Nostalgia

Poemas neste tema

Renato Rezende

Renato Rezende

Andaluza

A janela de serviço do pequeno apartamento
de Granada, onde morava com minha família
(eu, meu marido, três filhos, a empregada)
era também pequena, mas dava
para a rua ensolarada: as copas das árvores
das alamedas de Granada, e a vida, que passava
(sempre!) longe e iluminada.


Nova York, setembro 1995
661
Renato Rezende

Renato Rezende

Depois do Banquete

Sobre a mesa fica
o que sobrou da efêmera alegria:
uma garrafa de vinho quase vazia
alguns vestígios de comida já não apetecível
e o último pedaço de pão,
esquecido:
cotovelo de anjo.


Salamanca, julho 1988
874
Mailson Furtado Viana

Mailson Furtado Viana

por causa do alvará de funcionamento

as casas
as ruas
cheiravam
fediam
apodreciam

tinham cheiro de feijão às quinze pro meio-dia
cheiro de cigarro às seis e tanto
gosto de sexo depois das dez
fediam ao uso

hoje
são estéreis

sovinam sussurros
se afogam em antidepressivos
se negam morrer

são hipócritas
700
António Carlos Cortez

António Carlos Cortez

Poética

Como pedra lançada ao mar da infância quando a mãe abria a porta de casa e trazia o vento e o gelo Mar agitado nos seus círculos pétreos Quem dera eu encontrasse a repercussão das formas antigas e perfeitas até ao ponto em que das margens avistasse o epicentro da dor e da alegria.
535
Mauro Mota

Mauro Mota

Natal

Natal, antes e agora 
imutável. Feliz 
noite branca sem hora 
no pátio da Matriz. 

Natal: os mesmos sinos 
de repiques iguais. 
Brinquedos e meninos, 
Natal de outros natais. 

A Banda, vozes, passos 
da multidão fiel. 
Tudo nos seus espaços, 
o mundo e o carrossel. 

Tudo, menos o andejo 
homem que se conclui. 
Olho-me, e não me vejo, 
não sei para onde fui.
757
José Paulo Paes

José Paulo Paes

CANÇÃO DO EXÍLIO FACILITADA

lá?
ah!
sabiá…
papá…
maná…
sofá…
sinhá…
cá?
bah!
2 461
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Especial De 1990

gasto pelos anos
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
1 058
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Mônica Maria

Seu avô me disse:
— "Mônica Maria
É loura e graciosa".
Foi como se a visse...
Pois de fato a via.
Mais lírio que rosa,
Melhor — madressilva,
Flor de minha infância
— Tamanha distância!
Como na Bahia
Mônica Maria
Pereira da Silva
Overbeck.
1 010
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Peregrinação

O córrego é o mesmo.
Mesma, aquela árvore,
A casa, o jardim.

Meus passos a esmo
(Os passos e o espírito)
Vão pelo passado,
Ai tão devastado,
Recolhendo triste
Tudo quanto existe
Ainda ali de mim
— Mim daqueles tempos!

Petrópolis, 12.3.1943
1 208
Marina Colasanti

Marina Colasanti

O gosto que se foi

Quando eu era menina
gostava de sugar nas flores de glicínia
no exato centro
no protegido ponto que as pétalas escondem:
o pistilo.
Tinha um tanto de açúcar
parecia
e era crocante.
Adulta
inutilmente busco
o mesmo gosto.
Estala em minha boca
a carne tenra
a língua escarva
sem que nada me chegue
nem o açúcar da infância
nem gosto de lembrança.
903
Marina Colasanti

Marina Colasanti

AMISH COUNTRY

Neste país em que as roupas
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.

Illinois 96
1 112
Marina Colasanti

Marina Colasanti

ACQUA MARCIA

Em todo lugar sou estrangeira
menos na minha casa.
E mesmo na minha casa
nenhum habitante sabe
que o gosto justo da água
é aquele daquela água
que em minha terra se bebe.
1 520
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Preparação

olhava a tarde sem compromisso.
Sentado ao meio-fio
ciscava metafísicas
com um gravetinho na mão.
No fundo do quintal
no sótão e no porão
vislumbrei os primeiros mistérios.
As coisas essenciais
eram-me servidas.
A mim cabia apenas preencher o dia
com um ou outro dever
e uma vaga poesia.
1 046
Pablo Neruda

Pablo Neruda

IX

É o mesmo o sol de ontem
ou é outro o seu fogo?

Como agradecer às nuvens
essa abundância fugitiva?

De onde vem a nuvem densa?
com seus negros sacos de pranto?

Onde estão aqueles nomes
doces como tortas de outrora?

Para onde foram as Donaldas,
as Clorindas, as Edwigis?
1 082
José Saramago

José Saramago

O Tanque

Secou a fonte, ou mais distante rega,
Não tem água o tanque abandonado.
Vida que houve aqui, hoje se nega:
Só a taça de pedra se reflecte
Na memória oscilante do passado.
1 072
Martha Medeiros

Martha Medeiros

era verão ou qualquer troço assim

era verão ou qualquer troço assim
lua cheia ou algo parecido
uma saudade ou quase a mesma coisa
era amor ou mais ou menos isso
1 072
Martha Medeiros

Martha Medeiros

tenho náuseas

tenho náuseas
e nostalgia


tomei uma aspirina
e a febre não passou


reli a tua carta
e quase morri de dor
1 009
Martha Medeiros

Martha Medeiros

tão urbana

tão urbana
de repente me falando
de galinhas, porcos, cavalos
fogos e figueiras
do ritual dos bois
no velório dos cachorros
no leite fresco
nas estrelas e nas primas
nos banquetes lá de fora
no frio, no vento
na emoção da natureza
andarilha
criança e nostálgica
romântica
verdadeira e surpreendente
minha mãe
594
Martha Medeiros

Martha Medeiros

parece que foi ontem

parece que foi ontem
que você me convidou para sumir
morar numa cabana e viver de amor
sem freezer, forno de micro-ondas,
videocassete, teatro
restaurantes, butiques, viagens, aeroportos,
microfones
toca-fitas, disco-laser, piscinas, boates,
camarões
hidromassagem, aeróbica, vernissages,
freeshop, rock’n’roll


parece que não fui
585
Martha Medeiros

Martha Medeiros

revendo assim rapidamente

revendo assim rapidamente
nossa história inacabada
fica um mal-estar
uma coisa meio deprimente
parece que nada aconteceu
de importante
e no entanto foi bom pra nós dois
e antes do depois teve muito durante
877
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Quem Me Roubou o Tempo Que Era Um

quem me roubou o tempo que era meu
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro
e onde por si mesmo o poema se escrevia
Setembro de 2001
1 558
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Perca

Ainda há luz e já o rumor da tarde
me separa da sombra do pinhal

como viver de novo a alegria una
de ter sido nova que falhei

só o tempo e bem tarde
me envelheceu
depois perdi sem saber como o andar
dos meus passos
Setembro de 2001
1 151
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Inocência E Possibilidade

As imagens eram próximas
como coladas sobre os olhos
o que nos dava um rosto justo e liso;
os gestos circulavam sem choque nem ruído
as estrelas eram maduras como frutos
e os homens eram bons sem dar por isso
Granja 31 de Agosto 1943
1 122
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Era o Tempo

Era o tempo das amizades visionárias
Entregues à sombra à luz à penumbra
E ao rumor mais secreto das ramagens
Era o tempo extático das luas
Quando a noite se azulava fabulosa e lenta
Era o tempo do múltiplo desejo e da paixão
Os dias como harpas ressoavam
Era o tempo de oiro das praias luzidias
Quando a fome de tudo se acendia
1 260