Animais e Natureza

Poemas neste tema

Everardo Norões

Everardo Norões

TRISTÃO

Em pé, ao sol e ao vento do sertão,
             ele não se decompôs.
                         Pedro Nava (Baú de Ossos)

As palavras no alforje. E o rosário,
a escorrer das penas e dos dias.
O azul da barba lembra uma paisagem
onde campeiam cabras. E ramagens
desatam-se em sombras nas janelas.
A morrinha dos bichos. O mormaço,
trazendo o desespero, em vez de março:
um luto atravancando as taramelas.
A sela desapeada. E na garupa
do cavalo, a sentença das esporas.
Pendentes dos estribos, estão as horas,
relampejos de facas. E o sono da jurema.
O braço descarnado, o giz dos dentes,
e o olho além do corpo do poema.
No chão do meu degredo, sempre chão,
sete frases do ofício e um bordão.
625
Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

XXIX Da emenda

Concluido me tendo a mi comigo
De deixar o caminho que levava,
Vendo com razões claras quanto errava
Em não me desviar do mais antigo.

Pois no trabalho seu, no mor perigo,
Meu amigo consigo a mi me achava;
E quando no meu mal algum buscava,
Achava-me comigo sem amigo.

Agora dei a volta por caminhos
De solitarios bosques enramados,
De feras bravas mansos passarinhos;

Que ainda que entre espinhos conversados,
Mais quero pé descalço entre espinhos,
Que dos homens humanos espinhados.
685
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Olhando Para Os Colhões Do Gato

sentado aqui junto à janela
suando suor de cerveja
atormentado pelo verão
estou olhando para os colhões do meu gato.
não é por minha escolha.
ele dorme em uma velha cadeira de balanço
na varanda
e dali ele me olha
dependurado em seus colhões de gato.
aí está seu rabo, coisa danada,
dependurada de lado
de modo que eu possa
ver seus felpudos reservatórios mas
em que pode um homem pensar
enquanto olha para as bolas de um gato?
certamente não sobre a nave naufragada após uma
grande batalha naval.
certamente não sobre um programa para salvar os
pobres.
certamente não sobre um mercado de flores ou uma dúzia de
OVOS.
certamente não sobre um interruptor de luz quebrado.
colhões são colhões, é isso aí,
e com muita certeza isso é verdade a respeito
dos colhões de um gato.
os meus são bem moles e macios e
diz-me minha atual mulher
bem grandes:
"você tem colhões enormes, Chinaski!"
mas os colhões do gato:
eu não consigo entender se ele está dependurado neles
ou se eles estão dependurados nele.
você vê, há essa batalha de atravessar quase toda a noite
pela fêmea
e isso não é nada fácil para nenhum de nós.
veja:
falta um pedaço da sua orelha esquerda.
certa vez pensei que um de seus olhos tinha sido
arrancado
mas quando o sangue seco
descascou
uma semana depois
aí estava seu puro
olho verde-dourado
me encarando.
todo o seu corpo está coberto de escaras de mordidas
e no outro dia,
tentando acariciar sua cabeça
ele gemeu e quase me mordeu -
a pele do seu crânio
havia sido rasgada até o osso.
com certeza não é fácil para nenhum de nós,
pobre coitado.
ele dorme
e agora sonha
o quê?
um gordo pardal em sua boca?
ou rodeado por gatas com tesão?
ele sonha seus sonhos diurnos
e nós saberemos o que é
esta noite.
boa sorte, velho camarada,
a vida não é fácil,
estamos dependurados em nossos colhões, é assim que estamos, ou seja,
estamos no cativeiro de nossos colhões,
e eu deveria me conter um pouco
quando se trata de mulheres.
enquanto isso
olharei seus olhos e me defenderei com jabs de esquerda
e correrei como do diabo
quando nada mais
adiantar.
1 126
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Cachorro Morto

Bartkowski completou um arremesso a gol de 58 jardas
para derrotar o Packers no último minuto.
eu ouço pelo rádio
é domingo e estou a caminho das pistas de corrida
devo chegar para o terceiro páreo.
o Falcons segura a vitória e isso é bom.
desligo o rádio.
depois, quando a Harbor Freeway se ramifica
na Pasadena
vejo um cachorro na rampa
é dos grandes e é manco
mas ainda respira
sua cabeça está esmagada.
pessoas que levam cachorros em seus carros
e os deixam dependurados para fora da janela
quando esses cachorros caem na rodovia
muitas vezes elas apenas continuam a dirigir.
eu sei entrar no túnel.
você pega a pista mais à direita quando
as outras pistas desviam à esquerda.
eu sigo e cruzo.
quando saio do túnel
deslizo de volta para a via expressa.
esses filhos da puta e seus cachorros
mortos.
chego ao hipódromo à 1:20 da tarde.
vou ao estacionamento preferencial
acho uma vaga no F-5
tranco
e enquanto caminho entre os carros
vejo dois homens que
arrombaram um carro.
eles tiraram o rádio,
o estéreo e os alto-falantes.
eles me veem e eu os vejo.
"não diga nada, cara!
se você fizer isso, lembre-se de que nós o veremos
de novo algum outro dia!"
entro no hipódromo
são quatro minutos para apostar
no terceiro páreo que vem aí
a multidão apostou em Shameen
com Delahousseye montando
dando de 4 para 2 a 1.
Song for Two dá uma linha de 2
es.
avalio os cavalos
e aposto 10 em Song for Two na ponta.
Song for Two ganha no fotochart
o Shoe ainda sabe montar
e estou $31 à frente.
esses filhos da puta e seus cachorros
mortos.
perco o 4o, 50 e 60 páreos.
no 70 eles jogam Back"n Time para baixo
de 3 para 5 em uma tabela de 99
nos cinco quartos de milha em Del Mar
mas o potro tem 3 anos
competindo com cavalos mais velhos
e nunca correu a milha.
posso vê-lo entrando na reta
com uma liderança de 4 corpos e sendo batido
na chegada
por outro.
mas quem vai batê-lo?
ainda há 6 outros cavalos.
eu ponho $50 em Back"n Time na ponta
e assisto à corrida.
o potro tem quatro corpos de vantagem ao entrar
na reta
então Don F.
o menos provável no páreo
começa a chegar perto
e é cabeça a cabeça na chegada.
eles vão ver a foto
nós esperamos
então eles põem Don. F.
com 19 para 1.
eu pego $2.80 pelo placê
assim faço $20
perco o 80
aí fico apenas com $18.
no Jo
aposto 10 na ponta em Fleet Ruler
e 2 na ponta em Forecast
então deixo o hipódromo
fico no estacionamento
escutando o locutor
que está berrando
Forecast está na frente
e aí vem Fleet Ruler
é Fleet Ruler e Forecast
chegando juntos.
é evidentemente no fotochart.
vou até meu carro para sair
antes da multidão.
eu estou com o rádio
na estação dos resultados das corridas.
ainda estou na Pasadena Freeway
quando ouço o resultado:
é Forecast
e Forecast pagou $90.70
assim
o dia não foi de todo desperdiçado.
porém mais tarde
quando entro na via de acesso
lá está aquele gato de Manx
com sua cauda rudimentar e
com sua língua dependurada para fora.
ele se recusa a dar passagem para o carro.
eu desço.
pego-o e
o jogo no banco da frente.
entramos na garagem
juntos.
saímos do carro
e os outros dois gatos estão à espera
(amantes de cabeças de peixes, sonhadores com
pássaros)
abro a porta
e todos os gatos entram junto
comigo.
eles correm para a cozinha
eu noto que Dallas e San Diego estão jogando
agora. Danny White é zagueiro no
Dallas.
eu sempre gostei de Danny White,
esse é um jogador.
eu poderia assistir a algumas rodadas.
domingo é um dia de descanso.
todas as coisas importantes deveriam ser esquecidas.
decido que sequer vou alimentar os gatos
por algum tempo.
e na terça ou quarta-feira vou começar a trabalhar
em meu romance sobre a infância
outra vez.
634
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Moro em Uma Vizinhança De Assassinatos

as baratas cospem clipes
enferrujados
e o helicóptero dá voltas e voltas
farejando sangue
holofotes esquadrinhando nossos
banheiros
procurando por nosso esconderijo com dupla tampa sob o
colchão
5 caras nesta quadra têm pistolas
um outro tem um
machete
nós somos todos assassinos e
alcoólatras
mas há piores no hotel
atravessando a rua;
eles ficam na entrada verde e branca
banais e depravados
esperando serem
presos.
aqui cada um de nós tem uma planta que está murchando
em nossa entrada
e quando brigamos com nossas mulheres às 3 da madrugada
fazemos isso
em tons de sussurro
enquanto fora em cada varanda
fica um pequeno pires de ração
que sempre é comido pela manhã
supomos que
pelos
gatos.
957
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Cão

é muito admirado pelo Homem
porque acredita
na mão que o
alimenta. um
arranjo
perfeito. por
13 centavos ao
dia você tem
um assassino de aluguel que pensa
que você é
Deus. um
cão não sabe distinguir um nazista de um
republicano de um comuna de
um democrata. e, muitas vezes,
nem eu.
668
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Inacreditável

tenho ido às corridas há
décadas
mas vi algo novo
hoje.
2 cavalos derrubaram seus cavaleiros.
normalmente quando um cavalo derruba
o cavaleiro dele ou dela
ele (ou ela) continua a correr
na mesma direção que
os outros cavalos.
mas
dessa vez
os dois cavalos se viraram
e começaram a correr na
direção contrária.
em outras palavras,
na direção do bloco
que estava vindo.
era uma pista de 5/8 de
milha
e eles estavam se aproximando bem
rápido.
o locutor avisou
os cavaleiros
e quando eles passaram
pela última curva
na direção da reta
lá vieram os outros
2 cavalos bem na direção
deles.
não houve gritos.
houve um silêncio
mortal.
dava para ouvir as ferraduras
pisoteando a terra.
então um dos cavalos desviou
em uma curva bem aberta
e saiu da
pista.
o outro avançou direto
naquilo
e atravessou direto
entre os outros
cavalos.
os outros cavalos alcançaram
a chegada.
o meu havia ganhado.
mas os juízes procederam a
um inquérito e foi
declarada
anulação.
eu estava
me lixando.
continuava a ver aquele cavalo
disparando pelo prado
e passando direto,
intocado.
um milagre.
965
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Mil Dólares

todo o meu conhecimento sobre corridas de cavalos
me dizia que esta era uma aposta garantida.
apostei mil para ganhar.
o cavalo estava cotado em primeiro
nos três quartos de milha.
a campainha tocou e eles
saíram do portão.
meu cavalo virou à esquerda
atravessou correndo a cerca
caiu e
morreu
lá mesmo
com 7/5 no páreo.
quando conto essa história
as pessoas não dizem
nada.
às vezes não há nada a dizer
sobre
a morte.
642
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Touro

eu não sabia
que os mexicanos
faziam isto:
o touro
havia sido bravo
e agora
eles o arrastavam
morto
ao redor da arena
pela
cauda,
um bravo touro
morto
mas não um touro qualquer,
esse foi um touro
especial
e para mim
uma lição especial
que aprendi...
e embora Brahms
tenha roubado sua Primeira da 9a
de Beethoven,
e embora
o touro
estivesse morto,
sua cabeça e seus cornos e
seus intestinos mortos,
ele foi melhor que
Brahms,
tão bom quanto
Beethoven,
e
enquanto íamos embora
seu som e O
sentido dele
continuavam a subir rastejando por meus braços
e embora as pessoas me empurrassem e
pisassem nos meus pés
o touro fazia arder em mim
um candeeiro de
luz;
arrastado por sua cauda
ele nada tinha a ver com qualquer coisa
tendo agora escapado de tudo aquilo,
baixando pelo longo túnel, rodeado por
cotovelos e pés e olhos, eu rezei por Tijuana
e pelo touro morto
e pelo homem
e por mim,
as águas azuis beijando-se
gozando o prazer do âmago da dor,
e eu cerrei meus punhos
bem fundo em meus
bolsos, agarrei a escuridão
e segui em frente.
1 219
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Café da Manhã

acordando em uma daquelas manhãs no depósito de bêbados,
lábio inferior arrebentado, dentes soltos, miolos nadando em
uma cacofonia que não é sua, com
todos aqueles outros estranhos enrolados em farrapos, agora
barulhentos em seu sono louco, com nada para lhe fazer
companhia a não ser uma privada entupida,
um assoalho frio e duro
e a lei de outra
pessoa.
e sempre havia uma voz matinal, uma voz alta:
"CAFÉ DA MANHÃ!"
você normalmente não iria querer aquilo
mas se você quisesse
antes que pudesse pôr em ordem seus pensamentos
e ficar em pé
a porta da cela batia
e se fechava.
agora cada manhã é como um lento sonho
de satisfação. encontro meus chinelos, eu os calço,
vou ao banheiro, então desço a
escada com um turbilhão de corpos peludos, sou
o provedor, o deus, limpo as tigelas dos gatos, abro
as latas e converso com eles e eles se animam e
fazem seus sons ansiosos.
coloco as tigelas no chão enquanto cada gato vai para a sua
própria tigela, então reabasteço o pires com água
e olho todos os cinco comendo
em paz.
volto pela escada até o quarto
onde minha mulher ainda dorme, rastejo sob
as cobertas com ela, viro minhas costas para o sol
e logo estou dormindo de novo.
você tem que morrer algumas vezes antes de poder realmente
viver.
1 160
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Os Elefantes do Vietnã

primeiro eles costumavam, ele me contou,
atirar e jogar bombas nos elefantes,
dava para ouvir seus gritos sobre todos os outros sons;
mas você voava alto para bombardear o povo,
você nunca o enxergava,
só um pequeno clarão de lá de cima
mas com os elefantes
você podia olhar aquilo acontecendo
e ouvir como gritavam;
eu dizia a meus companheiros, ouçam, caras,
parem com isso,
mas eles se limitavam a rir
enquanto os elefantes se dispersavam
erguendo a tromba (se não tivesse sido estourada)
abrindo a boca
bem grande e
tropeçando nas pernas grossas e desajeitadas
enquanto o sangue escorria dos grandes buracos na barriga.
então voaríamos de volta,
missão cumprida.
acertávamos qualquer coisa:
comboios, depósitos, pontes, gente, elefantes e
todo o resto.
ele me contou mais tarde, eu
me senti mal pelos
elefantes.
1 066
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Doente

ter andado muito doente e muito fraco é algo muito
estranho.
quando é necessária toda sua força para ir do
quarto ao banheiro e voltar, isto parece
uma piada mas
você não ri.
de volta à cama você volta a pensar na morte e descobre
a mesma coisa: quanto mais perto se está dela
menos apavorante ela se
torna.
você tem tempo o suficiente para examinar as paredes
e lá fora
os passarinhos sobre o fio do telefone ganham tremenda
importância.
e ali está a tevê: homens jogando beisebol
dia após dia.
nenhum apetite.
a comida tem gosto de papelão, faz com que você se sinta
mal, além de todos os
limites.
a esposa dedicada não cansa de insistir para que você
coma.
“o médico disse...”
pobrezinha.
e os gatos.
os gatos pulam sobre a cama e me olham.
me encaram, e então pulam para o
chão.
que mundo, você pensa: comer, trabalhar, trepar,
morrer.
por sorte tenho uma doença contagiosa: nada de
visitas.
a balança marca 70, do que um dia foram
98.
pareço um homem num campo de concentração.
eu sou esse
homem.
ainda assim, tenho sorte: me agrada a solidão,
jamais sentirei falta das pessoas.
eu poderia ler os grandes livros mas os grandes livros não
me interessam.
me sento na cama e espero que tudo siga
por um caminho ou pelo
outro.
exatamente como faz todo
mundo.
1 035
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Enganando Marie

Era uma noite quente nas corridas de quarto de milha. Ted chegara trazendo duzentos dólares e agora, entrando no quarto páreo, estava com 530. Conhecia os cavalinhos. Talvez não fosse muito bom em nada mais, mas conhecia os cavalinhos. Ted ficou olhando o placar e as pessoas. Elas não tinham a menor capacidade para avaliar um cavalo. Mas mesmo assim trazem o seu dinheiro e seus sonhos para as pistas. O hipódromo tinha uma dupla de dois dólares em quase toda corrida para atraí-los. Isso e o Pick-6. Ted jamais escolhia o Pick-6 nem as duplas. Só a vitória direta no melhor cavalo, que não era necessariamente o favorito.
Marie enchia tanto o saco sobre sua ida às corridas que ele só ia duas ou três vezes por semana. Vendera sua empresa e se aposentara cedo do ramo da construção. Na verdade não havia muito mais coisas que ele pudesse fazer.
Os quatro cavalos pareciam bons a seis por um, mas ainda havia dezoito minutos para a chegada. Sentiu um puxão na manga do paletó.
– Perdão, senhor, mas eu perdi nas duas primeiras corridas. Vi o senhor trocando suas pules. O senhor parece exatamente um cara que sabe o que está fazendo. Quem prefere nessa próxima corrida?
Era uma ruiva, de uns 24 anos, quadris estreitos, seios surpreendentemente grandes, pernas compridas, um lindo narizinho arrebitado, boca de flor, usando um vestido azul-claro e sapatos brancos de saltos altos. Os olhos azuis dela olhavam-no de baixo para cima.
– Bem – sorriu-lhe Ted –, eu geralmente prefiro o vencedor.
– Estou acostumada a jogar em puros-sangues – disse a ruiva. – Esses páreos de quarto de milha são muito rápidos!
– É. A maioria é corrida em menos de dezoito segundos. A gente descobre muito rápido se acertou ou errou.
– Se minha mãe descobrisse que estou aqui perdendo meu dinheiro, ela me daria uma surra de cinto.
– Eu mesmo gostaria de lhe dar uma surra de cinto – disse Ted.
– Você não é desses, é? – ela perguntou.
– Brincadeira – disse Ted. – Vamos, vamos ao bar. Talvez a gente consiga escolher um vencedor pra você.
– Tudo bem, senhor...?
– Pode me chamar de Ted. E você, como se chama?
– Victoria.
Entraram no bar.
– Que vai tomar? – perguntou Ted.
– O que você tomar – disse Victoria.
Ele pediu dois Jack Daniels. De pé, ele virou o seu, e ela bebericou o dela, olhando direto em frente. Ted conferiu o traseiro dela: perfeito. Era melhor do que muita candidatazinha ao estrelato no cinema, e não parecia mimada.
– Agora – disse Ted, apontando seu programa – na próxima corrida o cavalo quatro aparece melhor, e está dando possibilidades de seis por um...
Victoria exalou um “Ooohhh...?” muito sexy. Curvou-se para olhar o programa dele, tocando-o com o braço. Depois ele sentiu a perna dela comprimir-se contra a sua.
– As pessoas não sabem avaliar uma corrida – ele disse. – Me mostre um cara que sabe avaliar uma corrida, que eu lhe mostro um cara que pode ganhar todo o dinheiro que possa levar.
Ela sorriu para ele.
– Eu queria ter o que você tem.
– Você tem muita coisa, boneca. Quer outra bebida?
– Oh, não, obrigada...
– Bem, escuta – disse Ted –, é melhor fazermos as apostas.
– Tudo bem, vou apostar dois dólares no vencedor. Qual é, o cavalo número quatro?
– É, boneca, é o quatro...
Fizeram suas apostas e saíram para assistir ao páreo. O quatro não largou bem, foi abalroado de ambos os lados, endireitou-se, ficou em quinto num campo de nove, mas aí começou a acelerar e chegou à linha cabeça a cabeça com o favorito de dois a um. Foto.
Porra, pensou Ted, eu tenho de ganhar essa. Por favor, me dê essa!
– Oh – disse Victoria –, estou tão excitada!
O placar anunciou o número. Quatro.
Victoria gritou e pulou de alegria.
– Nós ganhamos, nós ganhamos, nós GANHAMOS!
Agarrou Ted e ele sentiu o beijo no rosto.
– Vá com calma, boneca, o melhor cavalo venceu, só isso.
Esperaram o aviso oficial e aí o placar exibiu o pagamento. Quatorze dólares e sessenta.
– Quanto você apostou? – perguntou Victoria.
– Quarenta no vencedor – disse Ted.
– Quanto vai receber?
– Duzentos e noventa e dois. Vamos pegar.
Dirigiram-se para os guichês. Então Ted sentiu a mão de Victoria na sua. Ela o fez parar.
– Se abaixe – ela disse –, que eu quero dizer uma coisa em seu ouvido.
Ted abaixou-se, sentiu os frios lábios róseos dela em sua orelha.
– Você é um... mágico... Eu quero... foder com você...
Ele ficou ali parado sorrindo debilmente para ela.
– Deus do céu – disse.
– Que é que há? Está com medo?
– Não, não, não é isso.
– Que é que há então?
– É Marie... minha esposa... eu sou casado... e ela me controla no mínimo minuto. Sabe quando as corridas acabam e quando devo chegar.
Victoria deu uma risada.
– A gente sai agora! Vamos a um motel!
– Bem, claro – disse Ted...
Trocaram as pules e voltaram para o estacionamento.
– Vamos no meu carro. Eu trago você de volta quando a gente acabar – disse Victoria.
Foram ao carro dela, um Fiat azul 1982, combinando com o vestido. A placa dizia VICKY. Quando ela pôs a chave na porta, hesitou.
– Você não é mesmo um daqueles, é?
– Daqueles quais?
– Que batem com o cinto, um daqueles. Minha mãe teve uma experiência terrível uma vez...
– Relaxe – ele disse. – Eu sou inofensivo.
Encontraram um motel a pouco mais de dois quilômetros do hipódromo. O Lua Azul. Só que a Lua Azul estava pintada de verde. Victoria estacionou e saltaram, se registraram, deram-lhes o quarto 302. Tinham parado para pegar uma garrafa de Cutty Sark no caminho.
Ted rasgou a embalagem de celofane dos copos, acendeu um cigarro e serviu duas doses enquanto Victoria se despia. A calcinha e o sutiã eram cor-de-rosa, e o corpo cor-de-rosa e branco e lindo. Era espantoso como de vez em quando se criava uma mulher daquelas, quando todas as outras, a maioria das outras, não tinham nada, ou quase nada. Era de enlouquecer. Victoria era um sonho lindo, enlouquecedor.
Victoria estava nua. Aproximou-se e sentou-se na borda da cama junto a Ted. Cruzou as pernas. Tinha os seios firmes e parecia já estar com tesão. Ele realmente não acreditava em sua sorte. Aí ela deu uma risadinha.
– Que foi? – ele perguntou.
– Está pensando em sua mulher?
– Bem, não, estava pensando em outra coisa.
– Bem, devia pensar em sua mulher...
– Diabos – disse Ted –, foi você quem sugeriu a foda!
– Eu gostaria que você não usasse essa palavra...
– Está recuando?
– Bem, não. Escuta, tem um cigarro?
– Claro...
Ted pegou um, entregou a ela, acendeu-o e ela o manteve na boca.
– Você tem o corpo mais lindo que eu já vi – disse Ted.
– Eu não duvido – ela disse, sorrindo.
– Escuta, você está recuando dessa coisa? – ele perguntou.
– Claro que não – ela respondeu –, tire a roupa.
Ted começou a despir-se, sentindo-se gordo, velho e feio, mas também sortudo – tinha sido seu melhor dia nas corridas, em muitos aspectos. Dobrou suas roupas numa cadeira e sentou-se junto a Victoria.
Serviram mais um drinque para cada um.
– Sabe – ele disse –, você é um número de classe, mas eu também sou. Nós dois temos nossa própria maneira de mostrar isso. Eu faturei uma nota no ramo da construção, e ainda estou faturando nas corridas. Nem todo mundo tem esse instinto.
Victoria bebeu metade de seu Cutty Sark e sorriu para ele.
– Oh, você é meu grande Buda gordo!
Ted enxugou a sua bebida.
– Escuta, se você não quiser, a gente não faz. Esqueça.
– Me deixa ver o que é que Buda tem aí...
Victoria baixou o braço e enfiou a mão entre as pernas dele. Pegou-o, segurou-o.
– Oh, oh... estou sentindo uma coisa... – disse.
– Claro... E daí?
Então ela baixou a cabeça. Beijou-o a princípio. Depois ele sentiu que ela abria a boca, e a língua.
– Sua puta! – disse.
Victoria ergueu a cabeça e olhou-o.
– Por favor. Eu não gosto de palavrão.
– Tudo bem, Vicky, tudo bem. Nada de palavrão.
– Se meta entre os lençóis, Buda.
Ted se meteu e sentiu o corpo dela junto ao seu. A pele era fria, e a boca abriu-se e ele a beijou e enfiou a língua. Gostava daquilo assim, fresco, com o frescor da primavera, jovem, novo, bom. Que prazer do caralho. Ia lascar ela ao meio! Masturbou-a, ela demorou muito para gozar. Depois ele a sentiu abrir-se e enfiou o dedo. Pegara-a, a puta. Puxou o dedo e esfregou o clitóris. Você quer aquecimento, vai ter aquecimento!, pensou.
Sentiu os dentes dela enterrarem-se em seu lábio inferior, a dor foi terrível. Ted afastou-se, sentindo o gosto do sangue e a ferida no lábio. Ergueu-se pela metade e deu-lhe um tapa no rosto, depois com as costas da mão no outro lado. Encontrou-a lá embaixo, enfiou e estocou, pondo a boca de volta na dela. Prosseguiu em selvagem vingança, de vez em quando recuando a cabeça e olhando-a. Tentou segurar, se conter, e agora via aquela nuvem de cabelos cor de morango espalhados no travesseiro ao luar.
Ted gemia e suava como um ginasiano. Era aquilo. Nirvana. O lugar a se alcançar. Victoria continuava calada. Os gemidos de Ted foram diminuindo, e então, após um instante, ele rolou para o lado.
Ficou fitando a escuridão.
Esqueci de chupar os peitos dela, pensou.
Então ouviu a voz dela.
– Sabe de uma coisa? – ela perguntou.
– Que é?
– Você me lembra um daqueles cavalos de quarto de milha.
– Que quer dizer?
– Tudo acaba em dezoito segundos.
– A gente corre de novo, boneca – ele disse...
Ela foi ao banheiro. Ted limpou-se no lençol, o velho profissional. Victoria era uma coisa meio desagradável, de certa forma. Mas podia ser manobrada. Ele tinha alguma coisa. Quantos homens eram donos de sua própria casa e tinham 150 mil paus no banco na sua idade? Ele era um número de classe, e ela sabia disso muito bem.
Victoria saiu do banheiro ainda parecendo fresca, intocada, quase virginal. Ted acendeu o abajur de cabeceira. Sentou-se e serviu dois drinques. Ela sentou-se na beira da cama com sua bebida e ele desceu e sentou-se na beira da cama junto dela.
– Victoria – disse –, posso tornar tudo bom pra você.
– Acho que você tem lá seus meios, Buda.
– E vou ser um amante melhor.
– Claro.
– Escuta, devia ter me conhecido quando eu era jovem. Era durão, mas bom. Eu tinha aquilo. Ainda tenho.
Ela sorriu para ele.
– Ora, vamos, Buda, não é tão ruim assim. Você tem uma esposa, você tem um monte de coisas a seu favor.
– Menos uma coisa – ele disse, enxugando sua bebida e olhando-a. – Menos a única coisa que eu quero mesmo...
– Veja o seu lábio! Está sangrando!
Ted baixou o olhar para seu copo. Viu gotas de sangue na bebida e sentiu o sangue escorrendo pelo queixo. Limpou o queixo com as costas da mão.
– Vou ao banheiro lavar isso, boneca, já volto.
Entrou no banheiro, correu a porta do chuveiro e abriu a água, testando-a com a mão. Parecia mais ou menos no ponto e ele entrou, a água escorrendo dele. Via o sangue na água escorrendo para o ralo. Que gata selvagem. Só precisava de uma mão forte.
Marie era legal, era bondosa, na verdade meio chata. Perdera a intensidade da juventude. Não era culpa dela. Talvez ele pudesse arranjar um meio de continuar com Marie e ter Victoria por fora. Victoria renovava sua juventude. Precisava de uma porra de uma renovação. E de mais umas boas fodas como aquela. Claro, as mulheres eram todas loucas. Não entendiam que vencer não era uma experiência gloriosa, só necessária.
– Vamos com isso, Buda! – ouviu-a gritar. – Não me deixe aqui sozinha!
– Não demoro, boneca – ele gritou debaixo do chuveiro. Ensaboou-se bem, lavando tudo.
Depois saiu, enxugou-se, abriu a porta do banheiro e foi para o quarto.
O quarto de motel estava vazio. Ela se fora.
A distância entre os objetos comuns e entre os fatos era notável. De repente, ele viu as paredes, o tapete, a cama, as cortinas, a mesa de café, a penteadeira, o cinzeiro com os cigarros deles. A distância entre essas coisas era imensa. O então e o agora estavam anos-luz separados.
Num impulso, ele correu para o armário e abriu a porta. Nada além de cabides.
Então Ted percebeu que suas roupas haviam desaparecido. A roupa de baixo, a camisa, as calças, as chaves do carro e a carteira, seu dinheiro, seus sapatos, suas meias, tudo.
Em outro impulso, olhou embaixo da cama. Nada.
Então viu a garrafa de Cutty Sark, pela metade, sobre a penteadeira, e aproximou-se, pegou-a e serviu-se uma dose. E ao fazer isso viu duas palavras riscadas no espelho da penteadeira com batom cor-de-rosa: “ADEUS, BUDA!”
Ted tomou a bebida, depôs o copo e viu-se no espelho – muito gordo, muito velho. Não tinha ideia do que fazer em seguida.
Levou o Cutty Sark de volta para a cama, sentou-se pesadamente na beira do colchão onde ele e Victoria tinham-se sentado juntos. Ergueu a garrafa e sugou-a, enquanto as vívidas luzes de néon do boulevard entravam pelas persianas empoeiradas.
Ficou sentado, olhando para fora, sem se mover, vendo os carros passarem de um lado para outro.
– Numa fria
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Carta de Uma Fã

venho lendo o senhor há um longo tempo,
recém coloquei o Billy para dormir,
ele apanhou 7 carrapatos cruéis em algum lugar,
eu tenho 2
meu marido, Benny, ele tem 3.
alguns de nós amam insetos, outros os
odeiam.
Benny escreve poemas.
saiu certa vez na mesma revista que
o senhor.
Benny é o maior escritor do mundo
mas tem um temperamento horrível.
tempos atrás foi fazer uma leitura e alguém
riu de um de seus poemas sérios
e Benny tirou o pau pra fora
ali mesmo
e mijou no palco.
ele diz que o senhor escreve bem mas que
não se deixaria dominar pelo
senhor.
seja como for, fiz um GRANDE POTE DE MARMELADA
esta noite,
nós simplesmente AMAMOS marmelada por aqui.
Benny foi demitido ontem, ele disse ao
chefe para enfiar o emprego no rabo
mas eu continuo trabalhando no
salão de beleza.
o senhor sabe que os veados aparecem por lá pra fazer as
unhas?
o senhor não é veado, não é, sr.
Chinaski?
seja como for, gosto de escrever pro senhor.
seus livros são lidos e relidos por
aqui.
Benny diz que o senhor é um velho chato, que o senhor
escreve bem mas que
não se deixaria dominar pelo
senhor.
o senhor gosta de insetos, sr. Chinaski?
acho que a marmelada já deve estar gelada o suficiente
para comer.
então adeus.
Dora
601
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Mockingbird

o mockingbird estivera seguindo o gato
por todo o verão
zombando zombando zombando
provocador e arrogante;
o gato se arrastava debaixo dos ganchos nas varandas
a cauda lampejando
e dizia alguma coisa raivosa ao mockingbird
que eu não conseguia entender.
ontem o gato caminhava calmamente pela entrada da garagem
com o mockingbird vivo em sua boca,
as asas como leques, belas asas abanando e se deixando desfalecer,
as penas separadas como pernas de mulher,
e o pássaro já não zombava,
perguntava, rezava
mas o gato
avançando a passos largos através dos séculos
não lhe daria ouvidos.
vi quando ele rastejou para baixo de um carro amarelo
com o pássaro
para dar-lhe cabo em outro lugar.
o verão estava encerrado.
947
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Você Anda Bebendo?

desanimado, na praia, o velho caderno amarelo de anotações
mais uma vez aberto
escrevo na cama
como fiz ano
passado.
vamos ao médico,
segunda-feira.
“sim, doutor, pernas fracas, vertigem, dor-de-
cabeça e minhas costas
doem.”
“você anda bebendo?”, ele perguntará.
“tem feito seus
exercícios, tomado suas
vitaminas?”
acho que estou doente simplesmente de
viver, os mesmos elementos sem graça
ainda que
flutuantes.
mesmo nas corridas
vejo os cavalos correrem
e isso me parece
sem sentido.
vou embora mais cedo depois de ter comprado bilhetes para as
corridas restantes.
“já vai?”, pergunta o vendedor das
apostas.
“sim, estou de saco cheio”,
eu lhe digo.
“se você acha que é chato
aí fora”, ele me diz, “tem que ver como é
aqui dentro.”
então cá estou
mais uma vez apoiado em meus
travesseiros
apenas um cara velho
apenas um velho escritor
com uma caderneta
amarela.
alguma coisa
cruza pelo
chão
e vem até
mim.
oh, é apenas
meu gato
desta
vez.
956
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Saindo À Rua Para Apanhar a Correspondência

o cômico meio-dia
em que esquadrões de minhocas emergem como
dançarinas de strip-tease
para serem levadas à força pelos melros.
saio
e por todos os lados da rua
o exército verde lança suas cores
como num eterno 4 de Julho,
e eu também parecia imerso naquele mar,
uma espécie desconhecida de explosão,
uma sensação, talvez, de que não havia um
inimigo
em nenhum lugar.
e eu cheguei até a caixa de correspondência
e não havia nada ali
dentro – nem sequer uma
conta da companhia de gás ameaçando um
novo corte no
serviço.
nem sequer um bilhete da minha ex-mulher
jactando-se de sua felicidade
atual.
minha mão vasculha a caixa numa espécie de
descrença muito tempo depois da mente já ter
desistido.
não há sequer uma mosca morta
lá dentro.
sou um cretino, penso, eu deveria saber a essa altura
como as coisas funcionam.
volto para dentro enquanto todas as flores saltam para
me agradar.
alguma coisa? a mulher
pergunta.
nada, respondo, o que tem pro
café da manhã?
972
Charles Bukowski

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Cisne da Primavera

cisnes também morrem na primavera
e lá flutua um
morto num domingo
emborcado
circulando na corrente
e eu caminho até a rotunda
por onde circulam
deuses em carruagens
cachorros,
mulheres
e a morte
desce pela minha garganta
como um rato,
e escuto as pessoas se aproximarem
com suas cestas de piquenique
e suas risadas,
e me sinto culpado
pelo cisne
como se a morte
fosse algo vergonhoso
e como um louco
eu me afasto
e os abandono
meu belo cisne.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nº 6

vou ficar com o cavalo 6
numa tarde chuvosa
um copo de café de papel
na mão
tudo prestes a começar,
o vento fazendo rodopiar
pequenas cambaxirras do
grande telhado superior,
os jóqueis partindo
para uma corrida intermediária
silenciosos
e a garoa fazendo
todas as coisas
de uma só vez
quase iguais,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bêbada
e eu debaixo da tribuna principal
sensível aos
cigarros
conformado com o café,
então os cavalos passam
levando seus pequenos homens
consigo –
é fúnebre e gracioso
e agradável
como o desabrochar
das flores.

De alguma maneira o dinheiro se esvaiu depois disso e logo eu abandonei as corridas e fiquei sentado em meu apartamento, esperando que a licença de noventa dias acabasse. Meus nervos estavam em frangalhos graças à bebida e à ação. Não é nenhuma novidade que as mulheres dão em cima dos homens. Quando você pensa que terá um tempinho para respirar, basta erguer os olhos e outra já está por ali. Alguns dias depois de retornar ao trabalho, a outra já estava por ali. Fay. Fay era grisalha e sempre se vestia de preto. Dizia que era um protesto contra a guerra. Mas se Fay queria protestar contra a guerra, por mim tudo bem. Era uma espécie de escritora e frequentava algumas oficinas literárias. Tinha ideias sobre como Salvar o Mundo. Se ela pudesse salvá-lo para mim, isto também estaria bem. Estivera vivendo dos cheques da pensão alimentícia de um antigo marido – tinham tido três filhos –, e a mãe também lhe mandava algum dinheiro de vez em quando. Fay nunca tivera mais do que um ou dois empregos na vida.
Enquanto isso, Janko tinha uma nova história de merda. Ele me mandava pra casa a cada manhã com a cabeça doendo. Naquela época eu vinha recebendo inúmeras multas de trânsito. Parecia que a cada vez que eu olhava pelo retrovisor lá estavam as sirenes vermelhas. Um carro-patrulha ou uma moto.
Certa noite cheguei em casa tarde. Estava realmente acabado. Sacar a chave e levá-la até a fechadura estava no limite das minhas forças. Segui até o quarto e lá estava Fay na cama, lendo The New Yorker e comendo chocolates. Ela sequer disse olá.
Fui até a cozinha e procurei alguma coisa para comer. Não havia nada na geladeira. Resolvi me servir um copo d’água. Fui até a pia. Estava entulhada de porcaria. Fay gostava de guardar potes vazios e suas tampas. Os pratos sujos enchiam metade da pia e, flutuando sobre a água, junto com alguns pratos de papel, estavam os potes e as tampas.
Retornei ao quarto no exato momento em que Fay punha na boca um pedaço de chocolate.
– Veja bem, Fay – eu disse –, sei que você quer salvar o mundo. Mas será que você não pode começar pela cozinha?
– Cozinhas não são importantes – ela disse.
Era difícil bater numa mulher grisalha, de modo que eu simplesmente segui para o banheiro e deixei que a água enchesse a banheira. Um banho escaldante talvez pudesse esfriar os nervos. Quando a banheira se encheu tive medo de entrar nela. Meu corpo estropiado havia, àquela altura, endurecido de tal maneira que eu temia me afogar ali dentro.
Fui até a sala e depois de um esforço consegui tirar as calças, as cuecas, os sapatos, as meias. Retornei ao quarto e galguei a cama até junto a Fay. Não conseguia me ajeitar. Cada vez que eu me movia, o custo era alto.
O único momento em que você está sozinho, Chinaski, pensei, é quando você dirige para o trabalho ou volta dele.
Finalmente consegui encontrar uma posição sobre minha barriga. Meu corpo todo doía. Logo eu estaria de volta no trabalho. Se eu conseguisse dar um jeito de dormir, isso me ajudaria. Com alguma frequência, podia ouvir o som de uma página sendo virada, de um chocolate sendo comido. Havia sido uma de suas noites de oficina. Se ela pudesse ao menos apagar as luzes.
– Como estava a oficina? – perguntei, deitado de bruços.
– Estou preocupada com Robby.
– Oh – perguntei –, o que está acontecendo?
Robby era um cara perto dos quarenta que tinha vivido com a mãe desde que nascera. Tudo o que ele escrevia, segundo tinham me informado, eram histórias muito engraçadas sobre a Igreja Católica. Robby realmente tirava sarro dos católicos. As revistas apenas não estavam prontas para Robby, embora tivesse sido publicado uma vez num jornal canadense. Certa vez, numa das minhas noites de folga, eu tinha visto Robby. Levei Fay até esta mansão onde eles se encontravam para ler suas coisas.
– Oh! Este é o Robby! – Fay dissera. – Ele escreve essas histórias divertidíssimas sobre a Igreja Católica!
Ela havia me apontado o cara. Robby estava de costas para a gente. Sua bunda era larga e grande e molenga; ficava pendurada dentro das calças. Será que eles não veem isso?, pensei.
– Você não quer entrar? – Fay tinha perguntado.
– Talvez na próxima semana...
Fay pôs outro chocolate na boca.
– Robby está preocupado. Perdeu seu emprego de entregador. Diz que não consegue escrever sem estar empregado. Precisa do sentimento de segurança. Diz que não será capaz de escrever nada enquanto não encontrar outro trabalho.
– Caralho – eu disse –, já sei onde podemos arranjar um emprego.
– Onde? Como?
– Estão contratando gente lá nos Correios, a torto e a direito. O salário não é mau.
– OS CORREIOS! ROBBY É SENSÍVEL DEMAIS PARA TRABALHAR NOS CORREIOS!
– Desculpe – eu disse –, achei que valia a pena tentar. Boa noite.
Fay não me respondeu. Estava furiosa.
– Cartas na rua
1 106
Charles Bukowski

Charles Bukowski

a gata

essa gata relaxa nos ferros da saída de incêndio
e é amarela como um sol
e nunca viu um cão naquela área
da cidade, e, cara, como é gorda,
cheia de ratos e petiscos do HARVEY'S BAR
e eu tenho subido pela saída de incêndio
pra visitar certa dama no hotel
e ela me mostra cartas do filho
na França, e é um quarto muito pequeno
cheio de garrafas de vinho e tristeza,
e às vezes lhe deixo um dinheirinho,
e quando desço pela saída de incêndio,
lá está de novo a gata e
ela se esfrega nas minhas pernas e
enquanto vou até O carro
ela me segue, e preciso ter cuidado
quando dou a partida, mas não muito:
ela é bem esperta, sabe
que o carro não é seu amigo.
e um dia fui visitar a dama
e ela estava morta. quer dizer, ela não estava lá,
o quarto estava vazio. tinha sido uma hemorragia,
me disseram. e agora iam alugar o quarto.
bem, ficar triste não adianta. desci
os degraus de ferro e eis ali a gata. eu
a peguei e fiz carinho nela, mas, estranho,
não era a mesma gata. o pelo era áspero
e os olhos, malignos. joguei-a no chão
e observei sua fuga, olhar raivoso em cima de mim.
então entrei no carro
e fui embora.

848
Charles Bukowski

Charles Bukowski

nasci para trambicar rosas nas avenidas dos mortos

você perdeu uma discussão felina o cinza estava
cansado louco batendo rabo e encheu
o saco do preto que não queria ser
incomodado e aí o preto
correu atrás do cinza lhe deu uma patada o
cinza disse ui
disparou embora parou coçou a orelha
deu piparote numa palha disparou no ar e
se mandou derrotado e fazendo planos enquanto um
branco (outro) passava correndo pelo
outro lado da cerca perseguindo um
gafanhoto enquanto alguém atirava no sr.
Kennedy.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

acordando pra vida como fogo

em grave divindade meu gato
vagueia sem rumo

ele vagueia sem rumo e sem parar
com rabo elétrico e
olhos de
botão de apertar

ele é
vivo e
sedoso e
definitivo como um pé
de ameixa

nem eu nem ele entendemos
catedrais ou
o homem lá fora
molhando seu
gramado

se eu fosse tanto homem
quanto ele é gato - se
existissem homens assim
o mundo poderia
começar

ele pula em cima do sofá
e atravessa
pórticos da minha
admiração.
1 056
Charles Bukowski

Charles Bukowski

conversa em um telefone

eu via pelo agachamento do gato,
por seu jeito achatado,
que ele estava enlouquecido com presa;
e quando meu carro chegou perto,
ele se levantou no crepúsculo
e caiu fora
com pássaro abocanhado,
um pássaro enorme, cinza,
asas caídas como amor desfeito,
caninos cravados,
vida ainda ali,
mas pouca,
quase nada.

periquito de coração partido
gato anda na minha mente
e não consigo decifrá-lo:
o telefone toca,
respondo a uma voz,
mas o vejo sem parar,
e as asas moles
cinzentas asas moles,
e aquela coisa transfixada
numa cabeça sem misericórdia;
é o mundo, nosso;
desligo o telefone
e os lados felinos da sala
se fecham sobre mim
e quero gritar,
mas existem lugares para gente
que grita;
e o gato anda
o gato anda para sempre
no meu cérebro.
1 101
Charles Bukowski

Charles Bukowski

o tortuoso bem de socorrer quem sofre

tendo ficado muito magro e nervoso
como um músico passando fome
alimentei-o bem
e ele ficou gordo
como um texano magnata do petróleo e não tão
nervoso
mas mesmo assim
esquisito.

adormecido na cama eu desperto
e seu nariz está tocando meu
nariz e aqueles
grandes olhos amarelos
SONDANDO
o que resta de minha alma
e aí eu digo -
Sai, desgraçado!
tira esse seu nariz do meu
nariz!
ronronando como uma aranha cheia de
moscas ele se afasta um
pouco.

eu estava na banheira ontem
e ele veio andando
pernas esticadas alto
cauda sacudindo
e eu ali
fumando um charuto e lendo a
NEW YORKER
e ele pulou na borda da
banheira
equilibrando-se sobre o marfim escorregadio
curvando-se
e eu disse a ele:
meu caro, o senhor é um gato e gatos
não gostam de água.
mas ele se voltou rumo às torneiras
e ficou pendurado ali com seus pés pretos
e a outra parte dele estava
de cabeça para baixo
farejando a água e a água estava
QUENTE e ele começou a bebê-la
a fina língua vermelha
acanhada e milagrosa
mergulhando na água quente
e ele continuou
farejando
tentando imaginar o que eu estava fazendo ali dentro
o que eu via de tão bom naquilo
e então aquele tolo branco e gordo
caiu na água! -
nós todos saímos dali
molhados e velozes;
gato, eu, charuto e NEW YORKER
salivando, soando, silvando, ensaboados
e minha esposa entrou correndo
MEU DEUS! O QUE ACONTECEU? O QUE ACONTECEU?
falei por entre meu charuto desemaranhado:
o cara não pode nem mesmo ter um pouco de privacidade
em sua própria banheira, foi isso!
ela somente riu de nós
e O gato sequer ficou zangado
ainda estava molhado e inchado
exceto pelo rabo
que agora parecia quase tão fino quanto um
rabo de rato e muito triste e
ele começou a se
lamber.
usei uma toalha,
então fui para o quarto
deitei na cama
e tentei encontrar meu lugar na
revista.

mas o bom humor estava desfeito
larguei a publicação de lado
e olhei para o teto
lá para o espaço onde Deus supostamente
estava
então escutei:
MIIIAuiAU!

o próximo gato desgarrado que aparecer na minha porta vai
continuar sendo um
desgarrado.
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