Espiritualidade
Poemas neste tema
José Miguel Silva
Agora a sério
o bastante para as guerras
mundiais da mercadânsia,
são simpáticos, os «tugas»,
como todos os inábeis.
Se dão pouco, menos pedem,
desafogam-se em abraços
de convívio quintaleiro,
com o mundo num chinelo
e o chinelo ao pé da porta.
Sem mudanças nem conflitos,
são amáveis com os factos,
obedecem aos estreitos
razoados da renúncia,
não se levam muito a sério.
No lagar da contingência,
reconhecem quase a gosto
a astenia da azeitona,
fazem migas do orgulho,
fazem figas, queimam velas
de tamanho não-te-rales
e que se lixe o candeeiro
do futuro. Malnascidos,
comoventes como ratos
na gaveta da cozinha,
com as patas num trapézio
de suspiros cauteloso,
atilados como filhos
primogénitos da fome,
são apáticos, mas giros:
piedosos quanto baste,
confiantes quando podem,
inocentes como poldros,
pés de salsa ao regadio
da vidina providência.
Faço meus os seus defeitos
(a preguiça, a timidez,
a vocação do remedeio)
e agradeço ter nascido
bem pequeno, com espaço
(quer dizer) para crescer
um pouco mais. Pois
não há pior destino
que nascer acabadinho,
já montado na carroça
triunfante da fiúza,
vendo o mundo p"lo binóculo
invertido do umbigo,
com a alma metralhada
de paixão e cupidez.
José Miguel Silva
Penélope escreve
Fiquei a tarde toda a arrumar os teus papéis,
a reler as cinco cartas que me foste endereçando
na semana que perdemos: tu no Alentejo,
eu debaixo de água. Fui depois regar as rosas
que deixaste no quintal. Sempre só e sem
carpir o meu estado (porque não me fazes falta),
pus o disco da Chavela que me deste no Natal
e comecei a preparar o teu prato preferido.
Cozinhar fez-me perder o apetite; por isso
abri uma garrafa de maduro e não me custa
confessar-te que não sinto a tua falta.
Por volta das dez horas, obriguei-me a recusar
dois convites pra sair (aleguei androfobia)
e estou neste momento a recortar a tua imagem
(não me fazes falta) nas fotos que possuo de nós dois,
de maneira a castigar com o cesto dos papéis
a inábil idiota que deixou que tu te fosses.
José Miguel Silva
Sinopse
desejei: as tardes à janela, sem vizinhos nem
ardis, a injustiça reduzida ao mecanismo
natural da bicharada, o lavradio do amor
a tempo inteiro.
Só me falta, para tudo
proteger em cobardia, uma campânula
de cego na cabeça, aprender a fechar olhos
e ouvidos ao avanço hertziano da desdita.
Então serei feliz e integral como um cadáver.
José Miguel Silva
Centro Comercial
fogem de um, fecham-lhe a porta,
riem-se juntos. O outro, eixo moído,
embate na vida, força a entrada,
acaba no chão: eu não sei o caminho
de casa! De nada lhe serve chamar
as Erínias, largam a trote os netos
de Zeus, o vinho da força responde
por eles, esconde de todos a destruição.
E eu, o que faço? Não faço nada.
Um pouco mais velho, um pouco
mais sonso, tal como vós,
escolho o caminho da loja seguinte.
José Miguel Silva
Faculdade
de estar aqui para expiar
a culpa de ter fome,
cinco nós por desatar
em cada linha de cabelo.
O truque é não erguer
As sobrancelhas,
colocar no cabeçalho
um nome falso,
sorrir a 100%.
As perguntas que levantas
são perdizes abatidas
por calibres ideais.
Afias outro lápis, aprendes
a calar o que te dói.
Mais um ano e sairás
daqui formado em miudezas
de futuro gradeado. E o mundo
vai abrir-se, já o sabes,
num esgoto cor de prata.
José Miguel Silva
Resposta possível à pergunta anterior
esta língua que nos coube, a timidez
alcandorada em cerimónia, o SG,
o vinho bom, a francesinha, os varandins
da burguesia duriense, o Alentejo,
a tradição arquitectónica da pedra,
da modéstia, do adobe, a cortesia
de ser pobre. A quietude remissiva
dos lugares frequentados p'la renúncia.
José Miguel Silva
No Way Back
Diógenes diria "à catanada, vivamente",
Lichtenberg "à gargalhada", se o conheço.
Thomas Bernhard proporia "num rectângulo
de tábuas" e Machado que o caminho de saída
se descobre ao caminhar. Beckett é provável
que dissesse "rastejando".
Diderot aventaria
"pela rua do liceu", Tcheckov "pela viela
mais escura, à tua esquerda". Séneca diria,
muito sonso, "pelo passeio das Virtudes",
Vaneigem "pelo jardim das Belas-Artes".
Bashô responderia (e eu com ele) "é muito cedo,
fica mais um pouco, ainda há vinho na garrafa".
José Miguel Silva
Piazza della Signora
E todos sabemos, foi assim ordenado,
que não há mal que não venha por bem.
Muito mesquinhos seríamos nós,
muito egoístas, se não nos alegrasse
que do nosso suor tenha nascido a arte
de gastar dinheiro, para que dentro
de cem ou mil anos também os nossos
descendentes possam ter o direito de
cagar sentados, ouvir música de câmara
ou sair do dentista com um sorriso
nos dentes. Se valeu a pena o sacrifício?
Isso nem se pergunta. Pessoalmente,
só lamento não ter podido dar mais
do que uma vida, mas era a única que tinha,
e morro, por isso, de consciência tranquila.
Manuel António Pina
Alguém atrás de ti
na mão fechada de Deus o que passou.
É cada vez mais tarde
onde o que eu fui sou.
Que coisa morreu
na minha infância
e está lá a ser eu?
A lâmpada do quarto? A criança?
Em quem tudo isto
a si próprio se sente?
Também aquele que escreve
é escrito para sempre.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 115 | Assirio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Matéria de estrelas
encontrar-nos-emos eternamente
e nunca mais nos veremos.
O impossível volta a ser impossível. Para sempre.
Impossível é cada manhã aberta,
um deus sonha consigo através de nós.
Às vezes quase posso tocá-lo, ao deus,
surpreendê-lo no seu sono, também ele real e efémero.
Matéria, alma do nada,
os mortos ouvem a tua música sólida
pela primeira vez, como uma respiração de estrelas.
A sua intranquilidade transforma-se em si mesma, música.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 125 | Assirio & Alvim, 2012
Al Berto
A Invisibilidade de Deus
outros afirmam:
a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão
o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu
(in 'Sete Poemas do Regresso de Lázaro')
Manuel António Pina
O retrato
O menino que caiu da moldura do retrato
como quem tomba da varanda à rua
onde está?, em que lembrança sua
ou em que sepultura do passado,
sufocado, com a boca atafulhada ainda de sonhos?
O seu nome é agora menos um nome que uma doença rara
que te desfigurou a cara, uma doença sem nome e sem cura;
cabereis os dois na mesma sepultura?
o de alguém perguntando por um estranho
algures, onde o Lexotan se tornou literatura.
Caberemos todos na mesma sepultura?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 353 | Assírio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
Salmo
Há mulheres mortas nas árvores do cais. Ensinei-as a escrever poemas; e elas pendem dos ramos, a cabeça
para baixo, mudas e estagnadas. Meto-lhes os dedos nos orifícios do corpo - os ouvidos, o nariz, a boca, o sexo, - e tiro-os
cheios de pus, de sangue podre, de restos de algodão. Por dentro,
elas falam-me numa voz marítima, cujo sentido surge e desaparece
no ritmo das marés loucas de setembro. Digo para mim próprio
que já sabia tudo isto; que aqueles corpos estavam previstos
no curso de alguns astros de infância; que não perdi nada,
afinal, em ter esperado tanto tempo.
E o horizonte abre-se-me na continuação das conchas vermelhas
do crepúsculo. Deus é um coral queimado pelo rumor monótono
dos ventos. Entro no pórtico da morte - e encontro
navios ancorados, o poço seco das águas
letais, almas adormecidas pelo tédio da infinita espera. Sento-me
no banco, sob o relógio e o tejadilho da ponte, uma carruagem
vazia brota-me dos olhos num iluminismo final. Cuspi um êxtase celeste no tropel dos evangelhos.
"- Conhecíeis o fim da história? O alucinado
incêndio das vésperas? A corrupção dos sinos na memória?"
[nas nuvens
inabaláveis no céu da frase.]
Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", pág. 313 | Quetzal Editores, 1999
Nuno Júdice
O amor eterno
rapariga te empurram para a saída,
onde irá chover, de acordo com
a cor do céu, não resistas. Na rua,
onde os ventos se cruzam na esquina,
os que sopram, do norte, de colinas
manchadas pelo inverno, e os que
nascem do rio, trazendo a impressão
úmida do litoral, acende um cigarro,
para que o calor do lume te reconforte
as mãos, avança pelo passeio, enquanto
o frio te deixar, e ouve o canto da água
por baixo de terra: correntes
no limite entre o gelo
e o fogo, uma evaporação de humores,
como se as almas lutassem em busca de
saída, e, no fumo de uma memória
de mesa antiga, tu e essa que amaste,
trocando as frases matinais do re-
encontro. Vidros embaciados pelas
lágrimas da ruptura, perguntas sem
resposta, a casa de luzes
apagadas, como se estivesse vazia - e como
se não soubesses que os destinos se decidem
por cima de nós, onde em cada instante
um deus cansado nos desfaz as inúteis
promessas de eternidade.
Fernando Pessoa
EPITÁFIO A JOÃO FRANCO
O epitáfio solene que mereces
«Foi melhorando, desde a vida à morte.
Pois será pó, é podridão, foi trampa.[»]
Fernando Pessoa
N'um mar de mijo havia um penico sem tampa
Mesmo tapado tinha o que contém: só trampa.
D'um malídoro vento ele boia ao sabor
Que em si tem incerteza;
Eis o símbolo (deixo o detalhe ao leitor)
Da monarquia portuguesa.
Fernando Pessoa
E o som só dentro do relógio acentuado
No serão sem ninguém das casas de jantar da província
Põe-me o tempo inteiro em cima da alma,
E enquanto não chega a hora do chá das tias velhas,
O meu coração ouve o tempo passar e sofre comigo.
Tic-tac mais sonolento que o dos outros relógios —
Na parede, de madeira, este tem pêndulo e oscila.
O meu coração tem saudades não sabe de quê.
Tenho que morrer...
Tic-tac mecânico e certo — serão sereno mecânico na província.
Fernando Pessoa
Não, não vos disse... A essência inatingível
Da profusão das cousas, a substância
Lógica e (...) do caos dos seres,
Furta-se até a si mesma. Se entendeste
Neste ou naquele modo o que vos disse,
Não o entendestes que lhe falta o modo
Per que se entenda.
Fernando Pessoa
Gela-me a ideia de que a morte seja
O encontrar o mistério face a face
E conhecê-lo. For mais mal que seja
A vida e o mistério de a viver
E a ignorância em que alma vive a vida,
Pior me relampeja pela alma
A ideia de que enfim tudo será
Sabido e claro — e este mistério imenso,
Que não entendo já, do que é de grande
Para não ser sabido e adivinhado,
Me pesa n'alma, venha a ser sabido
E a realidade em todo o seu horror
Desabe sobre a minha consciência
Condenada ao horror de ser consciente.
Pudesse eu ter por certo que na morte
Me acabaria, me faria nada
E eu avançara para a morte, pávido,
Mas firme do seu nada.
Mas para este mistério do universo
Que solução de realidade outra
Que uma realidade enfim real
E terrível de real, e pavorosa
De ter de ser com consciência suportada?
Fernando Pessoa
Ah o som de abanar o ferro da engomadeira
À janela ao lado da minha infância debruçada!
O som de estarem lavando a roupa no tanque!
Todas estas coisas são, de qualquer modo,
Parte do que sou.
(Ó ama morta, que é do teu carinho grisalho?)
Minha infância da altura da cara pouco acima da mesa...
Minha mão gordinha pousada na borda da toalha que se enrodilhava.
E eu olhava por cima do prato, nas pontas dos pés.
(Hoje se me puser nas pontas dos pés, é só intelectualmente.)
E a mesa que tenho não tem toalha, nem quem lhe ponha toalha...
Estudei o fermento da falência
Na demonologia da imaginação...
Fernando Pessoa
Tens olhos de quem não quer
Procurar quem eu não sei.
Se um dia o amor vier
Olharás como eu olhei.
Fernando Pessoa
O SOBA DE BIKÁ — TRAJÉDIA
Constantemente usava um admirável trajo
Que era feito de pele e de coisa nenhuma.
Havia uma harmonia entre ele e o trajo; em suma,
O soba de Biká, ou de noite ou de dia,
Era sempre da cor do trajo que vestia.
Mas o soba, coitado!, um dia em sua casa,
Sentou-se por descuido em cima de uma brasa,
E, em vez de gritar «Ai, minhas calças!», «Uh!»,
Gritou ele, esquecendo o trajo, «ai o meu cu!»
Fernando Pessoa
Não torna atrás a negregada prole
Regular de Saturno,
Nem magnos deuses implorados volvem
Quem foi à luz que vemos.
Moramos, hóspedes na vida, e usamos
Um tempo do discurso,
Um breve amor, um sorriso breve, e um dia
Saudoso de todos.
Fernando Pessoa
Elfos ou gnomos tocam
Roçam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais...
Ondulam como em voltas
De estradas não sei onde,
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ou esconde...
Forma longínqua e incerta
Do que eu nunca terei...
Mal ouço e quase choro...
Porque choro não sei...
Tão ténue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste...
Mas cessa, como uma brisa,
Esquece a forma aos seus ais,
E agora não há mais música
Do que a dos pinheirais...
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