Passado e Futuro

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Habitação

Muito antes do chalet
Antes do prédio
Antes mesmo da antiga
Casa bela e grave
Antes de solares palácios e castelos
No princípio
A casa foi sagrada —
Isto é habitada
Não só por homens e por vivos
Mas também pelos mortos e por deuses

Isso depois foi saqueado
Tudo foi reordenado e dividido
Caminhamos no trilho
De elaboradas percas

Porém a poesia permanece
Como se a divisão não tivesse acontecido
Permanece mesmo muito depois de varrido
O sussurro de tílias junto à casa de infância
2 616
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Crepúsculo Dos Deuses

Um sorriso de espanto brotou nas ilhas do Egeu
E Homero fez florir o roxo sobre o mar
O Kouros avançou um passo exactamente
A palidez de Athena cintilou no dia
Então a claridade dos deuses venceu os monstros nos frontões de todos os templos
E para o fundo do seu império recuaram os Persas
Celebrámos a vitória: a treva
Foi exposta e sacrificada em grandes pátios brancos
O grito rouco do coro purificou a cidade
Como golfinhos a alegria rápida
Rodeava os navios
O nosso corpo estava nu porque encontrara
A sua medida exacta
Inventámos: as colunas de Sunion imanentes à luz
O mundo era mais nosso cada dia
Mas eis que se apagaram
Os antigos deuses sol interior das coisas
Eis que se abriu o vazio que nos separa das coisas
Somos alucinados pela ausência bebidos pela ausência
E aos mensageiros de Juliano a Sibila respondeu:
«Ide dizer ao rei que o belo palácio jaz por terra quebrado
Phebo já não tem cabana nem loureiro profético nem fonte melodiosa
A água que fala calou-se»*
* Resposta do Oráculo de Delphos a Oríbase, médico de Juliano, o Apóstata (Cedrenus, Resumo da História).
2 287
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Veneza

Dentro deste quarto um outro quarto
Como um Carpaccio nas ruas de Veneza
Segunda imagem sussurro de surpresa
E um pouco assim são as ruas de Veneza

Em fundo glauco de laguna ou vidro
E um pouco assim em nossa vida o duplo
Espelho sem perdão do não vivido
Caminho destinado a ser perdido
2 648
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não inquiro do anónimo futuro

Não inquiro do anónimo futuro
        Que serei, pois que tenho,
Qualquer que seja, que vivê-lo. Tiro
        Os olhos do vindouro.
Odeio o que não vejo. Se pudera,
        Vê-lo, grato o não vira.
Se mo mostrarem num quadro, ou o virarem
        Não tenho o que não tenho.
O que o Destino manda, saiba-o ele.
        A ignorância me basta.
1 246
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aquela que tinha pobre

Aquela que tinha pobre
A única saia que tinha,
Por muitas roupas que dobre
Nunca será mais rainha.
1 299
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quantas vezes a memória

Quantas vezes a memória
Para fingir que inda é gente,
Nos conta uma grande história
Em que ninguém está presente.
1 218
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

FLASHES OF MADNESS — V

V.

My child, I see thine eyes upon
A shadow, as cast by the wings
When a swift bird passes close by
The castle-window before the sun:
So through thy glance the shadows fly...

The souls of things dead and bygone
Haunt the appearances of living things
1 153
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O FUTURO

O FUTURO

Sei que me espera qualquer coisa
Mas não sei que coisa me espera.

Como um quarto escuro
Que eu temo quando creio que nada temo
Mas só o temo, por ele, temo em vão.
Não é uma presença; é um frio e um medo.
O mistério da morte a mim o liga.

Ao [...] fim do meu poema.
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Rose Ausländer

Rose Ausländer

A heranca II

É chegada a hora
de repartir a herança

toma
a maçã
mortal
e
a palavra
imortal

Das Erbe II

Es ist an der Zeit
das Erbe zu verteilen

nimm
den sterblichen
Apfel
und
das unsterbliche
Wort
792
Luís Filipe Castro Mendes

Luís Filipe Castro Mendes

Pessoana Pobre

Como nas ruas de Roma
ou no caos de Deli,
esta ruína que assoma
diz que não somos daqui.

Passado, terra estrangeira:
e o nosso em particular
é palavra derradeira,
não se pode articular.

Toda a memória que fui
longe de mim se escondeu.
E de muitos céus azuis
se fez noite neste céu.

1 422
Péricles Eugênio da Silva Ramos

Péricles Eugênio da Silva Ramos

Fonte

Passado, sombra de uma nuvem
na água trêmula


Publicado no livro Lua de Ontem (1960). Poema integrante da série Um Homem e seus Fantasmas.

In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Poesia quase completa. Rio de Janeiro: J. Olympio, 197
1 057
Angela Santos

Angela Santos

Perpendicular do

Tempo

Foi
outro o lugar
outro o tempo
e o encontro no desencontro.

Fomos nós
e uma esquina
ao dobrar dos dias…

Não sei se me encontraste
se te procurava
eu.

1 059
Angela Santos

Angela Santos

Eco-Lógica

Antes
que anunciem
que o último raio de luz
se propaga,
despindo os olhos de cores
que iluminam,
colhe e perpétua
nos olhos e no coração
uma centelha de sol matinal.

Os deuses deste tempo
prometem cavernas
e longas invernias.

1 080
Angela Santos

Angela Santos

Eco

Rasgo
a sulcos o corpo

da memória,
vivos permanecem todos os tempos

em mim…
É um nome antigo aquele que oiço,
antigo o sonho que me leva.

1 193
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

No princípio, só a vida existia

No princípio, só a vida existia;
O mundo era o que havia
Ao alcance da vida...
E mais nada.

Tudo era certo, simples, claro.

Quando o passado passar
(E passará, porque o passado é hoje)
E o futuro vier
(E há-de vir, porque o futuro é hoje),
Então, sim; há-de saber-se tudo
E tudo será certo, simples, claro.

Eu, porém, não sei nada.

2 010
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Componho para a hora em que for lido

Componho para a hora em que for lido,
Para aquela, entre todas improvável,
Em que, estando eu já morto e já esquecido,
O que escrevo for póstumo e for estável.

Componho com receio do desdoiro
De quem sonho hei-de ser. Fito o futuro.
O que é grosseiro em mim, eu o apuro,
O que é vago e banal, o pulo e doiro.

1 369
Renato Castelo Branco

Renato Castelo Branco

Brasil

Não te verei, Brasil,
a grande pátria dos trópicos.

Não te verei, remido,
igualares o sonho
dos teus artistas e dos teus poetas.

Não te verei
abençoado por teus filhos,
Canaã prometida,
terra que mana leite e mel.

Mas estarei presente à tua glória
no sangue dos meus filhos
e dos netos dos meus netos.

995
Sérgio de Castro Pinto

Sérgio de Castro Pinto

Sem Fórmula

não piso a embreagem,
piso a paisagem
e a ponho em primeira,
segunda, terceira e quarta
de segunda à sexta.

(às vezes dou-lhe ré,
mas ela sempre me escapa).
Aos sábados e domingos
deixo-me ficar em ponto morto
diante dessas fotos já sem cor:

paisagens vistas de um retrovisor?

1 011
Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

Lisboa

A cidade tomou banho
Água suja do Tejo
A Torre de Belém
no poente decadente
sonha com impossíveis caravelas.

1 467
Marcelo Mello Valença

Marcelo Mello Valença

Angústia, aprendi desde cedo

Angústia, aprendi desde cedo
a conviver com ela ao meu lado.
É o conviver com meu medo...
Pesadelo que vivo acordado
Angústia? É o esperar pelo amanhã,
futuro incerto, destino sonhado
É o agarrar-se a esperança vã
e ver a vida correr qual seixo rolado...

879
Helena Parente Cunha

Helena Parente Cunha

Quem

quem me habita provisória
nesta paisagem súbita
onde sou?

quem chora pranto antigo
nos meus olhos contemporâneos
desta viagem?

quem fui quando passei
aqui tão longe
de onde sou agora?

1 022
Elielson Rodrigues

Elielson Rodrigues

Clâmide Sepulcral

Não te atreles ao passado,
Ilumina teu céptico futuro,
e caminha ao meu lado,
sucumbindo em lugar seguro.

Dentre a bruma que cobre teu túmulo,
vi voar um anjo que me disse o quanto,
aquele lugar é santo,
queimando o velário que te torna nulo.

O Areópago me condena
à vida cenobial...
que outra gangrena,
me vestiria a clâmide sepulcral?

831
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

Os relógios

1 galo que é feito de sol
canta sua canção de sangue
canta com sua voz de sonho,
com seu olho de cor e sal
para as sombras que estão por vir

886
Beatriz Alcântara

Beatriz Alcântara

Réveillon

A noite feita de copos
encontrou-a virgem pura
distribuindo uvas
gritando imprudente:
— Feliz Ano Novo!

Depois desejou uma nuvem
caminhou na esteira da lua
ouviu o canto da pedra
bebeu o hálito do orvalho
chorou o anil do branco
e ao desprender-se da janela
contraiu núpcias com o ano que findou.

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