Separação e fim de relação

Poemas neste tema

Martha Medeiros

Martha Medeiros

jantamos, recolhemos a louça

jantamos, recolhemos a louça
desta vez não brindamos
não houve conhaque ou licor
nem beijo de boa noite nem amor
hoje é domingo
mas amanheceu segunda-feira pra nós dois
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Martha Medeiros

Martha Medeiros

você teria ido sem mim

você teria ido sem mim
mesmo que eu não me atrasasse


você teria dito tudo aquilo
mesmo que eu não te ofendesse


você teria me deixado
mesmo que eu não propusesse


você faz tudo o que quer
mas sou eu que deixo tudo preparado
1 041
Martha Medeiros

Martha Medeiros

ficas mais distante, cada dia

ficas mais distante, cada dia
cada noite, mais ausente
mais idoso, cada mês
cada instante, mais alheio
cada beijo, mais decente
mais fumante, cada ano
cada encontro, mais estranho
mais sofrido, cada vez
mais dolorido, mais parente
menos meu
1 178
Martha Medeiros

Martha Medeiros

agora eu sei como se sente

agora eu sei como se sente
uma noiva abandonada no altar
você podia tudo na minha vida
menos faltar
1 054
Martha Medeiros

Martha Medeiros

por mim

por mim
essa nossa novela
já teria acabado
sem reprise no sábado
1 049
Martha Medeiros

Martha Medeiros

cozinha adentro entrei chorando

cozinha adentro entrei chorando
pia, panela, geladeira no canto
coentro, louro, noz moscada
desanimada fui fazer um molho branco
azeite, páprica, fermento
misturei lamento, sal e desespero
tempero, lágrima, pimenta
refoguei meu abandono em fogo brando
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Martha Medeiros

Martha Medeiros

ele odeia festas

ele odeia festas
eu adoro frutas
ele odeia figos
eu adoro frango
ele adora fiat
eu odeio fusca
eu odeio frades
eu adoro frascos
ele adora fêmeas
eu odeio fugas
ele adora frança
eu adoro londres
1 060
Martha Medeiros

Martha Medeiros

antes me adorava

antes me adorava
depois me suportou
antes de me enlouquecer
você voltou
depois de muito papo
antes de amanhecer
você me amou
depois de muitos beijos
durante a madrugada
antes do nada que ficou
1 006
Martha Medeiros

Martha Medeiros

tão profundamente triste

tão profundamente triste
fiquei depois daquele beijo
que já não era desejo e sim hábito
de todos os nossos encontros


era verão e eu não sabia
que certas coisas não têm fim
passei noites em claro procurando entender


o que enfim não se explica
chamam vida e é assim
984
Martha Medeiros

Martha Medeiros

revendo assim rapidamente

revendo assim rapidamente
nossa história inacabada
fica um mal-estar
uma coisa meio deprimente
parece que nada aconteceu
de importante
e no entanto foi bom pra nós dois
e antes do depois teve muito durante
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Martha Medeiros

Martha Medeiros

nós que nós amávamos tanto

nós que nós amávamos tanto
hoje estamos tão longe
sem rima, sem sono
nem lembro
de como eu te achava estranho
1 127
Martha Medeiros

Martha Medeiros

pensei que bastassem palavras

pensei que bastassem palavras
pra me fazer entender
que nada
às vezes minha voz parece dublada
eu digo uma coisa, ele entende outra
fica tudo sem começo nem fim
quem dera eu pudesse contratar um dublê
pra terminar certas cenas por mim
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Martha Medeiros

Martha Medeiros

passei tanto tempo procurando as palavras

passei tanto tempo procurando as palavras
que resumiriam nossa relação
mas tudo o que encontrei
foi pontuação
exclamações, interrogações, reticências
muita vírgula no lugar errado
tremas e acentos desatualizados
aspas que deixavam tudo formal
e um ponto final pra lá de precipitado
905
Martha Medeiros

Martha Medeiros

não faz diferença

não faz diferença
se você vem amanhã
ou não vem
desisti de esperar
por alguém
cuja ausência
me faz companhia
1 184
Martha Medeiros

Martha Medeiros

amor por correspondência

amor por correspondência
tem problema de fuso horário
ele me entende tarde demais
eu desisto dele muito cedo
1 102
Martha Medeiros

Martha Medeiros

o término da nossa relação

o término da nossa relação
foi pra mim um choque térmico
não senti mais teu calor
nunca te vi tão frio
930
Martha Medeiros

Martha Medeiros

foi então que ela viu no calendário

foi então que ela viu no calendário
um sofrimento diário
uma dor que tinha número
e uma aflição já havia um mês


foi então que resolveu queimá-lo
e trocá-lo por uma ampulheta
que baixa a dor mais rápido
e mata o amor de vez
1 056
Martha Medeiros

Martha Medeiros

bem que me avisaram

bem que me avisaram
ficarás sozinha e mal falada
dolorida e abandonada
à mercê dos tubarões


mas não pude resistir
foi mais forte os calafrios
agora a ver navios
nunca mais os garanhões
978
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Xiv. Através do Teu Coração Passou Um Barco

Através do teu coração passou um barco
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho
1982
1 360
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Eurydice Em Roma

Por entre clamor e vozes oiço atenta
A voz da flauta na penumbra fina

E ao longe sob a copa dos pinheiros
Com leves pés que nem as ervas dobram
Intensa absorta — sem se virar pra trás —
E já separada — Eurydice caminha
1 201
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Separados Fomos

Separados fomos por cítaras e canto
E pelos longos poemas silabados
E entre nós dois deitaram-se paisagens
Que nos mantinham imóveis e distantes

Embora o fogo secreto das palavras
E a veemência do canto e das imagens
Embora a paixão das noites consteladas
E o nevoeiro tocando a nossa face

Separados fomos por cítaras e canto
Como outros por prisões ou por espadas
1 038
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Morte

Que triângulo ou círculo poderá cercar-te
Para que te detenhas demorada e minha
Para que não desças toda pela escada
1 184
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ariane Em Naxos

Tu Teseu que abandonadas amadas
Junto de um mar inteiramente azul
Invocavam deixadas
No deserto fulgor de Junho e Sul

Junto de um mar azul de rochas negras
Porém Dionysos sacudiu
Seus cabelos azuis sobre os rochedos
Dionysos pantera surgiu

E pelo Deus tocado renasceu
Todo o fulgor de antigas primaveras
Onde serei ou fui por fim ser eu
Em ti que dilaceras
1 253
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Despedida

Na estação na tarde o fumo
O rumor o vaivém as faces
Anónimas
Criam no interior do amor um outro cais

As lágrimas
O fogo da minha alma as queima antes que brotem
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