Família

Poemas neste tema

Martha Medeiros

Martha Medeiros

tão urbana

tão urbana
de repente me falando
de galinhas, porcos, cavalos
fogos e figueiras
do ritual dos bois
no velório dos cachorros
no leite fresco
nas estrelas e nas primas
nos banquetes lá de fora
no frio, no vento
na emoção da natureza
andarilha
criança e nostálgica
romântica
verdadeira e surpreendente
minha mãe
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Velório Rico

O morto está sinistro e amortalhado
Rodeado de herdeiros inquietos como sombras
Que atormentam o ar com seus pecados
1 186
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Electra

Os muros da casa dos Manon escorrem sangue
E as árvores do jardim escorrem lágrimas.

O lago busca em vão o reflexo antigo duma infância
Que se tornou homens, mulheres, ódios e armas.

Numa janela aparecem duas mãos torcidas
E nos corredores ressoam as palavras

Da traição, da náusea, da mentira
E o tempo vestido de verde senta-se nas salas.

O rosto de Electra é absurdo.
Ninguém o pediu e não pertence ao jogo.
As suas mãos vingadoras destoam na conversa
Assustam a penumbra e ofendem o pecado.
1 301
Adélia Prado

Adélia Prado

Uma Pergunta

Vede como nossos filhos nos olham,
como nos lançam em rosto
uma conta que ignorávamos.
Não cariciosos, convertem em pura dor
a paixão que os gerou.
Por qual ilusão poderosa
nos veem assim tão maus,
a nós que, tal como eles,
buscamos a mesma mãe,
concha blindada a salvo de predadores.
991
Adélia Prado

Adélia Prado

Abrasada

Só trinta anos tinha minha mãe
e já suspirava:
‘Por que não vai todo mundo pro convento?
Qualquer dia, ô cruz, estes peitinhos,
seus paninhos manchados...’
Por que me deixou órfã, minha mãe?
Apesar de seus olhos tristes
e sua boca selada,
vou me casar assim mesmo.
Só vai lhe doer agora
e não muito.
1 336
Adélia Prado

Adélia Prado

Vaso Noturno

À meia-noite, José dos Reis
— que namoro escondido —
vem fazer serenata para mim.
Papai tosse alto,
tropeça por querer nos urinóis.
Que vergonha, meu deus,
pai, cachorrinha plebeia,
couves na horta
geladas de orvalho e medo.
Me finjo de santa morta,
meu céu é gótico
e arde.
1 167
Adélia Prado

Adélia Prado

Resumo

Gerou os filhos, os netos,
deu à casa o ar de sua graça
e vai morrer de câncer.
O modo como pousa a cabeça para um retrato
é o da que, afinal, aceitou ser dispensável.
Espera, sem uivos, a campa, a tampa, a inscrição:
1906-1970
SAUDADE DOS SEUS, LEONORA.
1 187
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Poema para a filha Maria

O espírito da vida estremeceu quando
No escuro percebi que eras tu, Maria,
A minha filha adorada, boa como o pão
e fonte de alegria
(ilegível)

Pareceu-me que era felicidade a mais ficares
Até altas horas decifrando o azul escuro
Dos rostos da noite e era para mim a inteira
Maria, bela, misteriosa, boa

E tudo em mim ficou confiança e amor partilhado
E Deus tinha derramado sobre nós
A benção da sua mais alta estrela
E a beleza da noite nos acompanha
Hoje onze de Agosto
E a noite parecia encantada



Poema inédito

Sophia já estava bastante doente quando escreve este poema
para a filha Maria, na noite de 11 de Agosto de 2002, em Lagos, Meia-Praia.


Fonte: Biblioteca Nacional de Portugal, 2011
4 226
José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

Dentro de casa

Todas as casas se parecem
com um naufrágio ou um saque
testam sucessivamente a elasticidade das gerações
compõem-se de heranças, jogos descasados,
cinco ou seis cores que vão ficando
sinais de um poder apenas atenuado

Quando estamos fora
à mercê dos elementos
o mundo celebra em nós
aquilo que se extingue
1 111
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vai-te embora, Sol dos céus!

Vai-te embora, Sol dos céus!
Os olhos da minha irmã
Foram criados por Deus
P'ra substituir a manhã.

E se alguns acham mais bela
A noite, e mais cheia de alma,
O certo é que os olhos d'ela,
São da cor da noite calma.

Assim, manhãs na viveza
E noite na cor que têm,
Se os há iguais em beleza
Inda os não usou ninguém.

ÍBIS.
939
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Água que não vem na bilha

Água que não vem na bilha
É como se não viesse.
Como a mãe, assim a filha...
Antes Deus as não fizesse.
1 264
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Olhos tristes, grandes, pretos,

Olhos tristes, grandes, pretos,
Que dizeis sem me falar
Que não há filhos nem netos
De eu não querer amar.
1 389
Florbela Espanca

Florbela Espanca

A bondade

A bondade o som de Deus
A bondade a educação
A gente sempre ama os país
A estrela do coração.

A bondade ai a bondade
Aquele anjo de amor
Aquela santa feliz
E a bondade da flor

O anjo vem dar a bondade
A bondade do coração
A bondade para todos

E urna boa educação
feliz de quem tem bondade
E sempre sempre um bom irmão
1 886
Dan Pagis

Dan Pagis

Escrito a lápis em um vagão de trem lacrado

Aqui neste vagão
eu Eva
com meu filho Abel
se virem meu primogênito
Caim filho de Adão
digam-lhe que eu

("tradução" perpetrada por Ricardo Domeneck a partir das versões inglesa, espanhola e alemã.)

1 370
Kenneth Rexroth

Kenneth Rexroth

Metempsicose

Dois meses de vida e já passam
Pelo rosto da minha filha
Rostos há muito passados e mortos.
METEMPSYCHOSIS
Two months old, already
Across my daughter’s face
Pass faces long past and dead.
736
Leila Mícollis

Leila Mícollis

Diferença (Ciclo Infantil)

Meu mundo é violento e com razão:
na rua se eu apanho, é covardia,
em casa se eu apanho, é educação.


In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.2
918
Leila Mícollis

Leila Mícollis

Segredo (Série Infantil)

Os carros atropelam minha bola.
A empregada reclama do encerado.
Mamãe esconde sempre meus esqueites,
pois se eu caio
dou despesa e atrapalho
Os adultos
— cá pra nós —
só dão trabalho.

Ao Eloy


In: MÍCCOLIS, Leila. Em perfeito mau estado. Rio de Janeiro: Achiamé, 1987. p.6
1 287
Maria Helena Nery Garcez

Maria Helena Nery Garcez

Serão

Recitava Os Lusíadas de cor, a mãe,
com a ênfase do nunca dantes declamado.
Marchava descalço, o pai, arengando
o estribilho do serviço militar.
Entre o elevado e o humilde,
dividida,
a gente escutava;
sem saber a qual dos dois secundar.


In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987
897
Ulisses Tavares

Ulisses Tavares

1,75m de não faça isso

1,75m de não faça isso,
68kg de não faça aquilo,
é dose:
meu irmão já nasceu adulto precoce.


In: TAVARES, Ulisses. Aos poucos fico louco. Il. Ota. Rio de Janeiro: Globo, 1987
3 012
Rosalía de Castro

Rosalía de Castro

Cantar de emigração

Este parte, aquele parte
e todos, todos se vão.
Galiza, ficas sem homens
que possam cortar teu pão

Tens em troca orfãos e orfãs
e campos de solidão
e mães que não têm filhos
filhos que não têm pais.

Corações que tens e sofrem
longas horas mortais
viúvas de vivos-mortos
que ninguém consolará

5 823
Madi

Madi

Espelho

Espelho

Chegará o tempo
em que irão olhar e enxergar em mim o seu rosto
Chegará o tempo
em que eu não vou precisar dizer o meu nome:
o seu estará escrito em minha vida,
claro, exposto, legível

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Wanda Cristina

Wanda Cristina

Aliteração

Eu quero dançar contigo
dentro do poesia,
como dança o povo dentro do Estado.

Eu quero rebolar contigo em cada rima,
como rebola o povo dentro do salário.

Eu escolho uma aliteração
para a nossa vida:
filhos, felicidade, família, feijão, farinha...
como o povo, em fé,
faz folia, forra a fome com futebol e fantasia.

1 126
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Ode à Cama

Então pode-se ouvir certo ruído
O doce farfalhar feito e desfeito
O cálido fluir do ser que é
Fundado sobre o cê e o verbo ama
A lânguida canção. Lida do leito.

Cama em que os filhos fiz
E onde virá baixar a morte
Lugar de amor, viagem, transe.
Oh! entre madeira, verniz e pano
Vai selada nossa vida e nossa sorte.

1 112
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Gravidade

A gravidez da menina
que um dia sonhava . . .

Na gravidade da terra
que gira, gira . . .

O homem grávido de idéias
e a menina sonhava . . .
Homem menina
na gravidade das horas
que giram.

Gravidade na palidez
do pai de família,

a censurar a gravidez
da menina.

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