Solidão

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Intervalo I

Eu só quero silêncio neste porto
Do mar vermelho, do mar morto

Perdida, baloiçar
No ritmo das águas cheias

Quero ficar sozinha neste espanto
Dum tempo que perdeu a sua forma

Quero ficar sozinha nesta tarde
Em que as árvores verdes me abandonam.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ix. Como É Estranha a Minha Liberdade

Como é estranha a minha liberdade
As coisas deixam-me passar
Abrem alas de vazio pra que eu passe
Como é estranho viver sem alimento
Sem que nada em nós precise ou gaste
Como é estranho não saber
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Há no firmamento

Há no firmamento
Um frio lunar.
Um vento nevoento
Vem de ver o mar.

Quase maresia
A hora interroga,
E uma angústia fria
Indistinta voga.

Não sei o que faça,
Não sei o que penso,
O frio não passa
E o tédio é imenso.

Não tenho sentido,
Alma ou intenção...
Estou no meu olvido...
Dorme, coração...


11/03/1917
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Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Ah, falemos da brisa

Eu dizia:
"Nenhuma brisa é triste"
e procurava água,lábios,
um corpo
onde a solidão fosse impossível.
 
Mas quem sabe dessa música
cativa nos meus dedos?
E depois, como guardar um beijo.
mar doirado ou sombra
desolada?
 
Recordava um rio,
álamos,
o sabor nupcial da chuva,
tropeçava em lágrimas e soluços
e lágrimas, e procurava.
 
Como quem se despe
para amar a madrugada nas areias,
eu dizia: " Nenhuma brisa é triste,
triste", e procurava.
 
E procurava.
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Stela do Patrocínio

Stela do Patrocínio

Olha quantos estão comigo

olha quantos estão comigo
estão sozinhos
estão fingindo que estão sozinhos
pra poder estar comigo
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Daniel Faria

Daniel Faria

Caminho sem pés e sem sonhos

Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.

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Alexandre Dáskalos

Alexandre Dáskalos

Só me restam

e agora só me restam
os poetas gregos.
O silêncio diz - esquece.
E o espinho da rosa enterrado no peito
é meu.

Os deuses não assistiram a isto.
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Antoniella Devanier

Antoniella Devanier

Pedidos do corpo

O corpo pede um drink:
pode ser martini
Na manhã que chega,
estranha e solitária,
sou mulher também.
Mas, ontem à noite,
o corpo pediu um toque
da língua, nos gelos
que estavam
perdidos no copo.

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Judith Teixeira

Judith Teixeira

Ninguém

Embriaguei-me
num doido desejo
E adoeci de saudade.
Caí no vago ... no indeciso
Não me encontro, não me vejo -
Perscruto a imensidade

E fico a tactear na escuridão
Ninguém. Ninguém
Nem eu, tão pouco!

Encontro apenas
o tumultuar dum coração
aprisionado dentro do meu peito
aos saltos como um louco.

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Maria Dinorah

Maria Dinorah

Haicai

Coração vazio!
Amarrando o quase e o quando
numa pipa sem fio!

Hoje, sem razão,
no espaço do meu abraço
novo diapasão.

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Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

O Fim da Meia-Noite

É fim de noite
Não fim de tarde
É fim, de noite
Que dentro arde
É meia-noite
Não meia verdade

É meia-noite
Falta uma metade
Pague a conta
Já é tarde
Não é faz-de-conta
O que me invade

É fim de noite
E o meu pranto
Sem validade
É meia-noite
A quebrar o encanto
Do cair da tarde

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Alexandre O'Neill

Alexandre O'Neill

O enforcado

No gesto suspensivo de um sobreiro,
o enforcado.

Badalo que ninguém ouve,
espantalho que ninguém vê,
suas botas recusam o chão que o rejeitou.

Dele sobra o cajado.

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Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Mulheres de preto

Há muito que são velhas, vestidas
de preto até à alma.

Contra o muro
defendem-se do sol de pedra;
ao lume
furtam-se ao frio do mundo.

Ainda têm nome? Ninguém
pergunta, ninguém responde.

A língua, pedra também.


de Rente ao Dizer
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Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

O muro é branco

O muro é branco
e bruscamente
sobre o branco do muro cai a noite.
Há uma cavalo próximo do silêncio,
uma pedra fria sobre a boca,
pedra cega de sono.
Amar-te-ia se viesses agora
ou inclinasses
o teu rosto sobre o meu tão puro
e tão perdido,
ó vida.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Náusea. Vontade de nada.

Náusea. Vontade de nada.
Existir por não morrer.
Como as casas têm fachada,
Tenho este modo de ser.

Náusea. Vontade de nada.
Sento-me à beira da estrada.
Cansado já do caminho
Passo pra o lugar vizinho.

Mais náusea. Nada me pesa
Senão a vontade presa
Do que deixei de pensar
Como quem fica a olhar...


08-12/12/1933
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Se estou só, quero não estar,

Se estou só, quero não star,
Se não stou, quero star só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou.

Ser feliz é ser aquele.
E aquele não é feliz,
Porque pensa dentro dele
E não dentro do que eu quis.

A gente faz o que quer
Daquilo que não é nada,
Mas falha se o não fizer,
Fica perdido na estrada.


02/07/1931
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Rainer Maria Rilke

Rainer Maria Rilke

O Poeta

Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: que fazer da boca, agora?
Que fazer do dia, da noite?

Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quem bate à minha porta

Quem bate à minha porta
Tão insistentemente
Saberá que está morta
A alma que em mim sente?

Saberá que eu a velo
Desde que a noite é entrada
Com o vácuo e vão desvelo
De quem não vela nada?

Saberá que estou surdo?
Porque o sabe ou não sabe,
E assim bate, ermo e absurdo,
Até que o mundo acabe?


23/05/1932
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Mário Cesariny

Mário Cesariny

radiograma

Alegre triste meigo feroz bêbedo
lúcido
no meio do mar

Claro obscuro novo velhíssimo obsceno
puro
no meio do mar

Nado-morto às quatro morto a nada às cinco
encontrado perdido
no meio do mar
no meio do mar

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Vento

O vento sopra contra
As janelas fechadas

Na planície imensa
Na planície absorta
Na planície que está morta,

E os cabelos do ar ondulam loucos

Tão compridos que dão a volta ao mundo.
Sento-me ao lado das coisas
E bordo toda a noite a minha vida

Aqueles dias tecidos
Que tinham um ar de fantasia
Quando vieram brincar dentro de mim.

E o vento contra as janelas
Faz-me pensar que eu talvez seja um pássaro.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Epigrama Para Emílio Moura

Tristeza de ver a tarde cair
como cai uma folha.
(No Brasil não há outono
mas as folhas caem.)

Tristeza de comprar um beijo
como quem compra jornal.
Os que amam sem amor
não terão o reino dos céus.

Tristeza de guardar um segredo
que todos sabem
e não contar a ninguém
(que esta vida não presta)
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Pra Minha Imperfeição Está Suspenso

Pra minha imperfeição está suspenso
Em cada flor da terra um tédio imenso.

Todo o milagre, toda a maravilha
Torna mais funda a minha solidão.
E todo o esplendor pra mim é vão,
Pois não sou perfeição nem maravilha.

As flores, as manhãs, o vento, o mar
Não podem embalar a minha vida.
Imperfeita não posso comungar
Na perfeição aos deuses oferecida.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vi. a Solidão

A noite abre os seus ângulos de lua
E em todas as paredes te procuro

A noite ergue as suas esquinas azuis
E em todas as esquinas te procuro

A noite abre as suas praças solitárias
E em todas as solidões eu te procuro

Ao longo do rio a noite acende as suas luzes
Roxas verdes azuis.

Eu te procuro.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Catilina

Eu sou o solitário e nunca minto.
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto.

De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu — coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto.

Sou a seta lançada em pleno espaço
E tenho de cumprir o meu impulso,
Sou aquele que venho e logo passo.

E o coração batendo no meu pulso
Despedaçou a forma do meu braço
Pr’além do nó de angústia mais convulso.
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