Sabedoria

Poemas neste tema

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Bodas de Ouro

Bondade é coisa que na vida
— Nesta vida decepcionante —
Nenhum prêmio, nenhum tesouro,
Nenhuma recompensa paga:
Bondade de Mestre Aguinaga,
À quem, depois das bodas de ouro,
Desejamos as de brilhante.
(Depois as do céu, na outra vida...)
1 099
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Urânia Maria

Urânia junto a Maria:
Não há nome mais bonito:
A Musa da Astronomia
Junto à Mãe de Deus: Em ti
Se vê, Urânia Maria,
Unir-se um a outro infinito,
O mito à sabedoria,
A vida ao seu outro lado,
Ou seja, tudo abreviado
Num dissílabo — Teti.
1 124
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Céu

À criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
Quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.
1 041
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Poema Tirado de “Breve História da Ciência”

– a busca da verdade” do norueguês Eirik Newth
Aparentemente
existe um número infinito de seres vivos
que seguem a lei da probabilidade.
O astrônomo pode calcular
onde se encontrará o planeta Júpiter em três mil anos.
Mas nenhum biólogo
pode prever
onde a borboleta pousará.
884
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Poema Tirado de Um Livro de Ciências

Lineu,
sábio do século XVIII
conhecia os pássaros pelo bico
os peixes pelas nadadeiras
e os insetos pelas asas.
Procurando Deus
classificou 5.897 espécies vivas
e ao final da vida anotou:
– Vi as costas do Deus infinito, onisciente e todo-poderoso
quando ele se foi
– e fiquei tonto.
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Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Vida Aliterária

Como cantam as aves!
Algumas estridentes
outras melodiosas
cada qual com o canto
que lhe é próprio.
Não competem entre si.
Com o canto que sabem
comem, alimentam seus filhotes
defendem-se de ataques
seduzem para o amor
e a natureza as ouve a todas
sem ter que premiar nenhuma.
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Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Entendimento

Estou cada vez mais entendendo a eternidade
e o que chamam inveja humana.
Não sei aonde isto pode me levar.
Entender certas coisas é libertar-se
como quem, mudo, canta um hino.
Sou isto e não aquilo.
Contemplo meu instante no olho
e me ilumino.
1 048
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXXIII

E por que o sol é tão mau amigo
do caminhante do deserto?

E por que o sol é tão simpático
no jardim do hospital?

São pássaros ou são peixes
nestas redes da lua?

Foi onde que a mim me perderam
que logrei enfim me encontrar?
529
Pablo Neruda

Pablo Neruda

VIII

O que é que irrita os vulcões
que cospem fogo, frio e fúria?

Por que Cristóvão Colombo
não pôde descobrir a Espanha?

Quantas perguntas tem um gato?

As lágrimas que não se choram
esperam em pequenos lagos?

Ou serão rios invisíveis
que escorrem até a tristeza?
548
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LXXII

Se todos os rios são doces
de onde tira sal o mar?

Como sabem as estações
que devem mudar de camisa?

Por que tão lentas no inverno
e tão palpitantes depois?

E como sabem as raízes
que devem subir para a luz?

Sempre é a mesma primavera
a que repete seu papel?

E logo saudar o ar
com tantas flores e cores?
988
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LXIV

Por que minha roupa desbotada
se agita como uma bandeira?

Sou um malvado alguma vez
ou todas as vezes sou bom?

É a bondade que se aprende
ou a máscara da bondade?

Não é branca a roseira do malvado
e negras as flores do bem?

Quem dá os nomes e os números
ao inocente inumerável?
1 052
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXIX

Que distância em metros redondos
há entre o sol e as laranjas?

Quem desperta o sol quando dorme
sobre sua cama abrasadora?

Canta a terra como um grilo
entre a música celeste?

É mesmo ampla a tristeza
e tênue a melancolia?
1 003
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XLI

Quanto dura um rinoceronte
depois de ser enternecido?

Que contam de novo as folhas
da recente primavera?

As folhas vivem no inverno
em segredo, com as raízes?

Que aprendeu a árvore da terra
para conversar com o céu?
1 094
Stela do Patrocínio

Stela do Patrocínio

Não trabalho com a inteligência

Não trabalho com a inteligência
Nem com o pensamento
Mas também não uso a ignorância
510
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LXVIII

Quando lê a borboleta
o que voa escrito em suas asas?

Que letras conhece a abelha
para saber seu itinerário?

E com que cifras vai subtraindo
a formiga seus soldados mortos?

Como se chamam os ciclones
quando não têm movimento?
913
José Saramago

José Saramago

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.
1 421
José Saramago

José Saramago

Craveira

Não deixa amor que o meçam, antes mede,
Incorrupto juiz que tudo afere
Na craveira da sua desmedida.
Chamados todos somos: só elege
Quantos de nós soubermos converter
Em chama vertical a hora consumida,
Em mãos de dar os dedos de reter.
496
José Saramago

José Saramago

E Se Vier

E se vier que traga o coração
No seu lugar de paz. Amor diremos,
Que outro nome melhor se não descobre.
Só a vida não diz quanto sabemos.
959
Martha Medeiros

Martha Medeiros

simplificar

simplificar
não exagerar os sentimentos
arriscar
não seguir os mandamentos
vivenciar
não mitificar os pensamentos
assimilar
não condecorar os ferimentos
reinventar
não copiar aos sete ventos
amamentar
não aprisionar os seus rebentos


uma mulher adulta
só conhece bons momentos
636
Martha Medeiros

Martha Medeiros

não tente chegar na hora marcada

não tente chegar na hora marcada
ele pode vir antes, ou chegar depois
o amor deixa sempre esperando
1 120
Martha Medeiros

Martha Medeiros

mesmo tendo juízo

mesmo tendo juízo
não faço tudo certo
todo paraíso
precisa um pouco de inferno
532
Martha Medeiros

Martha Medeiros

companheiro tão distinto

companheiro tão distinto
meu querido e velho instinto
me conduz sempre sem pressa
nesse passo sempre certo que pressinto
1 021
Martha Medeiros

Martha Medeiros

a força de um ato

a força de um ato
dura o tempo exato
para ser compreendida


depois disso é bobagem
vira longa-metragem
por acaso estendida


fora o essencial
nada mais é natural
vira apenas suporte


pena a vida não ter corte
1 065
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

D. António Ferreira Gomes Bispo do Porto

Na cidade do Porto há muito granito
Entre névoas sombras e cintilações
A cidade parece firme e inexpugnável
E sólida — mas habitada
Por súbitos clarões de profecia
Junto ao rio em cujo verde se espelham as visões —
Assim quando eu entrava no paço do Bispo
E passava a mão sobre a pedra rugosa
O paço me parecia fortaleza
Porém a fortaleza não era
Os grossos muros de pedra caiada
Nem os lintéis de pedra nem a escada
De largos degraus rugosos de granito
Nem o peso frio que das coisas inertes emanava
Fortaleza era o homem — o Bispo —
Alto e direito firme como torre
Ao fundo da grande sala clara: fortaleza
De sabedoria e sapiência
De compaixão e justiça
De inteligência a tudo atenta
E na face austera por vezes ao de leve o sorriso
Inconsútil da antiga infância
1998
972