Literatura e Palavras

Poemas neste tema

Jorge Melícias

Jorge Melícias

Os dedos batem no nome e estancam

Não há profundidade depois disso.

queria emergir magnífico

do meu fôlego,

cantar sob os foles da língua.

digo que todo o nome é dançado,

que freme como tocado de dentro.

753
José Augusto Seabra

José Augusto Seabra

Proust em Bucareste

Falávamos de Proust em Bucareste, por dentro da manhã, calafetados,
e a música escorria pela neve em camadas de tempo esfacelado.
Nas vidraças doridas do silêncio cicatrizavam lábios devorados por frases torneadas do avesso que ouvíamos por fora,
só do lado donde Proust se lia em Bucareste
994
Jorge Melícias

Jorge Melícias

O poema são fogueiras levantadas na

gargantaou um sono inclinado sobre as facas.Alguém
diz,a prumotodos os nomes queimam,e há uma
deflagração assombrosa,a palavra acende-se com
uma àrvore de sangue ao centro.

de A Luz nos Pulmões(2000)

724
Walt Whitman

Walt Whitman

Sometimes with One I Love

Sometimes with One I Love

Sometimes with one I love I fill myself with rage for fear I

effuse unreturnd love,

But now I think there is no unreturnd love, the pay is

certain one way or another,

(I loved a certain person ardently and my love was not

returnd,

Yet out of that I have written these songs.)

1 667
Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar

Psicografia

Psicografia

Tambem eu saio à revelia

e procuro uma síntese nas demoras

cato obsessões com fria têmpera e digo

do coração: não soube e digo

da palavra: não digo (não posso ainda acreditar

na vida) e demito o verso como quem acena

e vivo como quem despede a raiva de ter visto

1 509
Abrahão Cost'Andrade

Abrahão Cost'Andrade

Gertrudes

Folhas de romance
, esquiva papelaria:
seios na janela.

865
Adriana Sampaio

Adriana Sampaio

Álcool

Álcool

Não tenho gostado do que tenho escrito
Não tenho conseguido destilar minhas idéias
Não, definitivamente, não sou uma destilaria.
855
Orlando Neves

Orlando Neves

E o desejo de amar

E o desejo de amar e o desejo de mar
no seu mais belo canto Safo cantava.
Oh, quanto no meu coração tarda
o que o seu canto louvava.

1 266
Paulo Leminski

Paulo Leminski

Carta pluma

a uma carta pluma
só se responde
com alguma resposta nenhuma
algo assim como se a onda
não acabasse em espuma
assim algo como se amar
fosse mais do que a bruma

uma coisa assim complexa
como se um dia de chuva
fosse uma sombrinha aberta
como se, ai, como se,
de quantos se
se faz essa história
que se chama eu e você

1 968
Renier Dias Pereira

Renier Dias Pereira

Automatismo Extraordinário

Automatismo Extraordinário

Escrevo através de
um impulso magnífico
ora espumante ora ingênuo
sempre transcendental

num transbordamento mágico
expresso minha poesia como
asas na amplitude do infinito

a vida não acaba, o tempo não
passa, a poesia permanece
livre. Escapo do insignificante

861
Renier Dias Pereira

Renier Dias Pereira

Essência

Essência

Eu quero a rima pobre , paupérrimaEu quero os mais puros sentimentosEu quero o exagero , a língua erradaEu quero a dor , a alegria , o sofrimentoEu quero o íntimo , veias abertas Eu quero a sem-vergonhice , a poesia vivaEu quero o discurso em chamasEu quero o parto normal de uma vidasem limites...

1 157
Nuno Guimarães

Nuno Guimarães

Pela Escrita

Através dela somos divididos
E somos portadores da divisão.

Por ela aprendemos um país
Apreendido.

Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.

Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.

Má consciência nas palavras.
E nos actos.

Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.

1 226
Régis Bonvicino

Régis Bonvicino

Uma Idéia

palavras não matam
nem provocam inverno atômico

e na voz do poeta
(abelhas na colméia)

podem até conter uma idéia

1 632
Albano Dias Martins

Albano Dias Martins

Aqui começam

todas
as doenças. A do feno
e seus alvéolos furtivos, a da lepra
das palavras traídas, nunca
usadas. E as maleitas
da pele, a insanável
maresia da língua.

1 165
Bocage

Bocage

pensar é uma palavra

pensar é uma palavra
primogénita
onde o ardor decanta das insígnias
os íntimos sinais
e o olhar é um silêncio enorme
e rumoroso

o delicado musgo
da memória
é a matéria-prima
do teu rosto

1 377
Carlos Nogueira Fino

Carlos Nogueira Fino

indicação do lugar

chegamos a uma página em branco atravessada por
um súbito silêncio uníssono
o rio é uma dobra do olhar onde sempre estivemos em surdina

é o exacto lugar
indiciador dos músculos

quem ousa escancarar as portas à cidade

939
Albano Dias Martins

Albano Dias Martins

Folheamos

agora dicionários
cada vez mais breves.
De noite,
os teus cabelos emigram
como espigas de incenso. Há gerânios
pisados entre os dedos, dálias
virgens sufocadas
na epiderme.
As palavras
só conhecem o limbo, a rigorosa
película da sede.

in:Uma colina
para os lábios(1993)
1 110
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Do fundo do fim do mundo

Do fundo do fim do mundo
Vieram-me perguntar
Qual era o anseio fundo
Que me fazia chorar.

E eu disse: «É esse que os poetas
Têm tentado dizer
Em obras sempre incompletas
Em que puseram seu ser.»

E assim com um gesto nobre
Respondi a quem não sei
Se me houve por rico ou pobre.


14/07/1934
3 998
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tenho escrito mais versos que verdade.

Tenho escrito muitos versos,
Muitas coisas a rimar,
Dadas em ritmos diversos
Ao mundo e ao seu olvidar.

Nada sou, ou fui de tudo.
Quanto escrevi ou pensei
É como o filho de um mudo –
«Amanhã eu te direi».

E isto só por gesto e esgar,
Feito de nadas em dedos
Como uma luz ao passar
Por onde havia arvoredos.


12/04/1934
3 742
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Que suave é o ar! Como parece

Que suave é o ar! Como parece
Que tudo é bom na vida que há!
Assim meu coração pudesse
Sentir essa certeza já.

Mas não; ou seja a selva escura
Ou seja um Dante mais diverso,
A alma é literatura
E tudo acaba em nada e verso.


06/11/1932
4 402
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Canta onde nada existe

Canta onde nada existe
O rouxinol para seu bem,
Ouço-o, cismo, fico triste
E a minha tristeza também

Janela aberta, para onde
Campos de não haver são
O onde a dríade se esconde
Sem Ser imaginação.

Quem me dera que a poesia
Fosse mais do que a escrever!
Canta agora a cotovia
Sem se lembrar de viver...


07/12/1933
4 467
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Já ouvi doze vezes dar a hora

Já ouvi doze vezes dar a hora
No relógio que diz que é meio-dia
A toda a gente que aqui perto mora.
(O comentário é do Camões agora:)
«Tanto que espera! Tanto que confia!»
Como o nosso Camões, qualquer podia
Ter dito aquilo, até outrora.

E ainda é uma grande coisa a ironia.


08/03/1931
4 165
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Já não vivi em vão

Já não vivi em vão
Já escrevi bem
Uma canção.

A vida o que tem?
Estender a mão
A alguém?

Nem isso, não.
Só o escrever bem
Uma canção.


07/05/1927
4 920
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Severo narro. Quanto sinto, penso.

Severo narro. Quanto sinto, penso.
Palavras são ideias.
Múrmuro, o rio passa, e o que não passa,
Que é nosso, não do rio.
Assim quisesse o verso: meu e alheio
E por mim mesmo lido.


16/06/1932
2 659