Beleza

Poemas neste tema

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Uma Assassina

a consistência é impressionante:
boca fedorenta
podre por dentro e
um corpo quase perfeito,
uma longa e luminosa cabeleira loira –
que confunde a mim
e aos outros

ela segue de homem em homem
oferecendo carícias

ela fala de amor

então submete os homens
à sua vontade

boca fedorenta
podre por dentro

vemos isso tarde demais:
depois que o pau é engolido
o coração vai atrás

sua longa e luminosa cabeleira
seu corpo quase perfeito
caminha pela rua
debaixo do mesmo sol
que banha as flores.
1 112
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Garota No Banco da Parada de Ônibus

eu a vi quando eu estava na pista da esquerda
indo a leste pela Sunset.
ela estava sentada
as pernas cruzadas
lendo um livro de bolso.
era italiana ou indiana ou
grega
e enquanto eu estava parado no sinal vermelho
vez ou outra um vento
erguia sua saia,
eu tinha a visão desimpedida,
revelando
pernas da mais imaculada perfeição
que eu jamais vira.
sou essencialmente tímido
mas olhei e fiquei olhando
até que uma pessoa no carro atrás de mim
começou a buzinar.

isso nunca tinha acontecido dessa
maneira.
dei a volta na quadra
e estacionei numa vaga do
supermercado
bem em frente ao lugar em que ela estava
de óculos escuros
eu não deixava de olhar
como um colegial em sua primeira
excitação.

memorizei seus sapatos
seu vestido
suas meias
seu rosto.
os carros passavam e me bloqueavam
a visão.
então eu a via novamente.
o vento erguia sua saia
para muito além das coxas
e comecei a me tocar.
um pouco antes do ônibus dela aparecer
cheguei ao orgasmo.
senti o cheiro do meu esperma
sua umidade em meu calção
e cueca.

era um ônibus branco e feio
e a levou embora.

dei a ré no estacionamento
pensando, eu sou um voyeur pervertido
mas ao menos não me
expus.

sou um voyeur pervertido
mas por que elas fazem isso?
por que têm essa aparência?
por que deixam o vento soprar
assim?

ao chegar em casa
tirei a roupa e fui para o banho
saí enrolado na
toalha
liguei
as notícias
apaguei as notícias
e
escrevi este poema.
1 111
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Gesso

Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova
— O gesso muito branco, as linhas muito puras —
Mal sugeria imagem de vida
(Embora a figura chorasse).
Há muitos anos tenho-a comigo.
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de pátina amarelo-suja.
Os meus olhos, de tanto a olharem,
Impregnaram-na da minha humanidade irônica de tísico.
Um dia mão estúpida
Inadvertidamente a derrubou e partiu.
Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos, recompus a figurinha que chorava.
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo mordente da pátina...
Hoje este gessozinho comercial
É tocante e vive, e me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu.
4 499
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Texana

ela é do Texas e pesa
47 quilos
e para em frente ao
espelho penteando oceanos
de cabelos ruivos
que descem ao longo de todas
suas costas até a bunda.
o cabelo é mágico e lança
faíscas quando eu me deito na cama
e a vejo penteá-los.
ela parece uma criatura
saída de um filme mas está
aqui de fato. fazemos amor
pelo menos uma vez por dia e
ela consegue me fazer rir
sempre que deseja.
as mulheres do Texas são sempre
saudáveis, e além disso ela
limpa meu refrigerador, minha pia,
o banheiro, e faz comida e
e me serve alimentos saudáveis
e lava os pratos
também.

“Hank”, ela me disse,
segurando uma lata de suco de
uva, “este é o melhor de
todos”.
dizia na lata: suco natural de uva
ROSA do Texas.

ela se parece com a Katherine Hepburn
na época
do ensino médio, e vejo esses
47 quilos
penteando um metro
de cabelo ruivo
diante do espelho
e a sinto dentro de meus
pulsos e no fundo dos meus olhos,
e os dedos e as pernas e a barriga
a sentem, assim como
aquela outra parte,
e toda Los Angeles se desfaz
e chora de contentamento,
as paredes das alcovas tremem –
o oceano invade tudo e ela se vira
e me diz, “maldito cabelo!”
e eu digo,
“sim”.
1 191
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Discurso em Louvor da Aeromoça

Aeromoças, aeromoças,
Que pisais o chão
Com donaire novo,
Não pareceis baixar de céus atuais
Mas dos antigos,
Quando na Grécia os deuses ainda vinham se misturar com os homens.

Píndaro gostaria de cantar o vosso quotidiano heroísmo, tão simples, a vossa graça, a vossa bondade.
No entanto, nada mais moderno do que vós, ó sorrisos bonitos de chegada e partida nos aeroportos.
Quem sem verdade e sem alma vos classificou de aeroviárias
A vós autênticas aeronautas, irmãs intrépidas dos aviadores?

Em nome dos sonhos frustrados de Clícia Zorovich,
Em nohmne da vida frustrada de Clícia
Reivindiquemos para vós a condição de tripulantes,
Ó flores da altura,
Insensíveis à vertigem e ao medo.

Santíssima Virgem Maria, mãe de Deus e advogada nossa,

Dai um dia do vosso mês,
Cedei o último dia do vosso mês
Para que nele cantemos, louvemos, festejemos, agradeçamos
O quotidiano heroísmo, a graça, a bondade das aeromoças.

Alô, Alô, Aerovias Brasil, Linha Aérea Transcontinental Brasileira, Linhas Aéreas Paulistas, Lóide Aéreo Nacional, Nacional Transportes Aéreos, Panair do Brasil, Real Sociedade Anônima de Transportes Aéreos, Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul, Varig, Vasp, Viabrás.

Melhorai a condição da aeromoça!

Poeta Vinícius de Morais, Sunset Boulevard 6.606, Los Ângeles,
Tu, que celebraste com tanto amor as arquivistas,
Vem agora celebrar comigo a aeromoça.
Poeta e futuro senador Augusto Frederico Schmidt,
Escrevei no Correio da Manhã sobre a aeromoça,
Mandai flores da Gávea Pequena
Para a aeromoça.

Passageiros para São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Belém do Pará,
Pedi todos, a Deus e aos homens,
Pela aeromoça.
1 050
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Poema Encontrado Por Thiago de Mello no Itinerário de Pasárgada

Vênus luzia sobre nós tão grande
Tão intensa, tão bela, que chegava
A parecer escandalosa, e dava
Vontade de morrer.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sandra

é a alta e magra
donzela do quarto
de brincos
coberta por um longo
vestido

está sempre alta
em sapatos de salto
espírito
boletas
trago

Sandra se inclina
em sua cadeira
inclina-se em direção a
Glendale

aguardo que sua cabeça
bata na maçaneta
do guarda-roupa
enquanto ela tenta
acender
um novo cigarro num
outro já quase
consumido

aos 32 ela gosta de
jovens limpos
imaculados
com rostos semelhantes ao fundo
de pires recém-comprados

depois de se vangloriar
a não mais poder
acabou me trazendo seus prêmios
para que eu desse uma olhada:
garotos nulos, loiros e silenciosos
que
a) sentam
b) levantam
c) falam
ao seu comando

às vezes ela traz um
às vezes dois
às vezes três
para que eu os
veja

Sandra fica muito bem em
vestidos longos
Sandra pode partir provavelmente
o coração de um homem

espero que ela encontre
um.
1 287
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Edmée

Que delícia na mata o fio d'água
Da fresca fonte para a sede grande!
(Assim a tua voz, límpida água
Para outra sede, Edmée Brandi.)
1 080
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Raquel

Raquel, angélica flor
Do ramalhete de Clóvis.
(Amor, que os astros moves,
Dá-lhe o melhor amor.)
1 089
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Helena Maria

Helena Maria:
O preto no branco,
No branco a poesia,
No preto esse arranco
"Da alma forte e pura
Em sua ternura.
1 336
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Madrigal Epitalâmico

Ady Marinho,
Tu tens no olhar
O sol do vinho,
O sal do mar.

Por isso enlevas
E, de roldão
E para cima,
Rendido levas
O coração
De Ermiro Lima,

Ady Marinho,
Que tens no olhar
O sol do vinho,
O sal do mar.
1 040
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Carla

Carla, és bonita. Pudera!
Sendo filhinha de Allinges,
O fato era de prever.
Mas o que ver eu quisera
É se a beleza materna
Tu, quando mulher, atinges,
Doce e pequenino ser
Feito da essência mais terna.
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Imagens de Juiz de Fora

I
Vejo-a dançando tão leve e linda,
Tão linda e leve como nenhuma
Não dança, voa como uma pluma
Largada ao vento.
E quando passa, dançando ainda,
Leva consigo meu pensamento.

II

Entras, mimosa e cândida,
E enleado em teu perfume
Gagueja um poeta pálido:
Du bist wie eine Blume...

III

Soltos, desnastros,
Esvoaçantes,
Num fulgor de astros,
Quem dera vê-los,
Nas madrugadas,
Os teus cabelos,
Loucos, errantes,
Sobre as espáduas maravilhadas!...

IV

Qual o mistério de terdes
Uns olhos que tanto encantam?
Que sereias é que cantam
Na água desses olhos verdes?

V

Aparece... E uma luz irradia na sala
Como de uma primeira estrela em céu de opala.
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Cantiga de Amor

Mulheres neste mundo de meu Deus
Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
Ruivas, castanhas, brancas e morenas.
E amei-as, por mal dos pecados meus!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!

Andei por São Paulo e pelo Ceará
(Não falo em Pernambuco, onde nasci),
Bahia, Minas, Belém do Pará...
De muito olhar de mulher já sofri!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!

Atravessei o mar e, no estrangeiro,
Em Paris, Basiléia e nos Grisões,
Lugano, Gênova por derradeiro,
Vi mulheres de todas as nações.
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!

Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!
1 150
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Mag

Só mesmo um santo
(Que eu nada valho)
Pode pintar
O jeito, o encanto,
Esse carinho
Posto no rosto
(Por Deus foi posto),
Posto no olhar,
No olhar gordinho
De Mag Bicalho.
1 051
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Dois Anúncios

I- RONDÓ DE EFEITO

Olhei pra ela com toda a força.
Disse que ela era boa.
Que ela era gostosa,
Que ela era bonita pra burro:
Não fez efeito.

Virei pirata:
Dei em cima dela de todas as maneiras,
Utilizei o bonde, o automóvel, o passeio a pé,
Falei de macumba, ofereci pó...
À toa: não fez efeito.

Então banquei o sentimental:
Fiquei com olheiras,
Ajoelhei,
Chorei,
Me rasguei todo,
Fiz versinhos,
Cantei as modinhas mais tristes do repertório do Nôzinho.
Escrevi cartinhas e pra acertar a mão, li Elvira a Morta Virgem, romance primoroso e por tal forma comovente que ninguém pode lê-lo sem derramar copiosas lágrimas...

Perdi meu tempo: não fez efeito.
Meu Deus que mulher durinha!
Foi um buraco na minha vida.
Mas eu mato ela na cabeça:
Vou lhe mandar uma caixinha de Minorativas,
Pastilhas purgativas:
É impossível que não faça efeito!

II - COLÓQUIO SENTIMENTAL

— Não faça assim bichinho. O Segredo da Beleza diz: "Certo, um lindo seio apontando orgulhosamente o céu, é coisa rara. Mas a culpa cabe muitas vezes às próprias mulheres. Não cuidam deles. Deixam-nos magoar pelos dedos estouvados, esses belos frutos tão frágeis."
— Não tenha receio, meu coração. Farei massagens, como manda o livro. Com muita leveza, em sentido circular... começando pela implantação e acabando nas pontas...
— Com creme de pétalas de rosas?
— Com creme de pétalas de rosas...
— E ficarão firmes?
— Ora se!
— Como o Pão de Açúcar?...
— Como a Sul América!
1 020
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Isá

Quisera poder molhar
A minha pena no orvalho
Para num verso imitar
À aurora que ouço cantar
Nos olhos de Isá Bicalho.
1 051
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Madrigal Muito Fácil

Quando de longe te vi,
Quando de longe te via,
Gostei logo bem de ti.
Como é bonita! eu dizia.

Mas por enganar aquilo
Que dentro de mim senti,
Que dentro de mim sentia,
Pensei de mim para mim
Que a distância é que fazia
Me pareceres assim.

Não era a distância não!
Pois chegou aquele dia
Em que te apertei a mão
Sem saber o que dizia.
E vi que eras mais bonita.
Porém muito mais bonita
Do que para o meu sossego
A distância te fazia.

Quanto mais de perto mais
Bonita, era o que eu dizia!
E desde então imagino
Que mais linda te acharia,

Mais fresca, mais desejável
Mais tudo enfim, se algum dia
— Dia ou noite que marcasses —
Se algum dia me deixasses
Te ver de mais perto ainda!
1 299
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Nininha Nabuco

De Alvim e Melo Franco (Minas),
De Nabuco (Pernambuco)
Deus, tomando o melhor suco,
Formou — inveja das meninas,
Inveja delas e minha —
Maria do Carmo Nabuco
(Nininha).
1 073
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Mônica Maria

Seu avô me disse:
— "Mônica Maria
É loura e graciosa".
Foi como se a visse...
Pois de fato a via.
Mais lírio que rosa,
Melhor — madressilva,
Flor de minha infância
— Tamanha distância!
Como na Bahia
Mônica Maria
Pereira da Silva
Overbeck.
1 017
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Francisca

Francisca, Chica, Chiquita,
Qualquer petit nom que tome,
Quero que seja bonita
Como é bonito o seu nome!
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Sara

Sara de olhar meigo e bom,
Sara de voz meiga e rara,
Sara, discípula cara,
Sara, rosa de Saron.
1 228
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Leda Letícia

Leda Letícia, delícia
Dos olhos de quem a vê,
Triste de quem não a vê,
Pois não sabe o que é a delícia
Maior dos olhos, Letícia!
— Um beijo para você.
865
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Urânia Maria

Urânia junto a Maria:
Não há nome mais bonito:
A Musa da Astronomia
Junto à Mãe de Deus: Em ti
Se vê, Urânia Maria,
Unir-se um a outro infinito,
O mito à sabedoria,
A vida ao seu outro lado,
Ou seja, tudo abreviado
Num dissílabo — Teti.
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