Espiritualidade
Poemas neste tema
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi
Onde nuvens escuras como aranhas
Roem o perfil roxo das montanhas
Entre poentes cor-de-rosa e frios.
Transbordante passei entre as imagens
Excessivas das terras e dos céus
Mergulhando no corpo desse deus
Que se oferece, como um beijo, nas paisagens.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nocturno da Graça
Um rumor de bosque no canto dos cedros
Sob o íman azul da lua cheia
O rio cheio de escamas brilha.
Negra cheia de luzes brilha a cidade alheia.
Brilha a cidade dos anúncios luminosos
Com espiritismo bares cinemas
Com torvas janelas e seus torvos gozos
Brilha a cidade alheia.
Com seus bairros de becos e de escadas
De candeeiros tristes e nostálgicas
Mulheres lavando a loiça em frente das janelas
Ruas densas de gritos abafados
Castanholas de passos pelas esquinas
Viragens chiadas dos carros
Vultos atrás das cortinas
Cíclopes alucinados.
De igreja em igreja batem a hora os sinos
E uma paz de convento ali perdura
Como se a antiga cidade se erguesse das ruínas
Com sua noite trémula de velas
Cheia de aventurança e de sossego.
Mas a cidade alheia brilha
Numa noite insone
De luzes fluorescentes
Numa noite cega surda presa
Onde soluça uma queixa cortada.
Sozinha estou contra a cidade alheia.
Comigo
Sobre o cais sobre o bordel e sobre a rua
Límpido e aceso
O silêncio dos astros continua.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Medeia
Três vezes roda, três vezes inunda
Na água da fonte os seus cabelos leves,
Três vezes grita, três vezes se curva
E diz: «Noite fiel aos meus segredos,
Lua e astros que após o dia claro
Iluminais a sombra silenciosa,
Tripla Hecate que sempre me socorres
Guiando atenta o fio dos meus gestos,
Deuses dos bosques, deuses infernais
Que em mim penetre a vossa força, pois
Ajudada por vós posso fazer
Que os rios entre as margens espantadas
Voltem correndo até às suas fontes.
Posso espalhar a calma sobre os mares
Ou enchê-los de espuma e fundas ondas,
Posso chamar a mim os ventos, posso
Largá-los cavalgando nos espaços.
As palavras que digo e cada gesto
Que em redor do seu som no ar disponho
Torcem longínquas árvores e os homens
Despedaçam-se e morrem no seu eco.
Posso encher de tormento os animais,
Fazer que a terra cante, que as montanhas
Tremam e que floresçam os penedos.»
Sophia de Mello Breyner Andresen
Deus Puro, Apolo Musageta
Deus sem espinhos e sem cruz,
Ofereço-te a plenitude secreta
Em que bebi e vivi a tua luz.
Ofereço-te a minha alma transbordante
De mil exaltações,
Purificada em mil confissões
Da sua longa tristeza delirante.
Ofereço-te as horas deste dia completas
No teu sol tocando as coisas materiais,
Ofereço-te as nostalgias secretas
Que se perderam em gestos irreais.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Serenamente Sem Tocar Nos Ecos
Ergue a tua voz
E conduz cada palavra
Pelo estreito caminho.
Vive com a memória exacta
De todos os desastres
Aos deuses não perdoes os naufrágios
Nem a divisão cruel dos teus membros.
No dia puro procura um rosto puro
Um rosto voluntário que apesar
Do tempo dos suplícios e dos nojos
Enfrente a imagem límpida do mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Naquelas Noites
Enquanto o suor das árvores escorria,
A face dos anjos tornara-se evidente,
Como se a terra tivesse entrado em agonia.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Poema para a filha Maria
No escuro percebi que eras tu, Maria,
A minha filha adorada, boa como o pão
e fonte de alegria
(ilegível)
Pareceu-me que era felicidade a mais ficares
Até altas horas decifrando o azul escuro
Dos rostos da noite e era para mim a inteira
Maria, bela, misteriosa, boa
E tudo em mim ficou confiança e amor partilhado
E Deus tinha derramado sobre nós
A benção da sua mais alta estrela
E a beleza da noite nos acompanha
Hoje onze de Agosto
E a noite parecia encantada
Poema inédito
Sophia já estava bastante doente quando escreve este poema
para a filha Maria, na noite de 11 de Agosto de 2002, em Lagos, Meia-Praia.
Fonte: Biblioteca Nacional de Portugal, 2011
Nuno Júdice
Soneto 1
há um murmúrio de mastros, longo como o pescoço
de uma estátua de virgem. Trá-lo até mim o vento
e bebo-o de um trago, numa secura ardente de poço.
No cais onde tu, sombra ausente sob os painéis
litorais, bocejas um tédio de suis, estendo os braços,
ergo-me num só pé, e todo o corpo se levanta
no êxtase dos guindastes, numa fuga de batéis.
A ilha está próxima. Desembarco. O promontório
vago acolhe o barco numa vibração de lago. Corro
entre alas de gaivotas, perdido do meu próprio
corpo; e caio em mim. Esqueci-me das malas;
deixei-me no molhe. Quem sou? Dos céus o eco inglório
me persegue. Nas valas gritam deuses por socorro.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 50 | Na regra do jogo, 1982
Nuno Júdice
A prova do humano
ao enrolar o tabaco, limpou o indicador cheio de cuspo
no tampo da mesa? Ali, há exactamente dois dias,
sentara-me eu a escrever reflexões religiosas e um canto
filosófico; depois, cansado do trabalho mental,
desenhei a lápis duas ou três figuras na madeira gasta.
Agora, os restos de café e a saliva dos velhos transformam
esses desenhos banais em peças
de uma autêntica mitologia.
O fumo do tabaco envolve-os como se fosse uma névoa antiga,
e as palavras trocadas, a meia voz,
pelos ocasionais frequentadores daquele canto
lembram-me esconjuros, maldições, ou apenas
a invocação de algum espírito transitório.
Assim, não posso passar sem ir, uma ou duas vezes por dia,
àquele sítio: observar um vulto que, inconscientemente,
iniciei; e também ouvi o velho Baco
cujas histórias me dão sede e sono.
Mas que fazer nesta cidade de província,
no inverno, à parte ouvir os velhos
ou inventar histórias, enquanto se bebe café
e aguardente?
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 77 | Quetzal Editores, 1991
Susana Thénon
Histórias de Magia
que o mar o alcance.
Quer ser o garoto
ausente, à hora do passeio.
Se cobre de areia.
É um barco naufragado.
Um administrador para
e pensa, quatro vezes quis demasiado.
(Os números celestes determinam
aos números sujos de terra
em Cannes, nos porões violentos
de Cannes, e em
todos todos os presságios de amor).
Um louco estende a mão
e pede água, é cinza
a água com o cristal, com a parede,
com a tarde
esparramada no relógio de sol.
Um sacerdote pensa, sou um homem
com altura e pele de cepa:
Minha rosa vive ainda,
enlouquece debaixo da túnica.
Sou um sino de luto.
Um homem de sentará e dirá estou cansado
Um homem se estenderá ao sol e dirá por quê
Um homem será o bastante para dizê-lo
Um homem pulará o muro
e dirá não.
Nuno Júdice
Hino
mergulhado na volúpia da sombra, o castanho claro
dos cabelos estéreis num retrato de epílogo. Re-
conheço o frio número da água, a noite perdida
num hálito de anjos, no fontanário grito do ganso.
Essa noite suspensa de um desmaio de nebulosas,
imobilizada pelo tremor dos prelúdios, apressada
amante na descida do abismo, avançou, breve maré,
submergindo a obscura nudez das estrelas no
finito oriente do olhar. Reconheço a falésia
do dormente desejo de eternidade, um flutuar
de precipitações no ritmo das pálpebras, o si-
lêncio, vago íman da impaciência. Murmúrio
de génesis num pousar de dedos, rebordo de limites
na abdicação do gesto. Mágico círculo divino.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 17 | Na regra do jogo, 1982
Susana Thénon
Hoje
do anjo-barro: o amor
selou
seus vasos comunicantes.
Guardemos o incenso
para os verões públicos.
Deus não funciona.
Susana Thénon
Aqui
em meu lado raivoso
e molha suas pupilas
por minha última morte.
Aqui o sangue,
aqui o beijo dissoluto,
aqui a torpe fúria de deus
florescendo em meus ossos.
Susana Thénon
Inferno
que joga veneno em seu lábio?
Acredita no rancor
que te morde até diluir seu inferno?
Acredita na lenda
dos polos opostos
e nesta adorável mentira
da inimizade entre água e azeite?
Hoje?
quando o amor se disfarça de ódio
para sobreviver,
quando o carrasco chora
atrás da morte
e deus descansa?
Nuno Júdice
Soneto 4
São elas que profetizam a minha sorte
e acredito no que dizem; metade
de mim parte-se num ruído de jade.
Conheço anjos que dizem coisas sem nexo,
ébrios e louros, mostrando-me o sexo.
Eles roçam o peito pelas esquinas
e agarram-se num espasmo à alma em ruínas.
Subitamente tenho vontade de ler o Sade;
deito-me na eternidade e sou um deus sem idade:
- "Cego, mas de olhos abertos, tenho saudade:
de homens que amei, estátuas, vinho, tangerinas,
o exótico som das místicas mandolinas
tocando sonatas para pierrots e colombinas."
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 53 | Na regra do jogo, 1982
Raquel Nobre Guerra
Biqueirões Caseiros
prepará-lo como carne boa para montada
lamber-lhe o carnaz até ao osso tomá-lo
na garganta, deixá-lo crescer para cima
deve-se manter escravo o desejo à entrada
o apetite subirá púrpura num exótico
que não pode aqui
é preciso implicar no covil no seu grau maior
entrar gardinando a tamborilhar-lhe os bordos
é preciso persistir para engoli-lo, contê-lo
como uma erecção -
comecemos delicadamente pelo topo
Raquel Nobre Guerra
Onde se come
assim cantará no meu epitáfio.
Sais de casa porque a morte te agita
transpiras pelo empregado de mesa
que lê Balzac, tens ambições literárias
razões, enfim, para andar mal vestido
despenteado com um saco na cabeça
para que se diga ali vai a poesia portuguesa.
Queres até salvar o mundo do enxofre
da má sina dos coitados que aspiram
à avara sedução do matadouro.
Serei breve.
Quero entrar para a história da literatura
com um verso roubado a alguém,
por exemplo,
uma adolescente grávida com um grande espaço entre os dentes
a dar na chinesa com a mãe.
Grande imagem sacada à presteza dos dias
mas que importa? Se aqui neste bairro ninguém sabe ler
e eu ardo na cupidez de ganhar para a lírica
porque nestes casos o melhor é ser-se culinário
e fazer segredo, dizer apenas que sou feliz
no meio da porcaria a dez minutos da humanidade.
Senhor Roubado-Café Lenita - Senhor Roubado
Quero escrever o poema mais feliz do meu bairro
levantar ao alto os olhos do dealer
dizer que é possível remediar os dias
fazer magia, dizer sim, moro aqui
com uma reserva de Foucault e uma mesinha
que me dá liberdade a um combro do lixo.
Mas sou uma criatura tão pequena quanto a certeza
de que esta gente toda me perdoaria se eu dissesse
que me envergonha morar aqui
e que lhes levo a vida com a ligeireza de um carteirista.
Raquel Nobre Guerra
Bebo uma bica por dia
depois disto bem que podia morrer, diga-se
com as mãos ao redor de um pescoço amigo
quero dizer, de um livro.
Tenho o carácter objectivo de uma incompetência para a vida.
Sapato gordo, pé franzino, amor quase extinto.
Tanto nome derrotado às minhas mãos vazias.
Haverá certamente uma fórmula adequada
uma domesticidade última de perseverar
em ambas as condições: vivo e morto.
Ser imparcial a meia mão estendida
que frase estúpida para quem insiste
fazer de tudo fronteira com o absoluto.
A verdade é que na verdade não quero nada
como qualquer outra coisa que pudesse querer.
Refaço-me e peço a tal bica que me transfere
a atenção para a vocação de mendiga e altiva
no meu separado insulto ao grande cu do mundo.
Há uma mulher a mais aqui que se eu pudesse subia
e que me devolve o soco do anonimato
não há Buda que nos valha, menina, que fazer?
E eu vou ao café ainda assim para assegurar
que, pelo menos enquanto bebo, persisto
ou talvez seja Deus numa versão melhorada de mim.
Manuel António Pina
Se falo
Se falo falta-me um
silêncio rápido no papel: entre as pernas.
Oh, nesse lugar me comovo! Perverso percurso
do corpo, aqui é a cama, o congresso.
Venais movimentos do corpo na cama; o peso.
Eu falo de mais. Não tenho palavras para isto.
Breve morte que sobre o coração
páras tua mortal perversão, a tua morte,
falta-me subitamente com a tua
mão e que eu morra como um corpo
dentro do coração da luz do silêncio
que me cale que não viva nem esteja morto.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 28 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Os tempos não
Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.
É pelo hálito que te conheço no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se de mais são tempos de poucas palavras.
Falo contigo de mais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que não temos nada a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 11 | Assírio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
Zoologia: o porco
na caverna de Platão: o seu mundo
é o mundo das sombras.
Quando olha para o chão,
vê o paraíso; quando olha para o céu, está
com a faca na garganta.
Mas o porco também sonha que
tem asas como um anjo, e que a sua pocilga
fica nas nuvens.
Nos seus sonhos, deus guincha
como um porco, e a árvore do paraíso
está cheia de bolotas.
Por isso o porco não tira o focinho
da terra, em busca de uma abertura
para o céu.
Nuno Júdice | "A Matéria do Poema" | Publicações Dom Quixote, 2008
Manuel António Pina
A mensagem do teu
A mensagem do teu lábio superior
salta bip o parapeito que nos separa
e habita urgentemente nos meus olhos
e repetidamente e urgentemente convoca os meus olhos
para a saudade publicada na tua cara
com slogans de néon interior
Sei que sabes uma palavra indecente
e que tens vergonha dela como se essa palavra fosse
a tua roupa de dentro
Sei o que pensas sei o que fazes
sei coisas que tu mesma não sabes
Sabes, por exemplo, que estás noiva? E que o malandrim
afinal de contas é sargento de infantaria?
Mas deixa lá homens é o que há mais
E (sabes?) os oficiais
O morse lábio bip bip noticia:
ATENÇÃO ATENÇÃO ESTOU QUASE SOZINHA
E sei pormenores da tua respiração
concretos, fotografias
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 51 | Assírio & Alvim, 2012
José Miguel Silva
Uffizi
no país da arte sacra? Como pode
libertar-se da noção de que estes jogos
de volumes, estes planos vivamente
coloridos, representam tudo aquilo em
que não crê: o fanatismo, a videiterna,
o sacrifício do corpo? Deambula
pelas salas como um cão esfomeado
por um campo de tremoço, sem achar
em tão exótica e senil mitologia
firme carne onde ferrar o pensamento.
Irritado, estuga o passo, cada vez
mais insensível à seráfica beleza
das madonas parideiras, de sorriso
complacente, ao intérmino desfile
de agonias, ascensões e pietás,
procurando avidamente as belas damas
de Bronzino, as doces Vénus ou até
o rosto duro (mas humano, pelo menos)
de burgueses, mercenários e fidalgos:
emissários do real, da violência
do desejo deturpado em senhorio.
À saída é contemplado pelo ébrio
sorriso dum velhaco sem futuro,
p'lo olhar esfomeado duma Maggie
de cem quilos, por dois cacos à procura
duma cola essencial. E promete
a São Vermeer cometer a breve trecho
expiatória romagem ao terreno,
liberal e nivelado mundo novo
da pintura de seiscentos holandesa.
José Miguel Silva
Nunca gostei de portas
um grosseiro despotismo. Não percebia por
que razão davam passagem a uns e outros não.
Rebelei-me contra elas, tornei-me arrombador.
Decidido a contestar os seus desígnios, passei
os melhores anos da minha juventude a estudar
o idioma das fechaduras. Aos poucos, alcancei
uma secreta mestria: nenhuma resistia à sedução
dos meus arames. As portas franqueadas, e não
o que atrás delas se defende, procurava. Poucas
vezes roubei. Esta alegria me bastava - introduzir
desordem na composta segurança duma casa.
Agora que penso nisso, acho que havia algo
de bárbaro nessa minha obsessão por destruir
a ilusória placidez das fortalezas, os escudos
da propriedade, da suficiência. Porta atrás
de porta, a minha vida passou. Até chegar aqui,
a este lugar indistinto. Também nele há uma porta.
Não me seria difícil arrombá-la. Não fosse dar-se
o caso (e esse é o castigo da minha soberba)
de não saber se estou no céu ou no inferno.
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