Criatividade e Inspiração

Poemas neste tema

Beto Caloni

Beto Caloni

Haicai

Vento no madrigal:
copio o som que sopra
no verde canavial.

A vaga da lua
me despenteia;
nem por isso me sinto feia.

979 1
Giuseppe Ungaretti

Giuseppe Ungaretti

PORTO SEPULTO

Aí chega o poeta
e depois volta à luz com seus cantos
e os dispersa.

Desta poesia
resta-me um
nada
de inexaurível segredo.

1 676 1
Julieta Lima

Julieta Lima

Ninguém vai saber

Ninguém vai saber
Do meu segredo.
Tenho um amante
Belo como Deus
E todo nu
Aqui deitado ao meu lado!
Seus beijos são azuis
E a sua voz vermelha como o lume!
Tenho um amante só meu
E ninguém vai saber,
Ninguém mo vai roubar,
Porque ele é meu, só meu:
É feito de poemas e de fumo...

786 1
José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

Os Versos

Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte
nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta

1 911 1
Jorge Melícias

Jorge Melícias

Na ponta dos dedosbatem as palavras

sísmicas.E a testa abre-se profusamenteà força do
nome.Digo:aquele que escreve infunde o prodígio,respira ao
cimo com a luz nos pulmões,atravessa como se
florisse nos abismos.

de A Luz nos Pulmões(2000)

934 1
Natália Correia

Natália Correia

O Livro dos Amantes II

Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.

1 977 1
Daniel Faria

Daniel Faria

Voz no vento passando

Voz no vento passando entre poeira

Edifício

Árvore noutro poema

Fico à sombra da vide e do esteio no Outono

E enxerto a luz

Em tudo o que nomeio

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 031 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vinha elegante, depressa,

Vinha elegante, depressa,
Sem pressa e com um sorriso.
E eu, que sinto co a cabeça,
Fiz logo o poema preciso.

No poema não falo dela
Nem como, adulta menina,
Virava a esquina daquela
Rua que é a eterna esquina...

No poema falo do mar,
Descrevo a onda e a mágoa.
Relê-lo faz-me lembrar
Da esquina dura – ou da água.


14/08/1932
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VII - Ponho na altiva mente o fixo esforço

Ponho na altiva mente o fixo esforço
Da altura, e à sorte deixo,
E as suas leis, o verso;
Que, quando é alto e grégio o pensamento,
Súbdita a frase o busca
E o escravo ritmo o serve.


(Athena, nº 1, Outubro de 1924)
3 959 1
Rui Costa

Rui Costa

Não são poemas

Não são poemas o que eu escrevo
São casas onde os pássaros esperam.
Nas suas janelas coincide o mundo.
Nos seus esteios resvalam gigantes.
Algumas vezes ódio.
Algumas vezes amor.
Não são mortalhas incondicionais do medo.
O HÓSPEDE DA CASA NÃO
TEM O DEVER DE SER FELIZ!
Não são poemas que eu escrevo
São espelhos onde os rostos principiam.

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Rui Costa

Rui Costa

breve ensaio sobre a potência 29

Os anjos são recicláveis e a literatura
controla o tráfego aéreo. No porão do
pensamento acenamos à suavidade,
enquanto Deus é uma sala de fisioterapia.
Conservamos as fábricas de electricidade
em níveis aceitáveis de educação sentimental.
Somos homens negros paridores da luz.

1 042
Amália Bautista

Amália Bautista

Xerazade

Levo já quase mil noites com fábulas
e a cabeça dói-me e tenho seca
a língua e esgotados os recursos,
a imaginação. E nem sequer
sei se me salvarei com as mentiras.

527
Marcelo Montenegro

Marcelo Montenegro

Desassossegos

García Lorca
olhando uma mariposa
afogada no tinteiro

Brian Wilson
sentando ao piano
depois de escutar Rubber Soul

Lucia Berlin
na enfermaria
da simplicidade

Cartier-Bresson
fotografando
a eternidade

Alejandra Pizarnik
terminando sozinha
o que ninguém começou

Murilo Mendes
vendo a cidade cair
das prateleiras do céu
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Herberto Helder

Herberto Helder

4K

O mármore maduro desabrocha, move-o pelo meio
a estrela de água.
E a cobra enrola-se ao torso, mergulha
na bolsa tenra. O sopro da víbora incha a pedra
de ombro a ombro.
E a pedra formada, a víbora fria, a estrela
que funciona,
transmudam-se umas nas outras.
— Todas as canções são canções múltiplas
e únicas
de demência.
1 076
Herberto Helder

Herberto Helder

4D

A solidão de uma palavra. Uma colina quando a espuma
salta contra o mês de maio
escrito. A mão que o escreve agora.
Até cada coisa mergulhar no seu baptismo.
Até que essa palavra se transmude em nome
e pouse, pelo sopro, no centro
de como corres cheio de luz selvagem,
como se levasses uma faixa de água
entre
o coração e o umbigo.
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Herberto Helder

Herberto Helder

4H

O dia abre a cauda de água, o copo
vibra com tanta força,
as unhas fulguram sobre a toalha.
Cada palavra pensa cada coisa.
Entre imagens de ouro e vento, a constelação arterial dos objectos
do mundo alarga os braços furiosamente
de abismo a abismo.
A mão convulsa manobra a vida máxima.
E então sou devorado pelos nomes
selvagens.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Iv E

Quero um erro de gramática que refaça
na metade luminosa o poema do mundo,
e que Deus mantenha oculto na metade nocturna
o erro do erro:
alta voltagem do ouro,
bafo no rosto.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Iii C

Em recessos, com picareta e pá, sem máscara, trabalha
na especialidade
do ouro:
e um corpo de astronomia,
travejado, violento, refractário, doendo, arrancado ao chão,
ilumina-se de si mesmo
— obreiro e obra são uma só forma instantânea
do verbo ouro nativo.
1 061
Herberto Helder

Herberto Helder

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e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma
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Herberto Helder

Herberto Helder

11

queria ver se chegava por extenso ao contrário:
força e pulsação e graça,
isto é: a luz, de dentro, despedaçando tudo,
e concentrada:
estrela / esteia
881
Herberto Helder

Herberto Helder

25

e encerrar-me todo num poema,
não em língua plana mas em língua plena
1 195
Herberto Helder

Herberto Helder

37

já sai para o visível e o conjunto a olaria,
e soprada, tocada, respira toda,
linhas rectas, cruas,
e dentro da respiração já brilha,
vária, cozida, única,
cântaros, púcaros, alguidares, infusas
já começam no invisível
1 042
Herberto Helder

Herberto Helder

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mesmo assim fez grandes mãos, mãos sem anéis, incorruptíveis,
e aplicou-as nas matérias virgens,
escreveu algumas palavras numa folha fechada escreveu-as
oh milagre na folha estanque, e elas
transbordaram:
morreu disso
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Herberto Helder

Herberto Helder

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ata e desata os nós aos dias meteorológicos, dias orais, manuais,
irredimíveis,
mais que sangue agudo da mão à língua,
que fruta acerba desmanchada
entredentes,
oh trabalha-me, intuito
lírico,
por fora esses dias manuais,
por dentro troca tudo meu tão certo secretário assim como um sufôco
ou isso
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