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Morte

Poemas neste tema

Florbela Espanca

Florbela Espanca

Olhos que façam chorar

Olhos que façam chorar,
Só os teus, de mais ninguém.
Por que me lembrais, ó olhos,
Os olhos de minha mãe?

Essa lembrança bendita
Apenas é crueldade...
Por que me lembrais, ó olhos,
A minha imensa saudade?

Se ela dorme há muito tempo,
Se há muito tempo morreu...
Por que me lembrais, ó olhos,
Um bem que est’alma perdeu?

Fechai-vos devagarinho,
Olhos como os de ninguém!
Deixai-me esquecer a mágoa
Dos olhos da minha mae!...
1 824
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Desejo

Quero-te ao pé de mim na hora de morrer.
Quero, ao partir, levar-te, todo suavidade,
Ó doce olhar de sonho, ó vida dum viver
Amortalhado sempre à luz duma saudade!

Quero-te junto a mim quando o meu rosto branco
Se ungir da palidez sinistra do não ser,
E quero ainda, amor, no meu supremo arranco
Sentir junto ao meu seio teu coração bater!

Que seja a tua mão tão branda como a neve
Que feche o meu olhar numa carícia leve
Em doce perpassar de pétala de lis...

Que seja a tua boca rubra como o sangue
Que feche a minha boca, a minha boca exangue!
.....................................................................
Ah, venha a morte já que eu morrerei feliz!...
2 691
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Sonho Morto

Nosso sonho morreu. Devagarinho,
Rezemos uma prece doce e triste
Por alma desse sonho! Vá... baixinho...
Por esse sonho, amor, que não existe!

Vamos encher-lhe o seu caixão dolente
De roxas violetas; triste cor!
Triste como ele, nascido ao sol poente,
O nosso sonho... ai!... reza baixo... amor...

Foste tu que o mataste! E foi sorrindo,
Foi sorrindo e cantando alegremente,
Que tu mataste o nosso sonho lindo!

Nosso sonho morreu... Reza mansinho...
Ai, talvez que rezando, docemente,
O nosso sonho acorde... mais baixinho...
2 047
Isaac Rosenberg

Isaac Rosenberg

Raiar do dia nas trincheiras

A escuridão desmorona -
É o mesmo tempo druida de sempre.
Só uma coisa viva roça minha mão -
Um rato esquisito e sarcástico -
Ao arrancar do parapeito a papoula
Para por detrás da orelha.
Rato comediante, você seria fuzilado se soubessem
De suas simpatias cosmopolitas.
Agora você tocou esta mão inglesa
Amanhã fará o mesmo com uma alemã -
Sem dúvida em breve se bem lhe aprouver
Cruzar o verde sonolento entre nós.
Você parece sorrir por dentro ao passar
Por olhos fortes, pernas rijas, atletas orgulhosos
Menos aptos à vida que você,
Atados aos caprichos do homicídio,
Esparramados pelas entranhas da terra,
Os campos rasgados da França.
O que você vê em nossos olhos
No ferro e fogo barulhento
Arrojados pelo céu quieto?
Que tremor - que peito horrorizado?
Papoulas com raízes nas veias de homens
Caem, e caem eternamente;
Mas a minha está segura em minha orelha,
Apenas um tanto embranquecida de poeira.

(tradução de Ricardo Domeneck)
1 664
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Deixai Entrar a Morte

Deixai entrar a Morte, a Iluminada,
A que vem para mim, pra me levar.
Abri todas as portas par em par
Com asas a bater em revoada.

Que sou eu neste mundo? A deserdada,
A que prendeu nas mãos todo o luar,
A vida inteira, o sonho, a terra, o mar
E que, ao abri-las, não encontrou nada!

Ó Mãe! Ó minha Mãe, pra que nasceste?
Entre agonias e em dores tamanhas
Pra que foi, dize lá, que me trouxeste

Dentro de ti? Pra que eu tivesse sido
Somente o fruto amargo das entranhas
Dum lírio que em má hora foi nascido!...
2 719
Otto Lara Resende

Otto Lara Resende

Gato gato gato

Familiar aos cacos de vidro inofensivos, o gato caminhava molengamente por cima do muro. O menino ia erguer-se, apanhar um graveto, respirar o hálito fresco do porão. Sua úmida penumbra. Mas a presença do gato. O gato, que parou indeciso, o rabo na pachorra de uma quase interrogação.

Luminoso sol a pino e o imenso céu azul, calado, sobre o quintal. O menino pactuando com a mudez de tudo em torno - árvores, bichos, coisas. Captando o inarticulado segredo das coisas. Inventando um ser sozinho, na tontura de imaginações espontâneas como um gás que se desprende.

Gato - leu no silêncio da própria boca. Na palavra não cabe o gato, toda a verdade de um gato. Aquele ali, ocioso, lento, emoliente - em cima do muro. As coisas aceitam a incompreensão de um nome que não está cheio delas. Mas bicho, carece nomear direito: como rinoceronte, ou girafa se tivesse mais uma sílaba para caber o pescoço comprido. Girafa, girafa. Gatimonha, gatimanho. Falta um nome completo, felinoso e peludo, ronronante de astúcias adormecidas. O pisa-macio, as duas bandas de um gato. Pezinhos de um lado, pezinhos de outro, leve, bem de leve para não machucar o silêncio de feltro nas mãos enluvadas.

O pêlo do gato para alisar. Limpinho, o quente contato da mão no dorso, corcoveante e nodoso à carícia. O lânguido sono de morfinômano. O marzinho de leite no pires e a língua secreta, ágil. A ninhada de gatos, os vacilantes filhotes de olhos cerrados. O novelo, a bola de papel - o menino e o gato brincando. Gato lúdico. O gatorro, mais felino do que o cachorro é canino. Gato persa, gatochim - o espirro do gato de olhos orientais. Gato de botas, as aristocráticas pantufas do gato. A manha do gato, gatimanha: teve uma gata miolenta em segredo chamada Alemanha.

Em cima do muro, o gato recebeu o aviso da presença do menino. Ondulou de mansinho alguns passos denunciados apenas na branda alavanca das ancas. Passos irreais, em cima do muro eriçado de cacos de vidro. E o menino songamonga, quietinho, conspirando no quintal, acomodado com o silêncio de todas as coisas. No se olharem, o menino suspendeu a respiração, ameaçando de asfixia tudo que em torno dele com ele respirava, num só sistema pulmonar. O translúcido manto de calma sobre o claustro dos quintais. O coração do menino batendo baixinho. O gato olhando o menino vegetalmente nascendo do chão, como árvore desarmada e inofensiva. A insciência, a inocência dos vegetais.

O ar de enfado, de sabe-tudo do gato: a linha da boca imperceptível, os bigodes pontudos, tensos por hábito. As orelhas acústicas. O rabo desmanchado, mas alerta como um leme. O pequeno focinho úmido embutido na cara séria e grave. A tona dos olhos reverberando como laguinhos ao sol. Nenhum movimento na estátua viva de um gato. Garras e presas remotas, antigas.

Menino e gato ronronando em harmonia com a pudica intimidade do quintal. Muro, menino, cacos de vidro, gato, árvores, sol e céu azul: o milagre da comunicação perfeita. A comunhão dentro de um mesmo barco. O que existe aqui, agora, lado a lado, navegando. A confidência essencial prestes a exalar, e sempre adiada. E nunca. O gato, o menino, as coisas: a vida túmida e solidária. O teimoso segredo sem fala possível. Do muro ao menino, da pedra ao gato: como a árvore e a sombra da árvore.

O gato olhou amarelo o menino. O susto de dois seres que se agridem só por se defenderem. Por existirem e, não sendo um, se esquivarem. Quatro olhos luminosos - e todas as coisas opacas por testemunha. O estúpido muro coroado de cacos de vidro. O menino sentado, tramando uma posição mais prática. O gato de pé, vigilantemente quadrúpede e, no equilíbrio atento, a centelha felina. Seu íntimo compromisso de astúcia.

O menino desmanchou o desejo de qualquer gesto. Gaturufo, inventou o menino, numa traiçoeira tentativa de aliança e amizade. O gato, organizado para a fuga, indagava. Repelia. Interrogava o momento da ruptura - como um toque que desperta da hipnose. Deu três passos de veludo e parou, retesando as patas traseiras, as patas dianteiras na iminência de um bote para onde? Um salto acrobático sobre um rato atávico, inexistente.

Por um momento, foi como se o céu desabasse de seu azul: duas rolinhas desceram vertiginosas até o chão. Beliscaram levianas um grãozinho de nada e de novo cortaram o ar excitadas, para longe.

O menino forcejando por nomear o gato, por decifrá-lo. O gato mais igual a todos os gatos do que a si mesmo. Impossível qualquer intercâmbio: gato e menino não cabem num só quintal. Um muro permanente entre o menino e o gato. Entre todos os seres emparedados, o muro. A divisa, o limite. O odioso mundo de fora do menino, indecifrável. Tudo que não é o menino, tudo que é inimigo.

Nenhum rumor de asas, todas fechadas. Nenhum rumor.

Ah, o estilingue distante - suspira o menino no seu mais oculto silêncio. E o gato consulta com a língua as presas esquecidas, mas afiadas. Todos os músculos a postos, eletrizados. As garras despertas unhando o muro entre dois abismos.

O gato, o alvo: a pedrada passou assobiando pela crista do muro. O gato correu elástico e cauteloso, estacou um segundo e despencou-se do outro lado, sobre o quintal vizinho. Inatingível às pedras e ao perigoso desafio de dois seres a se medirem, sumiu por baixo da parreira espapaçada ao sol.

O tiro ao alvo sem alvo. A pedrada sem o gato. Como um soco no ar: a violência que não conclui, que se perde no vácuo. De cima do muro, o menino devassa o quintal vizinho. A obsedante presença de um gato ausente. Na imensa prisão do céu azul, flutuam distantes as manchas pretas dos urubus. O bailado das asas soltas ao sabor dos ventos das alturas.

O menino pisou com o calcanhar a procissão de formigas atarantadas. Só então percebeu que lhe escorria do joelho esfolado um filete de sangue. Saiu manquitolando pelo portão, ganhou o patiozinho do fundo da casa. A sola dos pés nas pedras lisas e quentes. À passagem do menino, uma galinha sacudiu no ar parado a sua algazarra histérica.

A casa sem aparente presença humana.

Agarrou-se à janela, escalou o primeiro muro, o segundo, e alcançou o telhado. Andava descalço sobre o limo escorregadio das telhas escuras, retendo o enfadonho peso do corpo como quem segura a respiração. O refúgio debaixo da caixa-d"água, a fresca acolhida da sombra. Na caixa, a água gorgolejante numa golfada de ar. Afastou o tijolo da coluna e enfiou a mão: bolas de gude, o canivete roubado, dois caramujos com as lesmas salgadas na véspera. O mistério. Pessoal, vedado aos outros. Uma pratinha azinhavrada, o ainda perfume da caixa de sabonete. A estampa de São José, lembrança da Primeira Comunhão.

Apoiado nos cotovelos, o menino apanhou uma joaninha que se encolheu, hermética. A joaninha indevassável, na palma da mão. E o súbito silêncio da caixa-d"água, farta, sua sede saciada.

Do outro lado da cidade, partiram solenes quatro badaladas no relógio da Matriz. O menino olhou a esfera indiferente do céu azul, sem nuvens. O mundo é redondo, Deus é redondo, todo segredo é redondo.

As casas escarrapachadas, dando-se as costas, os quintais se repetindo na modorra da mesma tarde sem data.

Até que localizou embaixo, enrodilhado à sombra, junto do tanque: um gato. Dormindo, a cara escondida entre as patas, a cauda invisível. Amarelo, manchado de branco de um lado da cabeça: era um gato. Na sua mira. Em cima do muro ou dormindo, rajado ou amarelo, todos os gatos, hoje ou amanhã, são o mesmo gato. O gato-eterno.

O menino apanhou o tijolo com que vedava a entrada do mistério. Lá embaixo - alvo fácil - o gato dormia inocente a sua sesta ociosa. Acertar pendularmente na cabeça mal adivinhada na pequena trouxa felina, arfante. Gato, gato, gato: lento bicho sonolento, a decifrar ou a acordar?

A matar. O tijolo partiu certeiro e desmanchou com estrondo a tranqüila rodilha do gato. As silenciosas patinhas enluvadas se descompassaram no susto, na surpresa do ataque gratuito, no estertor da morte. A morte inesperada. A elegância desfeita, o gato convulso contorcendo as patas, demolida a sua arquitetura. Os sete fôlegos vencidos pela brutal desarmonia da morte. A cabeça de súbito esmigalhada, suja de sangue e tijolo. As presas inúteis, à mostra na boca entreaberta. O gato fora do gato, somente o corpo do gato. A imobilidade sem a viva presença imóvel do sono. O gato sem o que nele é gato. A morte, que é ausência de gato no gato. Gato - coisa entre as coisas. Gato a esquecer, talvez a enterrar. A apodrecer.

O silêncio da tarde invariável. O intransponível muro entre o menino e tudo que não é o menino. A cidade, as casas, os quintais, a densa copa da mangueira de folhas avermelhadas. O inatingível céu azul.

Em cima do muro, indiferente aos cacos de vidro, um gato - outro gato, o sempre gato - transportava para a casa vizinha o tédio de um mundo impenetrável. O vento quente que desgrenhou o mormaço trouxe de longe, de outros quintais, o vitorioso canto de um galo.

2 783
André Pieyre de Mandiargues

André Pieyre de Mandiargues

O incêndio

O que vais então buscar no incêndio
Atrás dos vapores de esplendor barroco
Pelo segredo de um escadario roto
Estrangulado de heras escarlates?

Que voto fez-te empurrar porta ardente
Face santa de fogo e cinzas
Ao limite de mundo triste
Silêncio deterioração fingimento?

Diante de ti agora só há
Diamantes e rubis que brincam na poeira
Só gesso recaído sobre o chão de mármore
Com estátuas brancas as armas
As mãos de vidro os vasos cheios de lágrimas
O preto de velório e as rosas passadas
Embaixo de muros caducos

Vem uma dama deslumbrante e fúnebre
Logo aparecida logo desaparecida logo reaparecida
Logo mais nua ainda
Que é como a sombra de um desolar.
Nua em sangue e negra
Uma faísca em seu cabelo desfeito
Rubra como um craveiro que encravava a fuligem.

Calcando aos pés as pedras
O ouro e a prata o fragor do cristal
Indiferente à opulência ou à ruína
Na beleza de uma hora catastrófica.

E vais achá-la talvez boa atriz
A gigante que se estende com tranquilidade
Sobre a calçada como sobre navalha
Enquanto em volta explode e se dispersa
O louco luxo de seu teatro de sempre
Que mil línguas engolem.

(tradução de William Zeytounlian)

:

L'incendie

Qu'allais-tu donc chercher à travers l'incendie
Derrière des vapeurs à la splendeur baroque
Par le secret d'un escalier en loques
Etranglé de lierres écarlates ?

Quel voeu te fit pousser une porte brûlante
Sainte face de feu et de cendre
A la limite d'un monde morne
Sournoieserie silence délabrement ?

Devant toi ce n'est plus maintenant
Que diamants et rubis qui jouent dans la poussière
Que plâtres retombés sur de carreaux de marbre
Avec des statues blanches des armes
Des mains de verre des vases pleins de larmes
Des nègres de velours et des roses passées
Au bas de murs caducs.

Il vient une dame éclatante et funèbre
Tôt apparue tôt disparue tôt reparue
Plus tôt encore nue
Qui est comme l'ombre d'une désolation.
Nue saignante et noire
Une flammèche en ses cheveux défaits
Rouge comme un oeillet qui crèverait la suie.

Foulant aux pieds les pierres
L'or et l'argent le fracas du cristal
Indifférente à l'opulance ou à la ruine
Dans la beauté d'une heure catastrophique.

Et tu la trouveras peut-être bonne actrice
La géante qui s'étend avec tranquillité
Sur le pavement comme sous un couteau
Tandis qu'alentour explose et se disperse
Le luxe fou de son théâtre de toujours
Que mille langues engloutissent.

917
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Carlos Sanchez

vulgo O Limitado

Do que aqui jaz,
só a morte encontrou a utilidade.

707
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Gabino Suárez, vulgo O Conselho

Nascer, existir, morrer,
já sei como se divide
o nada por três.

649
Blanca Varela

Blanca Varela

Monsieur Monod não sabe cantar

meu querido
me lembro de ti como a melhor canção
essa apoteose de galos e estrelas que já não és
que já não sou que já não seremos
e contudo sabemos muito bem ambos
que falo pela boca pintada do silêncio
com agonia de mosca
no final do verão
e por todas as portas mal fechadas
conjurando ou chamando esse vento aleivoso da memória
esse disco arranhado antes de usar
tingido segundo o humor do tempo
e suas velhas doenças
ou de vermelho
ou de preto
como um rei em desgraça na frente do espelho
na véspera
e amanhã e depois de amanhã e sempre

noite que te precipitas
(assim deveria dizer a canção)
carregada de presságios
cadela insaciável (un peu fort)
mãe esplêndida (plus doux)
parideira e descalça sempre
para não ser escutada pelo néscio que em ti crê
para melhor esmagar o coração
do desvelado
que se atreve a ouvir o passo arrastado
da vida
da morte
uma casca de mosquito uma torrente de plumas
uma tempestade num copo de vinho
um tango

a ordem altera o produto
erro do maquinista
podre técnica continuar vivendo tua história
ao contrário como no cinema
um sonho grosso
e misterioso que se adelgaça
the end is the beginning
uma luzinha vacilante como a esperança
cor de clara de ovo
com cheiro de peixe e más intenções
obscura boca-de-lobo que te leva
de Cluny ao Parque Salazar
esteira rolante tão veloz e tão negra
que já não sabes
se és ou te fazes de vivo
ou de morto
e sim uma flor de ferro
como um último bocado torto e sujo e lento
para melhor devorar-te

meu querido
adoro tudo o que não é meu
tu por exemplo
com tua pele de asno sobre a alma
e essas asas de cera que te dei
e que jamais te atreveste a usar
não sabes como me arrependo de minhas virtudes
já não sei o que fazer com a minha coleção de chaves falsas
e mentiras
com minha indecência de menino que deve terminar este conto
agora já é tarde
porque a recordação como as canções
a pior a que quiseres a única
não resiste a outra página em branco
e não tem sentido que eu esteja aqui
destruindo
o que não existe

meu querido
apesar disso
tudo continua igual
o arrepio filosófico depois do chuveiro
o café frio o cigarro amargo O Lodo Verde
no Montecarlo
continua livre para todos os públicos a vida perdurável
intacta a estupidez das nuvens
intacta a obscenidade dos gerânios
intacta a vergonha do alho
os pardaizinhos cagando divinamente em pleno céu
de abril
Mandrake criando coelhos em algum círculo
do inferno
e sempre a patinha de caranguejo presa
na trapaça do ser
ou do não ser
ou de não quero isto mas aquilo
tu sabes
essas coisas que nos acontecem
e que devem ser esquecidas para que existam
por exemplo a mão com asas
e sem mão
a história do canguru - aquela da bolsa ou a vida -
ou a do capitão preso na garrafa
para sempre vazia
e o ventre vazio mas com asas
e sem ventre
tu sabes
a paixão a obsessão
a poesia a prosa
o sexo o êxito
ou vice-versa
o vazio congênito
o ovinho pintado
entre milhões e milhões de ovinhos pintados
tu e eu
you and me
toi and moi
tea for two na imensidão do silêncio
no mar intemporal
no horizonte da história
porque ácido ribonucleico somos
mas ácido ribonucleico apaixonado sempre
859
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Efigenio Gomiá, vulgo O Semicompleto

Aqui jaz um idiota maravilhoso,
acreditou que haver nascido fosse um êxito.
Não ponham flores em seu túmulo.
609
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Tomás Elías, vulgo O Doutor

Aqui jaz um acadêmico cuja saberdoria
o levou a cultivar a ignorância
baseando-se no conhecimento.
Passante, não ponhas flores em seu túmulo,
ele não as entenderia.

682
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio para Jacinto Modales

vulgo O Botas

Vivi lutando contra a gordura e a ontologia,
agora tudo está no caixão.

800
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Ramón Suelo, vulgo O Calado

Quando nasci, estava incompleto, faltava-me a morte.

706
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Creencio Álvarez, vulgo O Dentro

O caixão me dói menos que o berço.

450
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Réndez Merodes, vulgo O Vigilante

Espero que esta seja a última vez que morro,
que não me coloquem de novo, com sangue, em outra fase da matéria
e me façam chorar em outro local,
eu quero que esta morte me seja de serventia para sempre.

642
Heiner Müller

Heiner Müller

Tristão 1993

Ontem vi em meu filho um olhar estranho
Que durou uma notícia trágica um comercial
Eu li nos olhos do meu filho
Que já viram coisas demais a pergunta
Se o mundo ainda vale o esforço que é a vida
Pelo instante que durou uma notícia trágica
Um comercial eu fiquei em dúvida
Se desejava a ele uma vida longa
Ou por amor uma morte prematura.
:
Tristan 1993
Gestern hatte mein Kind einen fremden Blick
Eine Schreckensnachricht einen Werbespot lang
In den Augen meines Kindes las ich
Der zu viel gesehen hat die Frage
Ob die Welt die Mühe des Lebens noch aufwiegt
Einen Augenblick eine Schreckensnachricht
Einen Werbespot lang war ich im Zweifel
Soll ich ihm ein langes Leben wünschen
Oder aus Liebe einen frühen Tod
813
Sóror Maria do Céu

Sóror Maria do Céu

Cidra, ciúme

É ciúmes a Cidra,
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça a seu louco padecente,
Dá-lhe um cento de amor o apelido,
Que o ciúme é amor, mas mal sofrido,
Vê-se cheia de espinhos e amarela,
Que piques e desvelos vão por ela,
Já do forno no lume,
Cidra que foi zelo, se não foi ciúme,
Troquem, pois, os amantes e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.
1 109
Nizâr Qabbânî

Nizâr Qabbânî

pensei ontem no meu amor por ti

pensei ontem no meu amor por ti
lembrei-me logo
das gotas de mel nos teus lábios
e então lambi o açúcar das paredes da minha memória
(tradução de André Simões)
646
Vasko Popa

Vasko Popa

- Diante do final

Onde iremos agora
Onde a lugar algum
Onde poderiam ir dois ossos
O que faremos lá
Lá nos de há muito
Lá nos espera ansioso
Nada e sua mulher nada
De que lhes servimos nós
Envelheceram desossados
Seremos para eles como filhos
662
Leopoldo María Panero

Leopoldo María Panero

Hino a Satanás

Tu que moldas o rastejar das serpentes
das serpentes do espelho, das serpentes da velhice
tu que és o único digno de beijar minha carne enrugada
e mirar no espelho
onde se vê somente um sapo,
belo como a morte:
tu que és como o adorador de ninguém:
se aproxime,
construí o poema como um anzol
para que o leitor caia nele,
e rasteje
umidamente entre as páginas.
* * *
Os pássaros voam sobre teus olhos
e o esqueleto de um cavalo desenha a silhueta da mentira
da mentira de deus em uma habitação escura
onde voam os pássaros
:
HIMNO A SATANÁS
A belfegor, dios pedo o creptus
Tú que modulas el reptar de las serpientes
de las serpientes del espejo, de las serpientes de la vejez
tú que eres el único digno de besar mi carne arrugada,
y de mirar en el espejo
en donde sólo se ve un sapo,
bello como la muerte:
tú que eres como yo adorador de nadie:
ven aquí, he
construido este poema como un anzuelo
para que el lector caiga en él,
y repte
húmedamente entre las páginas.
* *
Los pájaros vuelan sobre tus ojos
y la calavera de un caballo dibuja la silueta de la mentira
de la mentira de Dios en una habitación a oscuras
en donde vuelan los pájaros.
751
Walter de la Mare

Walter de la Mare

Napoleão

O que é o mundo, ah! soldados?
.......Sou eu:
Eu, esta neve inextinguível,
Este norte, este céu;
Soldados, esta saudade
Que nos cerca como túnel
.......Sou eu.
(tradução de Ricardo Domeneck)
536
Leopoldo María Panero

Leopoldo María Panero

Inferno

“Ah a bandeira, a bandeira da carne que sangra
e as flores do ártico que não existe” Arthur Rimbaud
Não busqueis mais, já não tenho olhos
pois o olho é símbolo de Jesus Cristo e de Deus
e sou o cristal do inferno
o cristal para morrer tão solitário
para morrer na página delicada como o sofrimento
como a dor mais atroz que é o sofrer inexistente
o padecer na página que não existe.
:
INFERNO
A Strindberg
“Ah la bandera, la bandera de la carne que sangra
y las flores del ártico que no existen” Arthur Rimbaud
No busquéis más, ya que no tengo ojos
pues el ojo es símbolo de Jesuscristo y de Dios
y yo soy el cristal del infierno
el cristal para morir tan solo
para murir en la página delgada como el sufrimiento
como el sufrir más atroz que es el sufrir que no existe
el sufrir en la página
que no existe.
626
Inge Müller

Inge Müller

Lua lua nova tua segadeira

Lua lua nova tua segadeira
Ceifa-nos tempo qual relva
E nós nos erguemos no céu
Em fina areia de ampulheta.
Segue seu caminho a estrela
Nós buscamos nossa vereda
Quando ela própria se deita
Passe então por cima dela.


(N.T.: Por questões sonoras, mudei os verbos nos últimos dois versos da primeira para a terceira pessoa.)

:

Mond Neumond deine Sichel
Mäht unsre Zeit wie Gras
Wir stehn aufrecht im Himmel
Auf dünnem Stundenglas.
Der Stern geht seine Wege
Wir suchen unsern Weg
Wenn ich mich niederlege
Geh über mich hinweg.


784