Serenidade e Paz Interior
Poemas neste tema
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Anjo
O Anjo que em meu redor passa e me espia
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.
Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que feroz comigo luta,
Ele que me entregara à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.
E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
E o meu ser liberto enfim florisse,
E um perfeito silêncio me embalasse.
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.
Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que feroz comigo luta,
Ele que me entregara à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.
E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
E o meu ser liberto enfim florisse,
E um perfeito silêncio me embalasse.
4 102
1
Manuel António Pina
É apenas um pouco tarde
Ainda não é o fim
nem o princípio do mundo
calma
é apenas um pouco tarde
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 7 (escrito em 1969) | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 7 (escrito em 1969) | Assírio & Alvim, 2012
5 899
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Madrugada
Um leve tremor precede a madrugada
Quando mar e céu na mesma cor se azulam
E são mais claras as luzes dos barcos pescadores
E para além de insânias e rumores
A nossa vida se vê extasiada
Quando mar e céu na mesma cor se azulam
E são mais claras as luzes dos barcos pescadores
E para além de insânias e rumores
A nossa vida se vê extasiada
2 890
1
Fernando Pessoa
Quando cantas, disfarçando
Quando cantas, disfarçando
Com a cantiga o cantar,
Parece o vento mais brando
Nesta brandura do ar.
Com a cantiga o cantar,
Parece o vento mais brando
Nesta brandura do ar.
1 419
1
Fernando Pessoa
Nada: o mar dorme…
Nada: o mar dorme...
Dorme na mansa
Macieza informe
Do que descansa,
No mar se move,
No mar se doma
A mágoa que houve
Na sombra e aroma
Dorme na mansa
Macieza informe
Do que descansa,
No mar se move,
No mar se doma
A mágoa que houve
Na sombra e aroma
1 504
1
Mário Dionísio
Saber apagar e apagar-se
Saber apagar e apagar-se
penosa necessidade
Acender o cachimbo lentamente
fingir que não se ouve não se sente
Em silêncio dizer com os olhos muito longe
Felicidade felicidade
penosa necessidade
Acender o cachimbo lentamente
fingir que não se ouve não se sente
Em silêncio dizer com os olhos muito longe
Felicidade felicidade
1 564
1
Ana C. Pozza
Lua alta
Lua alta
E por trás
De tantas nuvens
Brilham estrelas...
Aqui,
Por trás desta neblina,
Brilho também...
Sozinha
E acompanhada
De mim
E de mais ninguém...
Não direi mais nada
É o silêncio que mais convém...
Agradecida,
A Lua
Sussurra:
Amém...
E por trás
De tantas nuvens
Brilham estrelas...
Aqui,
Por trás desta neblina,
Brilho também...
Sozinha
E acompanhada
De mim
E de mais ninguém...
Não direi mais nada
É o silêncio que mais convém...
Agradecida,
A Lua
Sussurra:
Amém...
1 062
1
Angela Melim
Um navio
"Quanta paz aqui em baixo, na raiz do mundo...”
(V. Woolf)
A solidão é um navio.
Só o que me move é a pá da solidão
o leme.
Se não gozo
suspiro
cristas suspensas
pedras de sal
fiapos de mar –
a maior boca
a mais
voraz.
Mas no seu fundo longínquo
âncora
os leitos de areia e seus lençóis limpíssimos
os peixes cegos
a paz.
(V. Woolf)
A solidão é um navio.
Só o que me move é a pá da solidão
o leme.
Se não gozo
suspiro
cristas suspensas
pedras de sal
fiapos de mar –
a maior boca
a mais
voraz.
Mas no seu fundo longínquo
âncora
os leitos de areia e seus lençóis limpíssimos
os peixes cegos
a paz.
1 132
1
Reinaldo Ferreira
Um sossego mais largo
Um sossego mais largo
Que o esquecimento dos homens
Me seja a morte
Como um veleiro abandonado
No silêncio do mar;
Como, antes do Tempo,
Como, depois do Tempo,
O não haver ninguém para o contar
Como não ter existido
Me seja a morte!
Mas não já
Que o esquecimento dos homens
Me seja a morte
Como um veleiro abandonado
No silêncio do mar;
Como, antes do Tempo,
Como, depois do Tempo,
O não haver ninguém para o contar
Como não ter existido
Me seja a morte!
Mas não já
1 937
1
Marly Vasconcelos
Silêncio
Atenta para a água que ressoa nos aquários,
o caminhar de passos harmoniosos,
pálpebras que baixam lentamente.
Tudo prenuncia o silêncio.
o caminhar de passos harmoniosos,
pálpebras que baixam lentamente.
Tudo prenuncia o silêncio.
971
1
Marta Gonçalves
Escurecer o Quarto
Quero fechar as janelas, estancar o vento,
esconder o sol em anéis de nuvens cinza
escurecer paredes onde mora o corpo.
Anoitecer a respiração dos móveis
guardar os relógios no mar.
- Meu espírito precisa de silêncio -
esconder o sol em anéis de nuvens cinza
escurecer paredes onde mora o corpo.
Anoitecer a respiração dos móveis
guardar os relógios no mar.
- Meu espírito precisa de silêncio -
1 099
1
Hélio Pellegrino
Plenitude
A pedra, o vento, a luz alteada,
o salso mar eterno, o grito
do mergulhão, sob o infinito
azul:
— Deus não me deve nada.
o salso mar eterno, o grito
do mergulhão, sob o infinito
azul:
— Deus não me deve nada.
1 621
1
Deborah Brennand
Abril
Quem me dera voltar
ao primeiro jardim!
Conduzida por leões
mansos leões em volta
indo e vindo sem as patas
esmagarem as madressilvas.
Depois,
recostada em tronco antigo
da árvore que não existe,
ficar alheia. Esquecida,
até as estrelas surgirem
tal um enxame de abelhas
douradas, picando a sombra.
ao primeiro jardim!
Conduzida por leões
mansos leões em volta
indo e vindo sem as patas
esmagarem as madressilvas.
Depois,
recostada em tronco antigo
da árvore que não existe,
ficar alheia. Esquecida,
até as estrelas surgirem
tal um enxame de abelhas
douradas, picando a sombra.
1 097
1
Deborah Goulart Visnadi
Barquinho de Papel
Vela azul da cor do céu,
Vou com você velejar.
Sentir a brisa branda,
E sobre as ondas bailar!
A gaivota, ouvir cantar,
Depois, na areia ardente,
Entre as conchinhas do mar,
Parar muda, indiferente,
Para um descansar !
Vou com você velejar.
Sentir a brisa branda,
E sobre as ondas bailar!
A gaivota, ouvir cantar,
Depois, na areia ardente,
Entre as conchinhas do mar,
Parar muda, indiferente,
Para um descansar !
3 028
1
Carlos Saraiva Pinto
as coisas complexas
são inimigas de Deus
torna-me pois simples
como os bois e os cavalos
que no abandono da névoa
das montanhas são almas
que cumprem
dolorosas promessas a santuários
que estão para além do mundo.
de Escrever Foi um Engano(2000)
torna-me pois simples
como os bois e os cavalos
que no abandono da névoa
das montanhas são almas
que cumprem
dolorosas promessas a santuários
que estão para além do mundo.
de Escrever Foi um Engano(2000)
1 419
1
Fernando Pessoa
Gradual, desde que o calor
Gradual, desde que o calor
Teve medo,
A brisa ganhou alma, à flor
Do arvoredo.
Primeiro, os ramos ajeitaram
As folhas que há,
Depois, cinzentas, oscilaram,
E depois já
Toda a árvore era um movimento
E o fresco viera.
Medita sem ter pensamento!
Ignora e spera!
31/08/1930
Teve medo,
A brisa ganhou alma, à flor
Do arvoredo.
Primeiro, os ramos ajeitaram
As folhas que há,
Depois, cinzentas, oscilaram,
E depois já
Toda a árvore era um movimento
E o fresco viera.
Medita sem ter pensamento!
Ignora e spera!
31/08/1930
4 430
1
Fernando Pessoa
O grande sol na eira
O grande sol na eira
Talvez seja o remédio...
Não quero quem me queira,
Amarem-me faz tédio.
Baste-me o beijo intacto
Que a luz dá a luzir
E o amor alheio e abstracto
De campos a florir.
O resto é gente e alma:
Complica, fala, vê.
Tira-me o sonho e a calma
E nunca é o que é.
21/08/1930
Talvez seja o remédio...
Não quero quem me queira,
Amarem-me faz tédio.
Baste-me o beijo intacto
Que a luz dá a luzir
E o amor alheio e abstracto
De campos a florir.
O resto é gente e alma:
Complica, fala, vê.
Tira-me o sonho e a calma
E nunca é o que é.
21/08/1930
4 437
1
Fernando Pessoa
Se eu me sentir sono,
Se eu sentir sono,
E quiser dormir,
Naquele abandono
Que é o não sentir,
Quero que aconteça
Quando eu estiver
Pousando a cabeça,
Não num chão qualquer,
Mas onde sob ramos
Uma árvore faz
A sombra em que bebamos,
A sombra da paz.
20/04/1934
E quiser dormir,
Naquele abandono
Que é o não sentir,
Quero que aconteça
Quando eu estiver
Pousando a cabeça,
Não num chão qualquer,
Mas onde sob ramos
Uma árvore faz
A sombra em que bebamos,
A sombra da paz.
20/04/1934
4 053
1
Fernando Pessoa
Parece que estou sossegando
Parece que estou sossegando
Estarei talvez para morrer.
Há um cansaço novo e brando
De tudo quanto quis querer.
Há uma surpresa de me achar
Tão conformado com sentir.
Súbito vejo um rio
Entre arvoredo a luzir.
17/03/1929
Estarei talvez para morrer.
Há um cansaço novo e brando
De tudo quanto quis querer.
Há uma surpresa de me achar
Tão conformado com sentir.
Súbito vejo um rio
Entre arvoredo a luzir.
17/03/1929
4 690
1
Fernando Pessoa
Sereno aguarda o fim que pouco tarda.
Sereno aguarda o fim que pouco tarda.
Que é qualquer vida? Breves sóis e sono.
Quanto pensas emprega
Em não muito pensares.
Ao nauta o mar obscuro é a rota clara.
Tu, na confusa solidão da vida,
A ti mesmo te elege
(Não sabes de outro) o porto.
31/07/1932
Que é qualquer vida? Breves sóis e sono.
Quanto pensas emprega
Em não muito pensares.
Ao nauta o mar obscuro é a rota clara.
Tu, na confusa solidão da vida,
A ti mesmo te elege
(Não sabes de outro) o porto.
31/07/1932
2 706
1
Fernando Pessoa
Vive sem horas. Quanto mede pesa,
Vive sem horas. Quanto mede pesa,
E quanto pensas mede.
Num fluido incerto nexo, como o rio
Cujas ondas são ele,
Assim teus dias vê, e se te vires
Passar, como a outrem, cala.
08/09/1932
E quanto pensas mede.
Num fluido incerto nexo, como o rio
Cujas ondas são ele,
Assim teus dias vê, e se te vires
Passar, como a outrem, cala.
08/09/1932
3 076
1
Fernando Pessoa
Ao longe os montes têm neve ao sol,
Ao longe os montes têm neve ao sol,
Mas é suave já o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.
Hoje, Neera, não nos escondamos,
Nada nos falta, porque nada somos.
Não esperamos nada
E temos frio ao sol.
Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente,
E aguardando a morte
Como quem a conhece.
Mas é suave já o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.
Hoje, Neera, não nos escondamos,
Nada nos falta, porque nada somos.
Não esperamos nada
E temos frio ao sol.
Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente,
E aguardando a morte
Como quem a conhece.
3 741
1
Fernando Fitas
Crepúsculo
Crepúsculo
Os pássaros em bando
pousavam no arvoredo
cansados do céu.
Incendiava-se
a lenha na lareira.
A noite
vestia devagar
a vastidão dos campos.
Os pássaros em bando
pousavam no arvoredo
cansados do céu.
Incendiava-se
a lenha na lareira.
A noite
vestia devagar
a vastidão dos campos.
680
Renato Rezende
Os Anjos
Um anjo desce e estende
o pequeno braço branco para mim:
--- Venha comigo
passar dez minutos no paraíso.
--- Não, eu digo,
não sou desses que têm tempo
para passear no paraíso.
Mas o anjo é misericordioso.
Sem perceber cochilo,
e por dez minutos sonho
com todas as cores do paraíso.
Boston, maio 1991
o pequeno braço branco para mim:
--- Venha comigo
passar dez minutos no paraíso.
--- Não, eu digo,
não sou desses que têm tempo
para passear no paraíso.
Mas o anjo é misericordioso.
Sem perceber cochilo,
e por dez minutos sonho
com todas as cores do paraíso.
Boston, maio 1991
1 012
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