Escritas

Corpo

Poemas neste tema

Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

As nádegas

Porque das nádegas
a curva
sempre oferece
a fenda
o rio
o fundo do buraco

Para esconso uso do corpo
nunca o fraco
poder do corpo em torno desse vaso

Ambiguo modo
de ser usado
e visto

De todo o corpo
aquele
menos dado

preso que está já
do próprio vicio
e mais não é que o limiar de um acto

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Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Arte-final

Não basta um grande amor
para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
que o amor da gente.

O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.

Uma coisa é a letra,
e outra o ato,

– quem toma uma por outra
confunde e mente.

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José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira

XLVI

(Finjo que não vejo as mulheres que passam, mas vejo)

De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,
mal viu a menina atravessar a rua,
saltou num ímpeto de besouro
e despiu-a toda...

E a Que-Sempre-Tanto-Se-Recata
ficou nua,
sonambulamente nua,
com um seio de ouro
e outro de prata.

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas

Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas
detêm a mão ansiosa: Devagar.
Cada pétala ou sépala seja lentamente
acariciada, céu; e a vista pouse,
beijo abstrato, antes do beijo ritual,
na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado.
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Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

As maçãs

Da alma só sei o que sabe o corpo:
onde a esperança e a graça
aspiram ao ardor
da chama é a morada do homem.
Vê como ardem as maçãs
na frágil luz de inverno
uma casa devia ser
assim: brilhar ao crepúsculo
sem usura nem vileza
com as maçãs por companhia.
Assim: limpa, madura.

 

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Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Confluência

Ter-te amado, a fantasia exata se cumprindo
sem distância.
Ter-te amado convertendo em mel
o que era ânsia.
Ter-te amado a boca, o tato, o cheiro:
intumescente encontro de reentrâncias.
Ter-te amado
fez-me sentir:

no corpo teu, o meu desejo
– é ancorada errância.

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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O amor cerra os olhos

O amor cerra os olhos,não para ver mas para absorver:a obscura transparência,a espessura das sombras ligeiras, a ondulação ardente: a alegria.Um cavalo corre na lenta velocidade das artérias.O amor conhece-se sobre a terra coroada:animal das águas,animal do fogo,animal do ar:a matéria é só uma,terrestre e divina.

de Três Lições Materiais(1989)

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

São flores ou são nalgas

São flores ou são nalgas
estas flores
de lascivo arabesco?

São nalgas ou são flores
estas nalgas
de vegetal doçura e macieza?
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Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Nas ervas

Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso
descer aos flancos, enterrar

os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta

aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão.

porque é terrivel
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve.

abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho -
a glande leve.

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Alice Ruiz

Alice Ruiz

Teu corpo seja brasa

teu corpo seja brasa
e o meu a casa
que se consome no fogo

um incêndio basta
pra consumar esse jogo
uma fogueira chega
pra eu brincar de novo

3 139 5
Chacal

Chacal

Primeiro eu quero falar de amor

meu amor se esparrama na grama
Meu amor se esparrama na cama
meu amor se espreguiça
meu amor deita e rola no planeta.

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Daniel Faria

Daniel Faria

Explicação Do Poeta

Pousa devagar a enxada sobre o ombro
Já cavou muito silêncio
Como punhal brilha em suas costas
A lâmina contra o cansaço

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 948 5
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Mulheres À Beira-Mar

Confundindo os seus cabelos com os cabelos do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e tão denso em plena liberdade.
Lançam os braços pela praia fora e a brancura dos seus pulsos penetra nas espumas.
Passam aves de asas agudas e a curva dos seus olhos prolonga o interminável rastro no céu branco.
Com a boca colada ao horizonte aspiram longamente a virgindade de um mundo que nasceu.
O extremo dos seus dedos toca o cimo de delícia e vertigem onde o ar acaba e começa.
E aos seus ombros cola-se uma alga, feliz de ser tão verde.
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Paulo Lins

Paulo Lins

Sou

Sou
Seu
Cio
Sou
Seu
Ócio
Sou
Seu
Sócio
no
Prazer

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Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Lettera amorosa

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar — branco pano que se rasga.
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Adão Ventura

Adão Ventura

Faça sol ou faça tempestade

faça sol ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.

faça sol ou faça tempestade
meu corpo é cercado
por estes muros altos,
— currais
onde ainda se coagula
o sangue dos escravos.

faça sol
ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.

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Ulisses Tavares

Ulisses Tavares

Toque

alguma coisa estranha acontece
quando se toca em gente.
experimente.


In: TAVARES, Ulisses. O eu entre nós. São Paulo: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1979. (Coleção PF)
2 889 3
Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar

Olho muito tempo

Olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas

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Antoniella Devanier

Antoniella Devanier

Pedidos do corpo

O corpo pede um drink:
pode ser martini
Na manhã que chega,
estranha e solitária,
sou mulher também.
Mas, ontem à noite,
o corpo pediu um toque
da língua, nos gelos
que estavam
perdidos no copo.

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Bocage

Bocage

Nariz, nariz, e nariz,

Nariz, nariz, e nariz,
Nariz, que nunca se acaba;
Nariz, que se ele desaba,
Fará o mundo infeliz;
Nariz, que Newton não quis
Descrever-lhe a diagonal;
Nariz de massa infernal,
Que, se o cálculo não erra,
Posto entre o Sol e a Terra,
Faria eclipse total!

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Ferreira Gullar

Ferreira Gullar

Definição da Moça

Como defini-la
Quando está vestida
Se ela me desbunda
Como se despida?

Como defini-la
Quando está desnuda
Se ela é viagem
Como toda nuvem?

Como desnudá-la
quando está vestida
se está mais despida
do que quando nua?

Como possuí-la
Quando está desnuda
Se ela toda é chuva?
Se ela toda é vulva?
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Martha Medeiros

Martha Medeiros

Minha Boca

minha boca
é pouca
pro desejo
que anda à solta
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Arnaldo Antunes

Arnaldo Antunes

Boceta

da entrada à entranha
dessa eterna
morada
da morte diária
molhada
de mim
desde dentro
o tempo
acaba

entre lábio e lábio
de mucosa rósea
que abro
e me abra
ça a cabe
ça o tronco
o membro
acaba o tempo

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