Escritas

Transcendência

Poemas neste tema

Frutuoso Ferreira

Frutuoso Ferreira

15 de Novembro

Repúblicas dos céus tão belas, tão faustosas...
Oh! Quem vos concebera as formas grandiosas?
— Quem fora esse Escultor dos vossos alabastros
E o Fáon que acendera os fogos desses astros?
Sereias ou vestais de uns esplendores lácteos,
Em meio às amplidões de aéneos céus, eufráteus,
Por entre o oiro e o azul de siderais Elêusis,
Vossos seios, em flor, de apocalípticos deuses,
Entre a pompa a escander, dos arrebóis ardentes
E o deserto e o negror das noites arquialgentes:
— Quem vos alcandorara as negridões nevosas,
Repúblicas dos Céus... Valquírias... Nebulosas?...
Minh’alma é vaga e loira assim como as Quimeras,
Eu ouço a melopéia ardente das esferas,
Eu sigo no Infinito os grupos das visões
................................................................................
Eu sou como Aassvero, eu venho de outras plagas
Remotas, de outros céus azúleos como as vagas,
Exausto e já cansado atrás das harmonias,
Deixai banhar-me aí ao sol das Utopias,
Nas vossas regiões adúleas, peregrinas,
Quero beber a luz das vastidões divinas,
Repúblicas do Azul... Valquírias... Nebulosas...

921
Flexa Ribeiro

Flexa Ribeiro

Síntese

Azul de céu aberto em ansiedade
à esperança dum céu desconhecido...
Soluço inicial, na Imensidade,
do Incriado que aspira ao Definido...

Metade que deseja a outra metade
pelo instinto virtual do bipartido;
fascinação de luz, da Afinidade;
consciência do Mistério pressentido...

Alma silenciosa do Universo
na ascendência sem fim da Perfeição,
buscando um outro ser deste diverso...

Impenetrável causa das Origens
propele para o teu meu coração
na alucinada Força das Vertigens!

552
Dário Veloso

Dário Veloso

Paredra

Vênus pagã, olhos de sete-estrêlo,
A cabeleira rútila fulgindo...
Amei-te!... Amor, nos olhos tens fulgindo,
Volúpia; luz o sol de teu cabelo.

A luxúria findou. Astro maldito,
Rolei do azul aos pélagos hiantes...
Procurava a minha alma... Além, distantes,
Lótus colhi nos édens do Infinito.

Morreste. Ao val da Sombra, compungido,
Boa que foras para meus delírios,
Levei teu nobre coração partido.

Só então, osculando o altar de pedra,
À luz morrente de funéreos círios,
Tua alma ouvi... — a minha Irmã, Paredra.

1 171
Cid Teixeira de Abreu

Cid Teixeira de Abreu

Soneto de Amor

o meu amor é só. como as gaivotas,
criei-o na aurora dos rochedos,
acima da impotência dos enredos,
na trilha insondável de outras rotas.

meu amor é meu ser e meus segredos,
a virtude trincada de revoltas.
se não há o querer de eras remotas,
ausência também há de velhos medos...

e cibório de nervos e memória
tensa, coberta de sangue — oh granito!
dólmans brancos nas páginas da história.

o meu amor... quem sabe compreendê-lo,
se a própria alma, na angústia do infinito,
é chama e cinza, é ternura e gelo?!...

1 024
Dário Veloso

Dário Veloso

No Reino Das Sombras

Plenilúnio. O luar molha as colunas dóricas...
junto ao pronaos medito, evocando o teu rosto,
Que saudade de ti, dessa tarde de agosto,
De tintas outonais e visões alegóricas!

Saudade!... O coração lembra idades históricas...
Na Atlântida eras tu pitonisa... Ao sol posto,
Dizias da alma irmã os arcanos... Teu rosto
Banhava-se na luz das estrelas simbólicas...

Tantas vezes perdida! Imerso em luz ou treva,
De vida em vida, à flor do céu, te procurava,
Na dor da solidão... E, quando a Lua eleva

A lâmpada votiva, eu te procuro ainda,
— Alma branca, alma irmã, alma em flor, alma eslava,
Na poeira de sóis da solitude infinda.

1 076
Alberto Ramos

Alberto Ramos

Esta Concha Nasceu, Como Vênus, da Onda

Esta concha nasceu, como Vênus, da onda,
rósea, láctea, polida, intacta e sem defeito.
Não tinham tanto preço as gemas de Golconda.
Semelha um coração acabado e perfeito.

Escuta e lhe ouvirás um burburinho estranho
de ondas batendo ao longe em criptas de granito.
Ei-la, é tua! Uma flor a excedera em tamanho!
Mas dentro ruge o mar, infinito, infinito.

968
Carvalho Aranha

Carvalho Aranha

Mundo Interior

Faz dias, (quantos?) despertei, chorando.
Alguém morreu dentro de mim; parece
Que sinto badalar, saudoso e brando
Um velho sino, convidando à prece.

Dlin, dlon; dlin, dlon... Os ecos despertando
Tal som semelha a voz de quem padece,
Voz desolada, estertorosa, quando
A grande Vaga do Infinito desce...

Ouço um confuso soluçar, em torno;
E a alma pirilampeja, comovida,
Num derradeiro raio, baço e morno.

E escuto, agora, em trêmulos, plangente,
Vibrar o sino, em funeral à vida,
Que, em meu olhar, é como o Sol poente...

817
Aluízio Medeiros

Aluízio Medeiros

Canto do Século

Nunca mais ouvirei violinos em surdina
nem pianos em surdina
nem cantos litúrgicos suavíssimos
nem músicas de sinos e de órgãos nunca mais.
O espírito mecânico do século esmagou as doces melodias
Nunca mais riscos de fogo de esferas vermelhas
nem a cabeleira azul de Olga flutuando no espaço
nem alvas gaivotas revoando nunca mais.
O céu está plúmbeo o céu está plúmbeo.
Nunca mais veleiros singrando serenamente os mares
nem canções de águas claras nunca mais.
O navio de aço levou a namorada para a distância
para a bruma silenciosa da distância.
Os mares estão revoltos os mares estão revoltos.
O barulho do mundo sólido desabou com estrondo.
Universo que desfalece que desfalece.
Ai de mim! Estou esmagado estou cego. Ai de mim!
Um anjo metálico com asas de hélices
me arrebatará para cima das nuvens.

883
Batista de Lima

Batista de Lima

O Doce de Vitalina

Vitalina faz cocada
com mais alma do que coco

Uma semana de criação
onde leite açúcar e coco
não têm importância
como não têm importância
tição fogo e brasa

O mais importante
é que Vitalina
se ponha no caco
e vá na cocada
e que o sétimo dia
seja para descanso
como fez Deus na criação

955
Walter Queiroz

Walter Queiroz

O Susto

O susto era o céu
violento nos olhos
a mancha de fogo
cidade de nuvens

O susto era o sonho
na festa da noite
pastando lembranças
do último espanto

O susto era a tarde
passando carreira
girando a criança
pião na varanda

O susto foi grito
um gesto sem jeito
a lança de anúncios
no alvo do peito

O susto de agora
no tempo de hoje
folia de pranto
no canto das armas

903
Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Cadência

Não conto
Estrelas
Me contento
Em vê-las

Sem lupas ou lentes
Vejo estrelas
Algumas imóveis
Outras C
a
d
e
n
t
e
s.

907
Viviane Gehlen

Viviane Gehlen

Mar

Mar

O céu, cinza
Cinza também o mar....

A praia, vazia
vazio também meu olhar....

A areia se desfaz sob meus pés.
Lágrimas rolam dos meus olhos,
descem pelo meu corpo e
se fundem com o mar...

sou onda,
sou espuma,
sou nada.

Imersa no mar, descubro a Vida.
Submersa na dor, descubro a Vida.
Escondido nas nuvens, descubro o Sol.
Refletido no mar, descubro o Sol.

meu coração renasce
meus olhos sorriem

Um veleiro cruza o horizonte....

09-01-97

914
Venúsia Neiva

Venúsia Neiva

O Cemitério

cruzes.
guirlandas.
flores.
ciprestes.
tudo se confunde num funéreo lamento de loucura.
podridão de estátuas que já foram vivas,
que sorriam,
que choravam,
que gritavam ao mundo a inutilidade das coisas mortas.
eu sinto o vento a gemer na solidão e no tempo.
eu vejo os anjos de mármore incendiarem-se no luar
que povoa a cidade deserta.
madrugadas gélidas.
dentro de noites gélidas.
corujas piando sobre cruzes eretas.
coroas de rosas desbotadas.
vôos agoureiros de morcegos negros.
tudo pede luz. tudo pede vida!
alvas sombras entrechocam-se ao ritmo macabro
das convulsões do pavor.
a morte mora ali.
ela vigia seus súditos acorrentados sob lápides marmóreas.
nunca mais os deixará sair.
para sempre escravizados.
até à eternidade, até ao fim dos tempos!
até que a ressurreição se processe
em suas cinzas esquecidas.

660
Marcelo Tápia

Marcelo Tápia

meia-treva

a meia-lua do céu se punha
como a meia-íris sua:

metade luz, metade treva
(metade bela, metade fera)

reflexo contíguo ao profundo
brilho anteposto ao túnel

universo em partes
nosso mundo partido

figura e fundo, dois sentidos
meio ao vazio

952
Marcelo Tápia

Marcelo Tápia

cidade-luz

metrópole: elétricos
astros encobrem escuros
uracos de pedra

(1983)

890
Salette Tavares

Salette Tavares

Amor Silêncio

Amor silêncio amargo a roçar-me a morte
grito partido do vidro sobre o peito
ilha deserta no meio das capitais do norte
grilhetas ajustadas no rio em que me deito.

Distância cumulada remanso duma espera
ponte de aventura do dois à unidade
amor brilho raiando a chave do desejo
minuto adormecido ao pé da eternidade.

Amor tempo suspenso, ó lânguido receio,
no pranto do meu canto és a presença forte
estame estremecido dissimulado anseio
amor milagre gesto incandescente porte.

Amor olhos perdidos a riscar desenhos
em largo movimento o espaço circular
amor segundo breve, lanceta, tempo eterno
no rápido castigo da lua a gotejar.

1 520
Tatiana Ramminger

Tatiana Ramminger

Só o olhar do outro

Só o olhar do outro

Só o olhar do outro
para delinear
este meu corpo tão sem limites
tão esparramado...
Preso na inconstância do fogo
Descendo cachoeiras
Brotando da terra
Perdido no infinito do céu...

1 248
Marcelo Tápia

Marcelo Tápia

céu de mil e uma noites

Se eu
não fosse poeta
seria astrônomo
por certo.
Maiakóvski (trad. Augusto de Campos)
olho o céu e vejo um céu antigo
como aquele que eu tenho comigo
desde que o mundo era o meu umbigo

um céu de tecido azul escuro
com os pontos de luz em furo e uma
meia meia lua de futuro

nesga, um rasgo fino reluzente
numa renda quase transparente
com o vulto do clarão ausente

crescente sobre o pano profundo
que conquista um negrume de fundo
quanto mais e mais cai com o mundo

e se consome o vermelho púrpura
(desvanece a cor à ausência pura)
quanto mais e mais o brilho fura

833
Marcelo Tápia

Marcelo Tápia

pedreira

para Paulo Leminski
o tempo pós
o fez diverso:
pedra
eterna, fixa
dura, pesada
imóvel, muda
cega, surda

mas perene
sólida
como sua vida
poesia pura do tempo

pedra-chama
teimando eternamente
como alma consistente

ascensão e queda

no centro do lago
no mais profundo
no mais escuro
no redemunho
no furo
no fio
o fim
do fio
do furo
do redemunho
do mais escuro
do mais profundo
ao centro do lago

iôiô
acima sem saída
até as margens sem alcance
na descida a ilusão de ascender

aos céus

1 004
Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

Ausência II

É o mesmo céu;
longe.
São as mesmas estrelas;
egoístas.
É o mesmo ambiente;
insignificante.
É a mesma saudade. É a mesma dor.
Mas eu não queria essa "mesmice"!
Eu só queria o mesmo carinho,
a mesma boca,
o mesmo corpo,
a mesma alma,
o mesmo Amor.
O mesmo amor que me faz ficar de pé.

Eu só queria dançar.
Queria, com ela, dançar,
numa atmosfera rosada. . .

Salvador, 22 de setembro de 1996

670
Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

Paisagem

à Cristina Pinchemel
Imagino que o dia está absolutamente perfeito.
Pelo vidro suave da janela,
o céu azul,
resplandescente,
ofusca qualquer pensamento vil.
Nas ruas,
as pessoas andam sorridentes e gentis,
com ensaios de "bom-dia",
"boa-tarde" e
"boa-noite".

Lá fora os ventos correm,
— brincando! —
como crianças num dia de sol,
embaraçando cabelos,
afagando folhas solitárias com suas doces carícias invisíveis...
O mar, verde como uma floresta virgem,
lança suas ondas de finas espumas sedosas,
e a areia ,
— ah! a areia!... —
com seus flocos dourados,
assiste a tudo,
inebriando-se...

E sinto!
Sinto a felicidade em mim,
tomando conta de toda a minha alma,
como se injetada por agulha fina, anestésica...
E o ar brinca em meu coração,
borbulhando todo o meu sangue,
numa taça profunda, de cristal...

O dia,
aos poucos,
vai desaparecendo por trás dos montes,
— verdes como o mar! —
dando luz e vida
a uma nova criança que está por nascer...

E a lua surge,
completa,
afiada,
seduzindo estrelas e puros corações.

Os vizinhos em suas varandas,
prestigiam um novo espetáculo.
E vão dormir felizes,
preenchidos por um calor que emana de cada um,
e com um misto de satisfação e ansiedade,
certos de um novo espetáculo,
que irá surgir pela manhã...

A vida não tem sentido,
se você não compõe sua própria paisagem...

667
João Augusto Sampaio

João Augusto Sampaio

Guerra é guerra?

Leio Fernando Pessoa à beira-mar.
Um helicóptero da FAB incomoda-me dando um rasante sobre a praia sem qualquer motivo.
(Vingança por estar a serviço no Reveillon?)
.....................................................................................................................
Memórias de há dez anos são remexidas instantaneamente no fundo do baú da memória:
Cena dos helicópteros de Apocalypse Now,
Cavalgada das Valquírias ao fundo.
O garotão da Califórnia dispara mais um foguete contra os kongs magros.
Fogo, cheiro de carne humana queimada pelo napalm,
E o comandante cow boy desce na praia e proclama:
"Adoro este cheiro de vitória!".
O recrutinha havaiano surfa nas ondas dos kongs já queimados.

Transponho a cena para minha praia e lembro-me de um político baiano que também adora lutar com adversários desiguais,
Mais fracos sempre...

Chama-se a isso atualmente na Bahia de coragem.
Coragem.
Agir com o coração?
Castro Alves revira-se no túmulo no anno do seu sesquicentenário de nascimento.

763
Elíude Viana

Elíude Viana

Definição de Infinito:

O que dois pontos humanos

podem ser no universo dos Desejos?

Podem ser estrelas...

Podem ser bichos...

Podem ser areia...

Ou podem ser nada

- o que pode ser tudo.

792
Ruy Pereira e Alvim

Ruy Pereira e Alvim

Desencanto

Eu canto o canto
do meu desencanto.

Eu canto a lua
de pele manchada,
despudorada
com astronautas
de quarto em quarto
e nua.

E canto o medo
e as pequenas covardias
que no dia a dia,
em segredo,
fazem as minhas heresias.

Canto o tempo esgotado,
porque, na hora,
o deserto é pranto.
E o meu corpo chora
sem o recado,
que sublimará o meu canto.

918