Literatura e Palavras
Poemas neste tema
Lêdo Ivo
Esconderijo
Hiding
A palavra-chave
sempre se esconde
atrás da porta.
The key-word
is always hidden
behind the door.
A palavra-chave
sempre se esconde
atrás da porta.
The key-word
is always hidden
behind the door.
1 547
Valéry Larbaud
Vôo
Ave a voar sem rumo, tempo acima;
Céu a fluir sem tempo, mero azul;
Livre cor sem sujeito, só de luz;
Luz de luz, voz de estrelas em surdina.
E voz apenas voz, palavra, rima,
Superfície de som, plana e vazia,
Deserto do sentido, sol sem dia,
Com pássaro não-ser planando em cima.
Céu a fluir sem tempo, mero azul;
Livre cor sem sujeito, só de luz;
Luz de luz, voz de estrelas em surdina.
E voz apenas voz, palavra, rima,
Superfície de som, plana e vazia,
Deserto do sentido, sol sem dia,
Com pássaro não-ser planando em cima.
875
Luís António Cajazeira Ramos
Ai, Cais!
Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
Fernando Pessoa, in Ode Marítima
... o tempo (...) essa angústia máxima...
Soares Feitosa, dOs Poemas da Besta,
in Psi, a Penúltima.
Cais, saudade em pedra.
Zarpam lábios na memória.
Tempo: angústia máxima.
Para Soares Feitosa, zarpando do Salvador
ao Siarah, de volta-volta...
Fernando Pessoa, in Ode Marítima
... o tempo (...) essa angústia máxima...
Soares Feitosa, dOs Poemas da Besta,
in Psi, a Penúltima.
Cais, saudade em pedra.
Zarpam lábios na memória.
Tempo: angústia máxima.
Para Soares Feitosa, zarpando do Salvador
ao Siarah, de volta-volta...
1 019
Luis Alberto Costa Guedes
Ofertório
Antes de começares ler
Estes pedaços de vida,
Estas lágrimas de saudade,
Estes soluços de agonia,
Estes sorrisos de esperanças
Estas ironias existenciais
que te dedico,
quero fazer meu "OFERTÓRIO"
aos entes que me inspiraram...
Estes pedaços de vida,
Estas lágrimas de saudade,
Estes soluços de agonia,
Estes sorrisos de esperanças
Estas ironias existenciais
que te dedico,
quero fazer meu "OFERTÓRIO"
aos entes que me inspiraram...
1 027
Laura Amélia Damous
Quiromancia
A mão do poema
é a que me cabe
inteira
A outra,
eu a carrego,
pesada e alheia.
é a que me cabe
inteira
A outra,
eu a carrego,
pesada e alheia.
1 102
José Eustáquio da Silva
Inexato
odeio números
bastam-me as palavras
os números são inexatos
imprecisos
jamais conseguirão
medir o tamanho
da dor de uma saudade
ou ainda
o quanto de emoção
existe numa lágrima
odeio números
bastam-me as palavras...
bastam-me as palavras
os números são inexatos
imprecisos
jamais conseguirão
medir o tamanho
da dor de uma saudade
ou ainda
o quanto de emoção
existe numa lágrima
odeio números
bastam-me as palavras...
1 462
José Eustáquio da Silva
Visões
vida vale violão
lambada lombo
poesia pingada peão
caravelas colombo
mar morto multidão
ter tudo testamento
alma alma assombração
coração consentimento
filho falho fatalidade
dúvida doentia
moço moça mocidade
arrebanhando alegria
lambada lombo
poesia pingada peão
caravelas colombo
mar morto multidão
ter tudo testamento
alma alma assombração
coração consentimento
filho falho fatalidade
dúvida doentia
moço moça mocidade
arrebanhando alegria
828
José Eduardo Mendes Camargo
Falta
Está faltando uma poesia,
quem sabe uma palavra mágica,
ou talvez um gesto de ternura,
que tenha a força de um feitiço ou encantamento
que num momento, ou por um momento,
nos abra os corações e nos torne irmãos.
quem sabe uma palavra mágica,
ou talvez um gesto de ternura,
que tenha a força de um feitiço ou encantamento
que num momento, ou por um momento,
nos abra os corações e nos torne irmãos.
828
João Dummar
Travessia
A poesia é generosa
e deve ser proclamada
sem medos
quebrando o silêncio
ecoando na solidão
deve ser vela enfunada
na embarcação da existência
nos conduzindo pelos mares
pelos riscos e perigos
na direção do porto
ponto distante
que a vista começa a desvendar.
e deve ser proclamada
sem medos
quebrando o silêncio
ecoando na solidão
deve ser vela enfunada
na embarcação da existência
nos conduzindo pelos mares
pelos riscos e perigos
na direção do porto
ponto distante
que a vista começa a desvendar.
1 001
José Eduardo Mendes Camargo
Coisas Minhas
As minhas palavras, por
vezes, quando amealhadas,
os amigos chamam de poesia.
As minhas emoções, quando
se refletem em expressão, alguns
dizem: é poeta ou é homem de paixão.
Mas, na realidade, é com palavras
e emoção que, de inspiração em
inspiração, faço da vida uma canção.
vezes, quando amealhadas,
os amigos chamam de poesia.
As minhas emoções, quando
se refletem em expressão, alguns
dizem: é poeta ou é homem de paixão.
Mas, na realidade, é com palavras
e emoção que, de inspiração em
inspiração, faço da vida uma canção.
617
J.Cardia
Comendo pedras
Comendo pedras
mascando ervas
danou-se cão.
Ladrou e mordeu.
Poetas
vivem assim ação.
mascando ervas
danou-se cão.
Ladrou e mordeu.
Poetas
vivem assim ação.
874
J.Cardia
Busco musgos
Busco musgos
nos bosques noturnos.
Olvidei o Carnaval. Não sei.
Louca fantasia
esta de poeta
no mero confete
da palavra.
Bailam serpentinas.
Desatino.
nos bosques noturnos.
Olvidei o Carnaval. Não sei.
Louca fantasia
esta de poeta
no mero confete
da palavra.
Bailam serpentinas.
Desatino.
819
Cida Jappe
Papel em Branco
Eu quis
fazer um poema
em louvor a Deus
O lápis, o papel
estavam ali,
mudos, imóveis
e eu nem sequer soube pegá-los
Desci a escada
fui embora...
E o meu poema chegou a Deus,
na folha de papel em branco
fazer um poema
em louvor a Deus
O lápis, o papel
estavam ali,
mudos, imóveis
e eu nem sequer soube pegá-los
Desci a escada
fui embora...
E o meu poema chegou a Deus,
na folha de papel em branco
953
João Bosco da Encarnação
O poema!
O poema!
O poema!
O que aconteceu
que ninguém leu,
nem mesmo eu?
O poema!
O que aconteceu
que ninguém leu,
nem mesmo eu?
929
Fernando Cereja
Poesiar
poesiar
é beber
das
palavras
sentindo
o gosto
do copo.
é beber
das
palavras
sentindo
o gosto
do copo.
976
Fernando Cereja
Qdo a cabeça
qdo a cabeça
papel
q se escreve
a saudade
borracha pincel
q se esquece.
papel
q se escreve
a saudade
borracha pincel
q se esquece.
763
Fernando José dos Santos Oliveira
Florismundo
Florismundo
Mundo,imundoe mudo,muda!Muda e,em muda,te faz flor.
Mundo,imundoe mudo,muda!Muda e,em muda,te faz flor.
1 038
Urhacy Faustino
exposição de desmotivos ou imposição de motivos
Não há porque amar Dante
se é Rilke quem me seduz.
Não há porque amar Michelangelo
se são Monet, Miró e Van Gogh
que fascinam as meninas
— dos meus olhos.
Não há porque amar Charllote
se é Emily que me tem por horas.
Não há porque explicar a obra de arte.
Muito menos o amor.
se é Rilke quem me seduz.
Não há porque amar Michelangelo
se são Monet, Miró e Van Gogh
que fascinam as meninas
— dos meus olhos.
Não há porque amar Charllote
se é Emily que me tem por horas.
Não há porque explicar a obra de arte.
Muito menos o amor.
736
Fábio Roberto Rodrigues Belo
Passaporte
passeport
porque porta passo pra
poder te ver?
que passatempo fará resistir minha
paciência?
faço-me forte
saro-me o corte
temo a morte
caço a sorte
passaporte
por onde
o pássaro faz
seupercurso?
preciso ter alegria
paraguerrear...
per fas et nefas
persistamos
em
existir:
é o
que
im-porta.
porque porta passo pra
poder te ver?
que passatempo fará resistir minha
paciência?
faço-me forte
saro-me o corte
temo a morte
caço a sorte
passaporte
por onde
o pássaro faz
seupercurso?
preciso ter alegria
paraguerrear...
per fas et nefas
persistamos
em
existir:
é o
que
im-porta.
945
Fernando Batinga de Mendonça
As Palavras
1.
nas pedras gerais
no centro da praça,
reúno as palavras
sentado no chão.
procuro um sentido
de ferro e cimento,
na mesma palavra
um outro vestido:
2.
um novo momento.
nas pedras gerais
no centro da praça,
reúno as palavras
sentado no chão.
procuro um sentido
de ferro e cimento,
na mesma palavra
um outro vestido:
2.
um novo momento.
806
Elisabeth Veiga
A Tinta Seca
Escrevo e a tinta seca,
seca, exacerbada rasga o papel.
Continuo escrevendo embora,
nem eu mesma leia.
Premindo, a caneta
rasga o que já está rasgado.
Continuo escrevendo sem uma palavra,
escrevendo, escrevendo à sombra
da minha mão sobre o papel.
O branco, afinal, me rasga.
seca, exacerbada rasga o papel.
Continuo escrevendo embora,
nem eu mesma leia.
Premindo, a caneta
rasga o que já está rasgado.
Continuo escrevendo sem uma palavra,
escrevendo, escrevendo à sombra
da minha mão sobre o papel.
O branco, afinal, me rasga.
911
Eunice Arruda
Hora Poética
Para esquecer esta
dor
— transformá-la em poesia
Para eternizar esta
dor
— transformá-la em poesia
dor
— transformá-la em poesia
Para eternizar esta
dor
— transformá-la em poesia
964
Eunice Arruda
Um Visitante
Quem escreve
é
um visitante
Chega nas horas da noite
e toma o lugar do
sono
Chega à mesa do almoço
come a minha fome
Escreve
o que eu nem supunha
Assina o meu nome
é
um visitante
Chega nas horas da noite
e toma o lugar do
sono
Chega à mesa do almoço
come a minha fome
Escreve
o que eu nem supunha
Assina o meu nome
1 110
Dimas Macedo
Palavras
Para me suportar
a mim mesmo me basto.
Para não me morrer de tédio
mergulho-me palavras.
Sou pétalas de sons
murmuradas ao vento.
Desnecessito-me no hábito.
Desminto-me
nos braços de Évora.
Devoro-me nuns lábios
que não teriam sido.
Sendo-me anjo
o amanhã será outro dia.
Ou um sopro de palavras
perdidas. Ou o nada.
a mim mesmo me basto.
Para não me morrer de tédio
mergulho-me palavras.
Sou pétalas de sons
murmuradas ao vento.
Desnecessito-me no hábito.
Desminto-me
nos braços de Évora.
Devoro-me nuns lábios
que não teriam sido.
Sendo-me anjo
o amanhã será outro dia.
Ou um sopro de palavras
perdidas. Ou o nada.
862
Português
English
Español