Protesto, Resistência e Revolução

Poemas neste tema

Edimilson de Almeida Pereira

Edimilson de Almeida Pereira

30 [um menino pode com o infinito

um menino pode com o infinito
mas não pode um policial
crescer tanto que o diminua
afinal como pode um esqueleto
roer a música que o atravessa
um menino é também infinito


In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Ô Lapassi & Outros ritmos de ouvido. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 1990. p.42. (Coleção Prêmio de Literatura UFMG
1 298 1
Ana C. Pozza

Ana C. Pozza

Profissão: Mulher

Do lar?!
Só se for dinheiro
Recheando a minha carteira!
Eu sou mulher!
Mulher por inteiro.
Mulher inteira.

Prefiro ser
Louca,
Des-va-i-ra-da
A ser
Isaura,
Mulher escravizada!

914 1
Susana Pestana

Susana Pestana

Huila

África
adormecida
nas pétalas capturadas da vida.
Sonho com o vermelho da terra
Nas cores de um planalto esquecido.
Mãe minha, mostra-me paz
nunca tocada e muita vez prometida.
Afasta essa mão branca
deixa-me dormir
nesta noite violada.

905 1
Sérgio de Castro Pinto

Sérgio de Castro Pinto

1979: Ano I da Criança Brasileira

criança que pratica esporte
respeita as regras do jogo

criança que pratica esporte
respeita as regras do logro

criança que pratica esporte
respeita as regras do ogro

criança que pratica esporte
respeita as regras do lobo

criança que pratica esporte
respeita as regras da globo

1 396 1
Décio Pignatari

Décio Pignatari

Cloaca

                   beba    coca   cola
                   babe               cola
                   beba    coca
                   babe    cola   caco
                   caco
                   cola
                                c l o a c a
3 842 1
António Aleixo

António Aleixo

Mote

"Morre o rico, dobram sinos;
Morre o pobre, não há dobres...
Que Deus é esse dos padres,
Que não faz caso dos pobres?"

1 648 1
Mikhail Yurevitch Lermontov

Mikhail Yurevitch Lermontov

ADEUS, Ó RÚSSIA MAL LAVADA!

Adeus pra sempre, ó Rússia mal lavada!
Terra de escravos e cruéis senhores!
E vós, azuis gendarmes opressores,
e vós, dócil nação de carneirada!

Além do Cáucaso e seus altos montes
livre estarei dos vossos grão-pachás,
dos olhos com que espiam tão bifrontes,
e de quantos ouvidos deixo atrás.

1 491 1
Adriana Sampaio

Adriana Sampaio

Ilusão

Ilusão

Tua paz é estanque, comedida
Na tua paz não cabe mais vida
A vida te ameaça
Corta e despedaça
Teu deus é único e infalível
Tua vida é linha reta e sempre em frente
Gostaria de saber o que te move
O que te faz vivo e não zumbi
Aonde pretendes chegar
Qual é o objetivo, tão estreito
Quem te contou
Que só existe um jeito?
839 1
Herberto Helder

Herberto Helder

E Ali Em Baixo Com Terra Na Boca E Mãos Atadas

e ali em baixo com terra na boca e mãos atadas atrás das costas
alors qu’on peut écouter de la musique avant toute chose
sob a força devastadora da poesia
os burrocratas os burrocratas
662
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

U, Com Dom Beeito, Aos Preitos Veerom

U, com Dom Beeito, aos preitos veerom,
cuspirom as donas e assi disserom:
       - Talhou Dom Beeito
       aqui o feeito.

E pois que houveram já feita sa voda,
cuspiram as donas, e diz Dona Toda:
       - Talhou Dom Beeito
       aqui o feeito.

Todas se da casa com coita saíam
e iam cuspindo todas e diziam:
       - Talhou Dom Beeito
       aqui o feeito.
560
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

Depois de fuzilado

Depois de fuzilado
ao levar
o tiro na nuca pra acabar
chateou-se
e viu-se obrigado
a explicar
ao major
que comandava o pelotão
que o tinha fuzilado
por favor
preste atenção
e não me obrigue a repetir
a repreensão
na próxima vez
que mandar matar
dê tempo ao morto
pra gritar
convicto
um último viva de revolução
349
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

Brancos

eles que são brancos e os que não são eles
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se

988
Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

NOVEMBRO

Quando o lacaio se aborrece, torna-se perigoso.
O céu em chamas contrai-se.
Pancadas ecoam de cela em cela.
E o espaço jorra da geada.
Algumas pedras brilham como luas cheias.
653
José Paulo Paes

José Paulo Paes

L’AFFAIRE SARDINHA

O bispo ensinou ao bugre
Que pão não é pão, mas Deus
Presente em eucaristia
E como um dia faltasse
Pão ao bugre, ele comeu
O bispo, eucaristicamente
607
José Paulo Paes

José Paulo Paes

SEU METALÁXICO

Economiopia
Desenvolvimentir
Utopiada
Consumidoidos
Patriotários
Suicidadãos
621
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Ah

dor de flamingo.
dedos queimados tentando
acender o final desta
bituca.
em um lugar descrito
por mulheres apavoradas
com dinheiro em suas bolsas
como "buraco de rato".
"vocês podem cuspir no chão aqui",
eu lhes digo.
mas não, a
uma distância
segura, parece que
preferem discutir
minha poesia.
588
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Projeto póstumo

Se
quando morta
me fizerem busto
volto
pomba gentil
e
cago nele.
1 208
Marina Colasanti

Marina Colasanti

NO PARQUE DA FERTILIDADE

As macieiras estão carregadas
no parque Tiantan
os caquis pesam verdes
como pedras
os chorões se debruçam
nos caminhos. 
Só os pessegueiros
nunca abriram flores.
Estéreis
negam frutos ao zumbido das abelhas
e se rebelam
à tirania reprodutora
dos deuses.

Beijing 1992
547
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Desconfiando

Há muito
que não corro da polícia em praça pública.
Há muito
que não abrem correspondência minha.
Há muito
que não poupo palavras ao telefone.
Há muito
que não abrigo fugitivos.
Há muito
que vejo os filmes e leio livros que bem quero.
O que será que fiz?
Começo a desconfiar
que alguma coisa anda errada:
comigo
ou meu país.
963
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XV

Mas é verdade que se prepara
a insurreição dos coletes?

Por que outra vez a primavera
oferece seus vestidos verdes?

Por que ri a agricultura
do pálido pranto do céu?

Como logrou sua liberdade
a bicicleta abandonada?
994
José Saramago

José Saramago

Julieta a Romeu

É tarde, amor, o vento se levanta,
A escura madrugada vem nascendo,
Só a noite foi nossa claridade.
Já não serei quem fui, o que seremos
Contra o mundo há-de ser, que nos rejeita,
Culpados de inventar a liberdade.
1 093
Martha Medeiros

Martha Medeiros

eu penso conforme o tempo

eu penso conforme o tempo
eu danço conforme o passo
eu passo conforme o espaço
eu amo conforme a fome
eu como conforme a cama
eu sinto conforme o mundo


mas no fundo
eu não me conformo
1 141
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Brasil 77

«Em vosso e meu coração»
Manuel Bandeira

Brasil dos Bandeirantes
E das gentes emigradas
Em tuas terras distantes
As palavras portuguesas
Ficaram mais silabadas
Como se nelas houvesse
Desejo de ser cantadas
Brasil espaço e lonjura
Em nossa recordação
Mas ao Brasil que tortura
Só podemos dizer não

Brasil de Manuel Bandeira
Que ao franquismo disse não
E cujo verso se inscreve
Neste poema invocado
Em vosso e meu coração
Brasil de Jorge de Lima
Bruma sonho e mutação
Brasil de Murilo Mendes
Novo mundo mas romano
E o Brasil açoriano
De Cecília a tão secreta
Atlântida encoberta
Sob o véu dos olhos verdes
Brasil de Carlos Drummond
Brasil do pernambucano
João Cabral de Melo que
Deu à fala portuguesa
Novo corte e agudeza
Brasil da arquitectura
Com nitidez de coqueiro
Gente que fez da ternura
Nova forma de cultura
País da transformação
Mas ao Brasil que tortura
Só podemos dizer não

Brasil de D. Helder Câmara
Que nos mostra e nos ensina
A raiz de ser cristão
Brasil imensa aventura
Em nossa imaginação
Mas ao Brasil que tortura
Só podemos dizer não
1977
1 569
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Nestes Últimos Tempos

Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças

Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?

Que diremos do lixo do seu luxo — de seu
Viscoso gozo da nata da vida — que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?

Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?

Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
De suas fintas labirintos e contextos?

Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto

Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?
Julho de 1976
1 129