Consciência e autoconhecimento

Poemas neste tema

Nuno Guimarães

Nuno Guimarães

Pela Escrita

Através dela somos divididos
E somos portadores da divisão.

Por ela aprendemos um país
Apreendido.

Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.

Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.

Má consciência nas palavras.
E nos actos.

Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.

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Bocage

Bocage

pensar é uma palavra

pensar é uma palavra
primogénita
onde o ardor decanta das insígnias
os íntimos sinais
e o olhar é um silêncio enorme
e rumoroso

o delicado musgo
da memória
é a matéria-prima
do teu rosto

1 377
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VII - I put by pleasure Iike an alien bowl.

I put by pleasure like an alien bowl.
Stern, separate, mine, I looked towards where gods seem.
From behind me the common shadow stole.
Dreaming that I slept not, I slept my dream.
4 164
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XII - Life lived us, not we life. We, as bees sip,

Life lived us, not we life. We, as bees sip,
Looked, talked and had. Trees grow as we did last.
We loved the gods but as we see a ship.
Never aware of being aware, we passed.
4 065
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sim, já sei...

Sim, já sei...
Há uma lei
Que manda que no sentir
Haja um seguir
Uma certa estrada
Que leva a nada.

Bem sei. É aquela
Que dizem bela
E definida
Os que na vida
Não querem nada
De qualquer estrada,

Vou no caminho
Que é meu vizinho
Porque não sou
Quem aqui estou.


04/10/1934
4 595
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Divido o que conheço.

Divido o que conheço.
De um lado é o que sou
Do outro quanto esqueço.
Por entre os dois eu vou.

Não sou nem quem me lembro
Nem sou quem há em mim.
Se penso me desmembro.
Se creio, não há fim.

Que melhor que isto tudo
É ouvir, na ramagem
Aquele ar certo e mudo
Que estremece a folhagem.


10/09/1934
3 753
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Desce a névoa da montanha,

Desce a névoa da montanha,
Desce ou nasce ou não sei quê...
Minha alma é a tudo estranha,
Quando vê, vê que não vê.
Mais vale a névoa que a vida...
Desce, ou sobe: enfim, existe.
E eu não sei em que consiste
Ter a emoção por vivida,
E, sem querer, estou triste.


02/09/1935
4 857
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A lâmpada nova

A lâmpada nova
No fim de apagar
Volta a dar a prova
De estar a brilhar.

Assim a alma sua
Deveras desperta
Quando a noite é nua
E se acha deserta.

Vestígio que ergueu
Sem ser no lugar
De onde se perdeu...
Nasce devagar!


03/08/1934
4 363
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Como é por dentro outra pessoa

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.


1934
4 576
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nos jardins municipais

Nos jardins municipais
As flores também são flores.
Assim, na vida e no mais,
Que a vida é de estupores,

Podemos todos ser nossos
E fluir como quem somos.
Quando a casa é só destroços
É que a fruta é só de gomos.


1932
4 210
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No meu sonho estiolaram

No meu sonho estiolaram
As maravilhas de ali,
No meu coração secaram
As lágrimas que sofri.
Mas os que amei não acharam
Quem eu era, se era em si,
E a sombra veio e notaram
Quem fui e nunca senti.


10/08/1932
3 991
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vai alta a nuvem que passa.

Vai alta a nuvem que passa,
Branca, desfaz-se a passar,
Até que parece no ar
Sombra branca que esvoaça.

Assim no pensamento
Alta vai a intuição,
Mas desfaz-se em sonho vão
Ou em vago sentimento.

E se quero recordar
O que foi, nuvem ou sentido
Só vejo alma ou céu despido
Do que se desfez no ar.


15/06/1933
8 557
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nesta grande oscilação

Nesta grande oscilação
Entre crer e mal descrer
Transtorna-se o coração
Cheio de nada saber;

E, alheado do que sabe
Por não saber o que é,
Só um instante lhe cabe,
Que é o conhecer a fé –

A fé, que os astros conhecem
Porque é a aranha que está
Na teia, que todos tecem,
E é a vida que antes há.


05/05/1934
4 329
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Lá fora onde árvores são

Lá fora onde árvores são
O que se mexe a parar
Não vejo nada senão,
Depois das árvores, o mar.

É azul intensamente
Salpicado de luzir,
E tem na onda indolente
Um suspirar de dormir.

Mas nem durmo eu nem o mar,
Ambos nós, no dia brando,
E ele sossega a avançar
E eu não penso e estou pensando.


14/08/1932
5 339
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Corno nuvens pelo céu

Como nuvens pelo céu
Passam os sonhos por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.

São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo campo que arrefece.

Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transtorna?
Que coisa inútil me dói?


17/06/1932
4 125
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A aranha do meu destino

A aranha do meu destino
Faz teias de eu não pensar.
Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.
É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir...
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir.
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro...
Sou presa do meu suporte.


10/08/1932
4 638
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pálida, a Lua permanece

Pálida, a Lua permanece
No céu que o Sol vai invadir.
Ah, nada interessante esquece.
Saber, pensar – tudo é existir.

Mas pudesse o meu coração
Saber à tona do que eu sou
Que existe sempre a sensação
Ainda quando ela acabou...


04/03/1934
5 485
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sabes quem sou? Eu não sei.

Sabes quem sou? Eu não sei.
Outrora, onde o nada foi,
Fui o vassalo e o rei.
É dupla a dor que me dói.
Duas dores eu passei.

Fui tudo que pode haver.
Ninguém me quis esmolar;
E entre o pensar e o ser
Senti a vida passar
Como um rio sem correr.


12/04/1934
5 443
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não fiz nada, bem sei, nem o farei,

Não fiz nada, bem sei, nem o farei,
Mas de não fazer nada isto tirei,
Que fazer tudo e nada é tudo o mesmo,
Quem sou é o espectro do que não serei.

Vivemos aos encontros do abandono
Sem verdade, sem dúvida nem dono.
Boa é a vida, mas melhor é o vinho.
O amor é bom, mas é melhor o sono.


1931
4 908
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Porque esqueci quem fui quando criança?

Porque esqueci quem fui quando criança?
Porque deslembro quem então era eu?
Porque não há nenhuma semelhança
Entre quem sou e fui?
A criança que fui vive ou morreu?
Sou outro? Veio um outro em mim viver?
A vida, que em mim flui, em que é que flui?
Houve em mim várias almas sucessivas
Ou sou um só inconsciente ser?


1932
5 225
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quero ser livre insincero

Quero ser livre insincero
Sem crença, dever ou posto.
Prisões, nem de amor as quero.
Não me amem, porque não gosto.

Quando canto o que não minto
E choro o que sucedeu,
É que esqueci o que sinto
E julgo que não sou eu.

De mim mesmo viandante
Olho as músicas na aragem,
E a minha mesma alma errante
É uma canção de viagem.


26/08/1930
5 047
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Em plena vida e violência

Em plena vida e violência
De desejo e ambição,
De repente uma sonolência
Cai sobre a minha ausência,
Desce ao meu próprio coração.

Será que a mente, já desperta
Da noção falsa de viver,
Vê que, pela janela aberta,
Há uma paisagem toda incerta
E um sonho todo a apetecer?


1931
4 479
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

As nuvens são sombrias

As nuvens são sombrias
Mas, nos lados do sul,
Um bocado do céu
É tristemente azul.

Assim, no pensamento,
Sem haver solução,
Há um bocado que lembra
Que existe o coração.

E esse bocado é que é
A verdade que está
A ser beleza eterna
Para além do que há.


05/04/1931
4 515
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O ruído vário da rua

O ruído vário da rua
Passa alto por mim que sigo.
Vejo: cada coisa é sua.
Oiço: cada som é consigo.

Sou como a praia a que invade
um mar que torna a descer.
Ah, nisto tudo a verdade
É só eu ter que morrer.

Depois de eu cessar, o ruído.
Não, não ajusto nada
Ao meu conceito perdido
Como uma flor na estrada.


21/02/1931
4 660