética modernista. Muito cuidado, Nava, em não confundir poética com poesia
1 386
Rubens Rodrigues Torres Filho

Rubens Rodrigues Torres Filho

Clorofila

Verde mar, verde rio e verde pranto
que choveria em verdes matas prisioneiras
aprisionadas neste longo e frio amante
que fui, para nós dois, na sexta-feira
da solidão.

As borboletas lúcidas na treva
que por artes de ausência vêm caindo
em chuvas-lantejoulas vão cobrindo
as lajes destes bosques, clorofila
irrespirável.

São páginas colhidas, escolhidas
que este vazio por dentro desescreve
e o tempo reinscreve do outro lado.
E nós, por dois ou três, unidos por engano,
partilhamos o frio, que só nos damos
sob condição, à espreita ou de tocaia.

Por trás do olhar dos lírios vai roendo
algum sutil inseto iluminado
que sabe dos desertos e a cavá-los
galopa nesse nada que o devora.


In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
1 609
Régis Bonvicino

Régis Bonvicino

O Tempo

O tempo foi de encontro
ao galho da quaresmeira
podre, no chão,
depois da chuva

Folhas murchas
de outra árvore
encurvadas pelo calor
como mãos fechadas

Menos vivas,
agora, as cores da estrelitzia

O portão da casa,
não lembra seu primeiro dia

Um buraco
exauriu
um pedaço de asfalto

O vermelho,
do automóvel na esquina

Os azuis em tons,
na fachada do edifício,
quase invisíveis

Grafites coloridos nos muros,
tampouco
poupados pelo tempo,
tornaram-se ilegíveis


Poema integrante da série Um.

In: BONVICINO, Régis. Outros poemas, 1990/1992. São Paulo: Iluminuras, 1993
1 296
Sílvio Romero

Sílvio Romero

II - A Mancha Negra

(A ESCRAVIDÃO)

A natureza ainda aqui sorria virgem!
Havia pouco então que, em festival vertigem,
O nosso mar sulcara a frota de Cabral.
Trazido pelo vento em doido temporal,
O velho navegante, escapou às duras vagas.
O Éden do futuro achara em nossas plagas.

Ainda nesse tempo o vasto céu tranquilo
As selvas espelhava enormes, colossais.
Do mar os turbilhões, dos ventos o sibilo,
Da catadupa o som, da linfa os ternos ais
Passavam como o canto inebriante e vivo
Do gênio do Brasil. Ainda em sólio divo
A Mãe d'água morena as tranças penteava,
Aos cheiros da baunilha; a fonte acompanhava.

As queixas da cabocla, amante que chorosa
Do seu guerreiro ausente as mágoas lhe dizia.
A terra os seios nus não tinha pesarosa
Deixado retalhar à clara luz do dia.

E tudo era brilhante. Os troncos seculares,
Beijados pelo vento, agitando os cocares,
Ouviam deslizar, os rios namorados,
Qu'estendiam além os corpos prateados...
O selvagem valente o arco destendia,
E a seta ia certeira ao dorso do tapir;
A liberdade brusca, indômita, erradia,
Criou asas também; sabia então subir!

Soava pelo espaço o alegre ditirambo
Cantado pela flor e as virgens cor de jambo,
Cantado pelo azul e pelas ventanias...
O rio, a vastidão, a mata, os descampados,
Sabiam modular as fortes melodias
Em coros festivais, em hinos alternados.
De tudo irradiava a vida, as turbulências
Do virginal sentir; miríficas essências
Trescalavam do val aos seios das donzelas.
Em sono de leão dormia o Amazonas,
Esperando Orelana; ao sol de nossas zonas,
Guerreiro sem rival, sonhava fortes lutas...
Aos roncos do jaguar, oculto pelas grutas,
Bradava o pororoca em seu pavor profundo.

Pois bem! Neste país, aqui no Novo Mundo,
Aqui, onde o que brota e cresce e luta e aspira,
Alenta o próprio ser do sol na imensa pira;
Aqui, onde o viver é fitar as alturas,
Onde não há baixeza e não se vêem planuras;
A sórdida cobiça, adiantando o braço,
De negro quis trajar a luz de nosso espaço;
A pérfida avareza alevantando a mão,
De luto nos vestiu da cor da... Escravidão!


Poema integrante da série Os Palmares.

In: ROMERO, Sílvio. Últimos harpejos: fragmentos poéticos. Pelotas: Carlos Pinto, 1883
2 181
Gilberto Mendonça Teles

Gilberto Mendonça Teles

Caiporismo

Um dia um caipora, baixinho, gordo e nu,
montou num caititu e foi pro mato afora
fazendo um sururu dos diabos.

E logo todos os bichos se amoitaram e só
saíram aos cochichos, aproveitando o pó
da noite que tecia seu manto de jaó.

Mas um velho goiano (seis mortes, por aí)
arrumou seu jirau sobre um pé de pequi
e ficou escuitano jaó e juriti.

Esperava veado e só então deu fé
naquilo que a seu lado parecia de pé
e tinha o corpo todo seco que nem sapé.

Quem não teme o diabo e arreliado está
sabe bem que no cabo de sua faca só há
sangue de coisa ruim, cheiro de coisa má.

Com três golpes no umbigo matou o caipora.
Mas quando ia embora viu-se baixinho e nu
montando um caititu e indo pro mato afora
fazendo um sururu dos diabos.


In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 72. Poema integrante da série Sombras da Terra
1 839
Castro Alves

Castro Alves

Crepúsculo Sertanejo

A tarde morria! Nas águas barrentas
As sombras das margens deitavam-se longas;
Na esguia atalaia das árvores secas
Ouvia-se um triste chorar de arapongas.

A tarde morria! Dos ramos, das lascas,
Das pedras, do líquen, das heras, dos cardos,
As trevas rasteiras com o ventre por terra
Saíam, quais negros, cruéis leopardos.

A tarde morria! Mais funda nas águas
Lavava-se a galha do escuro ingazeiro...
Ao fresco arrepio dos ventos cortantes
Em músico estalo rangia o coqueiro.

Sussurro profundo! Marulho gigante!
Talvez um — silêncio!... Talvez uma — orquestra...
Da folha, do cálix, das asas, do inseto...
Do átomo — à estrela... do verme — à floresta!...

As garças metiam o bico vermelho
Por baixo das asas, — da brisa ao açoite — ;
E a terra na vaga de azul do infinito
Cobria a cabeça co'as penas da noite!

Somente por vezes, dos jungles das bordas
Dos golfos enormes, daquela paragem,
Erguia a cabeça surpreso, inquieto,
Coberto de limos — um touro selvagem.

Então as marrecas, em torno boiando,
O vôo encurvavam medrosas, à toa...
E o tímido bando pedindo outras praias
Passava gritando por sobre a canoa!...

..........................................


Publicado no livro A Cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).

In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. p. 357-358
1 908
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

The Valley of Unrest

Once it smiled a silent dell
Where the people did not dwell;
They had gone unto the wars,
Trusting to the mild-eyed stars,
Nightly, from their azure towers,
To keep watch above the flowers,
In the midst of which all day
The red sunlight lazily lay.
Now each visitor shall confess
The sad valley's restlessness.
Nothing there is motionless-
Nothing save the airs that brood
Over the magic solitude.
Ah, by no wind are stirred those trees
That palpitate like the chill seas
Around the misty Hebrides!
Ah, by no wind those clouds are driven
That rustle through the unquiet Heaven
Uneasily, from morn till even,
Over the violets there that lie
In myriad types of the human eye-
Over the lilies there that wave
And weep above a nameless grave!
They wave: — from out their fragrant tops
Eternal dews come down in drops.
They weep: — from off their delicate stems
Perennial tears descend in gems.


1845

1 192
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

To One in Paradise

Thou wast all that to me, love,
For which my soul did pine-
A green isle in the sea, love,
A fountain and a shrine,
All wreathed with fairy fruits and flowers,
And all the flowers were mine.

Ah, dream too bright to last!
Ah, starry Hope! that didst arise
But to be overcast!
A voice from out the Future cries,
"Onward!"- but o'er the Past
(Dim gulf!) my spirit hovering lies
Mute, motionless, aghast!

For, alas! alas! with me
The light of life is o'er!
"No more-- no more-- no more,"
(Such language holds the solemn sea
To the sands upon the shore)
Shall bloom the thunder-blasted tree
Or the stricken eagle soar!

And all my hours are trances,
And all my nightly dreams
Are where thy dark eye glances,
And where thy footstep gleams-
In what ethereal dances,
By what Italian streams.

Alas! for that accursed time
They bore thee o'er the billow,
From Love to titled age and crime,
And an unholy pillow!--
From me, and from our misty clime,
Where weeps the silver willow!


1834

1 260
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

The Lake

In youth's spring, it was my lot
To haunt of the wide earth a spot
The which I could not love the less;
So lovely was the loneliness
Of a wild lake, with black rock bound.
And the tall pines that tower'd around.
But when the night had thrown her pall
Upon that spot — as upon all,
And the wind would pass me by
In its stilly melody,
My infant spirit would awake
To the terror of the lone lake.
Yet that terror was not fright —
But a tremulous delight,
And a feeling undefin'd,
Springing from a darken'd mind.
Death was in that poison'd wave
And in its gulf a fitting grave
For him who thence could solace bring
To his dark imagining;
Whose wild'ring thought could even make
An Eden of that dim lake.


1827

1 554
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

Fairy-Land

Dim vales— and shadowy floods—
And cloudy—looking woods,
Whose forms we can't discover
For the tears that drip all over!
Huge moons there wax and wane—
Again— again— again—
Every moment of the night—
Forever changing places—
And they put out the star—light
With the breath from their pale faces.
About twelve by the moon—dial,
One more filmy than the rest
(A kind which, upon trial,
They have found to be the best)
Comes down— still down— and down,
With its centre on the crown
Of a mountain's eminence,
While its wide circumference
In easy drapery falls
Over hamlets, over halls,
Wherever they may be—
O'er the strange woods— o'er the sea—
Over spirits on the wing—
Over every drowsy thing—
And buries them up quite
In a labyrinth of light—
And then, how deep!— O, deep!
Is the passion of their sleep.
In the morning they arise,
And their moony covering
Is soaring in the skies,
With the tempests as they toss,
Like— almost anything—
Or a yellow Albatross.
They use that moon no more
For the same end as before—
Videlicet, a tent—
Which I think extravagant:
Its atomies, however,
Into a shower dissever,
Of which those butterflies
Of Earth, who seek the skies,
And so come down again,
(Never—contented things!)
Have brought a specimen
Upon their quivering wings.


1829

1 289
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

Eldorado

Gaily bedight,
A gallant knight,
In sunshine and in shadow,
Had journeyed long,
Singing a song,
In search of Eldorado.

But he grew old—
This knight so bold—
And o'er his heart a shadow
Fell as he found
No spot of ground
That looked like Eldorado.

And, as his strength
Failed him at length,
He met a pilgrim shadow—
"Shadow," said he,
"Where can it be—
This land of Eldorado?"

"Over the Mountains
Of the Moon,
Down the Valley of the Shadow,
Ride, boldly ride,"
The shade replied—
"If you seek for Eldorado!"


1849

2 119
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

Alone

From childhood's hour I have not been
As others were; I have not seen
As others saw; I could not bring
My passions from a common spring.
From the same source I have not taken
My sorrow; I could not awaken
My heart to joy at the same tone;
And all I loved, I loved alone.
Then- in my childhood, in the dawn
Of a most stormy life- was drawn
From every depth of good and ill
The mystery which binds me still:
From the torrent, or the fountain,
From the red cliff of the mountain,
From the sun that round me rolled
In its autumn tint of gold,
From the lightning in the sky
As it passed me flying by,
From the thunder and the storm,
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view.


1829

1 886
Vladimir Maiakovski

Vladimir Maiakovski

GAROTO

Fui agraciado com o amor sem limites.
Mas, quando garoto,
a gente preocupada trabalhava
e eu escapava para as margens do rio Rion
e vagava sem fazer nada.
Aborrecia-se minha mãe:
"Garoto danado!"
Meu pai me ameaçava com o cinturão.
Mas eu, com três rublos falsos,
jogava com os soldados sob os muros.
Sem o peso da camisa,
sem o peso das botas,
de costas ou de barriga no chão,
torrava-me ao sol de Kutaís
até sentir pontadas no coração.
O sol assombrava:
"Daquele tamainho
e com um tal coração!
Vai partir-lhe a espinha!
Como, será que cabem
nesse tico de gente
o rio,
o coração,
eu
e cem quilômetros de montanhas?"


2 087
Afonso Henriques Neto

Afonso Henriques Neto

Uma menina

água, tua música de pele
e cheiro fluindo de florações
impalpáveis, chuva acesa
no centro do abismo, onde flutuam
manhãs

terra, teus passos tua voz teus
ruídos de amor e um gozo
além das cordilheiras do sonho
tecendo galáxias, vertiginosa
raiz

ar, teu gesto marinho, olhos
feitos do arremesso do mar
e a centelha invisível a mover
os labirintos do vento, cósmica
serpente

fogo, teu corpo de medusas
e feridas vivas, vulcões,
planeta todo luz, talvez paixão,
pássaro tatuado nas estrelas,
coração
885
Gabriela Mistral

Gabriela Mistral

A flor do ar

Eu a encontrei por meu destino,
de pé a metade da pradaria,
governadora do que passe,
do que lhe fale e que a veja.

E ela me disse: "Sobe ao monte".
Eu nunca deixo a pradaria,
e me cortas as flores brancas
como neves, duras e delicadas".

Subi à acida montanha,
busquei as flores onde alvejam,
entre as rochas existindo
meio dormidas e despertas.

Quando desci com minha carga,
a encontrei a metade da pradaria.
e fui cubrindo-a frenética
com uma torrente de açucenas

e sem olhar-se a brancura,
ela me disse: "Tu carregas
agora só flores vermelhas.
Eu não posso passar a pradaria".

Subi as penas com o veado
e busquei flores de demência,
as que avermelham e parecem
que de vermelho vivam e morram

1 873
Oscar Cerruto

Oscar Cerruto

Cantar

Minha pátria tem montanhas,
não mar.

Ondas de trigo e trigais,
não mar.

Espuma azul os pinheirais
não mar.

Céus de esmalte fundido
não mar.

E o coro rouco do vento
sem mar.

699
Gabriela Mistral

Gabriela Mistral

Todas íamos ser rainhas

Todas íamos ser rainhas
de quatro reinos sobre o mar:
Rosalia com Efigenia e
Lucila com Soledad

No vale de Elqui, rodeado
de cem montanhas ou de mais,
que como oferendas ou tributos
ardem em vermelho e açafrão

O dizíamos embriagadas
e o tivemos por verdade
que seriamos todas rainhas
e chegaríamos ao mar.

Com as tranças dos sete anos
e batas claras de percal
perseguindo pássaros foragidos
na sombra do figueiral.

Dos quatro reinos,
dizíamos, indubitável como o Korán,
que por grandes e por certos
alcançariam até o mar

Quatro esposos desposariam
no tempo de desposar
e eram reis e cantadores
como David, rei de Judá.

2 090
Miguel Ángel Asturias

Miguel Ángel Asturias

O amor

Ah, suave afán, cabal e inútil pena,
clima de uma pele morna como um trino,
em secreto mistério a cadeia
forjando está com só ser divino!

Astral tonicidade de seus recreios,
preciosa solidão de seus combates,
em lanterna de alarme seus desejos
queimando está de campos a Penates.

Eternidade de pétala de rosa,
silêncio azul de álamo que aroma,
manjar de sombra com calor de esposa,

fruto proibido que no pólen erra,
tecendo está com asas de pomba,
o vestido de noiva da Terra.

1 328
Teresa Brandão

Teresa Brandão

Prometeu

Embaciado o espelho
se quebra a dúvida
De não te vir a ter

Não acordes Amor
Nesse palácio episcopal
Causa de tua morte natural

Vem comigo para a montanha
Descobrir um pecado antigo
Do Humano mamífero
Conhecer a felicidade suprema
Sem sombra de sonífero

Amar o que se ama
Sem pretender pensar
o que está certo ou errado
De modo a que ninguém
Nem Deus
Possa evitar de se que seja Amado

862