Árvores florestas e montanhas
Poemas neste tema
António Ramos Rosa
Imóveis, Enquanto a Luz Declina…
Imóveis, enquanto a luz declina,
harmoniosas plantas unidas no repouso, religião lisa.
Mútuos barcos embalados completam-se
sobre o solo inefável que atingiram.
Embalam-se, embalam-se longos sob a luz
na extensão curvando o seu volume vivo.
Alimentam-se, bebem-se devagar, consomem-se
inextinguivelmente.
Acenderam a lâmpada dentro da qual se vêem,
sobre o mesmo tapete voam imóveis flores.
Viajam na imobilidade.
Soberania vegetal. Diadema após o festim.
Não o sabiam antes, o imprevisível sim.
O que não tem princípio, porque é o princípio e o fim,
porque é o centro da teia que entretecem,
onde estão, onde repousam, solo onde irradiam longos.
Não falam. Como falar dentro de uma lâmpada? Ciciam.
Renovam-se de onda a onda, o mesmo é o novo ser.
Respiram prolongados. Não cessam. Recomeçam
na incandescência suave. Têm a febre do dia.
Regressaram. Regressam. Estão donde partem.
Onde retornam. Circulam sem se mover.
Longamente calmos, abraçam-se como jorros
bebendo-se mutuamente sem nunca se confundirem,
e por isso retornam, incessante roda
que é o seu estar sob o repouso da luz.
harmoniosas plantas unidas no repouso, religião lisa.
Mútuos barcos embalados completam-se
sobre o solo inefável que atingiram.
Embalam-se, embalam-se longos sob a luz
na extensão curvando o seu volume vivo.
Alimentam-se, bebem-se devagar, consomem-se
inextinguivelmente.
Acenderam a lâmpada dentro da qual se vêem,
sobre o mesmo tapete voam imóveis flores.
Viajam na imobilidade.
Soberania vegetal. Diadema após o festim.
Não o sabiam antes, o imprevisível sim.
O que não tem princípio, porque é o princípio e o fim,
porque é o centro da teia que entretecem,
onde estão, onde repousam, solo onde irradiam longos.
Não falam. Como falar dentro de uma lâmpada? Ciciam.
Renovam-se de onda a onda, o mesmo é o novo ser.
Respiram prolongados. Não cessam. Recomeçam
na incandescência suave. Têm a febre do dia.
Regressaram. Regressam. Estão donde partem.
Onde retornam. Circulam sem se mover.
Longamente calmos, abraçam-se como jorros
bebendo-se mutuamente sem nunca se confundirem,
e por isso retornam, incessante roda
que é o seu estar sob o repouso da luz.
960
António Ramos Rosa
Sol de Inverno
Os joelhos gelam ao vento alto das ervas.
Caminho soprado, sôfrego, a boca rasa.
Nós agudos, montanha viva, acesa face.
Estrito o sol se apura a fio.
Pedras com sabor de terra nua.
O caminho arrefece já sob as sombras.
Sede de vento alto que se desfaz.
Límpido e frio, a nula fronte do ar me investe.
Caminho soprado, sôfrego, a boca rasa.
Nós agudos, montanha viva, acesa face.
Estrito o sol se apura a fio.
Pedras com sabor de terra nua.
O caminho arrefece já sob as sombras.
Sede de vento alto que se desfaz.
Límpido e frio, a nula fronte do ar me investe.
1 014
António Ramos Rosa
Órbita de Verão — 1
As duas vertentes — mar e terra
numa só folha lúcida.
Respiro a larga oval,
sólida lâmpada
de pedra
e ar.
Seguro a corda
nova e nua
deste campo.
numa só folha lúcida.
Respiro a larga oval,
sólida lâmpada
de pedra
e ar.
Seguro a corda
nova e nua
deste campo.
1 049
António Ramos Rosa
O Que Escrevo Ou Não Escrevo
Caminho com a pequena lâmpada vazia
flutuando entre as árvores, lentas ancas.
Escrevo: corpo do dia ao fim da rua.
A lâmpada desenha com a minha mão os traços finos.
Lâmpada ou pulso que nasceu das pedras.
Caminho com o sol, acendo-o entre árvores e telhados.
É duro e seco em cada passo o dia que desliza.
O pulso acende-se junto às paredes no calor da sombra.
O que escrevo ou o que não escrevo é a pequena lâmpada,
solta ao rés da terra, estilhaçada a cada passo.
flutuando entre as árvores, lentas ancas.
Escrevo: corpo do dia ao fim da rua.
A lâmpada desenha com a minha mão os traços finos.
Lâmpada ou pulso que nasceu das pedras.
Caminho com o sol, acendo-o entre árvores e telhados.
É duro e seco em cada passo o dia que desliza.
O pulso acende-se junto às paredes no calor da sombra.
O que escrevo ou o que não escrevo é a pequena lâmpada,
solta ao rés da terra, estilhaçada a cada passo.
1 106
António Ramos Rosa
Manchas
Uma palavra aberta
uma palavra torre
de espaço
uma veia sonora
germinação clara
espiral para o sol
Uma teia que vive
sobre a água sem medo
uma estrela na rua
tão rápida
sobre o muro incendiado
Disseminada sede
rede na terra verde
larga vela
violenta e alta
sobe
passa uma sombra azul
Passos na terra
marcas de lábios
poças de tempo minúsculo
para um insecto lento
Terra que desce às mãos
sono de poço branco
flexível lentidão
de uma árvore que caminha
uma palavra torre
de espaço
uma veia sonora
germinação clara
espiral para o sol
Uma teia que vive
sobre a água sem medo
uma estrela na rua
tão rápida
sobre o muro incendiado
Disseminada sede
rede na terra verde
larga vela
violenta e alta
sobe
passa uma sombra azul
Passos na terra
marcas de lábios
poças de tempo minúsculo
para um insecto lento
Terra que desce às mãos
sono de poço branco
flexível lentidão
de uma árvore que caminha
966
António Ramos Rosa
As Linhas Matinais
As linhas matinais estão disponíveis
frescas resolutas segui-las
cheiram a pão da terra
perseguir até ao fim achar o mar
uma árvore em frente verde
caminhar
as lâminas sob os pés
as páginas trepidantes lisas
para trás ainda o sol para cima para a frente
as mulheres fortes na manhã
As linhas para o mar
sem demora olhar atravessar
alegres como os passos
caminhar no sol nas rectas
boa distribuição da luz coada entre as árvores
alta figura
rasgada e juvenil à distância do braço
os olhos e a língua devoram-na sobre os passos
é uma cabeça um tronco para o sol
um olhar instantâneo ignorado
o mar deserto e vasto
afoga todas as linhas
a árvore verde
frescas resolutas segui-las
cheiram a pão da terra
perseguir até ao fim achar o mar
uma árvore em frente verde
caminhar
as lâminas sob os pés
as páginas trepidantes lisas
para trás ainda o sol para cima para a frente
as mulheres fortes na manhã
As linhas para o mar
sem demora olhar atravessar
alegres como os passos
caminhar no sol nas rectas
boa distribuição da luz coada entre as árvores
alta figura
rasgada e juvenil à distância do braço
os olhos e a língua devoram-na sobre os passos
é uma cabeça um tronco para o sol
um olhar instantâneo ignorado
o mar deserto e vasto
afoga todas as linhas
a árvore verde
1 028
António Ramos Rosa
Árvore
Forço e quero ao fundo delicadamente
como subindo no sentido da seiva
espraiar-me nas folhas verdejantes,
espaçado vento repousando em taças,
mão que se alarga e espalma em verde lava,
tronco em movimento enraizado,
surto da terra, habitante do ar,
flexíveis palmas, movimentos, haustos,
verde unidade quase silenciosa.
como subindo no sentido da seiva
espraiar-me nas folhas verdejantes,
espaçado vento repousando em taças,
mão que se alarga e espalma em verde lava,
tronco em movimento enraizado,
surto da terra, habitante do ar,
flexíveis palmas, movimentos, haustos,
verde unidade quase silenciosa.
1 032
António Ramos Rosa
Nova Estação
Toda a gente passou a cumprimentar-nos.
O sol é novo através da chuva.
Abrem-se as janelas com cuidado.
Uma frescura sobe ao compasso da terra.
Fomos crianças. As árvores tilintam.
É tempo de trabalhar
inquietamente.
Tempo de caminhar com presteza
pelas calçadas húmidas.
Tempo de ser vergastado pelo vento.
Tempo de lutar contra o vento.
Tempo sério.
A cidade é grande, cinzenta, verde.
Paremos.
Os troncos negros brilham.
Há um fervor no ar.
Mil centelhas pululam.
As fachadas são largas, lisas.
Respiremos.
Vamos continuar o dia.
O sol tão disseminado,
vibrante além nas pedras.
E sombra deste lado e quase azul.
Um animal lentamente passa
entre caminhantes apressados.
No tumulto dos metais entre os brilhos,
nós, sossegados, vemos.
O sol é novo através da chuva.
Abrem-se as janelas com cuidado.
Uma frescura sobe ao compasso da terra.
Fomos crianças. As árvores tilintam.
É tempo de trabalhar
inquietamente.
Tempo de caminhar com presteza
pelas calçadas húmidas.
Tempo de ser vergastado pelo vento.
Tempo de lutar contra o vento.
Tempo sério.
A cidade é grande, cinzenta, verde.
Paremos.
Os troncos negros brilham.
Há um fervor no ar.
Mil centelhas pululam.
As fachadas são largas, lisas.
Respiremos.
Vamos continuar o dia.
O sol tão disseminado,
vibrante além nas pedras.
E sombra deste lado e quase azul.
Um animal lentamente passa
entre caminhantes apressados.
No tumulto dos metais entre os brilhos,
nós, sossegados, vemos.
980
António Ramos Rosa
Lâminas
Um fogo frio sob as pedras
tela seca
a madeira no lugar dos ossos
o cheiro do ferro
a calma violência do sangue alimentado
punho acerado
porta de ar
lâmina entre os lábios
Manhã sem caminho
pedra alta e seca
e mão pousada ouvindo
cratera de cal
meio-dia sem relógio
um dedo na ranhura soletra
a boca da terra
Chão de seda
a flor ágil que respira
move-se
um tronco de água dura
o odor de ferro
a terra cheia até aos bordos
tela seca
a madeira no lugar dos ossos
o cheiro do ferro
a calma violência do sangue alimentado
punho acerado
porta de ar
lâmina entre os lábios
Manhã sem caminho
pedra alta e seca
e mão pousada ouvindo
cratera de cal
meio-dia sem relógio
um dedo na ranhura soletra
a boca da terra
Chão de seda
a flor ágil que respira
move-se
um tronco de água dura
o odor de ferro
a terra cheia até aos bordos
961
António Ramos Rosa
Ar Unânime
No vento e no fogo, uma única cintilação, o caminho — uma só respiração.
A alguns metros o mar, plano, as árvores concentradas, um silêncio espesso entre dois passos, a ondulação da serra.
A terra, com o calor do sol, pedras de cinza viva, frescor espalhado de ervas, abraço à roda do chão.
Um grilo vivo, o voo dum pássaro, no sono do ar, a pupila brilha.
As nuvens planam, as sombras respiram.
Da margem — ponto silencioso sob a luz morna e arrepios de brisa, no silêncio da água plana sob a luz — e outra face do céu.
Presença imóvel ao ar, ao mar, à montanha, mais fundo na imobilidade, ó retina!
Tosco tronco magro — inflas a uma respiração sem sobressalto e o arrepio de um voo sublinha a ondulação unânime.
A alguns metros o mar, plano, as árvores concentradas, um silêncio espesso entre dois passos, a ondulação da serra.
A terra, com o calor do sol, pedras de cinza viva, frescor espalhado de ervas, abraço à roda do chão.
Um grilo vivo, o voo dum pássaro, no sono do ar, a pupila brilha.
As nuvens planam, as sombras respiram.
Da margem — ponto silencioso sob a luz morna e arrepios de brisa, no silêncio da água plana sob a luz — e outra face do céu.
Presença imóvel ao ar, ao mar, à montanha, mais fundo na imobilidade, ó retina!
Tosco tronco magro — inflas a uma respiração sem sobressalto e o arrepio de um voo sublinha a ondulação unânime.
1 058
António Ramos Rosa
O Fogo Me Inunda
Aí, no fogo, onde o gesto começa e a força rompe. A mão percorre o lombo, o dia cheio, as palavras esvaem-se no céu. Sopra uma árvore. Um tinido breve, uma cadeia de nomes, a brancura no silêncio que ondula. Viver é exalar esta frescura, colmá-la na planície. Ergue-se a crista até ao silêncio do céu, o espaço se abre à anunciação do vazio, um nome canta, chia, tudo é montanha livre, raça, inundação.
Correr na alegria do espaço — força, felicidade de veias rompendo, cabelos, sussurro de palmas, língua, sonora alma.
Embate de corpos, planície de ondas, rolar de seios, vozes que sopram, braços de vento, ar no ar, água, ar, fogo.
Tempestade de nomes, cristal de florestas, as harmonias dilaceram-se.
Ergue-se a voz da parede, até ao sol, e declina como uma ave subscrevendo o céu inteiro.
Vértice profundo, como um só tronco de veias, no estuário do dia.
Correr na alegria do espaço — força, felicidade de veias rompendo, cabelos, sussurro de palmas, língua, sonora alma.
Embate de corpos, planície de ondas, rolar de seios, vozes que sopram, braços de vento, ar no ar, água, ar, fogo.
Tempestade de nomes, cristal de florestas, as harmonias dilaceram-se.
Ergue-se a voz da parede, até ao sol, e declina como uma ave subscrevendo o céu inteiro.
Vértice profundo, como um só tronco de veias, no estuário do dia.
1 014
António Ramos Rosa
Primavera
Falo por palavras
duras rasas
Uma raiva tranquila
habita-me
O meu dia existe
neste punho de pedra
nesta serra verde
nesta casa fria
Uma folha canta
É um lábio livre
Uma folha olha
tranquilamente
Olho é bom olhar
ver o tronco
as ramagens finas
a boca que espera
no murmúrio das folhas
Estou só e o sol sobe
num céu que desconheço
duras rasas
Uma raiva tranquila
habita-me
O meu dia existe
neste punho de pedra
nesta serra verde
nesta casa fria
Uma folha canta
É um lábio livre
Uma folha olha
tranquilamente
Olho é bom olhar
ver o tronco
as ramagens finas
a boca que espera
no murmúrio das folhas
Estou só e o sol sobe
num céu que desconheço
987
António Ramos Rosa
Por Uma Aridez Fecunda
É o tempo de uma árvore ou de um cão,
é essa grave simplicidade de estar
com o Sol.
É o tempo em que sentados na pedra
ouvíamos a erva. E era Verão.
*
De nada, nem de música,
nem de qualquer glória humilde...
Apenas esta secura de meio-dia,
esta sem-razão tão grande como a vela
no mar.
Oh, ninguém viu o ouvido da árvore,
mas ouvi-o eu.
*
Mais uma vez longamente
qualquer coisa que seja a negação de tudo isto!
Na fenda da muralha
o riso da árvore,
um outro tempo,
um desvio no destino,
a claridade a pique.
*
Não de rosas
nem de breves titilações.
Mas somente a quebra
branca
a aurora de pedra
o frio dos lábios no sonho
a terra junto
um abraço ao poço.
é essa grave simplicidade de estar
com o Sol.
É o tempo em que sentados na pedra
ouvíamos a erva. E era Verão.
*
De nada, nem de música,
nem de qualquer glória humilde...
Apenas esta secura de meio-dia,
esta sem-razão tão grande como a vela
no mar.
Oh, ninguém viu o ouvido da árvore,
mas ouvi-o eu.
*
Mais uma vez longamente
qualquer coisa que seja a negação de tudo isto!
Na fenda da muralha
o riso da árvore,
um outro tempo,
um desvio no destino,
a claridade a pique.
*
Não de rosas
nem de breves titilações.
Mas somente a quebra
branca
a aurora de pedra
o frio dos lábios no sonho
a terra junto
um abraço ao poço.
991
António Ramos Rosa
Terraço Aberto
Terraço aberto
aos ventos e aos astros
crivado
das balas de frescura
das ranhuras do sol
muros
onde vejo dedos
muros fraternos
de meus ossos
aqui respiro
através das flores
da chaminé
nos planos brancos
nos montes azulados
nas velas brancas
nas areias douradas
aqui respiro
a claridade
aos ventos e aos astros
crivado
das balas de frescura
das ranhuras do sol
muros
onde vejo dedos
muros fraternos
de meus ossos
aqui respiro
através das flores
da chaminé
nos planos brancos
nos montes azulados
nas velas brancas
nas areias douradas
aqui respiro
a claridade
1 100
António Ramos Rosa
No Vagar da Terra
Serão nossos os nomes nesta pausa,
mas ela é a própria luz do campo que persiste
com sua seiva concentrada em nós tranquilos,
a madeira em que silêncio e força se conjugam
para a dicção diurna das fragrâncias visíveis.
mas ela é a própria luz do campo que persiste
com sua seiva concentrada em nós tranquilos,
a madeira em que silêncio e força se conjugam
para a dicção diurna das fragrâncias visíveis.
956
António Ramos Rosa
Monólogo
Perdi a infância e as grandes horas
e procuro numa árvore não sei que intimidade
como se um sol para as mãos nascesse deste olhar
mas a inocência é rápida como o brilho
silenciosa
e existe em si mesma.
Uma forma, sim, sempre silenciosa
dia a dia nascida da surpresa e constância
dia a dia nascida da inocência, mas
como fugir a esta inútil presença?
e procuro numa árvore não sei que intimidade
como se um sol para as mãos nascesse deste olhar
mas a inocência é rápida como o brilho
silenciosa
e existe em si mesma.
Uma forma, sim, sempre silenciosa
dia a dia nascida da surpresa e constância
dia a dia nascida da inocência, mas
como fugir a esta inútil presença?
1 161
António Ramos Rosa
Sequência
Palpita sobre a página
desejo de olhar nu
Ó lucidez sem forma
Gruta fresca em silêncio
Golpes secos retumbam
onde deslizam dedos
na pelagem dum bicho
inerme oco à escuta
verde te espera alguém
*
Ave minúscula núcleo
radical obscuro
caroço dum soluço
dura sombra do sol
Na garganta redondo
visível quase nu
se escrevo e tento só
desmembrá-lo. Soluço.
*
Breves ramos visíveis
verde, móvel folhagem
respiro neste silêncio
de ar e luz.
Nas veias desta árvore
percorro lentamente
o silêncio da seiva.
Agora posso ver-te.
*
Movimentos que entronco
em palpitantes feixes
de fibras enervadas
num só corpo direito
afirmo esta presença
mais verde e intacta
como árvore ao ar que abraça.
*
Soluço ou semente
irredutível,
presença obscura mínima
sombra sempre tangente
de súbito só vento
deslizando
ausente.
desejo de olhar nu
Ó lucidez sem forma
Gruta fresca em silêncio
Golpes secos retumbam
onde deslizam dedos
na pelagem dum bicho
inerme oco à escuta
verde te espera alguém
*
Ave minúscula núcleo
radical obscuro
caroço dum soluço
dura sombra do sol
Na garganta redondo
visível quase nu
se escrevo e tento só
desmembrá-lo. Soluço.
*
Breves ramos visíveis
verde, móvel folhagem
respiro neste silêncio
de ar e luz.
Nas veias desta árvore
percorro lentamente
o silêncio da seiva.
Agora posso ver-te.
*
Movimentos que entronco
em palpitantes feixes
de fibras enervadas
num só corpo direito
afirmo esta presença
mais verde e intacta
como árvore ao ar que abraça.
*
Soluço ou semente
irredutível,
presença obscura mínima
sombra sempre tangente
de súbito só vento
deslizando
ausente.
966
António Ramos Rosa
Ter Um Braço de Barro, Um Braço Apenas
a Alexandre O’Neill
Ter um braço de barro, um braço apenas
todo o carinho: terra!
Cabelos, telhas, livros, solidões
pedras e pedras, pedras
e ruídos doces de casas velhas de fundos corredores.
Um braço: uma raiz.
Um menino que mija no escuro sobre as estrelas
sobre o meu rosto:
no chão, na terra, nas pedras, no estrume,
irmão do insecto, obscuro, pesado
de muros, ervas, ossos e flores.
Um pássaro?
Um braço
Um braço de terra, pedras, ossos,
um braço: todo o carinho, terra.
Ter um braço de barro, um braço apenas
todo o carinho: terra!
Cabelos, telhas, livros, solidões
pedras e pedras, pedras
e ruídos doces de casas velhas de fundos corredores.
Um braço: uma raiz.
Um menino que mija no escuro sobre as estrelas
sobre o meu rosto:
no chão, na terra, nas pedras, no estrume,
irmão do insecto, obscuro, pesado
de muros, ervas, ossos e flores.
Um pássaro?
Um braço
Um braço de terra, pedras, ossos,
um braço: todo o carinho, terra.
1 148
António Ramos Rosa
Homens Caminhando No Escuro
Resíduos frescos entre estames caídos.
Mínimas luzes. Marcha branda.
Caminhamos colados ao vento
faces devoradas
— um tilintar de copos numa casa para além do caminho —
a terra restituída
a um sonho em pé.
(Sob a luz das estrelas, ávidos passos
entre árvores.
Respiramos o bafo de uma terra
rente ao peito.)
Mínimas luzes. Marcha branda.
Caminhamos colados ao vento
faces devoradas
— um tilintar de copos numa casa para além do caminho —
a terra restituída
a um sonho em pé.
(Sob a luz das estrelas, ávidos passos
entre árvores.
Respiramos o bafo de uma terra
rente ao peito.)
913
António Ramos Rosa
Algo Se Forma
Alguém escreve.
Que lago se forma?
Será a noite menos preciosa?
Ela virá mais cedo?
Quando poderás vir?
Caminhamos para onde?
Algo se forma.
Uma pomba no largo.
Um lago?
Para onde ir?
Algo: uma varanda.
Vamos.
Tudo me espera,
a frescura dum barco,
as árvores que balançam para além do muro.
*
Alguém escreve.
E espera.
Um navio entre as árvores?
A casa que se move?
Uma pedra que sobe?
Alguém entrou.
Alguém está.
Todas as portas abertas
deixam entrar o ar.
*
Uma casa deserta
o vento a atravessa
Uma casa deserta
de janelas abertas
Todas as árvores sussurram
o mar tão perto
*
Crivado de palavras
que atravessam o quarto
elas formam um corpo
que respira e se move
que resiste como o ar
Crivado de palavras
o poema respira
*
Que subsiste agora?
Quem esperavas sempre veio?
Voltaste aonde estavas?
Que segredo se forma?
Ou forma se desvenda?
As árvores que balançam
acenam de outro modo?
Voltaste aonde esperavas?
Um rastro de frescura.
Que lago se forma?
Será a noite menos preciosa?
Ela virá mais cedo?
Quando poderás vir?
Caminhamos para onde?
Algo se forma.
Uma pomba no largo.
Um lago?
Para onde ir?
Algo: uma varanda.
Vamos.
Tudo me espera,
a frescura dum barco,
as árvores que balançam para além do muro.
*
Alguém escreve.
E espera.
Um navio entre as árvores?
A casa que se move?
Uma pedra que sobe?
Alguém entrou.
Alguém está.
Todas as portas abertas
deixam entrar o ar.
*
Uma casa deserta
o vento a atravessa
Uma casa deserta
de janelas abertas
Todas as árvores sussurram
o mar tão perto
*
Crivado de palavras
que atravessam o quarto
elas formam um corpo
que respira e se move
que resiste como o ar
Crivado de palavras
o poema respira
*
Que subsiste agora?
Quem esperavas sempre veio?
Voltaste aonde estavas?
Que segredo se forma?
Ou forma se desvenda?
As árvores que balançam
acenam de outro modo?
Voltaste aonde esperavas?
Um rastro de frescura.
969
António Ramos Rosa
É Breve o Dia
As nossas armas contemplam. propagam-se na difusão do ar. Instantâneas, encontram o diamante irrefrangível — a explosão estática.
*
No fulgor de uma lágrima, à beira... a rosa, uma, única, única — identifica-me.
*
É breve o dia no quarto. Não na montanha nem no atalho. É longo o esforço, inenarrável o cansaço. No cume, no fundo, na planura, a mão que liga quarto e montanha, o sono do cavador, o sonho da palavra.
*
Aproximamo-nos, instáveis — é a viveza do ar, o redemoinho breve e claro dos seixos, a palavra que surge viva na tranquilidade das ramagens.
*
Eis a secura. É um homem que caminha. Da sua oficina, na surpresa de um crepúsculo. O princípio de uma liberdade breve — a noite. As estrelas estranhas.
*
O sossego da lâmpada. Um dia. Uma cabeleira que se espraia até ao círculo da página. O quadrado mágico sob que se respira, trabalha — ondula. Hoje.
*
No pressentimento da inocência, de uma fresca fundura perpassam as vozes, circula-se enquanto o espaço se alarga, se aviva a cada canto.
*
A voz promete sobre as mãos, o canto — para além dos telhados, já sobre um mar nocturno. A mão ergue-se na claridade de um gesto e tudo se anima — ó voz fraterna e ágil— como sob uma bandeira transparente.
*
Contra a parede um corpo. Um corpo vivo na semiobscuridade bafejada por um vento anónimo de portal. A glória de um entendimento de acaso sob todos os ventos, sob todos os ventos. A brasa viva.
*
As casas respiram, o mar respira. A noite suspensa. Um coração respira, comunicando.
*
O poema regressa ao ponto de maior agitação e frescura, à ardência de uma proposta instável a que o desejo absoluto de um encontro responde. A nossa interrogação ofegante encontra a respiração própria, frente ao vazio.
*
No fulgor de uma lágrima, à beira... a rosa, uma, única, única — identifica-me.
*
É breve o dia no quarto. Não na montanha nem no atalho. É longo o esforço, inenarrável o cansaço. No cume, no fundo, na planura, a mão que liga quarto e montanha, o sono do cavador, o sonho da palavra.
*
Aproximamo-nos, instáveis — é a viveza do ar, o redemoinho breve e claro dos seixos, a palavra que surge viva na tranquilidade das ramagens.
*
Eis a secura. É um homem que caminha. Da sua oficina, na surpresa de um crepúsculo. O princípio de uma liberdade breve — a noite. As estrelas estranhas.
*
O sossego da lâmpada. Um dia. Uma cabeleira que se espraia até ao círculo da página. O quadrado mágico sob que se respira, trabalha — ondula. Hoje.
*
No pressentimento da inocência, de uma fresca fundura perpassam as vozes, circula-se enquanto o espaço se alarga, se aviva a cada canto.
*
A voz promete sobre as mãos, o canto — para além dos telhados, já sobre um mar nocturno. A mão ergue-se na claridade de um gesto e tudo se anima — ó voz fraterna e ágil— como sob uma bandeira transparente.
*
Contra a parede um corpo. Um corpo vivo na semiobscuridade bafejada por um vento anónimo de portal. A glória de um entendimento de acaso sob todos os ventos, sob todos os ventos. A brasa viva.
*
As casas respiram, o mar respira. A noite suspensa. Um coração respira, comunicando.
*
O poema regressa ao ponto de maior agitação e frescura, à ardência de uma proposta instável a que o desejo absoluto de um encontro responde. A nossa interrogação ofegante encontra a respiração própria, frente ao vazio.
962
Ferreira Gullar
Verde
verde verde verde
verde verde verde
verde verde verde erva
2 057
Airas Nunes
Bailia das avelaneiras
Bailemos nós já todas três, ai amigas,
sô aquestas avelaneiras frolidas;
e quen for velida, como nós, velidas,se amigo amar,
sô aquestas avelaneiras frolidasverrá bailar.
Bailemos nós já todas três, ai irmanas,
sô aqueste ramo destas avelanas;
e quen for louçana, como nós, louçanasse amigo amar,
sô aqueste ramo destas avelanasverrá bailar.
Por Deus, ai amigas, mentr’al non fazemos,
sô aqueste ramo frolido bailemos;
e quen ben parecer, como nós parecemos,se amigo amar,
sô aqueste ramo sô-l’ que nós bailemosverrá bailar.
sô aquestas avelaneiras frolidas;
e quen for velida, como nós, velidas,se amigo amar,
sô aquestas avelaneiras frolidasverrá bailar.
Bailemos nós já todas três, ai irmanas,
sô aqueste ramo destas avelanas;
e quen for louçana, como nós, louçanasse amigo amar,
sô aqueste ramo destas avelanasverrá bailar.
Por Deus, ai amigas, mentr’al non fazemos,
sô aqueste ramo frolido bailemos;
e quen ben parecer, como nós parecemos,se amigo amar,
sô aqueste ramo sô-l’ que nós bailemosverrá bailar.
1 064
Alexandre Herculano
Arrábida
I
Salve, ó vale do sul, saudoso e belo!
Salve, ó pátria da paz, deserto santo,
Onde não ruge a grande voz das turbas!
Solo sagrado a Deus, pudesse ao mundo
O poeta fugir, cingir-se ao ermo,
Qual ao freixo robusto a frágil hera,
E a romagem do túmulo cumprindo,
Só conhecer, ao despertar na morte,
Essa vida sem mal, sem dor, sem termo,
Que íntima voz contínuo nos promete
No trânsito chamado o viver do homem.
II
Suspira o vento no álamo frondoso;
As aves soltam matutino canto;
Late o lebréu na encosta, e o mar sussurra
Dos alcantis na base carcomida:
Eis o ruído de ermo! Ao longe o negro,
Insondado oceano, e o céu cerúleo
Se abraçam no horizonte. Imensa imagem
Da eternidade e do infinito, salve!
III
Oh, como surge majestosa e bela,
Com viço da criação, a natureza
No solitário vale! E o leve insecto
E a relva e os matos e a fragrância pura
Das boninas da encosta estão contando
Mil saudades de Deus, que os há lançado,
Com mão profusa, no regaço ameno
Da solidão, onde se esconde o justo.
E lá campeiam no alto das montanhas
Os escalvados píncaros, severos,
Quais guardadores de um lugar que é santo;
Atalaias que ao longe o mundo observam,
Cerrando até o mar o último abrigo
Da crença viva, da oração piedosa,
Que se ergue a Deus de lábios inocentes.
Sobre esta cena o sol verte em torrentes
Da manhã o fulgor; a brisa esvai-se
Pelos rosmaninhais, e inclina os topos
Do zimbro e alecrineiro, ao rés sentados
Desses tronos de fragas sobrepostas,
Que alpestres matas de medronhos vestem;
O rocio da noite à branca rosa
No seio derramou frescor suave,
E inda existência lhe dará um dia.
Formoso ermo do sul, outra vez, salve!
IV
Negro, estéril rochedo, que contrastas,
Na mudez tua, o plácido sussurro
Das árvores do vale, que vicejam
Ricas d'encantos, coa estação propícia;
Suavíssimo aroma, que, manando
Das variegadas flores, derramadas
Na sinuosa encosta da montanha,
Do altar da solidão subindo aos ores,
És digno incenso ao Criador erguido;
Livres aves, filhas da espessura,
Que só teceis da natureza as hinos,
O que crê, o cantor, que foi lançado,
Estranho no mundo, no bulício dele,
Vem saudar-vos, sentir um gozo puro,
Dus homens esquecer paixões e opróbio,
E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
O Sol, e uma só vez puro saudar-lha.
Convosco eu sou maior; mais longe a mente
dos céus se imerge livre,
E se desprende de mortais memórias
Na solidão solene, onde, incessante,
Em cada pedra, em cada flor se escuta
Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
A dextra sua em multiforme quadro.
V
Escalvado penedo, que repousas
Lá no cimo do monte, ameaçando
Ruína ao roble secular da encosta,
Que sonolento move a coma estiva
Ante a aragem do mar, foste formoso;
Já te cobriram cespedes virentes;
Mus o tempo voou, e nele envolta
A formosura tua. Despedidos
Das negras nuvens o chuveiro espesso
E o granizo, que o solo fustigando
Tritura u tenra lanceolada relva,
Durante largos séculos, no Inverno,
Dos vendavais no dorso a ti desceram.
Qual amplexo brutal de ardos grosseiro,
Que, maculando virginal pureza.
Do pudor varre a auréola celeste,
E deixa, em vez de um serafim m Terra,
Queimada flor que devorou o raio.
VI
Caveira da montanha, ossada imensa,
É tua campa o Céu: sepulcro o vale
Um dia te será. Quando sentires
Rugir com som medonho a Terra ao longe,
Na expansão dos vulcões, e o mar, bramindo,
Lançar à praia vagalhões cruzados;
Tremer-te a larga base, e sacudir-te
De sobre si, o fundo deste vale
Te vai servir de túmulo; e os carvalhos
Do mundo primogénitos, e os sobros,
Arrastados por ti lá da colina,
Contigo hão-de jazer. De novo a terra
Te cobrirá o dorso sinuoso:
Outra vez sobre ti nascendo os lírios,
Do seu puro candor hão-de adornar-te;
E tu, ora medonho e nu e triste,
Ainda belo serás, vestido e alegre.
VII
Mais que o homem feliz! Quando eu no vale
Dos túmulos cair; quando uma pedra
Os ossos me esconder, se me for dada,
Não mais reviverei; não mais meus olhos
Verão, ao pôr-se, o Sol em dia estivo,
Se em turbilhões de púrpura, que ondeiam
Pelo extremo dos céus sobre o ocidente.
Vai provar que um Deus há o estranhos povos
E além das ondas trémulo sumir-se;
Nem, quando, lá do cimo das montanhas,
Com torrentes de luz inunda as veigas:
Não mais verei o refulgir da Lua
No irrequieto mar, na paz da noite,
Por horas em que vela o criminoso,
A quem íntima voz rouba o sossego.
E em que o justo descansa, ou, solitário,
Ergue ao Senhor um hino harmonioso.
VIII
Ontem, sentado num penhasco, e perto
Dos águas, então quedas, do oceano,
Eu também o louvei sem ser um justo:
E meditei, e a mente extasiada
Deixei correr pela amplidão das ondas.
Como abraço materno era suave
A aragem fresca do cair das trevas.
Enquanto, envolta em glória, a clara Lua
Sumia em seu fulgor milhões d'estrelas.
Tudo calado estava: o mar somente
As harmonias da criação soltava,
Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto
Se agitava, gemendo e murmurando.
Ante o sopro de oeste: ali dos olhos
O pranto me correu, sem que o sentisse.
E aos pés de Deus se derramou minha alma.
IX
Oh, que viesse o que não crê, comigo,
À vicejante Arrábida de noite,
E se assentasse aqui sobre estas fragas,
Escutando o sussurro incerto e triste
Das movediças ramas, que povoa
De saudade e de amor nocturna brisa;
Que visse a lua, o espaço opresso de astros,
E ouvisse o mar soando: – ele chorara,
Qual eu chorei, as lágrimas do gozo,
E, adorando o Senhor, detestaria
De uma ciência vã seu vão orgulho.
X
É aqui neste vale, ao qual não chega
Humana voz e o tumultuar das turbas,
Onde o nada da vida sonda livre
O coração, que busca ir abrigar-se
No futuro, e debaixo do amplo manto
Da piedade de Deus: aqui serena
Vem a imagem da campa, como a imagem
Da pátria ao desterrado; aqui, solene,
Brada a montanha, memorando a morte.
Essas penhas, que, lá no alto das serras
Nuas, crestadas, solitárias dormem,
Parecem imitar da sepultura
O aspecto melancólico e o repouso
Tão desejado do que em Deus confia.
Bem semelhante à paz. que se há sentado
Por séculos, ali, nas cordilheiras
É o silêncio do adro, onde reúnem
Os ciprestes e a Cruz, o Céu e a Terra.
Como tu vens cercado de esperança,
Para o inocente, ó plácido sepulcro!
Junto das tuas bordas pavorosas
O perverso recua horrorizado:
Após si volve os olhos; na existência
Deserto árido só descobre ao longe.
Onde a virtude não deixou um trilho.
Mas o justo, chegando à meta extrema,
Que separa de nós a eternidade,
Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta..
O infeliz e o feliz lá dormem ambos,
Tranquilamente: e o trovador mesquinho,
Que peregrino vagueou na Terra,
Sem encontrar um coração ardente
Que o entendesse, a pátria de seus sonhos,
Ignota, por lá busca; e quando as eras
Vierem junto às cinzas colocar-lhe
Tardios louros, que escondera a inveja,
Ele não erguerá a mão mirrada,
Para os cingir na regelada fronte.
Justiça, glória, amor, saudade, tudo,
An pé da sepultura, é som perdido
De harpa eólia esquecida em brenha ou selva:
O despertar um pai, que saboreia
Entre os bruços da morte o extremo sono,
Já não é dado ao filial suspiro;
Em vão o amante, ali, da amada sua
De rosas sobre a c'roa debruçado,
Rega de amargo pranto as murchas flores
E a fria pedra: a pedra é sempre fria.
E para sempre as flores se murcharam.
XI
Belo ermo!, eu hei-de amar-te enquanto esta alma,
Aspirando o futuro além da vida
E um hálito dos Céus, gemer atada
À coluna do exílio, a que se chama
Em língua vil e mentirosa o mundo.
Eu hei-de amar-te, ó vale, como um filho
Dos sonhos meus. A imagem do deserto
Guardá-la-ei no coração, bem junto
Com minha fé, meu único tesouro.
Qual pomposo jardim de verme ilustre,
Chamado rei ou nobre, há-de contigo
Comparar-se, ó deserto? Aqui não cresce
Em vaso de alabastro a flor cativa,
Ou árvore educada por mão de homem,
Que lhe diga: «És escrava», e erga um ferro
E lhe decepe os troncos. Como é livre
A vaga do oceano, é livre no ermo
A bonina rasteira ou freixo altivo!
Não lhes diz: «Nasce aqui, ou lá não cresças».
Humana voz. Se baqueou o freixo,
Deus o mandou: se a flor pendida murcha,
É que o rocio não desceu de noite,
E da vida o Senhor lhe nega a vida.
Céu livre, Terra livre, e livre a mente,
Paz íntima, e saudade, mas saudade
Que não dói, que não mirra, e que consola,
São as riquezas do ermo, onde sorriem
Das procelas do mundo os que o deixaram.
XII
Ali naquela encosta, ontem de noite,
Alvejava por entre os medronheiros
Do solitário a habitação tranquila:
E eu vagueei por lá. Patente estava
O pobre albergue do eremita humilde,
Onde jazia o filho da esperança
Sob as asas de Deus, à luz dos astros,
Em leito, duro sim, não de remorsos.
Oh, com quanto sossego o bom do velho
Dormia! A leve aragem lhe ondeava
As raras cãs na fronte, onde se lia
A bela história de passados anos.
De alto choupo através passava um raio
Da Lua – astro de paz, astro que chama
Os olhos para o céu, e a Deus a mente -
E em luz pálida as faces !he banhava:
E talvez neste raio o Pai celeste
Da pátria eterna, lhe enviava a imagem,
Que o sorriso dus lábios lhe fugia,
Como se um sonho de ventura e glória
Na Terra de antemão o consolasse.
E eu comparei o solitário obscuro
Ao inquieto filho das cidades:
Comparei o deserto silencioso
Ao perpétuo ruído que sussurra
Pelos palácios do abastado e nobre,
Pelos paços dos reis; e condoí-me
Do cortesão soberbo, que só cura
De honras, haveres, glória, que se compram
Com maldições e perenal remorso.
Glória! A sua qual é? Pelas campinas,
Cobertas de cadáveres, regadas
De negro sangue, ele segou seus louros;
Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva
Ao som do choro da viúva e do órfão;
Ou, dos sustos senhor, em seu delírio,
Os homens, seu irmãos, flagela e oprime.
Lá o filho do pó se julga um nume,
Porque a Terra o adorou; o desgraçado
Pensa, talvez, que o verme dos sepulcros
Nunca se há-de chegar para tragá-lo
Ao banquete da morte, imaginando
Que uma lájea de mármore, que esconde
O cadáver do grande, é mais durável
Do que esse chão sem inscrição, sem nome.
Por onde o opresso, o mísero, procura
O repouso, e se atira aos pés do trono
Do Omnipotente, a demandar justiça
Contra os fortes do mundo, os seus tiranos.
XIII
Ó cidade, cidade, que transbordas
De vícios, de paixões e de amarguras!
Tu lá estás, na tua pompa envolta,
Soberba prostituta, alardeando
Os teatros, e os paços, e o ruído
Das carroças dos nobres recamadas
De ouro e prata, e os prazeres de uma vida
Tempestuosa, e o tropear contínuo
Dos férvidos ginetes, que alevantam
O pó e o lodo cortesão das praças;
E as gerações corruptas de teus filhos
Lá se revolvem, qual montão de vermes
Sobre um cadáver pútrido! Cidade,
Branqueado sepulcro, que misturas
A opulência, a miséria, a dor e o gozo,
Honra e infâmia, pudor e impudícia
Céu e inferno, que és tu? Escárnio ou glória
Da humanidade? O que o souber que o diga!
Bem negra avulta aqui, na paz do vale,
A imagem desse povo, que reflui
Das moradas à rua, à praça, ao templo;
Que ri, e chora, folga, e geme, e morre,
Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;
Absurdo misto de baixeza extrema
E de extrema ousadia; vulto enorme,
Ora aos pés de um vil déspota estendido,
Ora surgindo, e arremessando ao nada
As memórias dos séculos que foram,
E depois sobre o nada adormecendo.
Vê-lo, rico de opróbrio, ir assentar-se
Em joelhos nos átrios dos tiranos.
Onde, entre o lampejar de armas de servos,
O servo popular adora um tigre ?
Esse tigre é o ídolo do povo!
Saudai-o; que ele o manda: abençoai-lhe
O férreo ceptro: ide folgar em roda
De cadafalsos, povoados sempre
De vítimas ilustres, cujo arranco
Seja como harmonia, que adormente
Em seus terrores o senhor das turbas.
Passai depois. Se a mão da Providência
Esmigalhou a fronte à tirania;
Se o déspota caiu, e está deitado
No lodaçal da sua infâmia, a turba
Lá vai buscar o ceptro dos terrores,
E diz: «É meu»; e assenta-se na praça,
E envolta em roto manto. e julga, e reina.
Se um ímpio, então, na afogueada boca
De vulcão popular sacode um facho,
Eis o incêndio que muge, e a lava sobe,
E referve, e trasborda, e se derrama
Pelas ruas além: clamor retumba
De anarquia impudente, e o brilho de armas
Pelo escuro transluz, como um presságio
De assolação, e se amontoam vagas
Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo;
Desse vulgo, que ao som de infernais hinos
Cava fundo da Pátria a sepultura,
Onde, abraçando a glória do passado
E do futuro a última esperança,
As esmaga consigo, e ri morrendo.
Tal és, cidade, licenciosa ou serva!
Outros louvem teus paços sumptuosos,
Teu ouro, teu poder: sentina impura
De corrupções, teus não serão meus hinos!
XIV
Cantor da solidão, vim assentar-me
Junto do verde céspede do vale,
E a paz de Deus do mundo me consola.
Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo,
Um pobre conventinho. Homem piedoso
O alevantou há séculos, passando,
Como orvalho do céu, por este sítio,
De virtudes depois tão rico e fértil.
Como um pai de seus filhos rodeado,
Pelos matos do outeiro o vão cercando
Os tugúrios de humildes eremitas,
Onde o cilício e a compunção apagam
Da lembrança de Deus passados erros
Do pecador, que reclinou a fronte
Penitente no pó. O sacerdote
Dos remorsos lhe ouviu as amarguras;
E perdoou-lhe, e consolou-o em nome
Do que expirando perdoava, o Justo,
Que entre os humanos não achou piedade.
XV
Religião! do mísero conforto,
Abrigo extremo de alma, que há mirrado
O longo agonizar de uma saudade.
Da desonra, do exílio, ou da injustiça,
Tu consolas aquele, que ouve o Verbo.
Que renovou o corrompido mundo,
E que mil povos pouco a pouco ouviram.
Nobre, plebeu, dominador, ou servo,
O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,
Da desgraça no dia ajoelharam
No limiar do solitário templo.
Ao pé desse portal, que veste o musgo,
Encontrou-os chorando o sacerdote,
Que da serra descia à meia-noite,
Pelo sino das preces convocado:
Aí os viu ao despontar do dia,
Sob os raios do Sol, ainda chorando,
Passados meses, o burel grosseiro,
O leito de cortiça, e a fervorosa
E contínua oração foram cerrando
Nos corações dos míseros as chagas,
Que o mundo sabe abrir, mas que não cura.
Aqui, depois, qual hálito suave.
Da Primavera, lhes correu a vida,
Até sumir-se no adro do convento,
Debaixo de uma lájea tosca e humilde,
Sem nome, nem palavra, que recorde
O que a terra abrigou no sono extremo.
Eremitério antigo, oh, se pudesses
Dos anos que lá vão contar a história;
Se ora, à voz do cantor, possível fosse
Transudar desse chão, gelado e mudo,
O mudo pranto, em noites dolorosas,
Por náufragos do mundo derramado
Sobre ele, e aos pés da Cruz!... Se vós pudésseis,
Broncas pedras, falar, o que diríeis!
Quantos nomes mimosos da ventura,
Convertidos em fábula das gentes.
Despertariam o eco das montanhas,
Se aos negros troncos do sobreiro antigo
Mandasse o Eterno sussurrar a história
Dos que vieram desnudar-lhe o cepo,
Para um leito formar, onde velassem
Da mágoa, ou do remorso, as longas noites!
Aqui veio, talvez, buscar asilo
Um poderoso, outrora anjo da Terra,
Despenhado nas trevas do infortúnio;
Aqui gemeu, talvez, o amor traído,
Ou pela morte convertido em cancro
De infernal desespero; aqui soaram
Do arrependido os últimos gemidos,
Depois da vida derramada em gozos,
Depois do gozo convertido em tédio.
Mas quem foram? Nenhum, depondo em terra
Vestidura mortal, deixou vestígios
De seu breve passar. E isso que importa,
Se Deus o viu; se as lágrimas do triste
Ele contou, para as pagar com glória?
XVI
Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda
Que serpeia do monte ao fundo vale,
Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,
Como um farol de vida em mar de escolhos:
Ao cristão infeliz acolhe no ermo.
E consolando-o, diz-lhe: «A pátria tua
É lá no Céu: abraça-te comigo.»
Junto dela esses homens, que passaram
Acurvados na dor, as mãos ergueram
Para o Deus, que perdoa, e que é conforto
Dos que aos pés deste símbolo da esp'rança
Vêm derramar seu coração aflito:
É do deserto a história, a cruz e a campa;
E sobre tudo o mais pousa o silêncio.
XVII
Feliz da Terra, os monges não maldigas;
Do que em Deus confiou não escarneças:
Folgando segue a trilha, que há juncado,
Para teus pés, de flores a fortuna.
E sobre a morta crença em paz descansa.
Que mal te faz. Que gozo vai roubar-te
O que ensanguenta os pés no tojo agreste,
E sobre a fria pedra encosta a fronte?
Que mal te faz uma oração erguida,
Nas solidões, por voz sumida e frouxa,
E que, subindo aos Céus, só Deus escuta?
Oh, não insultes lágrimas alheias,
E deixa a fé ao que não tem mais nada!...
E se estes versos te contristam, rasga-os.
Teus menestréis te venderão seus hinos,
Nos banquetes opíparos, enquanto
O negro pão repartirá comigo,
Seu trovador, o pobre anacoreta,
Que não te inveja as ditas, como as c'roas
Do prazer ao cantor eu não invejo;
Tristes coroas, sob as quais às vezes
Está gravada uma inscrição d'infâmia.
Salve, ó vale do sul, saudoso e belo!
Salve, ó pátria da paz, deserto santo,
Onde não ruge a grande voz das turbas!
Solo sagrado a Deus, pudesse ao mundo
O poeta fugir, cingir-se ao ermo,
Qual ao freixo robusto a frágil hera,
E a romagem do túmulo cumprindo,
Só conhecer, ao despertar na morte,
Essa vida sem mal, sem dor, sem termo,
Que íntima voz contínuo nos promete
No trânsito chamado o viver do homem.
II
Suspira o vento no álamo frondoso;
As aves soltam matutino canto;
Late o lebréu na encosta, e o mar sussurra
Dos alcantis na base carcomida:
Eis o ruído de ermo! Ao longe o negro,
Insondado oceano, e o céu cerúleo
Se abraçam no horizonte. Imensa imagem
Da eternidade e do infinito, salve!
III
Oh, como surge majestosa e bela,
Com viço da criação, a natureza
No solitário vale! E o leve insecto
E a relva e os matos e a fragrância pura
Das boninas da encosta estão contando
Mil saudades de Deus, que os há lançado,
Com mão profusa, no regaço ameno
Da solidão, onde se esconde o justo.
E lá campeiam no alto das montanhas
Os escalvados píncaros, severos,
Quais guardadores de um lugar que é santo;
Atalaias que ao longe o mundo observam,
Cerrando até o mar o último abrigo
Da crença viva, da oração piedosa,
Que se ergue a Deus de lábios inocentes.
Sobre esta cena o sol verte em torrentes
Da manhã o fulgor; a brisa esvai-se
Pelos rosmaninhais, e inclina os topos
Do zimbro e alecrineiro, ao rés sentados
Desses tronos de fragas sobrepostas,
Que alpestres matas de medronhos vestem;
O rocio da noite à branca rosa
No seio derramou frescor suave,
E inda existência lhe dará um dia.
Formoso ermo do sul, outra vez, salve!
IV
Negro, estéril rochedo, que contrastas,
Na mudez tua, o plácido sussurro
Das árvores do vale, que vicejam
Ricas d'encantos, coa estação propícia;
Suavíssimo aroma, que, manando
Das variegadas flores, derramadas
Na sinuosa encosta da montanha,
Do altar da solidão subindo aos ores,
És digno incenso ao Criador erguido;
Livres aves, filhas da espessura,
Que só teceis da natureza as hinos,
O que crê, o cantor, que foi lançado,
Estranho no mundo, no bulício dele,
Vem saudar-vos, sentir um gozo puro,
Dus homens esquecer paixões e opróbio,
E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
O Sol, e uma só vez puro saudar-lha.
Convosco eu sou maior; mais longe a mente
dos céus se imerge livre,
E se desprende de mortais memórias
Na solidão solene, onde, incessante,
Em cada pedra, em cada flor se escuta
Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
A dextra sua em multiforme quadro.
V
Escalvado penedo, que repousas
Lá no cimo do monte, ameaçando
Ruína ao roble secular da encosta,
Que sonolento move a coma estiva
Ante a aragem do mar, foste formoso;
Já te cobriram cespedes virentes;
Mus o tempo voou, e nele envolta
A formosura tua. Despedidos
Das negras nuvens o chuveiro espesso
E o granizo, que o solo fustigando
Tritura u tenra lanceolada relva,
Durante largos séculos, no Inverno,
Dos vendavais no dorso a ti desceram.
Qual amplexo brutal de ardos grosseiro,
Que, maculando virginal pureza.
Do pudor varre a auréola celeste,
E deixa, em vez de um serafim m Terra,
Queimada flor que devorou o raio.
VI
Caveira da montanha, ossada imensa,
É tua campa o Céu: sepulcro o vale
Um dia te será. Quando sentires
Rugir com som medonho a Terra ao longe,
Na expansão dos vulcões, e o mar, bramindo,
Lançar à praia vagalhões cruzados;
Tremer-te a larga base, e sacudir-te
De sobre si, o fundo deste vale
Te vai servir de túmulo; e os carvalhos
Do mundo primogénitos, e os sobros,
Arrastados por ti lá da colina,
Contigo hão-de jazer. De novo a terra
Te cobrirá o dorso sinuoso:
Outra vez sobre ti nascendo os lírios,
Do seu puro candor hão-de adornar-te;
E tu, ora medonho e nu e triste,
Ainda belo serás, vestido e alegre.
VII
Mais que o homem feliz! Quando eu no vale
Dos túmulos cair; quando uma pedra
Os ossos me esconder, se me for dada,
Não mais reviverei; não mais meus olhos
Verão, ao pôr-se, o Sol em dia estivo,
Se em turbilhões de púrpura, que ondeiam
Pelo extremo dos céus sobre o ocidente.
Vai provar que um Deus há o estranhos povos
E além das ondas trémulo sumir-se;
Nem, quando, lá do cimo das montanhas,
Com torrentes de luz inunda as veigas:
Não mais verei o refulgir da Lua
No irrequieto mar, na paz da noite,
Por horas em que vela o criminoso,
A quem íntima voz rouba o sossego.
E em que o justo descansa, ou, solitário,
Ergue ao Senhor um hino harmonioso.
VIII
Ontem, sentado num penhasco, e perto
Dos águas, então quedas, do oceano,
Eu também o louvei sem ser um justo:
E meditei, e a mente extasiada
Deixei correr pela amplidão das ondas.
Como abraço materno era suave
A aragem fresca do cair das trevas.
Enquanto, envolta em glória, a clara Lua
Sumia em seu fulgor milhões d'estrelas.
Tudo calado estava: o mar somente
As harmonias da criação soltava,
Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto
Se agitava, gemendo e murmurando.
Ante o sopro de oeste: ali dos olhos
O pranto me correu, sem que o sentisse.
E aos pés de Deus se derramou minha alma.
IX
Oh, que viesse o que não crê, comigo,
À vicejante Arrábida de noite,
E se assentasse aqui sobre estas fragas,
Escutando o sussurro incerto e triste
Das movediças ramas, que povoa
De saudade e de amor nocturna brisa;
Que visse a lua, o espaço opresso de astros,
E ouvisse o mar soando: – ele chorara,
Qual eu chorei, as lágrimas do gozo,
E, adorando o Senhor, detestaria
De uma ciência vã seu vão orgulho.
X
É aqui neste vale, ao qual não chega
Humana voz e o tumultuar das turbas,
Onde o nada da vida sonda livre
O coração, que busca ir abrigar-se
No futuro, e debaixo do amplo manto
Da piedade de Deus: aqui serena
Vem a imagem da campa, como a imagem
Da pátria ao desterrado; aqui, solene,
Brada a montanha, memorando a morte.
Essas penhas, que, lá no alto das serras
Nuas, crestadas, solitárias dormem,
Parecem imitar da sepultura
O aspecto melancólico e o repouso
Tão desejado do que em Deus confia.
Bem semelhante à paz. que se há sentado
Por séculos, ali, nas cordilheiras
É o silêncio do adro, onde reúnem
Os ciprestes e a Cruz, o Céu e a Terra.
Como tu vens cercado de esperança,
Para o inocente, ó plácido sepulcro!
Junto das tuas bordas pavorosas
O perverso recua horrorizado:
Após si volve os olhos; na existência
Deserto árido só descobre ao longe.
Onde a virtude não deixou um trilho.
Mas o justo, chegando à meta extrema,
Que separa de nós a eternidade,
Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta..
O infeliz e o feliz lá dormem ambos,
Tranquilamente: e o trovador mesquinho,
Que peregrino vagueou na Terra,
Sem encontrar um coração ardente
Que o entendesse, a pátria de seus sonhos,
Ignota, por lá busca; e quando as eras
Vierem junto às cinzas colocar-lhe
Tardios louros, que escondera a inveja,
Ele não erguerá a mão mirrada,
Para os cingir na regelada fronte.
Justiça, glória, amor, saudade, tudo,
An pé da sepultura, é som perdido
De harpa eólia esquecida em brenha ou selva:
O despertar um pai, que saboreia
Entre os bruços da morte o extremo sono,
Já não é dado ao filial suspiro;
Em vão o amante, ali, da amada sua
De rosas sobre a c'roa debruçado,
Rega de amargo pranto as murchas flores
E a fria pedra: a pedra é sempre fria.
E para sempre as flores se murcharam.
XI
Belo ermo!, eu hei-de amar-te enquanto esta alma,
Aspirando o futuro além da vida
E um hálito dos Céus, gemer atada
À coluna do exílio, a que se chama
Em língua vil e mentirosa o mundo.
Eu hei-de amar-te, ó vale, como um filho
Dos sonhos meus. A imagem do deserto
Guardá-la-ei no coração, bem junto
Com minha fé, meu único tesouro.
Qual pomposo jardim de verme ilustre,
Chamado rei ou nobre, há-de contigo
Comparar-se, ó deserto? Aqui não cresce
Em vaso de alabastro a flor cativa,
Ou árvore educada por mão de homem,
Que lhe diga: «És escrava», e erga um ferro
E lhe decepe os troncos. Como é livre
A vaga do oceano, é livre no ermo
A bonina rasteira ou freixo altivo!
Não lhes diz: «Nasce aqui, ou lá não cresças».
Humana voz. Se baqueou o freixo,
Deus o mandou: se a flor pendida murcha,
É que o rocio não desceu de noite,
E da vida o Senhor lhe nega a vida.
Céu livre, Terra livre, e livre a mente,
Paz íntima, e saudade, mas saudade
Que não dói, que não mirra, e que consola,
São as riquezas do ermo, onde sorriem
Das procelas do mundo os que o deixaram.
XII
Ali naquela encosta, ontem de noite,
Alvejava por entre os medronheiros
Do solitário a habitação tranquila:
E eu vagueei por lá. Patente estava
O pobre albergue do eremita humilde,
Onde jazia o filho da esperança
Sob as asas de Deus, à luz dos astros,
Em leito, duro sim, não de remorsos.
Oh, com quanto sossego o bom do velho
Dormia! A leve aragem lhe ondeava
As raras cãs na fronte, onde se lia
A bela história de passados anos.
De alto choupo através passava um raio
Da Lua – astro de paz, astro que chama
Os olhos para o céu, e a Deus a mente -
E em luz pálida as faces !he banhava:
E talvez neste raio o Pai celeste
Da pátria eterna, lhe enviava a imagem,
Que o sorriso dus lábios lhe fugia,
Como se um sonho de ventura e glória
Na Terra de antemão o consolasse.
E eu comparei o solitário obscuro
Ao inquieto filho das cidades:
Comparei o deserto silencioso
Ao perpétuo ruído que sussurra
Pelos palácios do abastado e nobre,
Pelos paços dos reis; e condoí-me
Do cortesão soberbo, que só cura
De honras, haveres, glória, que se compram
Com maldições e perenal remorso.
Glória! A sua qual é? Pelas campinas,
Cobertas de cadáveres, regadas
De negro sangue, ele segou seus louros;
Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva
Ao som do choro da viúva e do órfão;
Ou, dos sustos senhor, em seu delírio,
Os homens, seu irmãos, flagela e oprime.
Lá o filho do pó se julga um nume,
Porque a Terra o adorou; o desgraçado
Pensa, talvez, que o verme dos sepulcros
Nunca se há-de chegar para tragá-lo
Ao banquete da morte, imaginando
Que uma lájea de mármore, que esconde
O cadáver do grande, é mais durável
Do que esse chão sem inscrição, sem nome.
Por onde o opresso, o mísero, procura
O repouso, e se atira aos pés do trono
Do Omnipotente, a demandar justiça
Contra os fortes do mundo, os seus tiranos.
XIII
Ó cidade, cidade, que transbordas
De vícios, de paixões e de amarguras!
Tu lá estás, na tua pompa envolta,
Soberba prostituta, alardeando
Os teatros, e os paços, e o ruído
Das carroças dos nobres recamadas
De ouro e prata, e os prazeres de uma vida
Tempestuosa, e o tropear contínuo
Dos férvidos ginetes, que alevantam
O pó e o lodo cortesão das praças;
E as gerações corruptas de teus filhos
Lá se revolvem, qual montão de vermes
Sobre um cadáver pútrido! Cidade,
Branqueado sepulcro, que misturas
A opulência, a miséria, a dor e o gozo,
Honra e infâmia, pudor e impudícia
Céu e inferno, que és tu? Escárnio ou glória
Da humanidade? O que o souber que o diga!
Bem negra avulta aqui, na paz do vale,
A imagem desse povo, que reflui
Das moradas à rua, à praça, ao templo;
Que ri, e chora, folga, e geme, e morre,
Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;
Absurdo misto de baixeza extrema
E de extrema ousadia; vulto enorme,
Ora aos pés de um vil déspota estendido,
Ora surgindo, e arremessando ao nada
As memórias dos séculos que foram,
E depois sobre o nada adormecendo.
Vê-lo, rico de opróbrio, ir assentar-se
Em joelhos nos átrios dos tiranos.
Onde, entre o lampejar de armas de servos,
O servo popular adora um tigre ?
Esse tigre é o ídolo do povo!
Saudai-o; que ele o manda: abençoai-lhe
O férreo ceptro: ide folgar em roda
De cadafalsos, povoados sempre
De vítimas ilustres, cujo arranco
Seja como harmonia, que adormente
Em seus terrores o senhor das turbas.
Passai depois. Se a mão da Providência
Esmigalhou a fronte à tirania;
Se o déspota caiu, e está deitado
No lodaçal da sua infâmia, a turba
Lá vai buscar o ceptro dos terrores,
E diz: «É meu»; e assenta-se na praça,
E envolta em roto manto. e julga, e reina.
Se um ímpio, então, na afogueada boca
De vulcão popular sacode um facho,
Eis o incêndio que muge, e a lava sobe,
E referve, e trasborda, e se derrama
Pelas ruas além: clamor retumba
De anarquia impudente, e o brilho de armas
Pelo escuro transluz, como um presságio
De assolação, e se amontoam vagas
Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo;
Desse vulgo, que ao som de infernais hinos
Cava fundo da Pátria a sepultura,
Onde, abraçando a glória do passado
E do futuro a última esperança,
As esmaga consigo, e ri morrendo.
Tal és, cidade, licenciosa ou serva!
Outros louvem teus paços sumptuosos,
Teu ouro, teu poder: sentina impura
De corrupções, teus não serão meus hinos!
XIV
Cantor da solidão, vim assentar-me
Junto do verde céspede do vale,
E a paz de Deus do mundo me consola.
Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo,
Um pobre conventinho. Homem piedoso
O alevantou há séculos, passando,
Como orvalho do céu, por este sítio,
De virtudes depois tão rico e fértil.
Como um pai de seus filhos rodeado,
Pelos matos do outeiro o vão cercando
Os tugúrios de humildes eremitas,
Onde o cilício e a compunção apagam
Da lembrança de Deus passados erros
Do pecador, que reclinou a fronte
Penitente no pó. O sacerdote
Dos remorsos lhe ouviu as amarguras;
E perdoou-lhe, e consolou-o em nome
Do que expirando perdoava, o Justo,
Que entre os humanos não achou piedade.
XV
Religião! do mísero conforto,
Abrigo extremo de alma, que há mirrado
O longo agonizar de uma saudade.
Da desonra, do exílio, ou da injustiça,
Tu consolas aquele, que ouve o Verbo.
Que renovou o corrompido mundo,
E que mil povos pouco a pouco ouviram.
Nobre, plebeu, dominador, ou servo,
O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,
Da desgraça no dia ajoelharam
No limiar do solitário templo.
Ao pé desse portal, que veste o musgo,
Encontrou-os chorando o sacerdote,
Que da serra descia à meia-noite,
Pelo sino das preces convocado:
Aí os viu ao despontar do dia,
Sob os raios do Sol, ainda chorando,
Passados meses, o burel grosseiro,
O leito de cortiça, e a fervorosa
E contínua oração foram cerrando
Nos corações dos míseros as chagas,
Que o mundo sabe abrir, mas que não cura.
Aqui, depois, qual hálito suave.
Da Primavera, lhes correu a vida,
Até sumir-se no adro do convento,
Debaixo de uma lájea tosca e humilde,
Sem nome, nem palavra, que recorde
O que a terra abrigou no sono extremo.
Eremitério antigo, oh, se pudesses
Dos anos que lá vão contar a história;
Se ora, à voz do cantor, possível fosse
Transudar desse chão, gelado e mudo,
O mudo pranto, em noites dolorosas,
Por náufragos do mundo derramado
Sobre ele, e aos pés da Cruz!... Se vós pudésseis,
Broncas pedras, falar, o que diríeis!
Quantos nomes mimosos da ventura,
Convertidos em fábula das gentes.
Despertariam o eco das montanhas,
Se aos negros troncos do sobreiro antigo
Mandasse o Eterno sussurrar a história
Dos que vieram desnudar-lhe o cepo,
Para um leito formar, onde velassem
Da mágoa, ou do remorso, as longas noites!
Aqui veio, talvez, buscar asilo
Um poderoso, outrora anjo da Terra,
Despenhado nas trevas do infortúnio;
Aqui gemeu, talvez, o amor traído,
Ou pela morte convertido em cancro
De infernal desespero; aqui soaram
Do arrependido os últimos gemidos,
Depois da vida derramada em gozos,
Depois do gozo convertido em tédio.
Mas quem foram? Nenhum, depondo em terra
Vestidura mortal, deixou vestígios
De seu breve passar. E isso que importa,
Se Deus o viu; se as lágrimas do triste
Ele contou, para as pagar com glória?
XVI
Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda
Que serpeia do monte ao fundo vale,
Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,
Como um farol de vida em mar de escolhos:
Ao cristão infeliz acolhe no ermo.
E consolando-o, diz-lhe: «A pátria tua
É lá no Céu: abraça-te comigo.»
Junto dela esses homens, que passaram
Acurvados na dor, as mãos ergueram
Para o Deus, que perdoa, e que é conforto
Dos que aos pés deste símbolo da esp'rança
Vêm derramar seu coração aflito:
É do deserto a história, a cruz e a campa;
E sobre tudo o mais pousa o silêncio.
XVII
Feliz da Terra, os monges não maldigas;
Do que em Deus confiou não escarneças:
Folgando segue a trilha, que há juncado,
Para teus pés, de flores a fortuna.
E sobre a morta crença em paz descansa.
Que mal te faz. Que gozo vai roubar-te
O que ensanguenta os pés no tojo agreste,
E sobre a fria pedra encosta a fronte?
Que mal te faz uma oração erguida,
Nas solidões, por voz sumida e frouxa,
E que, subindo aos Céus, só Deus escuta?
Oh, não insultes lágrimas alheias,
E deixa a fé ao que não tem mais nada!...
E se estes versos te contristam, rasga-os.
Teus menestréis te venderão seus hinos,
Nos banquetes opíparos, enquanto
O negro pão repartirá comigo,
Seu trovador, o pobre anacoreta,
Que não te inveja as ditas, como as c'roas
Do prazer ao cantor eu não invejo;
Tristes coroas, sob as quais às vezes
Está gravada uma inscrição d'infâmia.
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