Morte e Luto
Poemas neste tema
António Gancho
Tu és mortal
Tu és mortal meu filho
isto que um dia a morte te virá buscar
e tu não mais serás que um grão de milho
para a morte debicar
Tu és mortal meu anjo
tu és mortal meu amor
isto que um dia a morte
virá de banjo
insinuar-se-te senhor
É-se mortal meu Deus
tu és mortal meu Deus
isto que um dia a morte há-de descer
ao comprimento dos céus
isto que um dia a morte te virá buscar
e tu não mais serás que um grão de milho
para a morte debicar
Tu és mortal meu anjo
tu és mortal meu amor
isto que um dia a morte
virá de banjo
insinuar-se-te senhor
É-se mortal meu Deus
tu és mortal meu Deus
isto que um dia a morte há-de descer
ao comprimento dos céus
1 372
Albano Dias Martins
Concitas para
os ritos
da noite a pinça
verde dos lacraus.
De há muito
sabes que não há
para o sono outro vício,
outra rasura para a morte.
in:Os Patamares
da Memória(1989)
da noite a pinça
verde dos lacraus.
De há muito
sabes que não há
para o sono outro vício,
outra rasura para a morte.
in:Os Patamares
da Memória(1989)
1 093
Carlos Nogueira Fino
mesmo que o silêncio
mesmo que o silêncio seja este zumbido
que suporta o ruído das páginas
já muito antes no coração as folhas
tombavam na corrente sem dizerem nada
e sobre a sua morte aconteciam as árvores
futuras
vendo-as cair os pássaros aprendiam
o voo
antes das asas
que suporta o ruído das páginas
já muito antes no coração as folhas
tombavam na corrente sem dizerem nada
e sobre a sua morte aconteciam as árvores
futuras
vendo-as cair os pássaros aprendiam
o voo
antes das asas
790
Albano Dias Martins
Horizontal
o mar, a mor
te. Vertical
o desejo.
te. Vertical
o desejo.
1 094
António Gancho
Tu és mortal meu Deus
Noite, vem noite
sobre mim sobre nós
dá o repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismar
mostra o sono traz a morte
e vem noite por detrás de nós e sobre nós
e escreve com o teu negro
a morte que há em nós.
Livra-nos e perdoa-nos tudo
redime-nos os pecados
e enforca os nossos rostos em teu nome
sobre mim sobre nós
dá o repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismar
mostra o sono traz a morte
e vem noite por detrás de nós e sobre nós
e escreve com o teu negro
a morte que há em nós.
Livra-nos e perdoa-nos tudo
redime-nos os pecados
e enforca os nossos rostos em teu nome
1 473
Maria Gertrudes Novais
Partiste
Numa densa nuvem, partiste!
Ficou o eco da tua voz
E o doce afago do teu olhar.
Este amor, que em mim persiste,
Põe a minha alma mais triste
Por te não poder beijar.
Também eu um dia irei,
Contigo aí ficarei
Para te acariciar,
Talvez então nesse dia,
Eu sinta mais alegria
E já não queira voltar.
Ficou o eco da tua voz
E o doce afago do teu olhar.
Este amor, que em mim persiste,
Põe a minha alma mais triste
Por te não poder beijar.
Também eu um dia irei,
Contigo aí ficarei
Para te acariciar,
Talvez então nesse dia,
Eu sinta mais alegria
E já não queira voltar.
743
Fernando Pessoa
IX - There is a silence where the town was old.
There is a silence where the town was old.
Grass grows where not a memory lies below.
We that dined loud are sand. The tale is told.
The far hoofs hush. The inn's last light doth go.
Grass grows where not a memory lies below.
We that dined loud are sand. The tale is told.
The far hoofs hush. The inn's last light doth go.
3 969
Fernando Pessoa
VIII - Scarce five years passed ere I passed too.
Scarce five years passed ere I passed too.
Death came and took the child he found.
No god spared, or fate smiled at, so
Small hands, clutching so little round.
Death came and took the child he found.
No god spared, or fate smiled at, so
Small hands, clutching so little round.
3 610
Fernando Pessoa
II - Me, Chloe, a maid, the mighty fates have given,
Me, Chloe, a maid, the mighty fates have given,
Who was nought to them, to the peopled shades.
Thus the gods will. My years were but twice seven.
I am forgotten in my distant glades.
Who was nought to them, to the peopled shades.
Thus the gods will. My years were but twice seven.
I am forgotten in my distant glades.
3 686
Fernando Pessoa
XI - I for my city's want fought far and fell.
I for my city's want fought far and fell.
I could not tell
What she did want, that knew she wanted me.
Her walls be free,
Her speech keep such as I spoke, and men die,
That she die not, as I.
I could not tell
What she did want, that knew she wanted me.
Her walls be free,
Her speech keep such as I spoke, and men die,
That she die not, as I.
4 309
Fernando Pessoa
III - From my villa on the hill I long looked down;
From my villa on the hill I long looked down
Upon the muttering town;
Then one day drew (life sight-sick, dull hope shed)
My toga o'er my head
(The simplest gesture being the greatest thing)
Like a raised wing.
Upon the muttering town;
Then one day drew (life sight-sick, dull hope shed)
My toga o'er my head
(The simplest gesture being the greatest thing)
Like a raised wing.
3 417
Fernando Pessoa
X - We, that both lie here, loved. This denies us.
We, that both lie here, loved. This denies us.
My lost hand crumbles where her breasts' lack is.
Love's known, each lover is anonymous.
We both felt fair. Kiss, for that was our kiss.
My lost hand crumbles where her breasts' lack is.
Love's known, each lover is anonymous.
We both felt fair. Kiss, for that was our kiss.
3 757
Fernando Pessoa
IV - Not Cecrops kept my bees. My olives bore
Not Cecrops kept my bees. My olives bore
Oil like the sun. My several herd lowed far.
The breathing traveller rested by my door.
The wet earth smells still; dead my nostrils are.
Oil like the sun. My several herd lowed far.
The breathing traveller rested by my door.
The wet earth smells still; dead my nostrils are.
3 906
Fernando Pessoa
Lâmpada deserta,
Lâmpada deserta,
No átrio sossegado.
Há sombra desperta
Onde se ergue o estrado.
No estrado está posto
Um caixão floral.
No átrio está exposto
O corpo fatal.
Não dizem quem era
No sonho que teve.
E a sombra que o espera
É a vida em que esteve.
10/08/1932
No átrio sossegado.
Há sombra desperta
Onde se ergue o estrado.
No estrado está posto
Um caixão floral.
No átrio está exposto
O corpo fatal.
Não dizem quem era
No sonho que teve.
E a sombra que o espera
É a vida em que esteve.
10/08/1932
4 249
Fernando Pessoa
Quando, com razão ou sem,
Quando, com razão ou sem,
Sobre o medo amplo da alma
A sombra da morte vem,
É que o espírito vê bem,
Com clareza mas sem calma,
Que sombra é a vida que passa,
Que mágoa é a vida que cessa,
E ama a vida mais.
10/02/1933
Sobre o medo amplo da alma
A sombra da morte vem,
É que o espírito vê bem,
Com clareza mas sem calma,
Que sombra é a vida que passa,
Que mágoa é a vida que cessa,
E ama a vida mais.
10/02/1933
3 951
Fernando Pessoa
E ou jazigo haja
E ou jazigo haja
Ou sótão com pó,
Bebé foi-se embora.
Minha alma está só.
26/08/1930
Ou sótão com pó,
Bebé foi-se embora.
Minha alma está só.
26/08/1930
4 277
Fernando Pessoa
Vão breves passando
Vão breves passando
Os dias que tenho.
Depois de passarem
Já não os apanho.
De aqui a tão pouco
Ainda acabou.
Vou ser um cadáver
Por quem se rezou.
E entre hoje e esse dia
Farei o que fiz:
Ser qual quero eu ser,
Feliz ou infeliz.
28/03/1931
Os dias que tenho.
Depois de passarem
Já não os apanho.
De aqui a tão pouco
Ainda acabou.
Vou ser um cadáver
Por quem se rezou.
E entre hoje e esse dia
Farei o que fiz:
Ser qual quero eu ser,
Feliz ou infeliz.
28/03/1931
4 077
Fernando Pessoa
O ruído vário da rua
O ruído vário da rua
Passa alto por mim que sigo.
Vejo: cada coisa é sua.
Oiço: cada som é consigo.
Sou como a praia a que invade
um mar que torna a descer.
Ah, nisto tudo a verdade
É só eu ter que morrer.
Depois de eu cessar, o ruído.
Não, não ajusto nada
Ao meu conceito perdido
Como uma flor na estrada.
21/02/1931
Passa alto por mim que sigo.
Vejo: cada coisa é sua.
Oiço: cada som é consigo.
Sou como a praia a que invade
um mar que torna a descer.
Ah, nisto tudo a verdade
É só eu ter que morrer.
Depois de eu cessar, o ruído.
Não, não ajusto nada
Ao meu conceito perdido
Como uma flor na estrada.
21/02/1931
4 659
Fernando Pessoa
EPITÁFIO DESCONHECIDO
EPITÁFIO DESCONHECIDO
Quanta mais alma
Por mais que a alma ande no amplo informe,
A ti, seu lar anterior, do fundo
Da emoção regressou, ó Cristo, e dorme
Nos braços cujo amor é o fim do mundo.
26/06/1929
Quanta mais alma
Por mais que a alma ande no amplo informe,
A ti, seu lar anterior, do fundo
Da emoção regressou, ó Cristo, e dorme
Nos braços cujo amor é o fim do mundo.
26/06/1929
4 755
Fernando Pessoa
LIGEIA
LIGEIA
Não quero ir onde não há a luz,
De sob a inútil gleba não ver nunca
As flores, nem o curso ao sol dos rios
Nem como as estações que se renovam
Reiteram a terra. Já me pesa
Nas pálpebras que tremem o oco medo
De nada ser, e nem ter vista ou gosto,
Calor, amor, o bem e o mal da vida.
1924
Não quero ir onde não há a luz,
De sob a inútil gleba não ver nunca
As flores, nem o curso ao sol dos rios
Nem como as estações que se renovam
Reiteram a terra. Já me pesa
Nas pálpebras que tremem o oco medo
De nada ser, e nem ter vista ou gosto,
Calor, amor, o bem e o mal da vida.
1924
4 471
Fernando Pessoa
Como às vezes num dia azul e manso
Como às vezes num dia azul e manso
No vivo verde da planície calma
Duma súbita nuvem o avanço
Palidamente as ervas escurece
Assim agora em minha pávida alma
Que súbito se evola e arrefece
A memória dos mortos aparece...
10/11/1925
No vivo verde da planície calma
Duma súbita nuvem o avanço
Palidamente as ervas escurece
Assim agora em minha pávida alma
Que súbito se evola e arrefece
A memória dos mortos aparece...
10/11/1925
4 145
Fernando Pessoa
Velo, na noite em mim,
Velo, na noite em mim,
Meu próprio corpo morto.
Velo, inútil absorto.
Ele tem o seu fim
Inutilmente, enfim.
1927
Meu próprio corpo morto.
Velo, inútil absorto.
Ele tem o seu fim
Inutilmente, enfim.
1927
4 261
Fernando Pessoa
Não tragas flores, que eu sofro...
Não tragas flores, que eu sofro...
Rosas, lírios, ou vida...
Ténue e insensível sofro
O céu que se não olvida!
Não tragas flores, nem digas...
Sempre há-de haver cessar...
Deixa tudo acabar...
Cresceram só ortigas.
18/05/1922
4 289
Fernando Pessoa
Porque vivo, quem sou, o que sou, quem me leva?
Porque vivo, quem sou, o que sou, quem me leva?
Que serei para a morte? Para a vida o que sou?
A morte no mundo é a treva na terra.
Nada posso. Choro, gemo, cerro os olhos e vou.
Cerca-me o mistério, a ilusão e a descrença
Da possibilidade de ser tudo real.
Ó meu pavor de ser, nada há que te vença!
A vida como a morte é o mesmo Mal!
1919
Que serei para a morte? Para a vida o que sou?
A morte no mundo é a treva na terra.
Nada posso. Choro, gemo, cerro os olhos e vou.
Cerca-me o mistério, a ilusão e a descrença
Da possibilidade de ser tudo real.
Ó meu pavor de ser, nada há que te vença!
A vida como a morte é o mesmo Mal!
1919
4 175
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