Escritas

Transcendência

Poemas neste tema

Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

Caput Immortale

Na dinâmica aziaga das descidas,
Aglomeradamente e em turbilhão
Solucem dentro do Universo ancião,
Todas as urbes siderais vencidas!

Morra o éter. Cesse a luz. Parem as vidas,
Sobre a pancosmológica exaustão
Reste apenas o acervo árido e vão
Das muscularidades consumidas!

Ainda assim, a animar o cosmos ermo,
Morto o comércio físico nefando,
Oh! Nauta aflito do Subliminal,

Como a última expressão da Dor sem termo,
Tua cabeça há de ficar vibrando
Na negatividade universal!

1 681
Antero de Quental

Antero de Quental

Com os mortos

Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos…

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos…

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.

2 122
Felipe Larson

Felipe Larson

SABEMOS

Sabemos que saberíamos saber,
Mas o sábio que soube saber,
Saberia falar sobre a sabedoria,
De quem soube saber,
Sabendo que o saber é infinito.
Mas quem sabe do que soube sem saber,
Saberá sobrar o saber de um sábio,
Sem saber que saberia o sabido.
Saberei, saberás, saberemos o saber
Sabendo que não é sabido o saber do individuo
Que soube saber sem saber o sabido

881
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

EPITÁFIO

NO TÚMULO DO MEU AMIGO
JOÃO BAPTISTA DA SILVA PEREIRA JÚNIOR

Lira dos Vinte Anos
Primeira Parte


Perdão, meu Deus, se a túnica da vida...
Insano profanei-a nos amores!
Se da c'roa dos sonhos perfumados
Eu próprio desfolhei as róseas flores!

No vaso impuro corrompeu-se o néctar,
A argila da existência desbotou-me...
O sol de tua gloria abriu-me as pálpebras,
Da nódoa das paixões purificou-me!

E quantos sonhos na ilusão da vida!
Quanta esperança no futuro ainda!
Tudo calou-se pela noite eterna...
E eu vago errante e só na treva infinda...

Alma em fogo, sedenta de infinito,
Num mundo de visões o vôo abrindo,
Como o vento do mar no céu noturno
Entre as nuvens de Deus passei dormindo!

A vida é noite! o sol tem véu de sangue...
Tateia a sombra a geração descrida!...
Acorda-te, mortal! é no sepulcro
Que a larva humana se desperta à vida!

Quando as harpas do peito a morte estala,
Um treno de pavor soluça e voa...
E a nota divinal que rompe as fibras
Nas dulias angélicas ecoa!

2 448
Luís Vianna

Luís Vianna

CÉU

Sentado nesta pedra
Sobre um penhasco sem fim
Olho as estrelas
E elas olham p´ra mim.

Que tapete vivo
Costurado com linha brilhante
Dum bordado fantástico
De constelações e outros mil.

E a lua,
Hoje totalmente nua,
Parece sentir e gozar
Os prazeres de neste tapete deitar.

Ah! Que inveja,
Quem dera ser eu lá,
Deitado por entre as estrelas
A descansar.

26/05/2001

714
Felipe Larson

Felipe Larson

EXPERIÊNCIA PRIMÁRIA

Olhares buscam o que fazer
Cruzam e entram no que quiserem ter
Mostram-se em desejos internos
Propondo amor, ódio e outras intenções.

Um sexto sentido, uma certa magia.
E tudo está tão confuso
Que eu não sei qual é a direção
E nem o sentido de tudo

Mas claro que tudo se resolve
Com muita calma e paciência
E três simbolos dizem tudo
Água, Fogo e ar.

Sei que o infinito existe
Mas em que universo eu encontro?
Mas está tudo fora do meu alcance
Tão distante que eu não sei que forma tem

Estranho pensar nessas coisas agora
Mas nada deve ser previsível
Senão não teria graça nenhuma
Se tivermos as respostas tão fáceis

Eu sou a inocência
A experiência primária

578
Afonso Henriques Neto

Afonso Henriques Neto

Uma menina

água, tua música de pele
e cheiro fluindo de florações
impalpáveis, chuva acesa
no centro do abismo, onde flutuam
manhãs

terra, teus passos tua voz teus
ruídos de amor e um gozo
além das cordilheiras do sonho
tecendo galáxias, vertiginosa
raiz

ar, teu gesto marinho, olhos
feitos do arremesso do mar
e a centelha invisível a mover
os labirintos do vento, cósmica
serpente

fogo, teu corpo de medusas
e feridas vivas, vulcões,
planeta todo luz, talvez paixão,
pássaro tatuado nas estrelas,
coração
874
Rubén Darío

Rubén Darío

Amo, amas

Amar, amar, amar, amar sempre, com todo
O ser e com a terra e com o céu,
Com o claro do sol escuro do lodo:
Amar por toda ciência e amar, por todo desejo,
E quando a montanha da vida
Nos seja dura e longa e alta e cheia de abismos,
Amar a imensidade que é de amor acesa
E arder na fusão de nossos peitos mesmos!

2 069
Francisco Matos Paoli

Francisco Matos Paoli

Verdor que salta

Iminência, celeste iminência
de dias que são pássaros,
de pássaros que são veias.
Frescas corolas que se imantam
além de meu abismo.
Um ritmo aparte que suaviza
a ausência em que me encontro.
Algo como uma dor que corta a distância
do céu.

Terei um novo ser.
Um ritmo apogístico que me faz livre
de todos os augúrios da terra.

Verdor incontido.
Verdor que salta
até alcançar o triunfo
do que tem sido em mim
a noite plena.

923
Rafael Alberti

Rafael Alberti

Pregão

Vendo nuvens de cores!
as redondas, vermelhas,
para suavizar os calores!

Vendo os cirros arroxeados
e rosas, as alvoradas,
os crepúsculos dourados!

O amarelo astro,
colhido o verde ramo
do celeste pessegueiro!

Vendo a neve, a chama
e o canto do pregoeiro!

1 278
Gaspara Stampa

Gaspara Stampa

No dia

No dia em que no ventre concebido
Foi meu senhor, viu-se dos céus eleito
Para que fosse entre os mortais perfeito
E de virtudes mil ficasse ungido,

Saturno junto aos sábios fê-lo aceito
E jove, dos mais nobres preferido;
Marte na liça o fez mais aguerrido
E Febode elegância encheu-lhe o peito.

Beleza deu-lhe Vênus, e eloqüente
O fez Mercúrio; mas a Lua, ao vê-lo,
Frieza ao coração deu de presente.

Cada qual desses dons mais forte apelo
Faz à chama que em mim crepita ardente;
Menos aquele só, que o fez de gelo.

519
Elizabeth Barrett Browning

Elizabeth Barrett Browning

Catarina a Camões

I

Pra a porta onde não surges nem me vês
Há muito tempo que olho já em vão.
A esperança retira o seu talvez;
Aproxima-se a morte, mas tu não.
Amor, vem
Fechar bem
Estes olhos de que dissestes ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos.

II

Quando te ouvi cantar esse bordão
Nos meus de primavera alegres dias;
Todo alheio louvar tendo por vão
Só dava ouvidos ao que tu dizias
– Dentro em mim
Dizendo assim:
"Ditosos olhos de que disse ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos."

III

Mas tudo muda. Nesta tarde fria
O sol bate na porta sem calor.
Se estivesse aí murmuraria
Como dantes tua voz – "amo-te, amor";
A morte chega
E já cega
Os olhos que ontem eram teus desvelo
O lindo ser dos vossos olhos belos.

IV

Sim. Creio que se a vê-los te encontrasses
Agora, ao pé do leito em que me fino,
Ainda que a beleza lhes negasses,
Só pelo amor que neles eu defino
Com verdade
E ansiedade
Repetirias, meu amor, ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos.

V

E se neles pusesse teu olhar
E eles pusessem seu olhar no teu,
Toda a luz que começa a lhes faltar
Voltaria de pronto ao lugar seu.
Com verdade
E ansiedade
Dir-se-ia como tu disseste ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos.

VI

Mas – ai de mim! – tu não me vês senão
Nos pensamentos teus de amante ausente,
E sorrindo talvez, sonhando em vão,
Trás o abanar do leque levemente;
E, sem pensar,
Em teu sonhar
Iras talvez dizendo sempre ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos,

VII

Enquanto o meu espírito se debruça
Do meu pálido corpo sucumbido,
Ansioso de saber que falas usa
Teu amor pra meu espírito ferido,
Poeta, vem
Mostrar bem
Que amor trazem aos olhos teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.

VIII

Ó meu poeta, ó meu profeta, quando
Destes olhos louvaste o lindo ser,
Pensaste acaso, enquanto ias cantando,
Que isso já estava prestes de morrer?
Seus olhares
Deram-te ares
De que breve podias não mais vê-los,
O lindo ser dos vossos olhos belos.

IX

Ninguém responde. Só suave, defronte,
No pátio a fonte canta em solidão,
E como água no mármore da fonte,
Do amor pra a morte cai meu coração.
E é da sorte
Que seja a morte
E não o amor, que ganhe os teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos!

X

E tu nunca virás? Quando eu me for
Onde as doçuras estão escondidas,
E onde a tua voz, ó meu amor,
Não me abrirá as pálpebras descidas,
Dize, amo meu,
"O amor, morreu!"
Sob o cipreste chora os teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.

XI

Quando o angelus toca à oração,
Não passarás ao pé deste convento,
Lembrando-te, a chorar, do cantochão
Que anjos nos traziam do firmamento?
No ardor meu
Eu via o céu
E tu: "O mundo é vil, ó meus desvelos,
Ao lindo ser dos vossos olhos belos?"

XII

Devagar quando, do palácio ao pé,
Cavalgares, como antes, suave e rente,
E ali vires um rosto que não é
O que vias ali antigamente,
Dirás talvez
"Tanta vez
Me esperaste aqui, ó meus desvelos
Ó lindo ser dos vossos olhos belos!"

XIII

Quando as damas da corte, arfando os peitos,
Te disserem, olhando o gesto teu,
"Canta-nos, poeta, aqueles versos feitos
Àquela linda dama que morreu",
Tremerás?
Calar-te-ás?
Ou cantarás, chorando, os teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos?

XIV

"Lindo ser de olhos belos!" Suaves frases
E deliciosas quando eu as repito!
Cem poesias outras que cantasses,
Sempre nesta a melhor terias dito.
Sinto-a calma
Entre a minha alma
E os rumores da terra ? pesadelos:
– O lindo ser dos vossos olhos belos.

XV

Mas reza o padre junto à minha face,
E o coro está de joelhos todo em prece,
E é forçoso que a alma minha passe
Entre cantos de dor, e não como esse.
Miserere
Plos que fere
O mundo, e pra Natércia, os teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.

XVI

Guarda esta fita que te mando
(Tirei-a dos cabelos para ti).
Sentir-te-ás, quando o teu choro arda,
Acompanhado na tua dor por mi;
Pois com pura
Alma imperjura
Sempre do céu te olharão teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.

XVII

Mas agora, esta terra inda os prendendo,
Desses olhos o brilho é inda alado...
Amor, tu poderás encher, querendo,
Teu futuro de todo o meu passado,
E tornar
A cantar
A outra dama ideal dos teus desvelos:
O lindo ser dos vossos olhos belos.

XVIII

Mas que fazeis, meus olhos, ó perjuros!
Perjuros ao louvor que ele vos deu,
Se esta hora mesmo vos não mostrais puros
De lágrima que acaso vos encheu?
Será forte
Choro ou morte
Se indignos os tornar de teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.

XIX

Seu futuro encherá meu spírito alado
No céu, e abençoá-lo-ei dos céus.
Se ele vier a ser enamorado
De olhos mais belos do que os olhos meus,
O céu os proteja,
Suave lhes seja
E possa ele dizer, sincero, ao vê-los:

2 658
Hilda Hilst

Hilda Hilst

Poesia XX

Teu nome é Nada.
Um sonhar o Universo
No pensamento do homem:
Diante do eterno, nada.

Morte , teu nome.
Um quase chegar peerto.
Um pouco masi (me dizem)
E terias o Todo no teu gesto.
Um pouco mamis, tu O terias visto.

Teu nome é Nada.
Haste, pata. Sem ponta, sem ronda.
Um pensar duas palavras diante da Graça:
Terias tido.



1 257
Rita Barém de Melo

Rita Barém de Melo

Vem!

Vem! Que t importa que maldiga o mundo
O amor profundo que nos liga? vem;
Vem, que nos vales de cheirosas flores,
Nossos amores viçarão também.

Vem! de joelhos nos tapiz de nardo
Há de te o brado suspirar idílios,
Cantar-te a face rosejada em pranto,
O orvalho santo do frouxel dos cílios.

Pensa na sombra da floresta virgem...
Nesta vertigem ... nestamor ali!...
Aves felizes no sendal dos ramos
Seremos: vamos, que o serei por ti!

Vamos unidos como a luz ao astro
O amor da Castro na soidão lembrá-lo,
Nas longas plumas que a palmeira agita
A alma palpita de Virgínia e Paulo.

Que mais tu queres, anjo e flor? Escuta:
Quem ama luta? Não lutemos, vem!
Vamos aos vales de cheirosas flores,
Que é flor damores meu amor também.

Olha, de tarde quando o sol se esconde
Diz-me tu onde mais poesia viste?
Calam-se os ventos - só a brisa arrula -
O céu se azula - mas o céu é triste.

Pois bem, o bardo na soidão exprime
Na voz sublime dum arcanjo a voz:
Hei de dos seios arrancar os lírios
Dos meus delírios, pra tos dar - a sós. -

Perdidos ambos no deserto infinito
Que sonho lindo, que visões também!
E o éter puro como véu destrelas...
E a chama delas a tremer além!...

"Mas quando um dia desbotar-se o prado?
Quando o valado se cobrir de gelos?
Ai! tu só vives - beija-flor - de orvalhos
Em verdes galhos de sonhares belos!

Qu importa o prado de cheirosas flores
Se teus amores morrerão também!"
Quando morrerem, morrerão comigo
E ao céu contigo voarei - Oh! vem!

"Oh! não! Minhalma se coroa em flores;
Nos esplendores de celeste aurora;
Deus abençoa só amores santos
Cala teus cantos: morrerás agora?"

(Rio Grande, julho de 1867)



1 216
Angela Santos

Angela Santos

Oferenda

Infinitamente,
com o meu coração desprendido, e cativo,
amo-te

com o meu corpo de mulher,
que só do teu tem sede,
com a alma plena de ti,
amo-te
por seres e existires...

amo o que em mim vive e percorre
Vida, memória, sabor a ti
e como a vida és oferenda
que trago guardada dentro de mim.

1 173
Angela Santos

Angela Santos

Noite

Do
fundo da noite
se erguem meus olhos
alucinados……
salto do sonho.. e vivo

meus braços estendem-se
à transparência azul
que se acerca e julgo-me
tocada pelo infinito

Néon rasgando os meus olhos,
metamorfose de luz em mim…

Noite, noite..
teu fogo sou meu cio extingues
noite, dentro de ti
o meu sonho vive.

1 014
Angela Santos

Angela Santos

Ressonâncias

Subrepticiamente
um tremor se anuncia nas profundezas
lateja nas veias, em cada fibra, em cada músculo
e emerge à terra de ninguém onde me abandonei....

subitamente um rio galga as margens,
vou na corrente indo onde me leva,
não sou de mim, mesmo que me saiba e sinta
nasço de cada maré, em todos os ciclos lunares
e a cada manhã regresso desse lugar
onde sempre irei na senda do que houver perdido....

Carrego, as sombras e a alva, sou o caos que se ordena
a cada instante que respira,
e nenhuma outra voz ecoa nas labirínticas dobras da memória
que não essa que vem de um lugar e tempo inexplicitos.

Sou no eterno retorno onde me descubro e refaço,
E vivo do inaudito
raiz de mim onde asas ganho,
lugar do desatino onde me acerto
a cada erro, a cada dor, a cada passo, a cada rasgo de infinito.

620
Angela Santos

Angela Santos

Indeléveis

Sinais

Olho
as minhas mãos,
como as mãos que em ti pousaram
nelas busco a textura,
e a vibração do corpo que tocaram...

Olho dentro dos meus olhos
e no fundo deles busco
um outro olhar que em mim vive
preso ao que vejo e ao que sinto...

Olho o meu corpo onde leio sinais
de um sol que o queimou
o mesmo sol que nos viu
de mãos dadas e olhos fitos
num belo horizonte azul
fundindo-se com o infinito

E tento chegar à alma com os olhos que ela tem
aí não vejo....só sinto
as marcas inconfundíveis
que lapidaste em mim.

1 000
Angela Santos

Angela Santos

Elos

Na janela desenhada por detrás
de cada muro, primeiro o rosto
depois os cabelos bebem a brisa
que nela traz poeiras da estrela mais longínqua

Da minha mão à estrela, entre miríades
imperceptível é a distancia
imersas, a estrela e eu, no centro do mesmo mistério
sustidas pela mesma luz
embaladas no mesmo indecifrável berço.

1 093
Angela Santos

Angela Santos

Coisas Simples

Paro
e perscruto os sons que me chegam
com o vento,
e dos aromas que da terra sobem
faço o meu ópio, o meu absinto,
a embriagues da vida…

Paro para receber os suaves pingos de chuva
que caiem sobre o meu rosto
e me fazem sentir limpa,
e deixo meus olhos perderem-se
na visão do infinito

Sorvo o gosto a maresia
junto a este mar revolto,
onde busco a dimensão do que sinto e do que sou,
ínfima parte de um todo e por este engrandecida.

Da lonjura faço o sonho
onde a mente prefigura
o que o tempo ainda guarda para a vida da minha alma...
a outra parte de mim que noutro lugar me espera,
como semente guardada
para ser lançada à terra.

E será na singeleza das coisas que a vida doa
que chegaremos ao fundo
e ao sentido do que somos
e num lugar que não sei, eu e tu aí seremos
chão, húmus, arvore raiz
e cumpriremos a sina de ser semente
e florir.

1 085
Angela Santos

Angela Santos

Em parte e no

todo

Serei, a
sereia,
mulher pla metade
metade no mar
outra metade
na areia...
mas é nesta  cama
despida do mito
que me deito inteira....

E  no  abandono,
adentrando o todo
para tudo ser...
de que serei feita?

mulher, pele,  medusa, mito,
metafísica das formas
que me ditam
seios
quadris
plexus,
olhos
boca
mãos,
instinto....

E alma...
alma presa a este chão
aspirando ao infinito.

1 010
Eduardo Valente da Fonseca

Eduardo Valente da Fonseca

Deve-se amar o perto

O homem
chegou à lua, e ao sol
e ao fundo do mar,
e só Londres tem a população do meu país,
e nisso nem há mal...
mas quando eu vou a Barroselas do Minho
e a D. Felisbina me recebe contente
na Primavera da sua quinta,
eu só penso na D. Felisbina
e amo a sua cabeça branca.
depois vou passear pelos sítios do ano passado,
e cada folha é um universo.
Então o sol esconde-se
e é a vez dos pinheiros serem divinos sob as estrelas.

887
Angela Santos

Angela Santos

Paradoxo

Na
inteireza das coisas simples,
no desvario urgente que nos leva adiante,
na coragem que exige, cada dia que começa,
no absurdo que grita pela boca da fome,
na festa que reina na nossa vontade cumprida
nesse estar além da pobreza de um quotidiano que fere,
no seio de cada minúsculo acto movido pelo coração
nas avenidas largas e solitárias percorridas,
na verdade e na força do amor
no paradoxo do belo e do bruto que nossa alma abriga
no gesto que em nós acorda a humana face do outro,
na mão que semeia, modela, acaricia, estrangula, esventra,
na viagem que faz o caminho sob o nosso andar
na alegria gerada em cada dia que nasce e nos devolve à vida
e até no silencio ante o meu questionar
eu pressinto um indecifrável sentido.

Por isso sigo, sem muito querer saber
Por isso me agito se oiço o chamado
por isso me entrego à vida e a bendigo
por isso espero se de espera é o momento
por isso me inquieto se o coração diz "Vai!" e eu me
detenho
vivo, sinto, espelho a dualidade viva de tudo o que é……

E além do mal e do bem me quedo,
olho o infinito e sinto-me poeira de estrelas com alma
e no chão que piso, oiço o pulsar do meu ser,
no riacho correndo entre sulcos, é o meu sangue que vibra
e no prumo de uma velha árvore
o sentido da dignidade eu vivo

Se tudo está em mim
parte de quê, enfim, sou ?

971
Angela Santos

Angela Santos

Fragilidade

Como
uma borboleta
frágil
apanhada de imprevisto
na perpendicular do tempo
assim me sinto

Borboleta
instante de ser alado
meu breve instante de infinito
lembras-me o tempo
fraccionado, ou indiviso?

Danço e rodopio
na luz, minha armadilha,
e só me detenho se chega a exaustão

sabendo que ali é o fim do voo
anseio ainda minhas leves asas
para me lançar na imensidão.

1 209