Infância

Poemas neste tema

Marina Colasanti

Marina Colasanti

O gosto que se foi

Quando eu era menina
gostava de sugar nas flores de glicínia
no exato centro
no protegido ponto que as pétalas escondem:
o pistilo.
Tinha um tanto de açúcar
parecia
e era crocante.
Adulta
inutilmente busco
o mesmo gosto.
Estala em minha boca
a carne tenra
a língua escarva
sem que nada me chegue
nem o açúcar da infância
nem gosto de lembrança.
903
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Tempos de medo

Durante a guerra
no hotel em que morei
ouvíamos rádio
na sala de venezianas fechadas e
longo pano verde sobre a mesa.
Mas era Rádio Londres
e havia sempre perigo de polícia.
Do lado de fora
gente juntava diante da janela
para ouvir a voz vinda do inimigo.
Do lado de dentro
eu me escondia debaixo da mesa
criança a salvo
no útero de pano verde.
1 094
Marina Colasanti

Marina Colasanti

PORQUINHOS-DA-INDIA

O porquinho-da-india
foi a primeira namorada
do poeta

No Equador
as indias octavaleñas
criam porquinhos-da-india
na cozinha
para tê-los mais perto
da panela.
1 020
Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

História de Gregory Corso

Na primeira vez que fui
ao campo a New Hampshire
lá pelos oito anos de idade
havia uma garota
que eu costumava amolar com um pedaço de pau.

Apaixonados,
tiramos nossas roupas ao luar
em minha noite de despedida
mostrando nossos corpos um ao outro
aí corremos cantarolando de volta pra casa.

10 de dezembro, 1951
348
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Preparação

olhava a tarde sem compromisso.
Sentado ao meio-fio
ciscava metafísicas
com um gravetinho na mão.
No fundo do quintal
no sótão e no porão
vislumbrei os primeiros mistérios.
As coisas essenciais
eram-me servidas.
A mim cabia apenas preencher o dia
com um ou outro dever
e uma vaga poesia.
1 046
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XLIV

Onde está o menino que fui,
segue dentro de mim ou se foi?

Sabe que não o quis nunca
e que tampouco me queria?

Por que andamos tanto tempo
crescendo para separar-nos?

Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?

E se minha alma tombou
por que permanece o esqueleto?
1 246
Murillo Mendes

Murillo Mendes

Tempos sombrios

Servida a sinfonia
poderíamos nos sentar.
Cruel é o azul: de um buquê
de vidas
Surge a guerra.
Panejamento sinistro...
Todos pisam em crianças que
fôram.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Beira-Mar

Mitológica luz da beira-mar
A maré alta sete vezes cresce
Sete vezes decresce o seu inchar
E a métrica de um verso a determina
Crianças brincam nas ondas pequeninas
E com elas em brandíssimo espraiar
Em volutas e crinas brinca o mar
Outubro de 1997
1 345
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Estações do Ano

Primeiro vem Janeiro
Suas longínquas metas
São Julho e são Agosto
Luz de sal e de setas

A praia onde o vento
Desfralda as barracas
E vira os guarda-sóis
Ficou na infância antiga
Cuja memória passa
Pela rua à tarde
Como uma cantiga

O verão onde hoje moro
É mais duro e mais quente
Perdeu-se a frescura
Do verão adolescente

Aqui onde estou
Entre cal e sal
Sob o peso do sol
Nenhuma folha bole
Na manhã parada
E o mar é de metal
Como um peixe-espada
1 942
Adélia Prado

Adélia Prado

O Menino Jesus

Sofri sozinha este insuportável,
quando me trouxeram o menino
que parecia dizer
‘me pega, diz que não sou órfão,
que tenho pai e mãe,
me fala que não sou um usurpador’.
Atracou-se comigo até dormir.
Mesmo rígida,
fui sua cruz mais branda.
1 400
Adélia Prado

Adélia Prado

A Rua da Vida Feliz

Ao sol do meio-dia
ela fica suspensa,
a fala de minha mãe
sossega as borboletas:
‘flor bonita é no pé’.
Vi o quintal vibrando,
reagi brutamente
porque era inarticulável.
Quiseram me bater
por causa da minha cara
de quem tinha brincado com menino.
Só achei pra dizer:
Deus mora, mãe,
nunca morreu ninguém.
1 523
Adélia Prado

Adélia Prado

Justiça

Nos tinha à roda
ao peito
aos cachorros
diferente da moradora de posses
que ia à missa de carro
e a quem os meninos
não puxavam a saia.
Mas muito mais bonita
era nossa mãe.
1 186
Adélia Prado

Adélia Prado

Anamnese

Na hora mais calma do dia
o frango assustado
atravessou o terreiro
em desabalado viés.
Era carijó,
minha mãe era viva,
eu era muito pequena.
Sem palavra para o despropósito
ela falou:
frango mais bobo.
Comecei a chorar,
era como estar sem calcinhas.
1 094
Adélia Prado

Adélia Prado

A Menina E a Fruta

Um dia, apanhando goiabas com a menina,
ela abaixou o galho e disse pro ar
— inconsciente de que me ensinava —
‘goiaba é uma fruta abençoada’.
Seu movimento e rosto iluminados
agitaram no ar poeira e Espírito:
o Reino é dentro de nós,
Deus nos habita.
Não há como escapar à fome da alegria!
1 120
Adélia Prado

Adélia Prado

Registro

Visíveis no facho de ouro jorrado porta adentro,
mosquitinhos, grãos maiores de pó.
A mãe no fogão atiça as brasas
e acende na menina o nunca mais apagado da memória:
uma vez banqueteando-se, comeu feijão com arroz
mais um facho de luz. Com toda fome.
1 187
Adélia Prado

Adélia Prado

Cartonagem

A prima hábil, com tesoura e papel, pariu a mágica:
emendadas, brincando de roda, ‘as neguinhas da Guiné’.
Minha alma, do sortilégio do brinquedo, garimpou:
eu podia viver sem nenhum susto.
A vida se confirmava em seu mistério.
1 136
Adélia Prado

Adélia Prado

Primeira Infância

Era rosa, era malva, era leite,
as amigas de minha mãe vaticinando:
vai ser muito feliz, vai ser famosa.
Eram rendas, pano branco, estrela dalva,
benza-te a cruz, no ouvido, na testa.
Sobre tua boca e teus olhos
o nome da Trindade te proteja.
Em ponto de marca no vestidinho: navios.
Todos a vela. A viagem que eu faria
em roda de mim.
1 980
Adélia Prado

Adélia Prado

Verossímil

Antigamente, em maio, eu virava anjo.
A mãe me punha o vestido, as asas,
me encalcava a coroa na cabeça e encomendava:
‘canta alto, espevita as palavras bem’.
Eu levantava voo rua acima.
2 540
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Campeonato de Pião

Bota parafuso no bico do pião.
Bota prego limado, bota tudo
pra rachar o pião competidor.
Roda, pião!
Racha, pião!
Se você não pode rachar este colégio,
nem o mundo nem a vida,
racha pelo menos o pião!
(Mas eu não sei, nunca aprendi
rachar pião. Imobilizo-me.)
1 173
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Bom Marido

Nunca vou esquecer a palavra ingrediente
no plural.
À tarde, Arabela conversava
com Teresa, na sala de visitas.
Passei perto, ouvi:
— Custódio tem todos os ingredientes
para ser bom marido.
— Quais são os ingredientes?
a outra lhe pergunta.
Arabela sorri, sem responder.
Guardo a palavra com cuidado,
corro ao dicionário:
continua o mistério.
1 337
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Flora Mágica Noturna

A casa de dr. Câmara é encantada.
No jardim cresce a árvore-de-moedas.
As pratinhas reluzem entre folhas.
O menino ergue o braço e fica rico
ao luar.
Dr. Câmara sorri sob os bigodes
de bom padrinho. Sente-se criador
de uma espécie botânica sem par.
A crença do menino agora é dele,
ao luar.
1 015
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

30. Há Uma Luz Sobre As Arcadas

30
Há uma luz sobre as arcadas
e os indecisos contornos na agonia
nos limites que não resistem

e que resistem sílaba a sílaba
milimetricamente sinais de
uma preciosa intensidade de infância ardente.

Foi no súbito acesso na agonia
dos sinais que os sinais agregam
que a destruição não se destruiu
no seio inverso regressão da árvore.
1 039
Ruy Belo

Ruy Belo

As impossíveis crianças

Nesta manhã de outono dos primeiros frios
mais a caminho da velhice que da minha casa
eu vejo-vos em roda todas a cantar
Impossíveis crianças deixais-me brincar?


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 16 | Editorial Presença Lda., 1981
1 349
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Manuel Bandeira

Este poeta está
Do outro lado do mar
Mas reconheço a sua voz há muitos anos
E digo ao silêncio os seus versos devagar

Relembrando
O antigo jovem tempo tempo quando
Pelos sombrios corredores da casa antiga
Nas solenes penumbras do silêncio
Eu recitava
«As três mulheres do sabonete Araxá»
E minha avó se espantava

Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó
Quando em manhãs intactas e perdidas
No quarto já então pleno de futura
Saudade
Eu lia
A canção do «Trem de ferro»
E o «Poema do beco»

Tempo antigo lembrança demorada
Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira
Quando
Me sentava nos bancos pintados de fresco
E no Junho inquieto e transparente
As três mulheres do sabonete Araxá
Me acompanhavam
Tão visíveis
Que um eléctrico amarelo as decepava

Estes poemas caminharam comigo e com a brisa
Nos passeados campos da minha juventude
Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro
E foram parte do tempo respirado
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