Noite e Lua

Poemas neste tema

Beto Caloni

Beto Caloni

Haicai

Vento no madrigal:
copio o som que sopra
no verde canavial.

A vaga da lua
me despenteia;
nem por isso me sinto feia.

979 1
Paul Éluard

Paul Éluard

EM SEU LUGAR

Raio de sol entre dois límpidos diamantes
E a lua a se fundir nos trigais obstinados

Uma imóvel mulher tomou lugar na terra
No calor ela se ilumina lentamente
Profundamente como um broto e como uni fruto

Nele a noite floresce o dia amadurece.

(Tradução de Manuel Bandeira)

1 425 1
Janice Caiafa

Janice Caiafa

Luz-sem luz

Meia-lua escura
na unha é anel
de musa, ao céu
é ranhura de luz
no sexo marca difusa
vala ventosa que suga
com ar rarefeito

Palma acidental só vulto
varia vertente convulsa
versátil em ondas em outra
de uma estrela
ausente veluda
o rastro de pontas.

1 016 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O som do relógio

O som do relógio
Tem a alma por fora,
Só ele é a noite
E a noite se ignora.

Não sei que distância
Vai de som a som
Rezando, no tique
Do taque do tom.

Mas oiço de noite
A sua presença
Sem ter onde acoite
Meu ser sem ser.

Parece dizer
Sempre a mesma coisa
Como o que se senta
E se não repousa.


26/06/1929
5 479 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Leves véus velam, nuvens vãs, a Lua.

Leves véus velam, nuvens vãs, a Lua.
Crepúsculo na noite..., e é triste ver,
Em vez da límpida amplitude nua
Do céu, a noite e o céu a escurecer.

A noite é húmida de conhecer,
Sem que humidade de água seja sua.

(...)

09/01/1933
4 583 1
Daniel Francoy

Daniel Francoy

SABER ESCAVAR

Havia terra neles, e
escavavam.
Paul Celan


Saber escavar, escavar sempre
a terra podre e depois escavar
a sombra espessa. Respirar fundo
a noite escura, a noite sem vento,
sem vestígios argênteos do luar
(mesmo um luar imundo, encardido
de poeira e fumo, não se percebe)
e sem murmúrio de mar diluído
nas negras artérias da madrugada.
1 243
Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Obscuridade

Esperamos na obscuridade.
Vinde, vós que escutais, vinde
saudar-nos na viagem nocturna:
nenhum sol agora brilha,
nem luz agora nenhuma estrela.
Vinde, ó vós, mostrar-nos o caminho:
que a noite secreta é inimiga,
a noite que fecha as próprias pálpebras.
E eis como a noite inteiramente nos esqueceu.
E esperamos, esperamos, na obscuridade.
937
Herberto Helder

Herberto Helder

Canções de Camponeses do Japão - As Três Claridades

A Lua a leste,
a oeste as Pléiades,
o meu amado
ao meio.
1 013
Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Arabico-Andaluzes - a Lua

A lua é um espelho empanado pelo hálito das raparigas.

E a noite veste-se com o seu brilho como a negra tinta se veste com o
papel branco.
1 212
Herberto Helder

Herberto Helder

19

que nenhum outro pensamento me doesse, nenhuma imagem
profunda:
noite erguida até à derradeira estrela
cravada entre os meus olhos cegos
1 045
Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

A noite toda a selva

A noite toda a selva
dissolvendo-se em sândalo
e esquecimento.

Casas, degraus a prumo, águas
despedaçadas. Equilíbrio precário
num fio de luz.

Sob uma lâmina de mica
um veneno espera por nós
em Trieste.
528
Fernando Fitas

Fernando Fitas

Crepúsculo

Crepúsculo

Os pássaros em bando
pousavam no arvoredo
cansados do céu.

Incendiava-se
a lenha na lareira.

A noite
vestia devagar
a vastidão dos campos.
679
Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

CÉU DE CONFEITEIRO

uma fatia de céu
é dada
nesta noite de maio

quinhão que cabe ao homem
que da janela espera

a urbe apita
e o calor
se faz bruma e precipício

uma fatia de céu
é dada
aos amantes da varanda

quinhão que cabe ao amor
em tempos de luas magras
609
António Carlos Cortez

António Carlos Cortez

Argila do sono

A mesma «argila do sono»
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos

Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)
600
Halldór Laxness

Halldór Laxness

Assoma, ó Lua

Assoma, ó Lua,
Por trás das nuvens!
Brilhem no céu
estrelas nocturnas!
Luzes guiadoras,
levem-me junto do meu amor
para onde ele repousa, dormindo e só.

Silenciem um pouco
ventos rugidores,
silenciem torrentes velozes,
para que meus cantos
se oiçam nas colinas das tormentas
e me tragam o meu amado.


Gente Independente, edição Cavalo de Ferro
704
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Lua

A proa reta abre no oceano
Um tumulto de espumas pampas.
Delas nascer parece a esteira
Do luar sobre as águas mansas.

O mar jaz como um céu tombado,
Ora é o céu que é um mar, onde a lua,
A só, silente louca, emerge
Das ondas-nuvens, toda nua.
1 703
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Tema e Voltas

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se nos céus há o lento
Deslizar da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se lá fora o vento
É um canto da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se agora, ao relento.
Cheira a flor da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se o meu pensamento
É livre na noite?
1 180
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Mesmo se

Corredores do dia
umbral da noite
e o pensamento em fuga
entre as arcadas
mesmo se o corpo deita
e finge estar dormindo
mesmo se nas campinas
os dentes-de-leão afiam
as garras amarelas
de suas flores.
1 076
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Perspectiva à noite

Na altura do quinto andar
uma traineira
vara o negro céu negro mar
saindo ao longe
por trás da quina de concreto.
Luz do mastro somente
traço invisível
estrela que cai na horizontal
com o ventre carregado de escamas.
1 066
Marina Colasanti

Marina Colasanti

À NOITE NO ESCORIAL

Os sinos do Escorial
chamam à noite.
Bronze
redonda lâmina
na nuca do silêncio.
Pedra
montanha recomposta
em duras quinas
sem volteios de aves
e sem ventos.
No jardim dorme
a geometria das sebes
verde água
vela.
Na torre
no mais alto
do alto
uma janela acesa
branca lua.

El Escorial 1995
697
Marina Colasanti

Marina Colasanti

NO SILÊNCIO

Pousado nas folhas
do pessegueiro
o raio de lua
canta.
1 069
Marina Colasanti

Marina Colasanti

COM FUNDO MUSICAL DE NINO ROTA

O caminhar da noite
já se ouve
vindo da escura
mansão do leste.
A névoa deitou-se
para o sono
sobre a linha do horizonte.
Na última claridade
o transatlântico avança
todo aceso em suas luzes.
Por um instante
- alada coroa -
parece pousar no topo
do edificio que entre o mar
e meus olhos
se interpôe.
Mas logo
sem âncora que o retenha
segue viagem.
899
Ana Martins Marques

Ana Martins Marques

sala

na sala decorada
pela noite
e pelo imenso desejo,
nossas xícaras
lascadas


Da série “Arquitetura de interiores”
747
José Saramago

José Saramago

Amanhecer

Navego no cristal da madrugada,
Na dureza do frio reflectido,
Onde a voz ensurdece, laminada,
Sob o peso da noite e do gemido.

Abre o cristal em nuvem desmaiada,
Foge a sombra, o silêncio e o sentido
Da nocturna memória sufocada
Pelo murmúrio do dia amanhecido.
1 065