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Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

TO MY DEAREST FRIEND

When I am dead you'll write - I know you will -
A thoughtful sonnet on my early death,
In which, stating that life but wearieth,
You'll notice how I lie pale, cold, and still.

This in the quatrains, which likewise you'll fill
With some reflections on how soon goes breath
And how the cold and heavy earth beneath
There is an end to living, good or ill.

After this, in the tercets, you will say
That death's a mystery, that nought doth stay,
Perhaps that immortality is true.

Then you will sign and put the date to it.
And, having read again the sonnet, you
Will be content, seeing it is well writ.
1 432
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Doce é o fruto à vista, e à boca amaro,

Doce é o fruto à vista, e à boca amaro,
Breve é a vida ao tempo e longa à alma.
        A arte, com que todos,
—  Ora sem saber  virando os copos,
Ora, enchendo-os, consiste em nos ousarmos,
        Chegada a morte, despi-la.
1 308
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ai, Margarida,

Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

Comunicado pelo Engenheiro Naval
       Sr. Álvaro de Campos em estado
                de inconsciência
                         alcoólica.
1 946
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

NA ÚLTIMA PÁGINA DE UMA ANTOLOGIA NOVA

NA ÚLTIMA PÁGINA DE UMA ANTOLOGIA NOVA

Tantos bons poetas!
Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário.
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece —
A única coisa grande no mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora... E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poemas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue...
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo —
Sou vulgar?...
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...
1 218
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Perdi a esperança como uma carteira vazia...

Perdi a esperança como uma carteira vazia...
Troçou de mim o Destino; fiz figas para o outro lado,
E a revolta bem podia ser bordada a missanga por minha avó
E ser relíquia da sala da casa velha que não tenho.

(Jantávamos cedo, num outrora que já me parece de outra incarnação,
E depois tomava-se chá nas noites sossegadas que não voltam.
Minha infância, meu passado sem adolescência, passaram ,

Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita,
Mas nunca mais pude sentir verdade nenhuma excepto sentir o passado)
1 037
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Meu pobre amigo, não tenho compaixão que te dar.

Meu pobre amigo, não tenho compaixão que te dar.
A compaixão custa, sobretudo sincera, e em dias de chuva.
Quero dizer: custa sentir em dias de chuva.
Sintamos a chuva e deixemos a psicologia para outra espécie de céu.

Com que então problema sexual?
Mas isso depois dos quinze anos é uma indecência.
Preocupação com o sexo oposto (suponhamos) e a sua psicologia —
Mas isso é estúpido, filho.
O sexo oposto existe para ser procurado e não para ser compreendido.
O problema existe para estar resolvido e não para preocupar.
Compreender é ser impotente.
E você devia revelar-se menos.
"La Colére de Samson", conhece?
"La femme, enfant malade et [...]"
Mas não é nada disso.
Não me mace, nem me obrigue a ter pena!
Olhe: tudo é literatura.
Vem-nos tudo de fora, como a chuva.
A maneira? Se nós somos páginas aplicadas de romances?
Traduções, meu filho.
Você sabe porque está tão triste? É por causa de Platão,
Que você nunca leu.
E um soneto de Petrarca, que você desconhece, sobrou-lhe errado,
E assim é a vida.
Arregace as mangas da camisa civilizada
E cave terras exactas!
Mais vale isso que ter a alma dos outros.
Não somos senão fantasmas de fantasmas,
E a paisagem hoje ajuda muito pouco.
Tudo é geograficamente exterior.
A chuva cai por uma lei natural
E a humanidade ama porque ama falar no amor.
911
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Seguro assento na coluna firme [ 3]

Seguro assento na coluna firme
        Dos versos em que fico.
O criador interno movimento
        Por quem fui autor deles
Passa, e eu sobrevivo, já não quem
        Escreveu o que fez.
Chegada a hora, passarei também
        E os versos, que não sentem
Serão a única restança posta
        Nos capitéis do tempo.

A obra imortal excede o autor da obra;
        E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
        Morremos a obra viva.
Assim os deuses esta nossa regem
        Mortal e imortal vida;
Assim o Fado faz que eles a rejam.
        Mas se assim é, é assim.

Aquele agudo interno movimento,
        Por quem fui autor deles
Primeiro passa, e eu, outro já do que era,
         Póstumo substituo-me.
Chegada a hora, também serei menos
        Que os versos permanentes.
 E papel, ou papiro escrito e morto
        Tem mais vida que a mente.

Na noite a sombra é mais igual à noite
        Que o corpo que alumia.
1 015
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Estou escrevendo sonetos regulares

Estou escrevendo sonetos regulares
(Ou quase regulares) como um poeta...
Mas se eu dissesse a alguém a dor completa
Que me faz ter tais gestos e tais ares,
(...)

Ninguém acreditava. Ó grandes mares
Da emoção subindo em névoa preta
Até a mágoa ser como a do asceta.
(...)
Com um estalido de "mola de pressão"
Fecho a carteira dos apontamentos
Onde fixei a minha indecisão,

Não sou meu ser, nem sou meus pensamentos,
A minha vida é um príncipe ao balcão
1 288
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Seguro assento na coluna firme [ 2]

Seguro assento na coluna firme
        Dos versos em que fico.
Aquele agudo interno movimento
         Por quem os fiz pensados
Passa, e eu, outro já que o factor deles,
         Póstumo  substituo-me.
Chegada a hora, eu próprio serei todo
         Menos que essas palavras
E papel, ou papiro escrito e morto
        Será mais eu que eu mesmo.

A obra imortal excede o autor da obra;
        E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
         Morre a obra a vida nossa.
Durar, sentir, só os altos deuses unem.
         Nós não somos inteiros.
Assim os deuses esta nossa regem
         Mortal e imortal  vida;
Assim o Fado rege que assim rejam.
         Mas se assim é, é assim.
1 276
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SONNET - Lady, believe me ever at your feet,

Lady, believe me ever at your feet,
When all the Venus in you you condense
Unto a gesture natural and sweet,
Full-filled with purity's white eloquence.

Your sentient arm so softly did incense
The love of beauty in my soul complete,
That I had given the dearest things of sense
For that your gesture natural and sweet.

Genius and beauty, and the things that mar
The love of life with Love's own purest glow,
Out of all thinking, all unconscious are;

And even you, sweet lady, may not know
How much that gesture was to me a star
Leading my bark upon a sea of woe.
1 445
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Heia o quê? Heia porquê? Heia p’ra onde?

Heia o quê? Heia porquê? Heia p’ra onde?
Heia até onde?
Heia p’ra onde, corcel suposto?
Heia p’ra onde, comboio imaginário?
Heia p’ra onde, seta, pressa, velocidade
Todas só eu a penar por elas
Todas só eu a não tê-las por todos os meus nervos fora.

Heia p’ra onde, se não há onde nem como?
Heia p’ra onde, se estou sempre onde estou e nunca adiante
Nunca adiante, nem sequer atrás,
Mas sempre fatalissimamente no lugar do meu corpo,
Humanissimamente no ponto-pensar da minha alma,
Sempre o mesmo átomo indivisível da personalidade divina?

Heia p’ra onde ó tristeza de não realizar o que quero?
Heia p’ra onde, para quê, o quê, sem o quê?
Heia, heia, heia, mas ó minha incerteza, p’ra onde?
Não escrever versos, versos, versos a respeito do ferro,
Mas ver, ter, ser o ferro e ser isso os meus versos,
Versos — ferro — versos, círculo material-psíquico-eu

(quando parte o último comboio?)
1 263
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Para saudar-te

Para saudar-te
Para saudar-te como se deve saudar-te
Preciso tornar os meus versos corcel,
Preciso tornar os meus versos comboio,
Preciso tornar os meus versos seta,
Preciso tornar os versos pressa,
Preciso tornar os versos nas coisas do mundo

Tudo cantavas, e em ti cantava tudo —
Tolerância magnífica e prostituída
A das tuas sensações de pernas abertas
Para os detalhes e os contornos do sistema do universo
1 212
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O verdadeiro poema moderno é a vida sem poemas,

O verdadeiro poema moderno é a vida sem poemas,
E o comboio real e não os versos que o cantam
É o ferro dos rails, dos rails quentes, é o ferro das rodas, é o giro real delas.
E não os meus poemas falando de rails e de rodas sem eles.
1 378
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Há tanto tempo que não sou capaz

Há tanto tempo que não sou capaz
De escrever um poema extenso!
Há anos...

Perdi a virtude do desenvolvimento rítmico
Em que a ideia e a forma,
Numa unidade de corpo com alma,
Unanimemente se moviam...
Perdi tudo que me fazia consciente
De uma certeza qualquer no meu ser...
Hoje o que me resta?
O sol que está sem que eu o chamasse...
O dia que me não custou esforço...
Uma brisa, com a festa de uma brisa
Que me dão uma consciência do ar...
E o egoísmo doméstico de não querer mais nada

Mas, ah!, minha Ode Triunfal ,
O teu movimento rectilíneo!
Ah, minha Ode Marítima

A tua estrutura geral em estrofe antiestrofe e epodo!
E os meus planos, então, os meus planos —
Esses é que eram as grandes odes.
E aquela a última a suprema a impossível!
1 287
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SAUDAÇÃO [c]

SAUDAÇÃO

A expressão, aborto abandonado
Em qualquer vão-de-escada da realidade.

O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?
O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo p'ra brinquedos?
(Quando é que parte o último comboio, Walt,
Quando é que parte o último comboio?)

Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje
(...)

A química por baixo do Aqui jaz..
A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta
À hora em que era costume ele vir para casa
E o mesmo candeeiro hoje iluminado [...]
E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado.
1 024
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tantos poemas contemporâneos!

Tantos poemas contemporâneos!
Tantos poetas absolutamente de hoje —
Interessante tudo, interessantes todos...
Ah, mas é tudo quase...
É tudo vestíbulo
E tudo só para escrever.
Nem arte,
Nem ciência
Nem verdadeira nostalgia...
Este olhou bem o silêncio desse cipreste...
Esse viu bem o poente por trás do cipreste...
Este reparou bem na emoção que tudo isso daria...
Mas depois?...
Ah, meus poetas, meus poemas — e depois?
O pior é sempre o depois...
É que para dizer é preciso pensar —
Pensar com o segundo pensamento —
E vocês meus velhos, poetas e poemas,
Pensam só com a rapidez primária da asneira — é (...) e da pena —

Mais vale o clássico seguro.
Mais vale o soneto contente.
Mais vale qualquer coisa, ainda que má,
Que os arredores inconstruídos duma qualquer coisa boa...
"Tenho a minha alma!"
Não, não tens: tens a sensação dela.
Cuidado com a sensação.
Muitas vezes é dos outros,
E muitas vezes é nossa
Só pelo acidente estonteado de a sentirmos...
1 516
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Abram falência à nossa vitalidade!

Abram falência à nossa vitalidade!
Escrevemos versos, cantamos as coisas-falências; não as vivemos.
Como poder viver todas as vidas e todas as épocas
E todas as formas da forma
E todos os gestos do gesto?
O que é fazer versos senão confessar que a vida não basta
O que é arte senão uma esperança que não é ninguém
Adeus, Walt, adeus!
Adeus até ao indefinido do para além do Fim.
Espera-me, se aí se pode esperar,
Quando parte o último comboio?
Quando parte? (Quando partimos)
1 356
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A QUESTION

«Tell me», one day to a poet said
        A deep, brutal man,
«If you had to choose between seeing dead
Your wife whom you do love so well
And the loss complete, irreparable,
        Of your verses all, instead -
Which loss would you rather feel?»

The poet glanced with sudden woe
And deep distress at him who so
Broke with a question ill‑foreseen
His inner silence half‑serene,
And he did not answer; and the other
Smiled, as elder to younger brother:
The tortured glance of startled sense
And sudden self‑knowledge intense
And newness of self‑consciousness
Was bitter, as ev'n he could guess.
More than a smile were violence.
1 493
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

LITTLE BIRD

Poet

Little bird, sing me a sweet song deep
        Of what is not to‑day;
Be it not the future that yet doth sleep
In the hall where Time his hours doth keep,
        More than far away.

Sing me a song of the things thou knew'st
        And desirest e'er,
Be it a song to which but is used
The heart that has to love refused
        What is merely fair.

Bird

Young, too young hither I was brought
        From the dells and trees;
Weep with me - I remember them not
Save with a vague and a pining thought:
        Can I sing of these?

Poet

Sing, little bird, sing me that song -­
        None can be more dear -
Come of the spirit that doth long
Not for the past with a sadness strong,
        But for what was never here.

Sing me, sing me that song, little bird;
        I would also sing
Of sounds I remember yet never heard,
Of wishes by which my soul is stirred
        Till then bliss doth sting.

Bird

To breathe that singing I have no might;
        Sing it deeply thou!
I sing when the day is clear and bright
And when the moon is so much in night
        That thy tears do flow.

But thou, thou sing'st in woe, in ill,
        And thy voice is fit
To speak of what the wish doth fill
With pinings indescribable,
        Shadows vague of it.

Poet

Ay, little bird, let us sing in all weather
        A song, of to‑day,
Come of the sense we feel together
That nothing that doth die and wither
        Truly goes away.
1 497
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ilustríssimo Senhor

Ilustríssimo Senhor
M[ui]to digno director
D'este jornal - «O Pimpão»:
Nas charadas um novato
Vem fazer, não sem recato,
A sua apresentação.

Ao amável director
Um presente eu desejara
Vos trazer, ou prenda rara
D'alguma casa estrangeira,
Do que esta pobre charada
Detestável - frioleira.

Antes de na faina entrar
Eu, logo, ao apresentar
Esta maçada sem cor,
No verso pedir queria
Protecção e simpatia
Ao amável director.

Esperando uma audiência
Favorável, e apegado
Aos termos que uso pôr,
Eu sou de Vossa Excelência
Criado muito obrigado
E atento venerador
881
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VII - Fosse eu apenas, não sei onde ou como,

VII

Fosse eu apenas, não sei onde ou como,
Uma coisa existente sem viver,
Noite de Vida sem amanhecer
Entre as sirtes do meu doirado assomo...

Fada maliciosa ou incerto gnomo
Fadado houvesse de não pertencer
Meu intuito gloriola com ter
A árvore do meu uso o único pomo...

Fosse eu uma metáfora somente
Escrita nalgum livro insubsistente
Dum poeta antigo, de alma em outras gamas,

Mas doente, e, num crepúsculo de espadas,
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
Na última tarde de um império em chamas...
1 240
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

E ao acabar estes versos

E ao acabar estes versos
Feitos em modo menor
Cumpre prestar homenagem
À bebedeira do cantor.
1 039
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tenho um livrinho onde escrevo

Tenho um livrinho onde escrevo
Quando me esqueço de ti.
É um livro de capa negra
Onde inda nada escrevi.
1 896
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Amanhã estas letras em que te amo

Amanhã estas letras em que te amo.
        Serão vistas, tu morta.
Corpo, eras vida para que o não foras,
        Tão bela! Versos restam.
Quem o (...)
1 307