Sonhos e Imaginação

Poemas neste tema

Maria Fernanda Mendonça Costa

Maria Fernanda Mendonça Costa

Casa mal-assombrada

Eu vi
Monstros, morcegos e vampiros!
Lá tem um
velho vampiro
e sua mulher.
Bem de noite
ouvi um choro
e me levantei
Percebi que era um
nenê: a vampira teve bebê

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Hélio Pellegrino

Hélio Pellegrino

La Vida es Sueño

A pedra
a pedra como o fogo
com suas resinas e ramas
a pedra como o fogo
é um sonho
de pálpebras abertas.

O sonho é quando
no veludo íntimo da noite
fogo e pedra se sonham:

— as pálpebras cerradas.

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Fernanda Botelho

Fernanda Botelho

Legenda

Como quem sente
na legenda do presente
o fim duma história breve,
vou vivendo um sonho intacto
num pesadelo crescente
— uma luz fecunda e leve
nos olhos pardos dum gato.

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Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

O Avião

Levanta vôo,
corta o espaço
o enorme pássaro.

Arroja-se longe
e rastro deixa
— novelos brancos
que se entrelaçam
e se desenrolam,
escrevendo no ar
letras de silêncio.

Seu corpo brilha,
sobrepaira e desaparece
na nuvem branca
estendida como um véu.

— Se eu fosse o piloto
desse avião
ia aterrissar no céu.

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Deborah Brennand

Deborah Brennand

Abril

Quem me dera voltar
ao primeiro jardim!
Conduzida por leões
mansos leões em volta
indo e vindo sem as patas
esmagarem as madressilvas.

Depois,

recostada em tronco antigo
da árvore que não existe,
ficar alheia. Esquecida,
até as estrelas surgirem
tal um enxame de abelhas
douradas, picando a sombra.

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Julieta Lima

Julieta Lima

Ninguém vai saber

Ninguém vai saber
Do meu segredo.
Tenho um amante
Belo como Deus
E todo nu
Aqui deitado ao meu lado!
Seus beijos são azuis
E a sua voz vermelha como o lume!
Tenho um amante só meu
E ninguém vai saber,
Ninguém mo vai roubar,
Porque ele é meu, só meu:
É feito de poemas e de fumo...

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Helga Holtz

Helga Holtz

Transmigração

Basta sentir o peso do calor,
a voz rude dos que dominam,
o odor indisfarçável do real,
logo um sonho me transpõe,
busca teu sono para se acudir
e te fazer sonhar, transmigrar,
manchar com a fé nossa cama,
sensual castelo, firme, irreal.

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ouço sem ver, e assim, entre o arvoredo,

Ouço sem ver, e assim, entre o arvoredo,
Vejo ninfas e faunos entremear
As árvores que fazem sombra ou medo
E os ramos que sussurram de eu olhar.

Mas que foi que passou? Ninguém o sabe.
Desperto, e ouço bater o coração –
Aquele coração em que não cabe
O que fica da perda da ilusão.
Eu quem sou, que não sou meu coração?


24/09/1932
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Dormi. Sonhei. No informe labirinto

Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
Com exacta memória não o sinto.

Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.
A vasta teia, estive-a e não a vi.
Obscuramente me desconcebi.


07/07/1930
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Treme em luz a água.

Treme em luz a água
Mal vejo. Parece
Que uma alheia mágoa
Na minha alma desce –

Mágoa erma de alguém
De algum outro mundo
Onde a dor é um bem
E o amor é profundo,

E só punge ver,
Ao longe, iludida,
A vida a morrer
O sonho da vida.


(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
4 640 1
Rui Costa

Rui Costa

breve ensaio sobre a potência 2

água sobre a mão quando o
sono se deita, um vértice de
pedra subindo entre o caule
da sombra e a propagação do
medo. a luz provoca a primeira
nostalgia, o íncubo que dispara
como um halo que espera.

557
Rui Costa

Rui Costa

breve ensaio sobre a potência 3

3
nenhum homem que atravesse
o eixo mais ao centro. a espuma
produz-se onde a saudade é uma
cabeça filtrada pela desgraça.
formam-se ideias na direção da
cor: os peixes acreditam que o
sal é uma excrescência da luz.

460
Amália Bautista

Amália Bautista

Dream a little dream of me

Convida-me para o teu sonho,
deixa-me partilhar esse filme
onde o tempo é disforme e o desejo se cumpre.
Sonha um pouco comigo e eu prometo
ser a mulher perfeita
para ti, enquanto viveres de olhos fechados.
Hei-de beijar-te com lábios de cereja,
misturar sabiamente paixão e ternura
e quando vier a aurora partirei sem fazer barulho.
 

24
Amália Bautista

Amália Bautista

Em dieta

Deitei-me sem jantar e nessa noite
sonhei que te comia o coração.
Deveria ser por causa da fome.
Enquanto eu devorava aquela fruta,
que era doce e amarga ao mesmo tempo,
tu beijavas-me com os lábios frios,
mais frios e mais pálidos do que nunca.
Deveria ser por causa da morte.

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Josely Vianna Baptista

Josely Vianna Baptista

RIVUS

A água mede o tempo em reflexos vítreos. Mudez
de clepsidras, no sobrecéu ascendem (como anjos suspensos
numa casa barroca), e em presença de ausências o tempo
se distende. Uns seios de perfil, sono embalando
a rede, campânula encurvada pelas águas da chuva. 

No horizonte invisível, dobras de anamorfoses;
sombras que se insinuam, a matéria mental.
548
Fernando Fitas

Fernando Fitas

Os inquisidores silêncios

Os inquisidores silêncios
emergem
do mais fundo
como duas lâminas
dilacerando o tempo

Limitando o espaço
só o sonho
resta.
559
Sérgio Medeiros

Sérgio Medeiros

O décimo sexto

Baratas translúcidas, diminutas
Muito velozes, dispersam-se
Caem como chuva fina

O décimo sexto limpa os ombros, sorrindo
Pesca, em pé no lago
Na água, os peixes têm a testa inchada
654
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

POEMA

eu sei
que há um lugar por descobrir
um lugar tenebroso e cantante
como a ponte dos velhos manequins


o teu corpo
dois seios despedaçados
e o vento só o vento
soprado através
dos teus cabelos

971
Renato Rezende

Renato Rezende

Os Anjos

Um anjo desce e estende
o pequeno braço branco para mim:
--- Venha comigo
passar dez minutos no paraíso.

--- Não, eu digo,
não sou desses que têm tempo
para passear no paraíso.

Mas o anjo é misericordioso.
Sem perceber cochilo,
e por dez minutos sonho
com todas as cores do paraíso.


Boston, maio 1991
1 012
Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

VIAGEM NOCTURNA

Fervilha sob os nossos pés. Os comboios partem.
O hotel “ Astoria “estremece.
Um copo de água ao lado da cama
brilha nos Túneis.

Ele sonhou que estava preso em Salvbard.
O planeta girou com rancor.
Olhos brilhantes caminhavam sobre o gelo.
A beleza da ferida estava ali.
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Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

A BELA E A FERA I

Em cruzar
a sala zumbindo
sua navalha o besouro-ébano espanta

o piano que se ergue atrapalhado,
plantado na ponta das
patas

sem poder,
do chão, tocar o ouro
absoluto da negra couraça que inseta

o ar ali com sua canção. E o pobre
Steinway supõe ser
a nave

um
sinal, um
seu semelhante, um filho talvez.
588
Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

A BELA E A FERA II

Em cruzar a sala zumbindo o ouro negro
de sua couraça
o besouro

absoluto
ébano espanta
o piano que, plantado no chão, ergue-se

atrapalhado na ponta das patas sem poder
tocar a nave que
navalha

o ar
com sua canção-verniz. E
o pobre Steinway supõe ser o inseto

ali um sinal, um seu semelhante,
talvez um
filho.
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José Paulo Paes

José Paulo Paes

Outro Retrato

O laço de fita
que prende os cabelos
da moça do retrato
mais parece uma borboleta.

Um ventinho qualquer
e sai voando
rumo a outra vida
além do retrato.

Uma vida onde os maridos
nunca chegam tarde
com um gosto amargo
na boca.
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José Paulo Paes

José Paulo Paes

À TINTA DE ESCREVER

Ao teu azul fidalgo mortifica
registrar a notícia, escrever
o bilhete, assinar a promissória
esses filhos do momento. Sonhos
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