Trabalho e Profissão

Poemas neste tema

Miriam Paglia Costa

Miriam Paglia Costa

A Canção dos Insetos

brilha
a redação
eternidade de néon
aprisionados entre cimento e vidro
escrevemos sobre o mundo que anoitece
nada se vê pelas janelas
só reflexo de nossas caras amarelas
jornalistas no aquário
lá longe, tão depressa
nas escadas do teatro
um mendigo troca andrajos
encerra o ato
sem vaia nem aplauso pega o troco
exit
769
Hugo Pires

Hugo Pires

Milénio

Por dois mil calhaus subi,
Tropeçando nas suas arestas áridas.

Dois mil socalcos escavei,
Rasgando a terra com as minhas mãos.

Duas mil videiras plantei,
Regando seus pés com a minha esperança.

Dois mil frutos colhi,
E de seu sumo vinho fiz,
E em dois mil litros de desilusão,
Mergulhei enfim sem salvação.

1 023
Bocage

Bocage

Arrimado às duas portas

Arrimado às duas portas
Pingue boticário estava,
E brandamente acenou
A um doutor que passava.

Mal que chega o bom Galeno,
Diz o outro com ar jocundo:
"Unamo-nos, meu doutor,
E demos cabo do Mundo!"

1 699
Batista de Lima

Batista de Lima

O Doce de Vitalina

Vitalina faz cocada
com mais alma do que coco

Uma semana de criação
onde leite açúcar e coco
não têm importância
como não têm importância
tição fogo e brasa

O mais importante
é que Vitalina
se ponha no caco
e vá na cocada
e que o sétimo dia
seja para descanso
como fez Deus na criação

966
Bocage

Bocage

A um mau médico

Doutor, até do hospital
Te sacode enfermo bando.
Qual será disto a causal?
É porque, em tu receitando,
Qualquer doença é mortal.

2 320
Micheliny Verunschk

Micheliny Verunschk

Feira

Me comove o apurado capricho
Dos meninos carroceiros da feira:
Arrumam da melhor maneira
A mercadoria nas suas
Mais possantes carroças.

985
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Mãos

As mãos não falam
por si,
mas pelos gestos;

mãos que trabalham,
tecem sonhos,
acariciam,
se perdem na volúpia
de construir caminhos.

As mãos não falam
por si
e Porfírio assim o sabe;
suas mãos falam da seca
que enrustece a vida,

aridez de sentimentos
a povoar o mundo

Suas mãos desenham gestos,
perdidas na aridez do mundo.

941
Micheliny Verunschk

Micheliny Verunschk

Cartório do 2º Ofício

Cato os minutos,
Grãos de milho
Caídos na música
Datilográfica
Do relógio velho
Da parede;
Sementes loiras
De tão sonífera
Claridade
Que só os posso
Contemplar
Com os olhos
Semicerrados;
Óvulos de pó
Que ajunto
No bojo do avental
Para tentar
Saciar a fome
Desse galo voraz,
Desse expediente infindo.

971
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Lavra Dor

O lavrador
lavra a terra,
como quem gera
um filho.

A semente é o sêmen
fértil nascente,
que logo frutifica
e gera novos filhos.

O lavra dor
lavra a terra,
gera os filhos
e frutifica

E vive a paixão eterna
do pai pelo filho . . .

1 035
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Perda

Tolos dormiam
quando trouxeram
a notícia
"Sebastião perdera a vida"

Itinerário interrompido
O sexo interrompido
O salário inerrompido
(salário família)
que em vida lhe servira
para saldar as dívidas.
Agora choram a perda
do bastião da Nhá Maria
que parte deixando filhos,
dívidas e um salário
"FAMÍLIA"

718
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Primeira Vez

Um dia João
resolveu sair
do seu silêncio

e em frente à fábrica
pôs-se a recitar poesias

era hora do almoço . . .
barriga vazia
Todos olhavam-no
admirados

negavam-se a acreditar
que aquele fosse
"o joão de todos os dias"

Foi alvo das atenções
pela primeira vez na vida

883
Maria Aparecida Reis Araújo

Maria Aparecida Reis Araújo

Rotina

Na rotina das noites o inverno da flor
oxida maxilares do tempo.

Sigilo de areia entranhada
no suor da lida.

Circuito das horas em roteiros de âncoras
rompe silêncios de aridez e púrpura.

892
Laura Amélia Damous

Laura Amélia Damous

São Luís

Cidade
cujas noites enxugam o suor
da desumana lida
que me obriga a maldizer
de ti
Não fosse esse teu céu
onde estrelas brincam
de se tornarem humanas
de tão perto que ficam destas mãos
eu viajaria de ti

939
Heitor C. Gonçalves

Heitor C. Gonçalves

Menestréis

Quão enfadonho
Seria
Todo o trabalho
Da formiga
Não fosse
O canto
da cigarra

826
Francisco Handa

Francisco Handa

Outono

Imenso cerrado
pálido milharal ao vento.
Um trator vermelho.

932
Fernando Batinga de Mendonça

Fernando Batinga de Mendonça

Poema do Homem Latino-Americano

Para Diego de Rivera,


em cima dos ombros
tens uma pedra:
pedra sem rosto
enorme incerta.

teu corpo de fome
de ossos de pele
trabalha na mina
na lavra da terra.

estendes as mãos
sem forma incertas
nos calos nos cortes
nos dedos nos ferros.

um corpo de fome
vestido de pele
carregas as mãos
um rosto de pedra.
1 094
Douglas Eden Brotto

Douglas Eden Brotto

Primavera

No galpão, o ferreiro
descansa ao malho, ao canto,
rival, da araponga!...

Penumbra nos bosques
onde escachoam os riachos...
Ah... a primavera...

983
Carlos Augusto Corrêa

Carlos Augusto Corrêa

Canção do Stress

enxergar a própria pupila
mascar submissão e gosma
ver o ralo, o passado de farpas
uma rosa de arame, o verso rompido
que mais?

depois calar, dormir, voltar
pôr joana no auge enquanto joão se acaba
e inchar no ônibus, minguar na sala
andar de frente, atrás
dos que no olvido expelem a canção do stress

é a lida

923
Antônio Massa

Antônio Massa

Vestíbulo

Urram os relógios
mais uma hora se passou
e eu agrilhoado
aos papéis independentes
pendentes
na dependência social

Urram os relógios
mais uma hora se passou
eu em vestíbulo
sem alcançar a porta principal
ou mesmo a escada interior

Urram os relógios
mais uma hora se passou
e eu aqui
atado
cavalo preso nas rédeas do papel

852
Lope de Vega

Lope de Vega

CANTAR DE CEIFA

CANTAR DE CEIFA

Tão branca tanto que eu era,
quando entrei para ceifeira;
deu-me o sol, fiquei morena.

Tão branca soía eu ser
antes de vir a ceifar,
mas não quis o sol deixar
branco o fogo em meu poder.
No tempo do amanhecer
era eu brilhante açucena:
deu-me o sol, fiquei morena.

1 218
Alfred Edward Housman

Alfred Edward Housman

EPITÁFIO PARA UM EXÉRCITO DE MERCENÁRIOS

Estes, no dia em qual o céu tombava,
E os pedestais do mundo se perderam,
O serem mercenários os chamava,
Receberam seus soldos e morreram.

Por seus ombros, os céus se suspendiam;
Firmes, e firme o pedestral inteiro;
Quão Deus abandonava, defendiam-
E salvaram as Coisas por dinheiro.

1 369
Levi Bucalem Ferrari

Levi Bucalem Ferrari

Centro expandido

no prédio in da faria lima
a senhora orienta a decoração do escritório
o executivo olha a secretária
como se pedisse desculpas
um office boy excitado
hesita
entre um par de coxas jovens e um decote finamente decorado

os ônibus transportam bundas discretamente acessíveis

909
Jorge Melícias

Jorge Melícias

Roda em torno o bafo do nome,

e o homem está como um fole a prumo

sob o arco da língua.

Outras vezes é uma vara fincada

ao centro.

Abre a ideia,

sustenta o fogo nas mãos,

arde ao meio como um ofício puro.

de A Luz nos Pulmões(2000)

829
João Gulart de Souza Gomos

João Gulart de Souza Gomos

calvário

manhãzinha cedo
o sol suspenso a baixo
homens num jogo-de-pedras
disputando o seu sudário
mastigados pelas folhas
e socados pelos pés;
arremedos de salário
diabolôs sem barbante
cedo ainda cedo ainda tarde

Goulart Gomes, Salvador, BA

947