Transcendência
Poemas neste tema
Luis Aranha
Poema Pitágoras
Meu cérebro e coração pilhas elétricas
Arcos voltaicos
Estalos
Combinações de idéias e reações de sentimentos
O céu é uma vasta sala de química com retortas cadinhos tubos provetes e todos os
Vasos necessários
Quem me quitaria de acreditar que os astros são balões de vidros
Cheios de gases leves que fugiram pelas janelas dos laboratórios
Todos os químicos são idiotas
Não descobriram nem o elixir da longa vida nem a pedra filosofal
Só os pirotécnicos são inteligentes
São mais inteligentes do que os poetas pois encheram o céu de planetas novos
Multicores
Astros arrebentam como granadas
Os núcleos caem
Outros sobem da terra e têm uma vida efêmera
Asteróides asteriscos
Bolhas de sabão!
Os telescópios apontam o céu
Canhões gigantes
De perto
Vejo a lua
Acidentes da crosta resfriada
O anel de Anaxágoras
O anel de Pitágoras
Vulcões extintos
Perto dela
Uma pirâmide fosforescente
Pirâmide do Egito que subiu ao céu
Hoje está incluída no sistema planetário
Luminosa
Com a rota determinada por todos os observatórios
Subiu quando a biblioteca de Alexandria era uma fogueira iluminando o mundo
Os crânios antigos estalam nos pergaminhos que se queimam
Pitágoras a viu ainda em terra
Viajou no Egito
Viu o rio Nilo os crocodilos os papiros e as embarcações de sândalo
Viu a esfinge os obeliscos a sala de Karnak e o boi Apis
Viu a lua dentro do tanque onde estava o rei Amenemas
Mas não viu a biblioteca de Alexandria nem as galeras de Cleopatra
Nem a dominação dos ingleses
Maspero acha múmias
E eu não vejo mais nada
As nuvens apagaram minha geometria celeste
No quadro negro
Não vejo mais a sua nem minha pirotécnica planetária
Rojões de lágrimas
Cometas se desfazem
Fim da existência
Outros estouram como demônios da Idade Média e feiticeiros do Sabbath
Fogos de antimônio fogos de Bengala
Eu também me desfarei em lágrimas coloridas no meu dia final
Meu coração vagará pelo céu estrela cadente ou bólido apagado como agora erra
Inflamado pela terra
Estrela inteligente estrela averroísta
Vertiginosamente
Enrolando-o na fieira da Via-Láctea joguei o pião da terra
E ele ronca
No movimento perpétuo
Vejo tudo
Faixas de cores
Mares
Montanhas
Florestas
Numa velocidade prodigiosa
Todas as cores sobrepostas
Estou só
Tiritante
De pé sobre a crosta resfriada
Não há mais vegetação
Nem animais
Como os antigos creio que a terra é o centro
A terra é uma grande esponja que se embebe das tristezas do universo
Meu coração é uma esponja que absorve toda a tristeza da terra
Uma grande pálpebra azul treme no céu e pisca
Corisco arisco risca no céu
O barômetro anuncia chuva
Todos os observatórios se comunicam pela telegrafia sem fio
Não penso mais porque a escuridão da noite tempestuosa penetra em mim
Não posso matematizar o universo como os pitagóricos
Estou só
Tenho frio
Não posso escrever os versos áureos de Pitágoras !...
Arcos voltaicos
Estalos
Combinações de idéias e reações de sentimentos
O céu é uma vasta sala de química com retortas cadinhos tubos provetes e todos os
Vasos necessários
Quem me quitaria de acreditar que os astros são balões de vidros
Cheios de gases leves que fugiram pelas janelas dos laboratórios
Todos os químicos são idiotas
Não descobriram nem o elixir da longa vida nem a pedra filosofal
Só os pirotécnicos são inteligentes
São mais inteligentes do que os poetas pois encheram o céu de planetas novos
Multicores
Astros arrebentam como granadas
Os núcleos caem
Outros sobem da terra e têm uma vida efêmera
Asteróides asteriscos
Bolhas de sabão!
Os telescópios apontam o céu
Canhões gigantes
De perto
Vejo a lua
Acidentes da crosta resfriada
O anel de Anaxágoras
O anel de Pitágoras
Vulcões extintos
Perto dela
Uma pirâmide fosforescente
Pirâmide do Egito que subiu ao céu
Hoje está incluída no sistema planetário
Luminosa
Com a rota determinada por todos os observatórios
Subiu quando a biblioteca de Alexandria era uma fogueira iluminando o mundo
Os crânios antigos estalam nos pergaminhos que se queimam
Pitágoras a viu ainda em terra
Viajou no Egito
Viu o rio Nilo os crocodilos os papiros e as embarcações de sândalo
Viu a esfinge os obeliscos a sala de Karnak e o boi Apis
Viu a lua dentro do tanque onde estava o rei Amenemas
Mas não viu a biblioteca de Alexandria nem as galeras de Cleopatra
Nem a dominação dos ingleses
Maspero acha múmias
E eu não vejo mais nada
As nuvens apagaram minha geometria celeste
No quadro negro
Não vejo mais a sua nem minha pirotécnica planetária
Rojões de lágrimas
Cometas se desfazem
Fim da existência
Outros estouram como demônios da Idade Média e feiticeiros do Sabbath
Fogos de antimônio fogos de Bengala
Eu também me desfarei em lágrimas coloridas no meu dia final
Meu coração vagará pelo céu estrela cadente ou bólido apagado como agora erra
Inflamado pela terra
Estrela inteligente estrela averroísta
Vertiginosamente
Enrolando-o na fieira da Via-Láctea joguei o pião da terra
E ele ronca
No movimento perpétuo
Vejo tudo
Faixas de cores
Mares
Montanhas
Florestas
Numa velocidade prodigiosa
Todas as cores sobrepostas
Estou só
Tiritante
De pé sobre a crosta resfriada
Não há mais vegetação
Nem animais
Como os antigos creio que a terra é o centro
A terra é uma grande esponja que se embebe das tristezas do universo
Meu coração é uma esponja que absorve toda a tristeza da terra
Uma grande pálpebra azul treme no céu e pisca
Corisco arisco risca no céu
O barômetro anuncia chuva
Todos os observatórios se comunicam pela telegrafia sem fio
Não penso mais porque a escuridão da noite tempestuosa penetra em mim
Não posso matematizar o universo como os pitagóricos
Estou só
Tenho frio
Não posso escrever os versos áureos de Pitágoras !...
2 335
Lúcio José Gusman
Mítica
Diante de ti, pressinto a eternidade
das ternuras como a estrela
a clarinada alegre da manhã.
És uma nesga de luz, és quase um sonho.
Não sei de onde vieste. O teu caminho
nunca foi paralelo ao meu caminho.
Talvez seguisses o infinito quando,
perpendicularmente, te encontrei.
O teu destino se fez o meu destino. Juntos,
passamos a percorrer uma trilha diferente.
O próprio espaço ampliou-se mais
para poder conter a imensidão do nosso afeto.
E o tempo, no silêncio das coisas
que são misteriosas e inexplicáveis,
já não disfarça a sombra viva
da inefável ternura que nos enlaça.
Por isso, cada vez ao pressentir tua chegada,
fervilham-me os sentimentos mais profundos
e freme a minha alma.
És um mito de carne e realidade
das ternuras como a estrela
a clarinada alegre da manhã.
És uma nesga de luz, és quase um sonho.
Não sei de onde vieste. O teu caminho
nunca foi paralelo ao meu caminho.
Talvez seguisses o infinito quando,
perpendicularmente, te encontrei.
O teu destino se fez o meu destino. Juntos,
passamos a percorrer uma trilha diferente.
O próprio espaço ampliou-se mais
para poder conter a imensidão do nosso afeto.
E o tempo, no silêncio das coisas
que são misteriosas e inexplicáveis,
já não disfarça a sombra viva
da inefável ternura que nos enlaça.
Por isso, cada vez ao pressentir tua chegada,
fervilham-me os sentimentos mais profundos
e freme a minha alma.
És um mito de carne e realidade
842
Lúcia Maria Leite Sousa
O Arco-íris da Terra
Como um arco-íris de enrgia e cor
um imenso facho de luz surgiu
e da imensidão dos raios,
nasceu o azul cristalino do céu...
que nos encanta e presenteia
com a suave pureza do luar...
que apaixona e enlouquece os enamorados.
Eu vi o mar...
que nasceu verde...ou azul...
como um arco-íris...vultoso,
inundando de emoção o nosso olhar.
Eu senti o melodioso sussurrar do vento
nas folhar verdes das árvores...
como um arco-íris...
num vôo de esperança,
no verde-esperança da vida.
Eu vi a cinza semente borbulhar
no seio da terra...num sublime renascer.
Eu vi no céu
o encontro do sol e da lua,
num maravilhoso entardecer,
de cores vermelhas e incandescentes...
como um arco-íris...
e os pássaros a entoar melodias,
enriquecendo a grandiosa coreografia.
Mas no dia-a-dia da vida,
eu vi o facho de luz se apagar
e na imensidão do céu
um buraco negro predominar.
E as nuvens de gases,
eu vi o arco-íris encobrir,
e o azul do céu sombrear,
e o verde do mar escurecer,
e o amarelo das folhas entristecer,
e o verde das árvores esvair,
e toda terra gritar...não me deixai morrer!
Quero ser com um arco-íris,
e resplandecer luz e cor
até o infinito...eternamente!
13.07.92, Maceió/AL
um imenso facho de luz surgiu
e da imensidão dos raios,
nasceu o azul cristalino do céu...
que nos encanta e presenteia
com a suave pureza do luar...
que apaixona e enlouquece os enamorados.
Eu vi o mar...
que nasceu verde...ou azul...
como um arco-íris...vultoso,
inundando de emoção o nosso olhar.
Eu senti o melodioso sussurrar do vento
nas folhar verdes das árvores...
como um arco-íris...
num vôo de esperança,
no verde-esperança da vida.
Eu vi a cinza semente borbulhar
no seio da terra...num sublime renascer.
Eu vi no céu
o encontro do sol e da lua,
num maravilhoso entardecer,
de cores vermelhas e incandescentes...
como um arco-íris...
e os pássaros a entoar melodias,
enriquecendo a grandiosa coreografia.
Mas no dia-a-dia da vida,
eu vi o facho de luz se apagar
e na imensidão do céu
um buraco negro predominar.
E as nuvens de gases,
eu vi o arco-íris encobrir,
e o azul do céu sombrear,
e o verde do mar escurecer,
e o amarelo das folhas entristecer,
e o verde das árvores esvair,
e toda terra gritar...não me deixai morrer!
Quero ser com um arco-íris,
e resplandecer luz e cor
até o infinito...eternamente!
13.07.92, Maceió/AL
886
Antero de Quental
Pequenina
Eu bem
sei que te chamam pequenina
É ténue como o véu solto na dança
Que és no juízo apenas a criança,
Pouco mais , nos vestidos , que a menina...
Que és o regato de água mansa e fina,
A folhinha do til que se balança,
O peito que em correndo logo cansa,
A fronte que ao sofrer logo se inclina...
Mas, filha, lá nos montes onde andei
Tanto me enchi de angústia e de receio
Ouvindo do infinito os fundos ecos,
Que não quero imperar nem já ser rei
Senão tendo meus reinos em teu seio
E súbditos, criança, em teus bonecos.
sei que te chamam pequenina
É ténue como o véu solto na dança
Que és no juízo apenas a criança,
Pouco mais , nos vestidos , que a menina...
Que és o regato de água mansa e fina,
A folhinha do til que se balança,
O peito que em correndo logo cansa,
A fronte que ao sofrer logo se inclina...
Mas, filha, lá nos montes onde andei
Tanto me enchi de angústia e de receio
Ouvindo do infinito os fundos ecos,
Que não quero imperar nem já ser rei
Senão tendo meus reinos em teu seio
E súbditos, criança, em teus bonecos.
1 760
Tânia Regina
Sua Falta
Olhando para o céu
Consigo pensar em você
Com a brisa
Consigo sentir você
A cada dia que passa
A cada hora que voa
Sinto sua falta....
Olhando para o mar
Consigo pensar em você
Com o brilho da lua
Consigo enxergar você
Consigo pensar, enxergar
sentir,...
Só não consigo te tocar....
Olhando para o céu e o mar
Penso em algum dia te encontrar...
E quando meu sonho
Finalmente se realizar
Pretendo com você ficar
Nas alegrias e tristezas
Amando e sendo amada!!!!
Consigo pensar em você
Com a brisa
Consigo sentir você
A cada dia que passa
A cada hora que voa
Sinto sua falta....
Olhando para o mar
Consigo pensar em você
Com o brilho da lua
Consigo enxergar você
Consigo pensar, enxergar
sentir,...
Só não consigo te tocar....
Olhando para o céu e o mar
Penso em algum dia te encontrar...
E quando meu sonho
Finalmente se realizar
Pretendo com você ficar
Nas alegrias e tristezas
Amando e sendo amada!!!!
846
Luis Germano Graal
Nesta Embarcação
Nesta embarcação, nesta caravela
Na qual ficou a voz que
Neste trampolim, nesta passarela
me roubaste
Nesta nave na qual tu não ficaste
Fiquei com tua voz em mim mais bela
Papai do céu
Por que me abandonaste?
Por que deixaste só um filho teu
Um anjo maluco, teu filho: eu
Sou um deus esquisito
Olhando pros lados
Sol e lua e mar
São fragmentos de mim
E sou
Todos quatro
Cantando
Papai, por que deixaste-me a cantar
Este psalmo
Eli, eli, papai
Lamma Sabactáni?
Na qual ficou a voz que
Neste trampolim, nesta passarela
me roubaste
Nesta nave na qual tu não ficaste
Fiquei com tua voz em mim mais bela
Papai do céu
Por que me abandonaste?
Por que deixaste só um filho teu
Um anjo maluco, teu filho: eu
Sou um deus esquisito
Olhando pros lados
Sol e lua e mar
São fragmentos de mim
E sou
Todos quatro
Cantando
Papai, por que deixaste-me a cantar
Este psalmo
Eli, eli, papai
Lamma Sabactáni?
731
Tomoko Narita Sabiá
Outono
Caquis maduros.
Os passarinhos descem
do céu e dos telhados.
Os passarinhos descem
do céu e dos telhados.
865
Gláucia Lemos
Poema ao Amor Recém-Nascido
Vê, é crescente,
quarto de lua crescente.
No universo inteiro
tudo chegou ao tempo de crescer.
Deixa que cresça
deixa que amadureça
como o sol faz crescerem os trigais.
Deixa que nasça o pão
das espigas crescidas
e o alimente qual se nutre um corpo
na bandeja da emoção.
Deixa que cresça indomável.
Seja rebentação nos quebra-mares
das marés de enchente.
Faça-se grande qual só é grande a vida
invencível como só assim a morte.
Que seja um deus nos concedendo a graça
de escrevermos nós, nosso destino.
Deixa que cresça.
Que cresça e se mature
e multiplique qual no ventre térreo
planetário de sementes.
E depois, como chuva,
deixa que se esparrame
no universo
dos universos aonde possa ir,
maravilhado da própria grandeza.
Deixa que cresça e nos cubra.
E nos proteja como anjo-de-guarda
e nos leve pelas mãos
nas mãos da vida
que ele faz ressuscitar.
Deixa em silêncio,
deixa em canto suave,
deixa no toque de ternura nova,
deixa crescer em ti
que não deixaste
perder-se sem razão nossa verdade.
Vê. é crescente.
Quarto de lua crescente!
Doce criança, deixa-o crescer!
Em uma lua crescente de 1996.
quarto de lua crescente.
No universo inteiro
tudo chegou ao tempo de crescer.
Deixa que cresça
deixa que amadureça
como o sol faz crescerem os trigais.
Deixa que nasça o pão
das espigas crescidas
e o alimente qual se nutre um corpo
na bandeja da emoção.
Deixa que cresça indomável.
Seja rebentação nos quebra-mares
das marés de enchente.
Faça-se grande qual só é grande a vida
invencível como só assim a morte.
Que seja um deus nos concedendo a graça
de escrevermos nós, nosso destino.
Deixa que cresça.
Que cresça e se mature
e multiplique qual no ventre térreo
planetário de sementes.
E depois, como chuva,
deixa que se esparrame
no universo
dos universos aonde possa ir,
maravilhado da própria grandeza.
Deixa que cresça e nos cubra.
E nos proteja como anjo-de-guarda
e nos leve pelas mãos
nas mãos da vida
que ele faz ressuscitar.
Deixa em silêncio,
deixa em canto suave,
deixa no toque de ternura nova,
deixa crescer em ti
que não deixaste
perder-se sem razão nossa verdade.
Vê. é crescente.
Quarto de lua crescente!
Doce criança, deixa-o crescer!
Em uma lua crescente de 1996.
1 913
Lêdo Ivo
A Recompensa
Eis a dádiva da noite:
fenda, cova, gruta, porta
casto pássaro sem canto
cisterna oculta no bosque
concha perdida na praia
viva natureza-morta.
Um corredor de coral
matriz e canal de mangue
trilha, sebe, valva, furna
voluta cheia de adornos
desfiladeiro da tarde
tumba de sol e corola
sereno da madrugada.
Manga madura da infância
que cai num chão de mentira
sol de lábios e camélias
esconderijo dos sonhos
caminho do descaminho
brancura negra da carne
pousada em seu próprio ninho
abertura pura e escura
entre-fechado botão
ou entreaberta rosa
na noite misteriosa.
fenda, cova, gruta, porta
casto pássaro sem canto
cisterna oculta no bosque
concha perdida na praia
viva natureza-morta.
Um corredor de coral
matriz e canal de mangue
trilha, sebe, valva, furna
voluta cheia de adornos
desfiladeiro da tarde
tumba de sol e corola
sereno da madrugada.
Manga madura da infância
que cai num chão de mentira
sol de lábios e camélias
esconderijo dos sonhos
caminho do descaminho
brancura negra da carne
pousada em seu próprio ninho
abertura pura e escura
entre-fechado botão
ou entreaberta rosa
na noite misteriosa.
1 260
Lêdo Ivo
Canto Grande
Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.
Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.
Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.
De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.
Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.
Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.
Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.
Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.
Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.
De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.
Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.
Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.
Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.
1 502
Gláucia Lemos
Poema de uma Hora Triste
Deixa que eu sinta este momento novo
e talvez quando houver o nosso encontro
vejas em mim a marca dessa ausência.
Deixa que eu queira te sentir presente
e talvez se eu disser quanto te espero
mostres em ti o quanto me esperavas.
Deixa que eu possa te buscar agora
e talvez nunca mais nosso universo
conheça as brumas desta solidão.
Deixa que eu possa, nesta hora triste,
crer que também, talvez, estou contigo,
e a dor que é minha tua se tornou.
e talvez quando houver o nosso encontro
vejas em mim a marca dessa ausência.
Deixa que eu queira te sentir presente
e talvez se eu disser quanto te espero
mostres em ti o quanto me esperavas.
Deixa que eu possa te buscar agora
e talvez nunca mais nosso universo
conheça as brumas desta solidão.
Deixa que eu possa, nesta hora triste,
crer que também, talvez, estou contigo,
e a dor que é minha tua se tornou.
899
Lígia Diniz
O que foi amor (não é mais)
Hoje preciso me lembrar de mim para penar em ti
E nunca me lembro de mim
Me esqueço de ti
Estás sempre lá e não.
Não te vejo, não te procuro
Só te encontro quando me abro pela porta do jardim
Mas me abro sempre pela porta da sala.
Eu não te encontro mas estás lá.
E quando te vejo não sorris
Quando te encontro foges de mim
Me perdoe por pensar em ti
E me perdoe por não pensar em mim
Prefiro continuar assim, forte
Quero passear no jardim. E voltar.
E nunca me lembro de mim
Me esqueço de ti
Estás sempre lá e não.
Não te vejo, não te procuro
Só te encontro quando me abro pela porta do jardim
Mas me abro sempre pela porta da sala.
Eu não te encontro mas estás lá.
E quando te vejo não sorris
Quando te encontro foges de mim
Me perdoe por pensar em ti
E me perdoe por não pensar em mim
Prefiro continuar assim, forte
Quero passear no jardim. E voltar.
978
Lêdo Ivo
Haicai
Noite de Domingo
Acabou-se a festa.
Resta, no silêncio,
o rumor da floresta.
O Lago Habitado
Na água trêmula
freme a pálida
anêmona.
Acabou-se a festa.
Resta, no silêncio,
o rumor da floresta.
O Lago Habitado
Na água trêmula
freme a pálida
anêmona.
1 834
Luís Delfino
Que Vos Daria?
Se tiverdes um dia um capricho, senhora,
Um capricho, um delírio, uma vontade enfim,
Não exijas o carro azul que monta a Aurora
Nem da estrela da tarde o plaustro de marfim;
Nem o mar, que murmura e aí vai por mar em fora
Nem o céu doutros céus, elos de céu sem fim,
Que se isso fosse meu, já vosso, há muito, fôra.
Fôra vosso o que é grande e anda em torno de mim...
Mostrásseis num só gesto ingênuo, um só desejo...
O universo que vejo e os outros que não vejo
Sofreriam por vós vosso último desdém.
Que faríeis dos sóis, grãos vis de areias douro
Mulher! Pedi-me um beijo e vereis o tesouro
Que um beijo encerra e o amor que um coração contém.
Um capricho, um delírio, uma vontade enfim,
Não exijas o carro azul que monta a Aurora
Nem da estrela da tarde o plaustro de marfim;
Nem o mar, que murmura e aí vai por mar em fora
Nem o céu doutros céus, elos de céu sem fim,
Que se isso fosse meu, já vosso, há muito, fôra.
Fôra vosso o que é grande e anda em torno de mim...
Mostrásseis num só gesto ingênuo, um só desejo...
O universo que vejo e os outros que não vejo
Sofreriam por vós vosso último desdém.
Que faríeis dos sóis, grãos vis de areias douro
Mulher! Pedi-me um beijo e vereis o tesouro
Que um beijo encerra e o amor que um coração contém.
1 281
Laura Amélia Damous
Torres da Sé
Garças altivas beliscam
o céu
sangram estrelas
que se desfazem em luz
noites azuis
de maré alta
orquestram hinos e preces
minha cidade faz
o sinal da cruz
adormece
o céu
sangram estrelas
que se desfazem em luz
noites azuis
de maré alta
orquestram hinos e preces
minha cidade faz
o sinal da cruz
adormece
952
Laura Amélia Damous
Véspera de Reis
Imperfeito tempo
em que és
o instante perfeito
Exato instante
de que é feita
a eternidade
em que és
o instante perfeito
Exato instante
de que é feita
a eternidade
1 009
Leda Costa Lima
Integração
Pisei na noite,
diluí-me em bruma...
galguei montanhas,
transmutei-me em neve...
joguei-me ao mar,
e dissolvi-me em espuma...
lancei-me ao mar
e transformei-me em nuvem...
voando ao cosmos,
integrei-me ao TODO!
diluí-me em bruma...
galguei montanhas,
transmutei-me em neve...
joguei-me ao mar,
e dissolvi-me em espuma...
lancei-me ao mar
e transformei-me em nuvem...
voando ao cosmos,
integrei-me ao TODO!
818
João Rui de Sousa
Roteiro
Meu jeito visionário — meu astrolábio.
Meu ser mirabolante — um alcatruz.
De variadas coisas fiz a minha esperança
e sempre em várias coisas vi a minha cruz.
Aos padrões que em vários pontos encontrei
na rota íntima de vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas e intactas,
as minhas dores mais certas e reais.
Nos vários sítios que — abismos —
toldaram minha voz por um olhar,
eu evitei o perigo e os prejuízos
à voz feita de calma, meu cantar.
Aos rasgos que, de outrora, evocados
foram sempre pelo seu valor,
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo, o meu calor,
E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser cativo,
parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança
como lembrança para um dia altivo.
Meu ser mirabolante — um alcatruz.
De variadas coisas fiz a minha esperança
e sempre em várias coisas vi a minha cruz.
Aos padrões que em vários pontos encontrei
na rota íntima de vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas e intactas,
as minhas dores mais certas e reais.
Nos vários sítios que — abismos —
toldaram minha voz por um olhar,
eu evitei o perigo e os prejuízos
à voz feita de calma, meu cantar.
Aos rasgos que, de outrora, evocados
foram sempre pelo seu valor,
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo, o meu calor,
E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser cativo,
parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança
como lembrança para um dia altivo.
1 145
José Eduardo Mendes Camargo
Estrelas
Acariciemos com as
Mãos os seus corpos,
Se não os alcançarmos,
Vamos sussurrar-lhes lindas
Canções aos ouvidos.
Se não se fizerem ouvir,
Vamos mirar-lhes na face e piscar,
E o universo todo piscará para nós.
Mãos os seus corpos,
Se não os alcançarmos,
Vamos sussurrar-lhes lindas
Canções aos ouvidos.
Se não se fizerem ouvir,
Vamos mirar-lhes na face e piscar,
E o universo todo piscará para nós.
900
José Eduardo Mendes Camargo
No Mar
As gaivotas planam
Ao sabor do vácuo de um barco aventureiro.
O sol no horizonte
Penetra as entranhas das águas
E o céu, numa explosão de alegria,
Festeja em cores
Esta cópula divina da natureza.
Ao sabor do vácuo de um barco aventureiro.
O sol no horizonte
Penetra as entranhas das águas
E o céu, numa explosão de alegria,
Festeja em cores
Esta cópula divina da natureza.
887
Jeremias Brasileiro
HORA DÍ BAI
Calemas silenciam-se ao sentir
Iansã Kéró deslizando em pleno ar
Òxúmaré surge no Órun
Névoa Amarela está no mar
Mabubas dos meus Ójos caem...
Notas: Hora dí Bai = Hora da despedida
Calemas = Ondas agitadas
Iansã kéró = Orixá dos ventos e tempestades
Kéró = Suavemente
Òxúmaré = Orixá do arco-íris
Órun = Céu
Mabubas = Cascatas
Ójos = Olhos
Iansã Kéró deslizando em pleno ar
Òxúmaré surge no Órun
Névoa Amarela está no mar
Mabubas dos meus Ójos caem...
Notas: Hora dí Bai = Hora da despedida
Calemas = Ondas agitadas
Iansã kéró = Orixá dos ventos e tempestades
Kéró = Suavemente
Òxúmaré = Orixá do arco-íris
Órun = Céu
Mabubas = Cascatas
Ójos = Olhos
812
José Eduardo Mendes Camargo
Luminescência
Vou despertar como o Sol,
Atravessando nuvens,
Desvirginando sombras,
Aquecendo corpos
E perdendo-me no horizonte.
Vou me recolher como a Lua
Refletindo-me no espelho das águas,
Dançando entre as estrelas,
Iluminando os caminhos dos encontros.
Vou me fundir em tua Luz,
E da nossa união
Um clarão de luminosidade
Resplandecerá no Universo.
Atravessando nuvens,
Desvirginando sombras,
Aquecendo corpos
E perdendo-me no horizonte.
Vou me recolher como a Lua
Refletindo-me no espelho das águas,
Dançando entre as estrelas,
Iluminando os caminhos dos encontros.
Vou me fundir em tua Luz,
E da nossa união
Um clarão de luminosidade
Resplandecerá no Universo.
722
João Dummar
Descoberta
A cada dia
eu te descubro
e no início
havia a contradição
e eu só via
negror nos teus olhos
e cabelos
Mas agora eu vejo claridade
na tua pele macia
nas tuas carícias
que brotam no calor da tarde
e na medida em que partilhamos
das maravilhas do ser
quando nos aprofundamos
na divinal essência
eu vejo, és multifacial
espelhando raios do infinito
que abrigamos em nós.
eu te descubro
e no início
havia a contradição
e eu só via
negror nos teus olhos
e cabelos
Mas agora eu vejo claridade
na tua pele macia
nas tuas carícias
que brotam no calor da tarde
e na medida em que partilhamos
das maravilhas do ser
quando nos aprofundamos
na divinal essência
eu vejo, és multifacial
espelhando raios do infinito
que abrigamos em nós.
844
Jônatas Batista
Alegria do Céu
Maio... junho...
os raios do sol chegam mais livres e mais rápidos.
A luz das estrelas, mais intensa e mais viva, se derrama
pelas dobras da noite.
A lua... Nem um trapo de nuvem, nem um farrapo de sombra!
Céu descascado. Céu do Nordeste.
À nossa vista sempre dá mostra "a pálida e romântica enamorada
dos poetas vagabundos".
Quando os ventos gerais arrancam as primeiras folhas...
a gente tem gana de viver e de amar!
As violas acordam e os terreiros se espanejam.
O engenho de madeira canta, rouquenho, ao ritmo pesado e lerdo
dos bois vagarosos e sonolentos.
O caititu raspa a mandioca sumarenta e a farinha cheirosa
é remexida no forno de pedra.
Os riachos valentes se transformam em longas e estreitas
fitas de prata.
Os sambas se animam e os cantores se defrontam para
o desafio costumeiro.
A jurema de desata em flores e o perfume vai longe
em busca das abelhas.
As morenas se alindam e os namorados se comprometem.
O vaqueiro abóia, ao fim do dia, na quebrada da serra,
e o touro escarva o chão, desafiando no pátio da fazenda.
A égua nova, que ainda não deu cria, curveteia, no tabuleiro verde,
e a raposa uiva e gargalha, na encruzilhada do caminho.
As ovelhas, em ranchos, se agasalham fora dos currais,
e as cabras pinoteiam, ariscas, nas fraldas dos morros.
O caboré geme com frio e o cabeça-vermelha acorda
o galo preguiçoso, que se retarda no toque da alvorada.
O inverno vai longe,
A seca não chegou ainda,
Ah! nesse tempo, nesse tempo, baixam aos campos da minha terra
A bênção de Deus!
A alegria do Céu!
os raios do sol chegam mais livres e mais rápidos.
A luz das estrelas, mais intensa e mais viva, se derrama
pelas dobras da noite.
A lua... Nem um trapo de nuvem, nem um farrapo de sombra!
Céu descascado. Céu do Nordeste.
À nossa vista sempre dá mostra "a pálida e romântica enamorada
dos poetas vagabundos".
Quando os ventos gerais arrancam as primeiras folhas...
a gente tem gana de viver e de amar!
As violas acordam e os terreiros se espanejam.
O engenho de madeira canta, rouquenho, ao ritmo pesado e lerdo
dos bois vagarosos e sonolentos.
O caititu raspa a mandioca sumarenta e a farinha cheirosa
é remexida no forno de pedra.
Os riachos valentes se transformam em longas e estreitas
fitas de prata.
Os sambas se animam e os cantores se defrontam para
o desafio costumeiro.
A jurema de desata em flores e o perfume vai longe
em busca das abelhas.
As morenas se alindam e os namorados se comprometem.
O vaqueiro abóia, ao fim do dia, na quebrada da serra,
e o touro escarva o chão, desafiando no pátio da fazenda.
A égua nova, que ainda não deu cria, curveteia, no tabuleiro verde,
e a raposa uiva e gargalha, na encruzilhada do caminho.
As ovelhas, em ranchos, se agasalham fora dos currais,
e as cabras pinoteiam, ariscas, nas fraldas dos morros.
O caboré geme com frio e o cabeça-vermelha acorda
o galo preguiçoso, que se retarda no toque da alvorada.
O inverno vai longe,
A seca não chegou ainda,
Ah! nesse tempo, nesse tempo, baixam aos campos da minha terra
A bênção de Deus!
A alegria do Céu!
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