Espiritualidade
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
Esse é um génio, é o que é novo é (...)
Esse é um génio, é o que é novo é (...)
Outro é um deus, e as crianças do mundo não lhe cospem na cara.
Queria ser uma pedra, não aspiro a mais, quero
Ser uma coisa que não possa ter vergonha nem desespero,
Fui rei nos meus sonhos, mas nem sonhos houve, além de mim
E a última palavra que se escreve nos livros é a palavra Fim.
Outro é um deus, e as crianças do mundo não lhe cospem na cara.
Queria ser uma pedra, não aspiro a mais, quero
Ser uma coisa que não possa ter vergonha nem desespero,
Fui rei nos meus sonhos, mas nem sonhos houve, além de mim
E a última palavra que se escreve nos livros é a palavra Fim.
1 203
Fernando Pessoa
Os deuses desterrados [2]
Os deuses desterrados
Os irmãos de Saturno
Às vezes no crepúsculo
Vêm espreitar a vida…
Vêm então ter connosco
Remorsos e saudades...
É a presença deles,
Deuses que o destroná-los
Tornou espirituais,
De matéria divina
Longínqua e inactiva...
E o poente tem cores
De tristeza e cansaços.
E ouve-se soluçar
Para além das esferas
Hipérion que chora
O seu palácio antigo
Que Apolo lhe roubou...
Os irmãos de Saturno
Às vezes no crepúsculo
Vêm espreitar a vida…
Vêm então ter connosco
Remorsos e saudades...
É a presença deles,
Deuses que o destroná-los
Tornou espirituais,
De matéria divina
Longínqua e inactiva...
E o poente tem cores
De tristeza e cansaços.
E ouve-se soluçar
Para além das esferas
Hipérion que chora
O seu palácio antigo
Que Apolo lhe roubou...
1 242
Fernando Pessoa
Do eterno erro na eterna viagem,
Do eterno erro na eterna viagem,
O mais que saibas na alma que ousa,
É sempre nome, sempre linguagem
O véu e a capa de uma outra cousa.
Nem que conheças de frente o Deus,
Nem que o eterno te dê a mão,
Vês a verdade, rompes os véus,
Tens mais caminho que a solidão.
Todos os astros, inda os que brilham
No céu sem fundo do mundo interno,
São só caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.
Volta a meu seio, que não conhece
Enigma ou deuses porque os não vê,
Volta a meus braços, neles esquece
Isso que tudo só finge que é.
Meus ramos tecem doceis de sono,
Meus frutos ornam o arvoredo;
Vem a meus braços em abandono
Todos os Deuses fazem só medo.
Não há verdade que consigamos,
Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver...
Doceis de sono tecem meus ramos.
Dorme sob eles como qualquer.
O mais que saibas na alma que ousa,
É sempre nome, sempre linguagem
O véu e a capa de uma outra cousa.
Nem que conheças de frente o Deus,
Nem que o eterno te dê a mão,
Vês a verdade, rompes os véus,
Tens mais caminho que a solidão.
Todos os astros, inda os que brilham
No céu sem fundo do mundo interno,
São só caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.
Volta a meu seio, que não conhece
Enigma ou deuses porque os não vê,
Volta a meus braços, neles esquece
Isso que tudo só finge que é.
Meus ramos tecem doceis de sono,
Meus frutos ornam o arvoredo;
Vem a meus braços em abandono
Todos os Deuses fazem só medo.
Não há verdade que consigamos,
Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver...
Doceis de sono tecem meus ramos.
Dorme sob eles como qualquer.
841
Fernando Pessoa
Seguro assento na coluna firme [ 2]
Seguro assento na coluna firme
Dos versos em que fico.
Aquele agudo interno movimento
Por quem os fiz pensados
Passa, e eu, outro já que o factor deles,
Póstumo substituo-me.
Chegada a hora, eu próprio serei todo
Menos que essas palavras
E papel, ou papiro escrito e morto
Será mais eu que eu mesmo.
A obra imortal excede o autor da obra;
E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
Morre a obra a vida nossa.
Durar, sentir, só os altos deuses unem.
Nós não somos inteiros.
Assim os deuses esta nossa regem
Mortal e imortal vida;
Assim o Fado rege que assim rejam.
Mas se assim é, é assim.
Dos versos em que fico.
Aquele agudo interno movimento
Por quem os fiz pensados
Passa, e eu, outro já que o factor deles,
Póstumo substituo-me.
Chegada a hora, eu próprio serei todo
Menos que essas palavras
E papel, ou papiro escrito e morto
Será mais eu que eu mesmo.
A obra imortal excede o autor da obra;
E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
Morre a obra a vida nossa.
Durar, sentir, só os altos deuses unem.
Nós não somos inteiros.
Assim os deuses esta nossa regem
Mortal e imortal vida;
Assim o Fado rege que assim rejam.
Mas se assim é, é assim.
1 276
Fernando Pessoa
ODE MARCIAL [b]
ODE MARCIAL
Inúmero rio sem água — só gente e coisas
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!
A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
(...)
Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.
Helahoho! helahoho!
Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.
Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou,
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso como uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.
Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.
Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe,
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?
Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
Inúmero rio sem água — só gente e coisas
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!
A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
(...)
Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.
Helahoho! helahoho!
Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.
Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou,
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso como uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.
Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.
Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe,
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?
Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
1 210
Fernando Pessoa
O horror metafísico de Outrem!
O horror metafísico de Outrem!
O pavor de uma consciência alheia,
Como um deus a espreitar-me! Quem me dera
Ser a única consciência animal
Para não ter olhares sobre mim!
Dos olhos de cada um me fita, vivo,
O mistério de ver; e o horror de verem-me
Abisma-me.
Não posso conceber-me outro, ou pensar
Que a consciência que de mim é gémea
Possa ter outra forma, e um conteúdo
Diferentemente diferente. Só vejo
Homens, bichos, as feras e as aves,
Horrivelmente vivas e fitando.
Sou como um Deus supremo que se houvesse
Reconhecido em mim o único,
E a cujo olhar inúmero se abeira
O horror de mais inúmeros olhares.
Ah, se em mim se reflecte o transcendente
Brilho além de Deus!
O pavor de uma consciência alheia,
Como um deus a espreitar-me! Quem me dera
Ser a única consciência animal
Para não ter olhares sobre mim!
Dos olhos de cada um me fita, vivo,
O mistério de ver; e o horror de verem-me
Abisma-me.
Não posso conceber-me outro, ou pensar
Que a consciência que de mim é gémea
Possa ter outra forma, e um conteúdo
Diferentemente diferente. Só vejo
Homens, bichos, as feras e as aves,
Horrivelmente vivas e fitando.
Sou como um Deus supremo que se houvesse
Reconhecido em mim o único,
E a cujo olhar inúmero se abeira
O horror de mais inúmeros olhares.
Ah, se em mim se reflecte o transcendente
Brilho além de Deus!
1 233
Fernando Pessoa
II - Deixo, deuses, atrás a dama antiga
II
Deixo, deuses, atrás a dama antiga
(Com uma letra diferente fixo
O absurdo, e rio, porque sofro). Digo:
Deixo atrás quem amei, como um prefixo...
Outrora eu, que era anónimo e prolixo
(Dois adjectivos que de há muito sigo)
Amei por ter um coração amigo.
Amo hoje o que amo só porque o persigo.
Dêem-me vinho que um Horácio cante!
Quero esquecer o que de meu é meu...
Quero, sem que me mexa, ir indo adiante.
Estou no Estoril e olho para o céu...
Ah que ainda é certo aquele azul ovante
Que esplendeu astros sobre o mar egeu.
Deixo, deuses, atrás a dama antiga
(Com uma letra diferente fixo
O absurdo, e rio, porque sofro). Digo:
Deixo atrás quem amei, como um prefixo...
Outrora eu, que era anónimo e prolixo
(Dois adjectivos que de há muito sigo)
Amei por ter um coração amigo.
Amo hoje o que amo só porque o persigo.
Dêem-me vinho que um Horácio cante!
Quero esquecer o que de meu é meu...
Quero, sem que me mexa, ir indo adiante.
Estou no Estoril e olho para o céu...
Ah que ainda é certo aquele azul ovante
Que esplendeu astros sobre o mar egeu.
1 165
Fernando Pessoa
SONG OF THE LEPER
He was a nauseous leper
Who in the ruins was;
There ever and anon
The hollow wind did pass,
And wild and feeble and yellow all
Was the grass.
And the leper sang this song:
«The leper is excluded from his race,
The leper is driven out,
The leper is thrust out
From hall and street and way;
He must not show his face
Where human beings may.
For him there are whips and stones;
He cannot even stay
Where mongrels fight for bones
And are allowed to play.
«No beast as the poor leper is
Worms and snakes have greater bliss.
But the leper is accurst
And he knows that well accurst
Is he because a nauseous leper,
Of evil things the worst.
«The toad, the newt, the viper
Are tolerate and borne,
But the vile and nauseous leper
Makes vomit in deep scorn;
Repugnance is for him
Inevitably born
«Sometimes he hears the laughter
Of human feast to come,
And music followed, after
By sounds of peace and of home.
Upon the wind they stray,
The wind bears them away,
And the nauseous leper, he remains,
Through night, through day,
Alone with his sores, with his pains.
And bands of strollers pass,
Taking the road afar,
For in the ruins they know well
The leper's sores there are.
And if perchance they see
The leper from their way,
He sees their finger point
And he knows that they say:
«He is the nauseous leper
Who in the ruins doth sit;
He is viler than the plague,
More loathsome far than it;
If near to him we dared do come
Upon him we would spit.»
«Poor leper who is a man,
Poor leper who is alive,
Under his being's ban,
Whose torture's chain unearned
No pity comes to rive.
«A Hand of Might created
The newt, the toad, the viper,
But gave them not its worst;
Kept them from loneliness,
Gave them their kindred's bliss.
But that hand made the leper
And it made the leper leper:
And that Hand Almighty is
Of all things the most curst.
Who in the ruins was;
There ever and anon
The hollow wind did pass,
And wild and feeble and yellow all
Was the grass.
And the leper sang this song:
«The leper is excluded from his race,
The leper is driven out,
The leper is thrust out
From hall and street and way;
He must not show his face
Where human beings may.
For him there are whips and stones;
He cannot even stay
Where mongrels fight for bones
And are allowed to play.
«No beast as the poor leper is
Worms and snakes have greater bliss.
But the leper is accurst
And he knows that well accurst
Is he because a nauseous leper,
Of evil things the worst.
«The toad, the newt, the viper
Are tolerate and borne,
But the vile and nauseous leper
Makes vomit in deep scorn;
Repugnance is for him
Inevitably born
«Sometimes he hears the laughter
Of human feast to come,
And music followed, after
By sounds of peace and of home.
Upon the wind they stray,
The wind bears them away,
And the nauseous leper, he remains,
Through night, through day,
Alone with his sores, with his pains.
And bands of strollers pass,
Taking the road afar,
For in the ruins they know well
The leper's sores there are.
And if perchance they see
The leper from their way,
He sees their finger point
And he knows that they say:
«He is the nauseous leper
Who in the ruins doth sit;
He is viler than the plague,
More loathsome far than it;
If near to him we dared do come
Upon him we would spit.»
«Poor leper who is a man,
Poor leper who is alive,
Under his being's ban,
Whose torture's chain unearned
No pity comes to rive.
«A Hand of Might created
The newt, the toad, the viper,
But gave them not its worst;
Kept them from loneliness,
Gave them their kindred's bliss.
But that hand made the leper
And it made the leper leper:
And that Hand Almighty is
Of all things the most curst.
1 492
Fernando Pessoa
(após as canções da tarde)
Com o súbito frio do crepúsculo
Entra em minh'alma um frio mais subtil
Corporeamente entra o mistério em mim
E eu comungo a presença ausente sua.
Sua presença (...) se volve eucaristia
De sombra. Sua carne e o seu sangue
De universo e além me tornam seu.
Terras, céus
A irrealidade do mundo
A realidade de Deus,
Tudo sorvo em meu mistério
Tudo é irreal ante mim,
Ó infinitos!
Transcendo o que não tem fim.
Entra em minh'alma um frio mais subtil
Corporeamente entra o mistério em mim
E eu comungo a presença ausente sua.
Sua presença (...) se volve eucaristia
De sombra. Sua carne e o seu sangue
De universo e além me tornam seu.
Terras, céus
A irrealidade do mundo
A realidade de Deus,
Tudo sorvo em meu mistério
Tudo é irreal ante mim,
Ó infinitos!
Transcendo o que não tem fim.
1 263
Fernando Pessoa
Mas Deus não terá Deus? Não haverá
Mas Deus não terá Deus? Não haverá
Como dos brutos até o homem, uma
Ladeira ou escadaria entre os supremos?
Como dos brutos até o homem, uma
Ladeira ou escadaria entre os supremos?
990
Fernando Pessoa
Ruído longínquo e próximo não sei porquê
Ruído longínquo e próximo não sei porquê
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?
Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?
Cairás, ó matutino galo francês,
Sempre saudando a aurora? Que amos saúdas agora
Que sol de sangue no azul pálido do horizonte matutino?
Porque atalhos de sombra que caminho buscas,
Que caminho para onde?
Ó civilizações chegando à encruzilhada nocturna
D'onde tiraram o ponto-de-apoio
E donde partem caminhos curvos não sei para onde,
E não ha luar sobre as indecisões...
Deus seja connosco...
Chora na noite a Senhora de [...],
Torcendo as mãos, de modo a ouvir-se que elas se torcem
No silêncio profundo.
Deus seja connosco no céu e na terra,
Ó Deusa Tutelar do Futuro, ó Ponte
Sobre os abismos do que não sabemos que seja...
Deus seja connosco, e não esqueçamos nunca
Que o mar é eterno e afinal de tudo tranquilo
E a terra grande e mãe e tem a sua bondade
Porque sempre podemos nela recostar a cabeça cansada
E dormir encostados a qualquer coisa.
Clarins na noite, desmaiando... Ó Mistério
Que se está formando lá fora, na Europa, no Império...
Tropel vário de raças inimigas que se chocam
Mais profundamente do que seus exércitos e suas esquadras,
Mais realmente do que homem contra homem e nação contra nação...
Clarins de horror trémulo e frio na noite profunda...
E o quê?... Tambores para além do mistério do mundo?
Tambores de quê... dormis deitados, dobres minúsculos sobre quê?
Passa na noite um só passo soturno do uno exército enorme...
Clarins sobrepostos mais perto na Noite...
Ó Homem de mãos atadas e levado entre sentinelas
Para onde, porque caminho, para ao pé de quem?
Para ao pé [de] quem, clarins anunciadores de quê?
(Tityro, a tua flauta e os campos de Itália sob César Augusto
Ah, porque se armam de lágrimas absurdas os olhos
E que dor é esta, do antigo e do actual e do futuro,
Que dói na alma como uma sensação de exílio?
Tityro a tua flauta em Éclogas longínquas...
Virgílio a adular o César que venceu
Per populum dat juri... Um pobre em guerra,
Ó minha alma intranquila... Ó silêncios que as pontes
Sob as fortalezas antiquissimamente teriam,
Sabeis e vedes que a terra treme sob os passos dos exércitos,
Fluxo eterno e divino das ondas sob os cruzadores e os torpedeiros...
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?
Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?
Cairás, ó matutino galo francês,
Sempre saudando a aurora? Que amos saúdas agora
Que sol de sangue no azul pálido do horizonte matutino?
Porque atalhos de sombra que caminho buscas,
Que caminho para onde?
Ó civilizações chegando à encruzilhada nocturna
D'onde tiraram o ponto-de-apoio
E donde partem caminhos curvos não sei para onde,
E não ha luar sobre as indecisões...
Deus seja connosco...
Chora na noite a Senhora de [...],
Torcendo as mãos, de modo a ouvir-se que elas se torcem
No silêncio profundo.
Deus seja connosco no céu e na terra,
Ó Deusa Tutelar do Futuro, ó Ponte
Sobre os abismos do que não sabemos que seja...
Deus seja connosco, e não esqueçamos nunca
Que o mar é eterno e afinal de tudo tranquilo
E a terra grande e mãe e tem a sua bondade
Porque sempre podemos nela recostar a cabeça cansada
E dormir encostados a qualquer coisa.
Clarins na noite, desmaiando... Ó Mistério
Que se está formando lá fora, na Europa, no Império...
Tropel vário de raças inimigas que se chocam
Mais profundamente do que seus exércitos e suas esquadras,
Mais realmente do que homem contra homem e nação contra nação...
Clarins de horror trémulo e frio na noite profunda...
E o quê?... Tambores para além do mistério do mundo?
Tambores de quê... dormis deitados, dobres minúsculos sobre quê?
Passa na noite um só passo soturno do uno exército enorme...
Clarins sobrepostos mais perto na Noite...
Ó Homem de mãos atadas e levado entre sentinelas
Para onde, porque caminho, para ao pé de quem?
Para ao pé [de] quem, clarins anunciadores de quê?
(Tityro, a tua flauta e os campos de Itália sob César Augusto
Ah, porque se armam de lágrimas absurdas os olhos
E que dor é esta, do antigo e do actual e do futuro,
Que dói na alma como uma sensação de exílio?
Tityro a tua flauta em Éclogas longínquas...
Virgílio a adular o César que venceu
Per populum dat juri... Um pobre em guerra,
Ó minha alma intranquila... Ó silêncios que as pontes
Sob as fortalezas antiquissimamente teriam,
Sabeis e vedes que a terra treme sob os passos dos exércitos,
Fluxo eterno e divino das ondas sob os cruzadores e os torpedeiros...
1 002
Fernando Pessoa
SONG OF DIRT
Come, let us speak of dirt!
God's curse is on our head.
Let our lips irreverence blurt!
We are sufferers all; let us, instead
Of prayer, offer God the sacrifice
Of our minds that he curst with crime and vice,
Of our frames that diseases make dread!
Let us offer the tyrant of all,
To hang in the hall of his palace of pain,
A funeral pall,
And a bride's white dress with a stain,
And a widow's weeds, and the crumpled sheets
From the bed of the wife.
Let them be symbols of human strife!
Give we God the dirt of the streets
Of our spirit, made mud with our tears,
The dust of our joys, the mire of our fears,
And the rot of our life!
God's curse is on our head.
Let our lips irreverence blurt!
We are sufferers all; let us, instead
Of prayer, offer God the sacrifice
Of our minds that he curst with crime and vice,
Of our frames that diseases make dread!
Let us offer the tyrant of all,
To hang in the hall of his palace of pain,
A funeral pall,
And a bride's white dress with a stain,
And a widow's weeds, and the crumpled sheets
From the bed of the wife.
Let them be symbols of human strife!
Give we God the dirt of the streets
Of our spirit, made mud with our tears,
The dust of our joys, the mire of our fears,
And the rot of our life!
1 365
Fernando Pessoa
Sem impaciência.
Sem impaciência.
Sem curiosidade,
Sem atenção
Vejo-o crochet que com ambas as mãos combinadas
Fazes.
Vejo-o do alto de um monte inexistente,
Malha após malha formando pano...
Qual é a razão que te dá entretenimento
Às mãos e à alma essa coisa rala
Por onde se pode meter um fósforo apagado?
Mas também
Qual é a razão que assiste a eu te criticar
Nenhuma.
Eu também tenho um crochet.
Data de desde quando comecei a pensar...
Malhas sobre malhas formando um todo sem todo
Um pano que não sei se é para um vestido ou p'ra nada
Uma alma que não sei se é para sentir ou viver...
Olho-te com tanta atenção
Que já nem dou por ti...
Crochet, almas, filosofia...
Todas as religiões do mundo...
Tudo quanto nos entretém ao serão de sermos...
Dois marfins, uma volta, o silêncio...
Sem curiosidade,
Sem atenção
Vejo-o crochet que com ambas as mãos combinadas
Fazes.
Vejo-o do alto de um monte inexistente,
Malha após malha formando pano...
Qual é a razão que te dá entretenimento
Às mãos e à alma essa coisa rala
Por onde se pode meter um fósforo apagado?
Mas também
Qual é a razão que assiste a eu te criticar
Nenhuma.
Eu também tenho um crochet.
Data de desde quando comecei a pensar...
Malhas sobre malhas formando um todo sem todo
Um pano que não sei se é para um vestido ou p'ra nada
Uma alma que não sei se é para sentir ou viver...
Olho-te com tanta atenção
Que já nem dou por ti...
Crochet, almas, filosofia...
Todas as religiões do mundo...
Tudo quanto nos entretém ao serão de sermos...
Dois marfins, uma volta, o silêncio...
1 321
Fernando Pessoa
Já estão em mim exaustas,
Já estão em mim exaustas,
Deixando-me transido de horror,
Todas as formas de pensar (...)
O enigma do universo. Já cheguei
A conceber como requinte extremo
Da exausta inteligência que esse Deus,
Que ensinam as igrejas com aqueles
Seus atributos [...]
[...] — existir realmente
Realmente existir e que houvesse
Mas fosse sonho, e não sonho nosso...
Sim cheguei a aceitar como verdade
O que nos dão por ela, e a admitir
Uma realidade não real
Mas sim sonhada como esse Deus cristão.
Mas isto, cuja ideia formidável
Cheia de horríveis possibilidades
Negra e profunda me (...)
A mente, abandonei, não sem tremer,
No caos do meu ser, onde jazem
Juntamente com ela espectros negros
De soluções passageiras, apavoradoras,
Momentâneas, momentâneos
Sistemas horrorosos, pavorosos,
Repletos de infinito. Formidáveis
Não só por isto mas também por serem
Falhados pensamentos e sistemas
Que por falharem só mais negro fazem
O poder horroroso que os transcende
A todos, infinitamente a todos.
Oh horror! Oh mistério! Oh existência!
Para que lado não me virarei
Onde abrirei os olhos — olhos d'alma —
Que o mistério não me atormente, e eu
Não avance tremendo para ele?
E... Para que falar? O que dizer?
Tudo é horror e o horror é tudo!
Deixando-me transido de horror,
Todas as formas de pensar (...)
O enigma do universo. Já cheguei
A conceber como requinte extremo
Da exausta inteligência que esse Deus,
Que ensinam as igrejas com aqueles
Seus atributos [...]
[...] — existir realmente
Realmente existir e que houvesse
Mas fosse sonho, e não sonho nosso...
Sim cheguei a aceitar como verdade
O que nos dão por ela, e a admitir
Uma realidade não real
Mas sim sonhada como esse Deus cristão.
Mas isto, cuja ideia formidável
Cheia de horríveis possibilidades
Negra e profunda me (...)
A mente, abandonei, não sem tremer,
No caos do meu ser, onde jazem
Juntamente com ela espectros negros
De soluções passageiras, apavoradoras,
Momentâneas, momentâneos
Sistemas horrorosos, pavorosos,
Repletos de infinito. Formidáveis
Não só por isto mas também por serem
Falhados pensamentos e sistemas
Que por falharem só mais negro fazem
O poder horroroso que os transcende
A todos, infinitamente a todos.
Oh horror! Oh mistério! Oh existência!
Para que lado não me virarei
Onde abrirei os olhos — olhos d'alma —
Que o mistério não me atormente, e eu
Não avance tremendo para ele?
E... Para que falar? O que dizer?
Tudo é horror e o horror é tudo!
836
Fernando Pessoa
Talvez que Deus não seja real e exista
Talvez que Deus não seja real e exista
Talvez não seja Deus e exista, e seja
Como nós o pensamos Deus p'ra nós.
Talvez não seja Deus e exista, e seja
Como nós o pensamos Deus p'ra nós.
1 273
Fernando Pessoa
LUCIFER: Como quando o mortal, que a terra habita,
Como quando o mortal, que a terra habita,
Aprende que esse céu todo estrelado
É cheio de outros mundos, na infinita
Pluralidade do criado,
E um abismo se lhe abre na consciência
E uma realidade invisível gela,
Seu sentimento da existência,
E um novo ser-de-tudo se revela,
Assim, pensando e, a meu modo, vendo
Na interna imensidão do espaço abstracto,
Fui como deuses vários conhecendo,
Todos eternos e infinitos sendo,
Os astros.
E vi que Deus, se é tudo para o mundo,
Se a substância e o ser do nosso ser
Não é o único Deus mais que profundo.
Há infinitos de infinitos.
Por isso, Deus é eterno e infinito, e tudo,
Sim mesmo o tudo que é, Deus o transcende.
Porém muita ciência a mais ascende
Que a esse único Deus que a tudo excede.
Além do transcender-se que Deus é.
E ergui então a voz amargurada,
Porque o conhecimento transcendente
Deixa a alma exânime e gelada.
E clamei contra Deus o além-Deus,
Disse aos meus pares o segredo ominoso.
Eterno condenado, errarei sempre
Sempre maldito,
Porque este mundo (...)
Só sendo mais que Deus eu poderia
Transcender o infinito do infinito
E nascer para o inumerável dia...
Como, banido, o arqueiro Filoctetes
Sou só na alma porque vi o abismo.
Excluso eterno (...)
A vida pávida que cismo.
Sou morte, porque sei que o infinito,
É limitado, e assim Deus morre em mim.
Deus sabe que é uno, um e infinito,
Mas eu sei que Deus, sendo-o, não o é.
Mais longe que Deus vai meu ser proscrito.
Aprende que esse céu todo estrelado
É cheio de outros mundos, na infinita
Pluralidade do criado,
E um abismo se lhe abre na consciência
E uma realidade invisível gela,
Seu sentimento da existência,
E um novo ser-de-tudo se revela,
Assim, pensando e, a meu modo, vendo
Na interna imensidão do espaço abstracto,
Fui como deuses vários conhecendo,
Todos eternos e infinitos sendo,
Os astros.
E vi que Deus, se é tudo para o mundo,
Se a substância e o ser do nosso ser
Não é o único Deus mais que profundo.
Há infinitos de infinitos.
Por isso, Deus é eterno e infinito, e tudo,
Sim mesmo o tudo que é, Deus o transcende.
Porém muita ciência a mais ascende
Que a esse único Deus que a tudo excede.
Além do transcender-se que Deus é.
E ergui então a voz amargurada,
Porque o conhecimento transcendente
Deixa a alma exânime e gelada.
E clamei contra Deus o além-Deus,
Disse aos meus pares o segredo ominoso.
Eterno condenado, errarei sempre
Sempre maldito,
Porque este mundo (...)
Só sendo mais que Deus eu poderia
Transcender o infinito do infinito
E nascer para o inumerável dia...
Como, banido, o arqueiro Filoctetes
Sou só na alma porque vi o abismo.
Excluso eterno (...)
A vida pávida que cismo.
Sou morte, porque sei que o infinito,
É limitado, e assim Deus morre em mim.
Deus sabe que é uno, um e infinito,
Mas eu sei que Deus, sendo-o, não o é.
Mais longe que Deus vai meu ser proscrito.
1 304
Fernando Pessoa
(Depois do amor — na treva)
Eis-me enfim só, oh desejado horror
Eis-me enfim ante ti, oh Universo!
Eis-me aqui, lama e (...) mistério,
Excluído de ti, o eterno expulso
Que não pedia a vida. Eis-me aqui.
Pudesse eu pôr no seu desmedimento
O ódio (...) e afrontar-vos
Com a expressão desse ódio, oh silêncios,
Oh noites ao pensar! eu morreria
De haver interpretado em tanto horror
Um mor horror que interpretar não pode
O que há-de ser palavra ou pensamento.
Eis-me aqui, oh abismo explicado!
Eis-me aqui o maior dos seres todos,
Quebrando aos pés do pensamento forte
A cruz de Cristo e as fórmulas mortais
[...]
Eis-me aqui!
O que há para mim senão vacuidade
No mundo (...), o que me destinastes?
O vazio? O silêncio? A escuridão?
Desses-me o instinto deles, não a plena
Torturação da luz.
Eis-me enfim ante ti, oh Universo!
Eis-me aqui, lama e (...) mistério,
Excluído de ti, o eterno expulso
Que não pedia a vida. Eis-me aqui.
Pudesse eu pôr no seu desmedimento
O ódio (...) e afrontar-vos
Com a expressão desse ódio, oh silêncios,
Oh noites ao pensar! eu morreria
De haver interpretado em tanto horror
Um mor horror que interpretar não pode
O que há-de ser palavra ou pensamento.
Eis-me aqui, oh abismo explicado!
Eis-me aqui o maior dos seres todos,
Quebrando aos pés do pensamento forte
A cruz de Cristo e as fórmulas mortais
[...]
Eis-me aqui!
O que há para mim senão vacuidade
No mundo (...), o que me destinastes?
O vazio? O silêncio? A escuridão?
Desses-me o instinto deles, não a plena
Torturação da luz.
1 229
Fernando Pessoa
EPIGRAMS - V
What is the best‑named thing in all
The world? Why, this: A papal bull.
The world? Why, this: A papal bull.
1 235
Fernando Pessoa
Desejava querer fugir de mim.
ali. ali. ali
e...e...e...
Palavras, não sois nada!
O que é Deus?
Uma palavra,
Pouco mais que um som.
E um som?
Nada.
e...e...e...
Palavras, não sois nada!
O que é Deus?
Uma palavra,
Pouco mais que um som.
E um som?
Nada.
1 416
Fernando Pessoa
VICENTE: Todos, oh mestre, têm horror à morte...
[VICENTE]:
Todos, oh mestre, têm horror à morte...
FAUSTO:
Ah não me ofendas com palavras vãs
O horror do pensamento. Ninguém
Como eu teve esse horror, nem poderá
Nas veias e na alma e no sangue
Tê-lo tão íntimo, tão internado
Tão feito um comigo.
Ah,
São as primeiras, únicas palavras
Em que a outro mostrei parte do ser.
Tu não as compreendeste, nem podias,
Nem nunca poderás. Tenta esquecer...
Nunca mais me ouvirás falar assim...
Estava ainda só comigo n'alma
E falava comigo respondendo-te.
Mas dize-me a que vinhas.
[VICENTE]:
Vinha... eu...
Eu vinha... ah... eu vinha procurar-vos
Para falar... nada... Já me retiro.
Estais febril, mestre, sim, sim, vejo bem
E os vossos olhos brilham não sei como,
Que...
FAUSTO:
Dize.
[VICENTE]:
Que...
FAUSTO:
O quê?
[VICENTE]:
Que me apavora.
FAUSTO:
Escuta, aproxima-te, é a primeira
Vez que direi o que te digo. Tu
Não compreenderás talvez ainda,
Nem nunca... a essência do que digo
Nunca, ai nunca. Escuta-me Vicente,
São as últimas palavras que direi.
Não compreendes isto,
Não tomes susto. Escuta.
O mundo
Encerra um sonho como realidade
E em cada seu fragmento — não me entendes (
Vive todo.
Interpenetração de (...)
E complexos mistérios desconhecidos.
As figuras de sonho não conhecem
O sonho (...) de quem são figuras,
Porque o mundo não só é (...) sonhado
Mas é dentro dum sonho um outro sonho
Em que sonhados são os sonhadores
Também. Tu compreendes?
[VICENTE]:
Vagamente.
FAUSTO:
Possas tu sempre assim compreender
Como todos na terra que existiram
Menos um.
[VICENTE]:
Cristo?
FAUSTO:
Cristo? Quem é Cristo?
Ah ri-te, ri-te desta distracção,
Desta pergunta minha, de alheado
Que ando do meu próprio ver e ouvir
Feito. Deixemos isto, pois Lembra-me
Uma cousa a que podes responder.
Diz-me que pensas
Do orgulho? De imperadores, reis
E príncipes da terra e seu orgulho?
Que pensas?
[VICENTE]:
Eu? Do orgulho? Julgo-o vão.
FAUSTO:
Todo o orgulho vão?
[VICENTE]:
Todo o orgulho.
Assim mo ensinaram, assim creio
E assim razoável me parece.
FAUSTO:
Mas o orgulho do génio, desse que sente
Retratar-se no espírito soturno
A ilusão de existir definida
Em mistérios e abismos e visões?
E o desse?
[VICENTE]:
O talento é dom de Deus.
Não sei que orgulho haverá em tê-lo
Como se fora cousa produzida
Pelo próprio. Por que quereis saber?
FAUSTO:
Eu? Nada. O talento é dom de Deus.
E o orgulho não é dom de Deus?
[VICENTE]:
Por, parecendo humano que é nascido
Da vã contemplação, como direi?
Da maravilha de si mesmo. Eu,
Se fosse talentoso — não o sou (
A Deus diariamente o agradecia.
Dar-me-ia prazer, mas não orgulho.
FAUSTO:
Bem agradeço-te. Deixa-me agora.
Preciso de pensar Lembrou-me súbito
Uma cousa... Logo te verei.
Continuaremos.
[VICENTE]:
Mestre, até então.
FAUSTO: (só)
Em todo os raciocínios em que vivo
Aquele (...) nunca fizera.
Como aquelas palavras me feriram!
Sim, por que ter orgulho — para quê?
Mas — ah, quantos problemas e mistérios
Essas palavras dum inconsciente
Me abrem no pensamento. Que intenso
Atropelar de (...) e teorias
De raciocínios, conclusões d'espírito
Mal geradas dentro em mim,
Não poder apagar este tormento;
Não poder despegar-me deste ser;
Não poder esquecer-me desta vida...
Todos, oh mestre, têm horror à morte...
FAUSTO:
Ah não me ofendas com palavras vãs
O horror do pensamento. Ninguém
Como eu teve esse horror, nem poderá
Nas veias e na alma e no sangue
Tê-lo tão íntimo, tão internado
Tão feito um comigo.
Ah,
São as primeiras, únicas palavras
Em que a outro mostrei parte do ser.
Tu não as compreendeste, nem podias,
Nem nunca poderás. Tenta esquecer...
Nunca mais me ouvirás falar assim...
Estava ainda só comigo n'alma
E falava comigo respondendo-te.
Mas dize-me a que vinhas.
[VICENTE]:
Vinha... eu...
Eu vinha... ah... eu vinha procurar-vos
Para falar... nada... Já me retiro.
Estais febril, mestre, sim, sim, vejo bem
E os vossos olhos brilham não sei como,
Que...
FAUSTO:
Dize.
[VICENTE]:
Que...
FAUSTO:
O quê?
[VICENTE]:
Que me apavora.
FAUSTO:
Escuta, aproxima-te, é a primeira
Vez que direi o que te digo. Tu
Não compreenderás talvez ainda,
Nem nunca... a essência do que digo
Nunca, ai nunca. Escuta-me Vicente,
São as últimas palavras que direi.
Não compreendes isto,
Não tomes susto. Escuta.
O mundo
Encerra um sonho como realidade
E em cada seu fragmento — não me entendes (
Vive todo.
Interpenetração de (...)
E complexos mistérios desconhecidos.
As figuras de sonho não conhecem
O sonho (...) de quem são figuras,
Porque o mundo não só é (...) sonhado
Mas é dentro dum sonho um outro sonho
Em que sonhados são os sonhadores
Também. Tu compreendes?
[VICENTE]:
Vagamente.
FAUSTO:
Possas tu sempre assim compreender
Como todos na terra que existiram
Menos um.
[VICENTE]:
Cristo?
FAUSTO:
Cristo? Quem é Cristo?
Ah ri-te, ri-te desta distracção,
Desta pergunta minha, de alheado
Que ando do meu próprio ver e ouvir
Feito. Deixemos isto, pois Lembra-me
Uma cousa a que podes responder.
Diz-me que pensas
Do orgulho? De imperadores, reis
E príncipes da terra e seu orgulho?
Que pensas?
[VICENTE]:
Eu? Do orgulho? Julgo-o vão.
FAUSTO:
Todo o orgulho vão?
[VICENTE]:
Todo o orgulho.
Assim mo ensinaram, assim creio
E assim razoável me parece.
FAUSTO:
Mas o orgulho do génio, desse que sente
Retratar-se no espírito soturno
A ilusão de existir definida
Em mistérios e abismos e visões?
E o desse?
[VICENTE]:
O talento é dom de Deus.
Não sei que orgulho haverá em tê-lo
Como se fora cousa produzida
Pelo próprio. Por que quereis saber?
FAUSTO:
Eu? Nada. O talento é dom de Deus.
E o orgulho não é dom de Deus?
[VICENTE]:
Por, parecendo humano que é nascido
Da vã contemplação, como direi?
Da maravilha de si mesmo. Eu,
Se fosse talentoso — não o sou (
A Deus diariamente o agradecia.
Dar-me-ia prazer, mas não orgulho.
FAUSTO:
Bem agradeço-te. Deixa-me agora.
Preciso de pensar Lembrou-me súbito
Uma cousa... Logo te verei.
Continuaremos.
[VICENTE]:
Mestre, até então.
FAUSTO: (só)
Em todo os raciocínios em que vivo
Aquele (...) nunca fizera.
Como aquelas palavras me feriram!
Sim, por que ter orgulho — para quê?
Mas — ah, quantos problemas e mistérios
Essas palavras dum inconsciente
Me abrem no pensamento. Que intenso
Atropelar de (...) e teorias
De raciocínios, conclusões d'espírito
Mal geradas dentro em mim,
Não poder apagar este tormento;
Não poder despegar-me deste ser;
Não poder esquecer-me desta vida...
782
Fernando Pessoa
A PARTIDA [b]
A PARTIDA
Ave atque vale, ó assombroso universo!
Ave atque vale, de que diversa maneira
É que eu te verei, e será definitivamente,
Se haverá ainda mais vida, mais modos de te conhecer,
Mais lados de onde te olhar, — e talvez nunca te verei do Único —
Seja como for, ave atque vale, ó Mundo!
Partirei para aquele teu aspecto que a Morte deve revelar-me
Com o coração confrangido, a alma ansiosa, o olhar vago,
E toda a consciência da aventura pondo-me ondas no sangue...
Eu partirei para a Morte nada esperando encontrar
Mas disposto a ver coisas prodigiosas do outro lado do Mundo.
Ave atque vale, ó Universo espontâneo!
Verde esmiuçado a ervas nos prados contentes,
Verde escurecido das copas das árvores ao vento,
Escura brancura da água,
Penugem invisível dos brejos
Garras de sombra imaterial dos vendavais,
Grandes extensões (...) dos mares
Curso evidente dos rios
Ave atque vale! Até Deus! Até Mim! Até Vós!
Quando eu abandonar o meu ser como uma cadeira donde me levanto
Deixar atrás o mundo como a um quarto donde saio,
Abandonar toda esta forma, de sentidos e pensamento, de sentir as coisas,
Como uma capa que me prenda,
Quando de vez minha alma chegar à superfície da minha pele
E dispersar o meu ser pelo universo exterior,
Seja com alegria que eu reconheça que a Morte
Vem como um sol distante na antemanhã do meu novo ser.
Numa viagem oblíqua do meu leito de moribundo
Viagem em diagonal às dimensões dos objectos
Para o canto do tecto mais longe, a cama erguer-se-á do chão,
Erguer-se-á como um balão ridículo e seguirá
Como um comboio sobre os rails directamente...
(...)
Não tenho medo, ó Morte, ao que não deixa entrever
O teu postigo proibido na tua porta sobre o mundo.
Estendo os braços para ti como uma criança
Do colo da ama para o aparecimento da mãe...
Por ti deixo contente os meus brinquedos de adulto,
Por ti não tenho parentes, não tenho nada que me prenda
A este prodigioso, constante e doentio universo...
Todo o Definitivo deve estar em Ti ou em parte nenhuma.
Ave atque vale, ó assombroso universo!
Ave atque vale, de que diversa maneira
É que eu te verei, e será definitivamente,
Se haverá ainda mais vida, mais modos de te conhecer,
Mais lados de onde te olhar, — e talvez nunca te verei do Único —
Seja como for, ave atque vale, ó Mundo!
Partirei para aquele teu aspecto que a Morte deve revelar-me
Com o coração confrangido, a alma ansiosa, o olhar vago,
E toda a consciência da aventura pondo-me ondas no sangue...
Eu partirei para a Morte nada esperando encontrar
Mas disposto a ver coisas prodigiosas do outro lado do Mundo.
Ave atque vale, ó Universo espontâneo!
Verde esmiuçado a ervas nos prados contentes,
Verde escurecido das copas das árvores ao vento,
Escura brancura da água,
Penugem invisível dos brejos
Garras de sombra imaterial dos vendavais,
Grandes extensões (...) dos mares
Curso evidente dos rios
Ave atque vale! Até Deus! Até Mim! Até Vós!
Quando eu abandonar o meu ser como uma cadeira donde me levanto
Deixar atrás o mundo como a um quarto donde saio,
Abandonar toda esta forma, de sentidos e pensamento, de sentir as coisas,
Como uma capa que me prenda,
Quando de vez minha alma chegar à superfície da minha pele
E dispersar o meu ser pelo universo exterior,
Seja com alegria que eu reconheça que a Morte
Vem como um sol distante na antemanhã do meu novo ser.
Numa viagem oblíqua do meu leito de moribundo
Viagem em diagonal às dimensões dos objectos
Para o canto do tecto mais longe, a cama erguer-se-á do chão,
Erguer-se-á como um balão ridículo e seguirá
Como um comboio sobre os rails directamente...
(...)
Não tenho medo, ó Morte, ao que não deixa entrever
O teu postigo proibido na tua porta sobre o mundo.
Estendo os braços para ti como uma criança
Do colo da ama para o aparecimento da mãe...
Por ti deixo contente os meus brinquedos de adulto,
Por ti não tenho parentes, não tenho nada que me prenda
A este prodigioso, constante e doentio universo...
Todo o Definitivo deve estar em Ti ou em parte nenhuma.
1 084
Fernando Pessoa
Sim, talvez tenham razão.
Sim, talvez tenham razão.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.
Na planta, na árvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das árvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes dá a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.
No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
É um já dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.
E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.
E que estes entes serão os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que não morrem porque são iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem são e quem são,
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam
Porque o que é perfeito não precisa de nada.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.
Na planta, na árvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das árvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes dá a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.
No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
É um já dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.
E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.
E que estes entes serão os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que não morrem porque são iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem são e quem são,
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam
Porque o que é perfeito não precisa de nada.
1 522
Fernando Pessoa
Monólogo nas Trevas
A qualquer modo todo escuridão
Eu sou supremo. Sou o Cristo negro.
O que não crê, nem ama — o que só sabe
O mistério tornado carne —.
Há um orgulho atro que me diz
Que sou Deus inconscienciando-se
Para humano; sou mais real que o mundo.
Por isso odeio-lhe a existência enorme,
O seu amontoar de coisas vistas.
Como um santo devoto
Odeio o mundo, porque o que eu sou
E que não sei sentir que sou, conhece-o
Por não real e não ali.
Por isso odeio-o —
Seja eu o destruidor! Seja eu Deus ira!
Eu sou supremo. Sou o Cristo negro.
O que não crê, nem ama — o que só sabe
O mistério tornado carne —.
Há um orgulho atro que me diz
Que sou Deus inconscienciando-se
Para humano; sou mais real que o mundo.
Por isso odeio-lhe a existência enorme,
O seu amontoar de coisas vistas.
Como um santo devoto
Odeio o mundo, porque o que eu sou
E que não sei sentir que sou, conhece-o
Por não real e não ali.
Por isso odeio-o —
Seja eu o destruidor! Seja eu Deus ira!
1 593
Fernando Pessoa
EPITAPHS
A.S. (Alex[ander] Search)
Here lies a poet who was mad and young
The two things may go together
As to the songs he sung
They were found in winter weather.
EPITAPHS FOR THE FUTURE
Monarchy
Here lies a part of hell that on earth was
(It took it long to pass,
Riddled by way of Justice
[…]
Here lies the other part.
Religion
Here lies the beautiful assassin cold
who smiled upon his victim and singing
Murdering sweet songs to his imagining
Till by his each a (...) he sells
It died because it was old.
Here lies a poet who was mad and young
The two things may go together
As to the songs he sung
They were found in winter weather.
EPITAPHS FOR THE FUTURE
Monarchy
Here lies a part of hell that on earth was
(It took it long to pass,
Riddled by way of Justice
[…]
Here lies the other part.
Religion
Here lies the beautiful assassin cold
who smiled upon his victim and singing
Murdering sweet songs to his imagining
Till by his each a (...) he sells
It died because it was old.
1 080
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