Escritas

Amor

Poemas neste tema

Artur Ferreira

Artur Ferreira

Esses Hábitos que Tens

Hoje acordei
e ainda sonhando,
naqueles instantes entre sonhar e acordar,
senti tua perna se roçar entre as minhas...

Esse hábito doce que tens
de me acordar...

Ouvi muito longe, o teu respirar,
suave e pausado, murmurando
coisas sem nexo...

Esse hábito doce que tens
de me saudar de manhã...

Semi-adormecida, pegaste minha mão
e a puseste entre os seios
meu pouso diário...

Esse hábito lindo que tens
de me excitar...

E viajei nos meus sonhos, não querendo acordar,
amando o teu corpo, vezes sem conta...
e então despertei, sentindo saudades
desses hábitos antigos
que tinhas comigo...
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Alcides Freitas

Alcides Freitas

Sê Feliz

Se queres ser feliz, afasta-te, querida!
Da minha alma! E, a sorrir, nem mais procure vê-la!
Uma estrela — Que é luz, deve unir-se à vida
Não à treva — o que sou. Mas à lua, a outra estrela!

Tão formosa e tão moça, afeita à brisa mansa
Das manhãs de sorriso e tardes de ventura,
Não calculas a dor do amar sem esperança;
Do ratear, como um cego, a noite da amargura...

A alma, que conheceste, alegre e calma, outrora
Como um trecho de sol, embebido de canto,
Recordas como vive, erma e calada, agora
Em pedaço de abismo encharcado de pranto.

A ti tudo sorri! Nem pensas no futuro
E o pensar no futuro envenena o presente!
Se és tão nova e tão bela, e o teu ser é tão puro
Há de te ser a vida um sonho alvinitente!

A minha alma, querida, é um sítio abandonado
Onde, em antigo tempo, houve trabalho e festa:
Um sitio claro e verde, harmônico e dourado
Como um sonho de flora a uma canção de vesta...
...............................................................................
Só o que vive a sofrer sabe o que é castigo!
Só o que vive de amor sabe o que o amor nos diz.
Tu me amas, talvez... mas atende ao que digo:
Afasta-te de mim, se queres ser feliz!...

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Zeferino Brasil

Zeferino Brasil

Zelos

De leve, beijo as suas mãos pequenas,
Alvas, de neve, e, logo, um doce, um breve,
Fino rubor lhe tinge a face, apenas
De leve beijo as suas mãos de neve.

Ela vive entre lírios e açucenas,
E o vento a beija, e, corno o vento, deve
Ser o meu beijo em suas mãos serenas,
— Tão leve o beijo, como o vento é leve.. .

Que essa divina flor, que é tão suave,
Ama o que é leve, como um leve adejo
De vento ou como um garganteio de ave,

E já me basta, para meu tormento,
Saber que o vento a beija, e que o meu beijo
Nunca será tão leve como o vento.. .

1 374 2
Luís de Camões

Luís de Camões

Enquanto quis Fortuna que Tivesse

Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co tormento,
Pera que seus enganos não dissesse.

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,

Verdades puras são e não defeitos;
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.
6 376 2
Antero de Quental

Antero de Quental

Maria

Tenho cantado esperancas...
Tenho falado damores...
Das saudades e dos sonhos
Com que embalo as minhas dores...

Entre os ventos suspirando
Vagas, tenues harmonias,
Tendes visto como correm
Minhas doidas fantasias.

E eu cuidei que era poesia
Todo esse louco sonhar...
Cuidei saber o que e vida
So porque sei delirar...

So porque a noite, dormindo
Ao seio duma visao,
Encontrava algum alivio,
Meu dorido coracao,

Cuidei ser amor aquilo
E ser aquilo viver...
Oh! que sonhos que se abracam
Quando se quer esquecer !

Eram fantasmas que a noite
Trouxe, e o dia ja levou...
A luz d?estranha alvorada
Hoje minha alma acordou !

Esquecei aqueles cantos...
So agora sei falar !
Perdoa-me esses delirios...
So agora soube amar !

7 755 2
Pedro de Calasans

Pedro de Calasans

Escuta

Se para amar-te for mister martírios,
Com que delírios saberei sofrer!
Se de altas glórias for mister a palma,
Talvez minha alma possa além colher.

Quebrar cadeias, conquistar um nome,
Que não consome o perpassar das eras;
Arcar com a fúria de iracundos nortes,
Sofrer mil mortes, sem morrer deveras;

Nas próprias carnes apertar cilícios,
Nos sacrifícios ter sereno o rosto;
Pisar descalço sobre espinhos duros,
Com pés seguros, com sinais de gosto;

Longe da pátria, no país mais feio,
De tédio em meio, para amar-te, irei
Viver embora sob a zona ardente,
E ali contente por te amar serei!...

E a ser amado, se é mister o incenso,
Que sobe denso dos salões aos tetos;
Serei altivo, mas não vou de rastos
Com lábios castos mendigar afetos!

E se me odeias, por não ir-me às salas
Dizer-te as falas de mendaz paixão,
E, aos olhos de outros, profanando extremos,
Dizer-te: amemos, e apertar-te a mão;

Me odeia, e muito, que eu não sou da farsa,
Que o mal disfarça, que desfruta e ri!
Me odeia, e sempre, que eu não desço ao nível
Do pó terrível, que se arrasta aí!

Dá-me o teu ódio, pois não quero — escuta —
Beber cicuta, procurando mel.
Dá-me o teu ódio, mas num grau subido,
Embora ungido de amargoso fel!

Dá-me o teu ódio por fatal sentença,
A indiferença me será pior.
Que um sentimento por mim sintas na alma,
Dá-me essa palma de um sofrer melhor!

4 044 2
Nogueira Tapety

Nogueira Tapety

Pesadelo Atroz

Mal sabe ela que todo este desregramento
é o véu sob o qual minha tortura oculto,
Pois quem vive como eu de tormento em tormento,
Necessita viver de tumulto em tumulto...

O que eu busco ao bordel, é a paz do esquecimento,
Mas na noite do vicio em as mágoas sepulto,
Como um ralo a luzir, de momento a momento,
Fere-me o pensamento o clarão do seu vulto.

Foi o vício o recurso extremo, o último apelo,
Que lancei, torturado, ao rumores do mundo,
Para me libertar deste amargo desvelo.

E quanto mais me excedo e em rumores me afundo,
Mais se arraiga em minhalma este atroz pesadelo,
Este afeto infeliz cada vez mais profundo.

1 118 2
António Manuel Couto Viana

António Manuel Couto Viana

Madrigal

Ainda é possível este amor
Como um regresso ao paraíso?
Aroma apenas de uma flor?
O beijo apenas de um sorriso?
Ainda é possível este amor?
Qual a resposta que preciso?

E nada digo! E nada dizes!
Tudo nos basta num olhar
E que tu, mão, lisa, deslizes
Por sobre a minha, devagar...
Com pouco somos tão felizes
Que é já demais pedir luar!

E é já demais esta poesia
Se há cada vez menos valor
Nas tais palavras que diria
Para dizer-te o som e a cor
De um coração em harmonia
Que só se diz, dizendo: Amor!

1 473 2
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Rosário

E eu que era um menino puro
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem isso não era ela
Era uma moça que dava.
Deixava... mesmo no mar
Onde se fazia em água
Onde de um peixe que era
Em mil se multiplicava
Onde suas mãos de alga
Sobre meu corpo boiavam
Trazendo à tona águas-vivas
Onde antes não tinha nada.
Quanto meus olhos não viram
No céu da areia da praia
Duas estrelas escuras
Brilhando entre aquelas duas
Nebulosas desmanchadas
E não beberam meus beijos
Aqueles olhos noturnos
Luzindo de luz parada
Na imensa noite da ilha!
Era minha namorada
Primeiro nome de amada
Primeiro chamar de filha...
Grande filha de uma vaca!
Como não me seduzia
Como não me alucinava
Como deixava, fingindo
Fingindo que não deixava!
Aquela noite entre todas
Que cica os cajus! travavam!
Como era quieto o sossego
Cheirando a jasmim-do-cabo!
Lembro que nem se mexia
O luar esverdeado
Lembro que longe, nos Ionges
Um gramofone tocava
Lembro dos seus anos vinte
Junto aos meus quinze deitados
Sob a luz verde da lua.
Ergueu a saia de um gesto
Por sobre a perna dobrada
Mordendo a carne da mão
Me olhando sem dizer nada
Enquanto jazente eu via
Como uma anêmona na água
A coisa que se movia
Ao vento que a farfalhava.
Toquei-lhe a dura pevide
Entre o pêlo que a guardava
Beijando-lhe a coxa fria
Com gosto de cana brava.
Senti à pressão do dedo
Desfazer-se desmanchada
Como um dedal de segredo
A pequenina castanha
Gulosa de ser tocada.
Era uma dança morena
Era uma dança mulata
Era o cheiro de amarugem
Era a lua cor de prata
Mas foi só naquela noite!
Passava dando risada
Carregando os peitos loucos
Quem sabe para quem, quem sabe?
Mas como me seduzia
A negra visão escrava
Daquele feixe de águas
Que sabia ela guardava
No fundo das coxas frias!
Mas como me desbragava
Na areia mole e macia!
A areia me recebia
E eu baixinho me entregava
Com medo que Deus ouvisse
Os gemidos que não dava!
Os gemidos que não dava...
Por amor do que ela dava
Aos outros de mais idade
Que a carregaram da ilha
Para as ruas da cidade
Meu grande sonho da infância
Angústia da mocidade.

7 732 2
Millôr Fernandes

Millôr Fernandes

Poesia Matemática

Às folhas tantas
Do livro matemático
Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base,
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo otogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela a dela
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?"indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma dos quadrados dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
- O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs -
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas sinoidais.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclideanas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram se casar
Constituir um lar.
Mais que um lar,
Uma perpendicular.

Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
Muito engraçadinhos
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Freqüentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo,
Uma Unidade. Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fração
Mais ordinária.
Mas foi então que o Einstein descobriu a Relatividade
E tudo que era expúrio passou a ser
Moralidade
Como, aliás, em qualquer
Sociedade.

1 900 2
Matheus Tonello

Matheus Tonello

Agonia

Cai-se uma gota de orvalho,
Na fria e ríspida manhã
É tão fácil sentir-se doente, uma pessoa carente,
Que só resta ao descrente, inundar a relva de lágrimas.

É claro, logicamente, inconstante,
Que traz na rua, o sentimento errante,
Da mulher nua, presa ao relento
Do desespero, cíngulo e fatal.

Ao encorajar-se no dia, único, presente...
Não se deve abaixar, ó vidente, tu és prudente?
Que digas para mim o quão me queres
Que se edifique entre os poucos as chacotas...

De um sentimento insano, indistinguível
Que perturba o coração desesperado
Que grita, pede que retornes
Se desvaria na rústica senzala, seu interior é oco e desumano...

Ó criatura que ajoelha e pede,
Em tom de adeus, chora o fim do anunciado;
Às linhas tortas, se tornaram erradas
Na insanidade nega o perdão: pobre algoz!

O globo que gira sem cessar,
E que o guerreiro fortemente armado,
Possa fazer da lágrima escorrida,
Uma bela canção de amor...

Esse guerreiro que clama por justiça,
Briga, luta, excede-se à raiva,
Beija aquela boca proibida, porém desejada,
Tornando realidade, ao ímpeto desejo de te amar.

De querer, muito mais e mais
Exigir do destino, um final feliz,
Para que eu lhe diga, que foi válida
A vontade de te ter que eu sempre quis.

980 2
Nogueira Tapety

Nogueira Tapety

Primaveril

É tempo de partir para o campo, Maria...
Vamos, que a Natureza em festa nos espera;
E na pompa da luz rebrilha a primavera,
Deslumbrante de sons, de aromas, de alegria...

convalesce a floresta, a adusta ramaria,
Que o outono desfolhara, as cores recupera
E a jitirana em flor faz de cada tapera
Uma alcova nupcial perfumada e macia...

Vamos... Quando nós dois passarmos nos caminhos
Do côncavo do céu ao côncavo dos ninhos,
Hão de em coro aclamar cada passo que deres.

Vamos... Tu há e ser, como eu sou, panteísta,
A amar a natureza, a implacável artista,
Que te fez a mais pura e a melhor das mulheres.

1 351 2
Denise Teixeira Viana

Denise Teixeira Viana

Sem Explicação

Ah, quantas noites fiquei sem dormir
quantas horas fiquei sem te ouvir
quanto tempo passei sem te amar.

Ah, quantas vezes fiquei sem falar
quantos homens não pude saciar
quantos meses ficaste sem bulir
na minha cavidade gosmenta.

Ah, se minha frase fosse
toda amor
e se essa flição
não demorasse tanto
tanto a se abrir
encabuladamente
oferecer-te-ia
meu coração:
depósito para o teu descanço.

Eu te quero
amor meu
a mudes dos teus lábios ferinos.
Quero as ondas médias
da tua clave de fá.

De batom escarlate
me lambuzaste o corpo
Quero esta toda fragilidade

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Ona Gaia

Ona Gaia

Soneto do Amor Perfeito

A paixão é como um susto
o amor que é viver
na paixão a gente até casa
mas logo depois se arrasa.

Já o amor é como o horizonte
quanto mais a gente se aproxima
mais a gente se descobre
e mais ele fica longe.

Profundamente etéreo
o sentimento é seu mistério
e não adianta ficar sério.

e se a você eu não quero
qualquer vacilo é uma cilada
mesmo certa, mesmo errada.

1 681 2
Mercedes Blasco

Mercedes Blasco

Amar Por Amar

Não quis nunca saber se aquele que eu amava
era sincero ou não, se era nobre ou plebeu.
Amava-o porque sim, e se não me adorava
e sabia fingi-lo, que mais queria eu?

Era a dita suprema de julgar-me querida,
fazer-me pequenina junto a um peito forte
que me cingisse a si, quase a tirar-me a vida
e, se eu morresse assim, bendita fosse a morte.

Nunca busquei sondar o recanto das almas,
onde o cachoar, almas tranquilas, calmas,
o mesmo rumo levam e vão dar ao mar.

Bendito ou falso, tem o beijo igual sabor,
meu peito nunca amou em troca doutro amor.
Unicamente amei… pelo prazer de amar!

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José Eustáquio da Silva

José Eustáquio da Silva

Fazer Amor

fazer amor requer arte inconsciente
fazer amor transcende o feio e o bonito
fazer amor requer a alma despida
fazer amor transcende a sexualidade

fazer amor é ignorar todos os conceitos formais da humanidade
e se entregar como quem se doa a si mesmo
fazer amor não tem vínculo algum
com o lado físico dos seres
fazer amor é um divindade.
divindade que advém do mais nobre dom da vida : a própria vida.

fazer amor é enlouquecer a anatomia.
não importa a forma.
o que importa é não importar com coisa nenhuma.

fazer amor é fazer de inconcebíveis palavrões um lindo poema.
fazer amor é fazer do corpo um banquete de sonhos
e fazer da alma o berço do gozo...

1 600 2
Ivan Junqueira

Ivan Junqueira

E se eu disser

E se eu disser que te amo - assim, de cara,
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou se te apraz o emprego de tais meios?
E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?
E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?
Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência - essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.

3 687 2
Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

Temor

Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas
A cada instante te oferece a cova.
Pisemos devagar. Olhe que a terra
Não sinta o nosso peso.

Deitemo-nos aqui. Abre-me os braços.
Escondamo-nos um no seio do outro.
Não há de assim nos avistar a morte,
Ou morreremos juntos.

Não fales muito. Uma palavra basta
Murmurada, em segredo, ao pé do ouvido.
Nada, nada de voz, - nem um suspiro,
Nem um arfar mais forte.

Fala-me só com o revolver dos olhos.
Tenho-me afeito à inteligência deles.
Deixa-me os lábios teus, rubros de encanto.
Somente pra os meus beijos.

Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas
A cada instante te oferece a cova.
Pisemos devagar. Olha que a terra
Não sinta o nosso peso.

2 241 2
Gláucia Lemos

Gláucia Lemos

Poema do Amanhecer

Que hoje o meu primeiro pensamento
seja como a luz branca da manhã
que envolve os picos
e as pontas da grama.
E faça amanhecerem as emoções.

Que nessa luz eu esteja.

Que hoje a minha intenção primeira
seja como a mão de Deus na estrada certa
ou bastão de pastor
na trilha verde.

E nessa mão me vejas.

Que hoje a minha sílaba primeira
não se abra em meu lábio,
e eu me cale.
Que nada te dirá mais que o meu beijo.

E que esse beijo eu seja.

13.06.96

1 956 2
Machado de Assis

Machado de Assis

Menina e Moça

A Ernesto Cibrão

Está naquela idade inquieta e duvidosa,
Que não é dia claro e é já o alvorecer;
Entreaberto botão, entrefechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher.

Às vezes recatada, outras estouvadinha,
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor;
Tem cousas de criança e modos de mocinha,
Estuda o catecismo e lê versos de amor.

Outras vezes valsando, o seio lhe palpita,
De cansaço talvez, talvez de comoção.
Quando a boca vermelha os lábios abre e agita,
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração.

Outras vezes beijando a boneca enfeitada,
Olha furtivamente o primo que sorri;
E se corre parece, à brisa enamorada,
Abrir as asas de um anjo e tranças de uma huri.

Quando a sala atravessa, é raro que não lance
Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar
Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.

Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia,
A cama da boneca ao pé do toucador;
Quando sonha, repete, em santa companhia,
Os livros do colégio e o nome de um doutor.

Alegra-se em ouvindo os compassos da orquestra;
E quando entra num baile, é já dama do tom;
Compensa-lhe a modista os enfados da mestra;
Tem respeito a Geslin, mas adora a Dazon.

Dos cuidados da vida o mais tristonho e acerbo
Para ela é o estudo, excetuando-se talvez
A lição de sintaxe em que combina o verbo
To love, mas sorrindo ao professor de inglês.

Quantas vezes, porém, fitando o olhar no espaço,
Parece acompanhar uma etérea visão;
Quantas cruzando ao seio o delicado braço
Comprime as pulsações do inquieto coração!

Ah! se nesse momento, alucinado, fores
Cair-lhe aos pés, confiar-lhe uma esperança vã,
Hás de vê-la zombar de teus tristes amores,
Rir da tua aventura e contá-la à mamã.

É que esta criatura, adorável, divina,
Nem se pode explicar, nem se pode entender:
Procura-se a mulher e encontra-se a menina,
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!

1 946 2
Capinan

Capinan

Confissões de Narciso

Que pensará meu pai de mim agora
E dele que poderei pensar
Eu que pensando nele
Tanto gostaria de saber o que pensa de mim agora?
(Não será essa a última hora da confissão
Nem a primeira hora do nascimento)
Mas que pensaria meu pai ao me ver chorar?
Que pensaria minha mãe
Me vendo agora beijar outras bocas, outros seios, a
procurá-la como alimento?
Sei que jamais saberei o que se passou naquele
momento
Como não sei quase o que se passa agora
Lá fora a noite é cheia de compromissos
E eu, omisso, gravo aqui meus sentimentos
Guardado talvez de mim, guardado talvez dos outros
E querendo estar tão absorto
Que jamais soubesse como lá fora a noite se eterniza
em nunca e jamais
Jasmins exalam
Flores crescem durante a noite e durante a noite
despetalam
Indiferentes ao fato de que pela manhã lhes
arrancarão o talo
E eu por que falo?
Por que não escrevo, por que não beijo?
Porque não caço o inexistente poema, borboleta
imaginária?
Minha mãe sempre me pareceu generosa e perdida
Sempre me pareceu absorvida e mal amada
Uma vida doada para nada
E meu pai sempre me pareceu estrangeiro
Como todos os pais
Eu sequer por furto tive dele um sorriso
Nem a mão por compromisso de andar até o outro
lado da rua
Minha vida foi sempre nua desde o primeiro dia
E sequer me alivia
E sequer eu quero que alivie
Sequer eu quero que passe a vida
Sequer eu quero que continue
Eu quero apenas despir-me
(Embora já esteja tão despido)
E quisera então quem me possuíra
Ai quisera somente dizer estas mentiras
Para quem cresse em mentiras
E pudesse vê-las mais verdadeiras que as verdades que
são ditas
Na casa ao lado há conversas mais sérias que poesia
Há um plano de recuperar as moedas, as finanças, a
pátria, deus e a família
Tudo que é falido desde o começo
Mas eu de tudo também participo
E até em meu endereço chegam as cartas e o telefone
toca
(Serão avisos?)
Deveria estar num comitê que discute o amanhã
E as outras políticas do amanhã
Mas eu sequer desejo sair da cama
Quisera somente beijos, desses que não se proclamam
Beijos talvez cruéis, que se derramam sequer da boca e
sangram
E também quisera que o meu desejo
Não escapasse enquanto fosse o meu desejo
E atendesse ele próprio ao que deseja
Não me usasse para atendê-lo (ele que tanto me
reclama)

1 884 2
Al Berto

Al Berto

Amor dos Fogos

.....vêm sôfregos os peixes da madrugada
beber o marítimo veneno das grandes travessias
trazem nas escamas a primavera sombria do mar
largam minúsculos cristais de areia junto à boca
e partem quando desperto no tecido húmido dos sonhos
.... vem deitar-te comigo no feno dos romances
para que a manhã não solte o ciúme
e de novo nos obrigue a fugir....
.... vem estender-te onde os dedos são aves sobre o peito
esquece os maus momentos a falta de notícias a preguiça
ergue-te e regressa
para olharmos a geada dos astros deslizar nas vidraças
e os pássaros debicam o outono no sumo das amoras....
.... iremos pelos campos
à procura do silente lume das cassiopeias...

6 795 2
Machado de Assis

Machado de Assis

Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.

Trago-te flores - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

Machado de Assis, 1906

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Ferreira Gullar

Ferreira Gullar

Poemas Neoconcretos

mar azul
mar azul marco azul
mar azul marco azul barco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul ar azul

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