Identidade
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
O quê? Valho mais que uma flor
O quê? Valho mais que uma flor
Porque ela não sabe que tem cor e eu sei,
Porque ela não sabe que tem perfume e eu sei,
Porque ela não tem consciência de mim e eu tenho consciência dela?
Mas o que tem uma coisa com a outra
Para que seja superior ou inferior a ela?
Sim tenho consciência da planta e ela não a tem de mim.
Mas se a forma da consciência é ter consciência, que há nisso?
A planta, se falasse, podia dizer-me: E o teu perfume?
Podia dizer-me: Tu tens consciência porque ter consciência é uma qualidade humana
E só não tenho uma porque sou flor senão seria homem.
Tenho perfume e tu não tens, porque sou flor...
Mas para que me comparo com uma flor, se eu sou eu
E a flor é a flor?
Ah, não comparemos coisa nenhuma, olhemos.
Deixemos análises, metáforas, símiles.
Comparar uma coisa com outra é esquecer essa coisa.
Nenhuma coisa lembra outra se repararmos para ela.
Cada coisa só lembra o que é
E só é o que nada mais é.
Separa-a de todas as outras o facto de que é ela.
(Tudo é nada sem outra coisa que não é).
Porque ela não sabe que tem cor e eu sei,
Porque ela não sabe que tem perfume e eu sei,
Porque ela não tem consciência de mim e eu tenho consciência dela?
Mas o que tem uma coisa com a outra
Para que seja superior ou inferior a ela?
Sim tenho consciência da planta e ela não a tem de mim.
Mas se a forma da consciência é ter consciência, que há nisso?
A planta, se falasse, podia dizer-me: E o teu perfume?
Podia dizer-me: Tu tens consciência porque ter consciência é uma qualidade humana
E só não tenho uma porque sou flor senão seria homem.
Tenho perfume e tu não tens, porque sou flor...
Mas para que me comparo com uma flor, se eu sou eu
E a flor é a flor?
Ah, não comparemos coisa nenhuma, olhemos.
Deixemos análises, metáforas, símiles.
Comparar uma coisa com outra é esquecer essa coisa.
Nenhuma coisa lembra outra se repararmos para ela.
Cada coisa só lembra o que é
E só é o que nada mais é.
Separa-a de todas as outras o facto de que é ela.
(Tudo é nada sem outra coisa que não é).
1 504
Fernando Pessoa
Ah, o horror metafísico da Acção!
Ah, o horror metafísico da Acção!
Os meus gestos separam-se de mim
E eu vejo-os no ar, como as velas dum moinho,
Totalmente não meus, e sinto dentro
Deles a minha vida circular!
Sou sempre o mesmo, sempre o mesmo, sempre!
Sempre o que tudo vê e tudo sente
No seu sentido misterioso e enorme...
Sempre... Nada me cura nem me apraz!
Ah qualquer coisa
Que anulasse meu ser e mo deixasse!...
Os meus gestos separam-se de mim
E eu vejo-os no ar, como as velas dum moinho,
Totalmente não meus, e sinto dentro
Deles a minha vida circular!
Sou sempre o mesmo, sempre o mesmo, sempre!
Sempre o que tudo vê e tudo sente
No seu sentido misterioso e enorme...
Sempre... Nada me cura nem me apraz!
Ah qualquer coisa
Que anulasse meu ser e mo deixasse!...
1 147
Fernando Pessoa
Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido.
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido.
1 219
Fernando Pessoa
JULIANO EM ANTIOQUIA [b]
Agir, sabendo
Que a acção é vil e o esforço nada.
Ir para a frente por dever, mas vendo
Que não há estrada.
Tomar a pôr altares, templos mortos
Aos deuses reerguer, sem ignorar
Que as almas são de Cristo já, e há outros
Homens (...)
O esforço inútil feito por dever
E o amor à verdade inaceitável,
A teimosia estóica em dever ser.
Venceste, Galileu. Mas nada prova
Da verdade de ti teres vencido.
Constantemente o mundo se renova
Um dia é o dia do mal (…)
Que a acção é vil e o esforço nada.
Ir para a frente por dever, mas vendo
Que não há estrada.
Tomar a pôr altares, templos mortos
Aos deuses reerguer, sem ignorar
Que as almas são de Cristo já, e há outros
Homens (...)
O esforço inútil feito por dever
E o amor à verdade inaceitável,
A teimosia estóica em dever ser.
Venceste, Galileu. Mas nada prova
Da verdade de ti teres vencido.
Constantemente o mundo se renova
Um dia é o dia do mal (…)
935
Fernando Pessoa
IV - Conclusão a sucata!... Fiz o cálculo,
IV
Conclusão a sucata!... Fiz o cálculo,
Saiu-me certo, fui elogiado...
Meu coração é um enorme estrado
Onde se expõe um pequeno animálculo...
A microscópio de desilusões
Findei, prolixo nas minúcias fúteis...
Minhas conclusões práticas, inúteis...
Minhas conclusões teóricas, confusões...
Que teorias há para quem sente
O cérebro quebrar-se, como um dente
Dum pente de mendigo que emigrou?
Fecho o caderno dos apontamentos
E faço riscos moles e cinzentos
Nas costas do envelope do que sou...
Conclusão a sucata!... Fiz o cálculo,
Saiu-me certo, fui elogiado...
Meu coração é um enorme estrado
Onde se expõe um pequeno animálculo...
A microscópio de desilusões
Findei, prolixo nas minúcias fúteis...
Minhas conclusões práticas, inúteis...
Minhas conclusões teóricas, confusões...
Que teorias há para quem sente
O cérebro quebrar-se, como um dente
Dum pente de mendigo que emigrou?
Fecho o caderno dos apontamentos
E faço riscos moles e cinzentos
Nas costas do envelope do que sou...
1 285
Fernando Pessoa
Em tempos quis o mundo inteiro.
Em tempos quis o mundo inteiro.
Era criança e havia amar.
Hoje sou lúcido e estrangeiro.
(Acabarei por não pensar.)
A quem o mundo não bastava,
(Porque depois não bastaria)
E a alma era um céu, e havia lava
Dos vulcões do que eu não sabia,
Basta hoje o dia não ser feio,
Haver brisa que em sombras flui,
Nem se perder de todo o enleio
De ter sido quem nunca fui.
Era criança e havia amar.
Hoje sou lúcido e estrangeiro.
(Acabarei por não pensar.)
A quem o mundo não bastava,
(Porque depois não bastaria)
E a alma era um céu, e havia lava
Dos vulcões do que eu não sabia,
Basta hoje o dia não ser feio,
Haver brisa que em sombras flui,
Nem se perder de todo o enleio
De ter sido quem nunca fui.
1 331
Fernando Pessoa
Ó minha menina loura,
Ó minha menina loura,
Ó minha loura menina,
Dize a quem te vê agora
Que já foste pequenina...
Ó minha loura menina,
Dize a quem te vê agora
Que já foste pequenina...
1 473
Fernando Pessoa
VI - Venho de longe e trago no perfil,
VI
Venho de longe e trago no perfil,
Em forma nevoenta e afastada,
O perfil de outro ser que desagrada
Ao meu actual recorte humano e vil.
Outrora fui talvez, não Boabdil,
Mas o seu mero último olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil...
Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim vi...
Eu próprio sou aquilo que perdi...
E nesta estrada para Desigual
Florem em esguia glória marginal
Os girassóis do império que morri...
Venho de longe e trago no perfil,
Em forma nevoenta e afastada,
O perfil de outro ser que desagrada
Ao meu actual recorte humano e vil.
Outrora fui talvez, não Boabdil,
Mas o seu mero último olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil...
Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim vi...
Eu próprio sou aquilo que perdi...
E nesta estrada para Desigual
Florem em esguia glória marginal
Os girassóis do império que morri...
1 120
Fernando Pessoa
Toda a visão da crença se acompanha,
Toda visão da crença se acompanha,
Toda crença da acção; e a acção se perde,
Água em água entre tudo.
Conhece-te, se podes. Se não podes
Conhece que não podes. Saber sabe.
Sê teu. Não dês nem operes.
Toda crença da acção; e a acção se perde,
Água em água entre tudo.
Conhece-te, se podes. Se não podes
Conhece que não podes. Saber sabe.
Sê teu. Não dês nem operes.
1 233
Fernando Pessoa
Maior é quem a passo e passo avança
Maior é quem a passo e passo avança
Na sua consciência do Universo
E palmo a palmo ganha
O domínio dos deuses.
Porque quanto mais certas vê as cousas
Mais por seu par os deuses o consentem
Até sentir seu corpo
Roçar corpos eternos.
Deixa, (...) meu, a ambição tua
De entre os homens por duque seres tido:
Deixa luzir p'ra outros
As lanças e as espadas
De pelo gládio à glória e à (...) vires .
E a confiança em (...)
A glória onde te leva
Mais que a onde não há glória?
Na sua consciência do Universo
E palmo a palmo ganha
O domínio dos deuses.
Porque quanto mais certas vê as cousas
Mais por seu par os deuses o consentem
Até sentir seu corpo
Roçar corpos eternos.
Deixa, (...) meu, a ambição tua
De entre os homens por duque seres tido:
Deixa luzir p'ra outros
As lanças e as espadas
De pelo gládio à glória e à (...) vires .
E a confiança em (...)
A glória onde te leva
Mais que a onde não há glória?
924
Fernando Pessoa
Amei-te e por te amar
Amei-te e por te amar
Só a ti eu não via...
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia...
Só quando te perdi
É que eu te conheci...
Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.
Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via...
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.
Não sei o que eras. Creio
Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar...
Eras minha alma, fora
Do Lugar e da Hora...
Hoje eu busco-te e choro
Por te poder achar
Não sequer te memoro
Como te tive a amar...
Nem foste um sonho meu...
Porque te choro eu?
Não sei... Perdi-te, e és hoje
Real no [...] real...
Como a hora que foge,
Foges e tudo é igual
A si-próprio e é tão triste
O que vejo que existe.
Em que és [...J fictício,
Em que tempo parado
Foste o (...) cilício
Que quando em fé fechado
Não sentia e hoje sinto
Que acordo e não me minto...
[...] tuas mãos, contudo,
Sinto nas minhas mãos,
Nosso olhar fixo e mudo
Quantos momentos vãos
Pra além de nós viveu
Nem nosso, teu ou meu...
Quantas vezes sentimos
Alma nosso contacto
Quantas vezes seguimos
Pelo caminho abstracto
Que vai entre alma e alma…
Horas de inquieta calma!
E hoje pergunto em mim
Quem foi que amei, beijei
Com quem perdi o fim
Aos sonhos que sonhei…
Procuro-te e nem vejo
O meu próprio desejo…
Que foi real em nós?
Que houve em nós de sonho?
De que Nós fomos de que voz
O duplo eco risonho
Que unidade tivemos?
O que foi que perdemos?
Nós não sonhámos. Eras
Real e eu era real.
Tuas mãos — tão sinceras…
Meu gesto — tão leal...
Tu e eu lado a lado...
Isto... e isto acabado...
Como houve em nós amor
E deixou de o haver?
Sei que hoje é vaga dor
O que era então prazer...
Mas não sei que passou
Por nós e acordou...
Amámo-nos deveras?
Amamo-nos ainda?
Se penso vejo que eras
A mesma que és... E finda
Tudo o que foi o amor;
Assim quase sem dor.
Sem dor... Um pasmo vago
De ter havido amar...
Quase que me embriago
De mal poder pensar...
O que mudou e onde?
O que é que em nós se esconde?
Talvez sintas como eu
E não saibas sentil-o...
Ser é ser nosso véu
Amar é encobril-o,
Hoje que te deixei
É que sei que te amei...
Somos a nossa bruma…
É pra dentro que vemos...
Caem-nos uma a uma
As compreensões que temos
E ficamos no frio
Do Universo vazio...
Que importa? Se o que foi
Entre nós foi amor,
Se por te amar me dói
Já não te amar, e a dor
Tem um íntimo sentido,
Nada será perdido...
E além de nós, no Agora
Que não nos tem por véus
Viveremos a Hora
Virados para Deus
E n'um (...) mudo
Compreenderemos tudo.
Só a ti eu não via...
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia...
Só quando te perdi
É que eu te conheci...
Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.
Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via...
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.
Não sei o que eras. Creio
Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar...
Eras minha alma, fora
Do Lugar e da Hora...
Hoje eu busco-te e choro
Por te poder achar
Não sequer te memoro
Como te tive a amar...
Nem foste um sonho meu...
Porque te choro eu?
Não sei... Perdi-te, e és hoje
Real no [...] real...
Como a hora que foge,
Foges e tudo é igual
A si-próprio e é tão triste
O que vejo que existe.
Em que és [...J fictício,
Em que tempo parado
Foste o (...) cilício
Que quando em fé fechado
Não sentia e hoje sinto
Que acordo e não me minto...
[...] tuas mãos, contudo,
Sinto nas minhas mãos,
Nosso olhar fixo e mudo
Quantos momentos vãos
Pra além de nós viveu
Nem nosso, teu ou meu...
Quantas vezes sentimos
Alma nosso contacto
Quantas vezes seguimos
Pelo caminho abstracto
Que vai entre alma e alma…
Horas de inquieta calma!
E hoje pergunto em mim
Quem foi que amei, beijei
Com quem perdi o fim
Aos sonhos que sonhei…
Procuro-te e nem vejo
O meu próprio desejo…
Que foi real em nós?
Que houve em nós de sonho?
De que Nós fomos de que voz
O duplo eco risonho
Que unidade tivemos?
O que foi que perdemos?
Nós não sonhámos. Eras
Real e eu era real.
Tuas mãos — tão sinceras…
Meu gesto — tão leal...
Tu e eu lado a lado...
Isto... e isto acabado...
Como houve em nós amor
E deixou de o haver?
Sei que hoje é vaga dor
O que era então prazer...
Mas não sei que passou
Por nós e acordou...
Amámo-nos deveras?
Amamo-nos ainda?
Se penso vejo que eras
A mesma que és... E finda
Tudo o que foi o amor;
Assim quase sem dor.
Sem dor... Um pasmo vago
De ter havido amar...
Quase que me embriago
De mal poder pensar...
O que mudou e onde?
O que é que em nós se esconde?
Talvez sintas como eu
E não saibas sentil-o...
Ser é ser nosso véu
Amar é encobril-o,
Hoje que te deixei
É que sei que te amei...
Somos a nossa bruma…
É pra dentro que vemos...
Caem-nos uma a uma
As compreensões que temos
E ficamos no frio
Do Universo vazio...
Que importa? Se o que foi
Entre nós foi amor,
Se por te amar me dói
Já não te amar, e a dor
Tem um íntimo sentido,
Nada será perdido...
E além de nós, no Agora
Que não nos tem por véus
Viveremos a Hora
Virados para Deus
E n'um (...) mudo
Compreenderemos tudo.
1 630
Fernando Pessoa
«Ribeirinho, ribeirinho,/Que vais a correr ao léu
«Ribeirinho, ribeirinho,
Que vais a correr ao léu
Tu vais a correr sozinho,
Ribeirinho, como eu.»
Que vais a correr ao léu
Tu vais a correr sozinho,
Ribeirinho, como eu.»
1 569
Fernando Pessoa
Vem Orfeu, uma sombra
Vem Orpheu, uma sombra
Que traz nas mãos um vago filho — a lira.
Que traz nas mãos um vago filho — a lira.
1 490
Fernando Pessoa
Não torna ao ramo a folha que o deixou,
Não torna ao ramo a folha que o deixou,
Nem com seu mesmo pó se uma outra forma.
O momento, que acaba ao começar
Este, morreu p'ra sempre.
Não me promete o incerto e vão futuro
Mais do que esta iterada experiência
Da mutada sorte e a condição deserta
Das cousas e de mim.
Por isso, neste rio universal
De que sou, não uma onda, senão ondas,
Decorro inerte, sem pedido, nem
Deuses em quem o empregue.
Nem com seu mesmo pó se uma outra forma.
O momento, que acaba ao começar
Este, morreu p'ra sempre.
Não me promete o incerto e vão futuro
Mais do que esta iterada experiência
Da mutada sorte e a condição deserta
Das cousas e de mim.
Por isso, neste rio universal
De que sou, não uma onda, senão ondas,
Decorro inerte, sem pedido, nem
Deuses em quem o empregue.
1 374
Fernando Pessoa
Ser feliz é um jugo, o ser grande
Ser feliz é um jugo, o ser grande
É uma servidão: tudo repugno
Salvo esta majestade.
É uma servidão: tudo repugno
Salvo esta majestade.
1 340
Fernando Pessoa
O vaso de manjerico
O vaso de manjerico
Caiu da janela abaixo.
Vai buscá-lo, que aqui fico
A ver se sem ti te acho.
Caiu da janela abaixo.
Vai buscá-lo, que aqui fico
A ver se sem ti te acho.
1 491
Fernando Pessoa
Quando te apertei a mão
Quando te apertei a mão
Ao modo de assim-assim,
Senti o meu coração
A perguntar-me por mim.
Ao modo de assim-assim,
Senti o meu coração
A perguntar-me por mim.
1 187
Fernando Pessoa
Quando eu era pequenino
Quando eu era pequenino
Cantavam para eu dormir.
Foram-se o canto e o menino.
Sorri-me para eu sentir!
Cantavam para eu dormir.
Foram-se o canto e o menino.
Sorri-me para eu sentir!
4 573
Fernando Pessoa
Meu amor é fragateiro.
Meu amor é fragateiro.
Eu sou a sua fragata.
Alguns vão atrás do cheiro,
Outros vão só pela arreata.
Eu sou a sua fragata.
Alguns vão atrás do cheiro,
Outros vão só pela arreata.
1 795
Fernando Pessoa
INTERVAL - 3
I could not be thou, being yet not thou
Were I not God; so to God my thoughts go
(To reach thee, to possess from within
To possess from being not from seeing)
Because, substance of substance, He alone
Can love being all things, and all in each one.
Thus is my love (...) religion.
And by being born, not born; by being love
None; and by being made move, not made to move,
But, indefinable and indistinct,
Wearing no form nor purpose nor precinct
Of use, it hangs, with my soul in its wake
An interval between me and thee, between
Ourselves and God, between thou being but seen
And being loved, abstract absance of place
(...) that
Life, substance of thou being a living thing
Where thought and will and feeling are one thing.
Of the two parts of love, becoming other
And unbecoming self, I do one choose —
The unbecoming, and the other lose.
Yet, as to unbecome must be becoming
Some other thing, as the end for roaming
Makes the thing found where will no matter binds,
The unbecoming of me sure love finds.
Yet if it finds the loved thing, yet not thee,
What thing finds it, that it sought not to be?
What but love's own abstraction, interval
Between souls. And as aether is purest of all
Where filling the mere spaces between things,
Because the more unmixed, the love that clings
To my large disembodiment is best,
Because no object, save love, limits its
(…)
But here not aether but consciousness is
The universal substance, so in this
Less difference between this substance and
God is there — so, if right I understand,
This love which to obtain thee loses thee
And which to complete me uncompletes me,
Which the mere interval doth occupy
Whether neither thy soul nor my soul doth lie,
To which my mere love's force abstractly sends
My void outgoing, and there my being ends,
And so the ends my being had in going
Equally endeth — this love thus foregoing
The object and the subject to be done
By missing into pure Relation;
This love finds God by its internal force,
For when all things are lost God is the loss.
See then how I, starting from me to thee,
Have like a sailor that sets out i' th' sea
For some shore, and the winds drive him away
And this chance casts him on some better bay
Than his intention had been to discover.
Yet if discovering were intended, ever
By what discovered is, where it not willed,
The purpose of discovering is filled,
And if the unwilled discovery is better,
The loss is gam, and that which seemed to fetter
The original purpose, the harsh wind,
Does lead the unled to where he best can find.
Yet this is not the journey's end, for whence
The sailor now arrived, to recommence
He may begin his voyage original
And from the better to the worse recall
For as the original purpose, better less,
Is in the found included, he may thence
His foiled task recompose and now to miss
The purpose that his (...)
So I, from God, the better may go out
To thee, and from within thee, not about
Thy presence, enter into thee and be
The very personality of thee.
Were I not God; so to God my thoughts go
(To reach thee, to possess from within
To possess from being not from seeing)
Because, substance of substance, He alone
Can love being all things, and all in each one.
Thus is my love (...) religion.
And by being born, not born; by being love
None; and by being made move, not made to move,
But, indefinable and indistinct,
Wearing no form nor purpose nor precinct
Of use, it hangs, with my soul in its wake
An interval between me and thee, between
Ourselves and God, between thou being but seen
And being loved, abstract absance of place
(...) that
Life, substance of thou being a living thing
Where thought and will and feeling are one thing.
Of the two parts of love, becoming other
And unbecoming self, I do one choose —
The unbecoming, and the other lose.
Yet, as to unbecome must be becoming
Some other thing, as the end for roaming
Makes the thing found where will no matter binds,
The unbecoming of me sure love finds.
Yet if it finds the loved thing, yet not thee,
What thing finds it, that it sought not to be?
What but love's own abstraction, interval
Between souls. And as aether is purest of all
Where filling the mere spaces between things,
Because the more unmixed, the love that clings
To my large disembodiment is best,
Because no object, save love, limits its
(…)
But here not aether but consciousness is
The universal substance, so in this
Less difference between this substance and
God is there — so, if right I understand,
This love which to obtain thee loses thee
And which to complete me uncompletes me,
Which the mere interval doth occupy
Whether neither thy soul nor my soul doth lie,
To which my mere love's force abstractly sends
My void outgoing, and there my being ends,
And so the ends my being had in going
Equally endeth — this love thus foregoing
The object and the subject to be done
By missing into pure Relation;
This love finds God by its internal force,
For when all things are lost God is the loss.
See then how I, starting from me to thee,
Have like a sailor that sets out i' th' sea
For some shore, and the winds drive him away
And this chance casts him on some better bay
Than his intention had been to discover.
Yet if discovering were intended, ever
By what discovered is, where it not willed,
The purpose of discovering is filled,
And if the unwilled discovery is better,
The loss is gam, and that which seemed to fetter
The original purpose, the harsh wind,
Does lead the unled to where he best can find.
Yet this is not the journey's end, for whence
The sailor now arrived, to recommence
He may begin his voyage original
And from the better to the worse recall
For as the original purpose, better less,
Is in the found included, he may thence
His foiled task recompose and now to miss
The purpose that his (...)
So I, from God, the better may go out
To thee, and from within thee, not about
Thy presence, enter into thee and be
The very personality of thee.
1 510
Fernando Pessoa
Li vaga — inerte — e sonhadoramente li
Li vaga — inerte — e sonhadoramente li
Compreendendo mais do que havia
Em frase (...)
Fechei tremendo, os livros, e sentindo
Como que de detrás da consciência,
Negrume transcendendo o que de horror
(...)
Desde então o constante persistir
Do mistério em minha alma não me deixa
Quieto o espírito, por meditar
Que seja, meditando sempre.
Compreendendo mais do que havia
Em frase (...)
Fechei tremendo, os livros, e sentindo
Como que de detrás da consciência,
Negrume transcendendo o que de horror
(...)
Desde então o constante persistir
Do mistério em minha alma não me deixa
Quieto o espírito, por meditar
Que seja, meditando sempre.
1 243
Fernando Pessoa
Não leio já; queria abrir um livro
Não leio já; queria abrir um livro
E ver, de chofre, ali, a ciência toda...
Queria ao menos poder crer que, lendo,
E em prolongadas horas lendo e lendo,
No fim alguma cousa me ficava
Do essencial do mundo, que eu subia
Até ao menos cada vez mais perto
Do mistério... Que ele, inda que inatingido,
Ao menos dele que eu [me] aproximava...
Não fosse tudo um (...)
Como uma criança que a fingir sobe
Uns degraus que pintou no chão...
Não leio. Horas intérminas, perdido
De tudo, salvo de uma dolorosa
Consciência vazia de mim próprio,
Como um frio numa noite intensa,
Em frente ao livro aberto vivo e morro...
Nada... E a impaciência fria e dolorosa
De ler p'ra não sonhar e ter perdido
O sonho! Assim como um (...) engenho
Que, abandonado, em vão trabalha ainda,
Sem nexo, sem propósito, eu môo
E remôo a ilusão do pensamento...
E hora a hora na minha estéril alma
Mais fundo o abismo entre meu ser e mim
Se abre, e nesse (...) abismo não há nada...
Ditoso o tempo em que eu sonhava, e às vezes
Eu parava de ler para seguir
Os cortejos em mim... Amor, orgulho,
— Crenças inda! — pintavam os meus sonhos...
E com muita insistência[?], eu era (...)
O amante de belezas (...)
E o rei de povos vagos e submissos;
E quer em braços que eu sonhava, ou entre
As filas (...) prostradas, eu vivia
Sublimes nadas, alegrias sem cor.
Mas
Hoje nenhuma imagem, nenhum vulto
Evoco em mim... Só um deserto aonde
Não a cor dum areal, nem um ar morto
Posso sonhar... Mas tendo só a ideia,
Tendo da cor o pensamento apenas,
Vazio, oco, sem calor nem frio,
Sem posição, nem direcção, nem (...)
Só o vazio lugar do pensamento...
E ver, de chofre, ali, a ciência toda...
Queria ao menos poder crer que, lendo,
E em prolongadas horas lendo e lendo,
No fim alguma cousa me ficava
Do essencial do mundo, que eu subia
Até ao menos cada vez mais perto
Do mistério... Que ele, inda que inatingido,
Ao menos dele que eu [me] aproximava...
Não fosse tudo um (...)
Como uma criança que a fingir sobe
Uns degraus que pintou no chão...
Não leio. Horas intérminas, perdido
De tudo, salvo de uma dolorosa
Consciência vazia de mim próprio,
Como um frio numa noite intensa,
Em frente ao livro aberto vivo e morro...
Nada... E a impaciência fria e dolorosa
De ler p'ra não sonhar e ter perdido
O sonho! Assim como um (...) engenho
Que, abandonado, em vão trabalha ainda,
Sem nexo, sem propósito, eu môo
E remôo a ilusão do pensamento...
E hora a hora na minha estéril alma
Mais fundo o abismo entre meu ser e mim
Se abre, e nesse (...) abismo não há nada...
Ditoso o tempo em que eu sonhava, e às vezes
Eu parava de ler para seguir
Os cortejos em mim... Amor, orgulho,
— Crenças inda! — pintavam os meus sonhos...
E com muita insistência[?], eu era (...)
O amante de belezas (...)
E o rei de povos vagos e submissos;
E quer em braços que eu sonhava, ou entre
As filas (...) prostradas, eu vivia
Sublimes nadas, alegrias sem cor.
Mas
Hoje nenhuma imagem, nenhum vulto
Evoco em mim... Só um deserto aonde
Não a cor dum areal, nem um ar morto
Posso sonhar... Mas tendo só a ideia,
Tendo da cor o pensamento apenas,
Vazio, oco, sem calor nem frio,
Sem posição, nem direcção, nem (...)
Só o vazio lugar do pensamento...
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Fernando Pessoa
Chamam-te boa, e o sentido
Chamam-te boa, e o sentido
Não é bem o que eu supunha.
Boa não é apelido:
É, quando muito, alcunha.
Não é bem o que eu supunha.
Boa não é apelido:
É, quando muito, alcunha.
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Fernando Pessoa
Todos lá vão para a festa
Todos lá vão para a festa
Com um grande azul de céu.
Nada resta, nada resta...
Resta sim, que resta eu.
Com um grande azul de céu.
Nada resta, nada resta...
Resta sim, que resta eu.
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