Mudança e Transformação
Poemas neste tema
Gabriel Archanjo de Mendonça
Fiat
e vencer o inseto obscuro
na noite definitiva.
Sorver a verticalidade nua
e transpirar o sol da estátua antiga
que a virtude não concebe.
Retalhar-se em moléculas de gozo
e consumir-se na luz.
Donizete Galvão
Trajetória
fundou um reino
criou um pai
fez um leito
de pedra
para o corpo
de cristal
Albano Dias Martins
Nem sempre
cai do céu: às vezes,
explode numa flor.
Albano Dias Martins
Teus ombros
germinação carnívora
de água e fogo.
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 27
E já não haver lugar para as imagens.
Eu sei que cabe tudo em disco externo,
mas foi aí que nós perdemos a cabeça.
Temos placas, rígidas plataformas, luz
com pouca treva nas costas da cidade.
Havemos de trocar as nossas memórias,
viver as outras vidas. Que sonho é agora?
Rui Costa
Narciso
No rio a tua imagem parece menos tua:
A memória é uma líquida mensagem de aloendros
e o teu opaco ardor apenas o resultado disso:
Um coração já pasmado de algum travo
mordendo uma outra água com vértices ao fundo.
Não te iludas. O que tu vês és mesmo tu:
Restos de um homem às portas de outro homem
e o futuro de olhos baixos, o mar a ver.
Herberto Helder
4K
a estrela de água.
E a cobra enrola-se ao torso, mergulha
na bolsa tenra. O sopro da víbora incha a pedra
de ombro a ombro.
E a pedra formada, a víbora fria, a estrela
que funciona,
transmudam-se umas nas outras.
— Todas as canções são canções múltiplas
e únicas
de demência.
Herberto Helder
2G
saía a arder.
Aparecia em chaga de corpo inteiro.
Era agora uma estrela carbonizada, uma aterradora estrela
de grandeza principal,
quando se olhava da terra.
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Os Jarros
tornaram-se leves, e quase levantaram voo com sua carga preciosa, do
mesmo modo que os corpos se aligeiram com os espíritos.
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Bolhas
túnica de chamas.
E maravilharam-se os olhos, quando ao de cima vieram as bolhas:
Granizo sobre vivas chamas, granizo que nascia do próprio coração das
brasas.
Eduardo Pitta
Nada de muito óbvio
qualquer coisa de refractário
no seu nomadismo.
Alguém um dia referiu
episódios escabrosos de antiquíssima
factura.
Sempre a espessura de um canalha
haverá de misturar urzes
com o delito oculto de algumas
quimeras. Vivia em paz quando
a desordem chegou
mas o plot mudara a personagem.
Renato Rezende
07.04.05
Percebo que a iluminação é menos um mergulhar (numa realidade maior) e mais um
explodir de dentro para fora.
É uma pressão que vem de dentro.
Que me expulsa de mim mesmo.
A parte que resiste sou eu. É preciso permitir que essa outra energia (que não é o eu que
estou acostumado a ser) tome posse.
Renato Rezende
Desprendimentos
desolações extraordinárias.
tempestades
de carne; terremotos
nos ossos; tufões
no olho d’alma.
...
fome; erupções
vulcânicas; quedas das alturas
mais altas;
pragas.
...
a queda de cada máscara
com a cara + serena e calma
Renato Rezende
Ao Menos
em que comia nos melhores restaurantes
de São Paulo, Paris e Nova York.
Houve um tempo
que retirava grande prazer da leitura
e tinha orgulho da minha biblioteca.
Hoje os pratos estão quebrados,
os livros ao vento.
-- O coração cada vez mais pleno.
Rio de Janeiro, fevereiro 1998
Luci Collin
peça
em mim
esculpe
___(lentamente)
cicatrizes
a mulher
em mim
refaz
___(ponto por ponto)
a estrada
a estátua
___(olho por olho)
refaz
em mim
a mulher
o homem
em mim
fabula
___(solenemente)
cigarras
Paulo Henriques Britto
CINCO SONETETOS GROTESCOS V
Não tão bela quanto a anterior,
que no último verão fez furor
e não deixou vestígio. É natural.
Esta de agora, tímida e avara,
já bate as asas, feito um estertor,
e alça vôo. É a nossa cara.
Domingos Pellegrini
Milagres
virar vinho
e o vinho virar
vinagre
O milagre da flor
virar semente
e a semente virar
uma baita árvore
O milagre das pedras
sua lenta vida
rocha virando areia
E o milagre dos astros
o universo tecido
de órbitas e estrelas.
Mário Cláudio
Feles
O amor lhe dilacerou o ventre,
Com fundas garras de gelo.
E a Primavera zumbiu,
Sobre sua cabeça,
Numa vertigem de pólen.
Senta-se agora,
Junto à lareira do Outono,
E é um bule de porcelana.
Salgado Maranhão
ESTILETES
no que eram brotos de chuva.
Agora,
brotam em qualquer parte —
em plena luz do dia.
Como um chão de navalhas.
Marina Colasanti
A medida do pai
abaixa a cabeça
sempre que passa
por aquela porta.
O filho primogênito cresceu.
Alteie a porta,
digo para ele,
não abaixe a cabeça.
Não posso,
me responde,
já tentei, mas
a porta foi feita
e posta a viga
na minha antiga medida.
O filho primogênito cresceu
e a casa do pai
só lhe cabe
abaixando a cabeça.
El Moro, Roma, 2001
Marina Colasanti
Desde que
essa mulher joga a cabeça para trás
e ri.
Livrou-se do perfil
que era dela e
das outras mulheres da família
apagou
do seu espelho
o espelho da sua mãe.
De leve rosto
inaugura sua dinastia
e seu passado
sem lembrar que
no escuro silêncio do sangue
sorri
vingativo
o dna.
Marina Colasanti
PROTESI
ho avute
nella bocca
di ferri gomma tubi
e lingue altrui.
Ora una placca
mi incollano sui denti
e mi rassegno.
Fra mesi
ci saró abituata
e scorderó
che con quell' oro
in bocca
non sono nata.
Pablo Neruda
XX - A ilha
saí com lianas, com esponjas, com fios
da fecundidade, com as trepadeiras
e as negras raízes da umidade terrestre
− de ti, rosa do mar, pedra absoluta,
saio limpo, vertendo a claridade do vento −
revivo azul, metálico, evidente.
Pablo Neruda
XXXVI
uma cozinha interminável?
Que farão teus ossos desagregados,
buscarão outra vez tua forma?
Se fundirá tua destruição
em outra forma e em outra luz?
Formarão parte teus vermes
de cães ou de borboletas?
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