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Poemas neste tema

Mário António

Mário António

Rua de Maianga

Rua da Maianga
que traz o nome de um qualquer missionário
mas para nos somente
a rua da Maianga

Rua da Maianga ás duas horas da tarde
lembrança das minhas idas para a escola
e depois para o liceu
Rua da Maianga dos meus surdos rancores
que sentiste os meus passos alterados
e os ardores da minha mocidade
e a ânsia dos meus choros desabalados!

Rua da Maiaga ás seis horas e meia
apito do comboio estremecendo os muros
Rua antiga de pedra incerta
que feriu meus pezitos de criança
e onde depois o alcatrão veio lembrar
velocidades aos carros
e foi luto na minha infãncia passada!

(Nene foi levado pró hospital
meus olhos encontraram Nene morto
meu companheiro de infância de olhos vivos
seu corpo morto numa pedra fria!)

Rua da Maianga a qualquer hora do dia
as mesmas caras nos muros
(As caras da minha infância
nos muros inacabados!)
as mocas nas janelas fingindo costurar
a velha gorda faladeira
e a pequena moeda na mão do menino
e a goiaba chamando dos cestos
á porta das casas!
(Tão parecido comigo esse menino!)

Rua da Maianga a qualquer hora
o liso alcatrão e as suas casas
as eternas mocas de muro
Rua da Maianga me lembrando
meu passado inutilmente belo
inutilmente cheio de saudade!
1 735
José Luis Mendonça

José Luis Mendonça

De asas sob a terra

Ergue-te cidade
malar vigília
de pássaros
estrangulados

cheiras a crepúsculos e
água, cidade
onde o vinho abre o sexo
ao gume dos astros

ó tambor de sangue
espuma de um
tempo e metal à proa

que mãos
te alijam o som
de asa sob a terra.
980
Orlando Mendes

Orlando Mendes

História

Diz a História que descendo
De celtas, mouros e visigodos.
Descendo e deles herdei todos
Os caracteres fundamentais
E talvez herdasse alguns mais
Da mestiçagem de outras raças
Que fizeram guerras, combatendo
Conquistaram e perderam praças.
Diz a História e não tenho
Do contrario uma prova séria
Em testamento que a revele.
E admito pois que o tamanho,
O rosto, o sangue, a cor da pele,
A fria razão e o instinto,
Adquiri em séculos de Ibéria
Para ser o que penso e sinto
O que mostro e o que oculto,
Excitável carne e uma voz
Memória de um país adulto
Que se não cala por não trair-me
No idioma de meus avós,
Para ser a mão direita firme
Que enche de palavras o papel,
Perpétuo aprendiz que sou eu
De velho oficio sem licença.
Admito. E as datas festejo
E retomo lutas que não venço
E amo nas horas do desejo
Com o mesmo requinte que deu
Origem de mim à Criação
E bebo o vinho e como o pão
Da minha sede e da minha fome.
Admito. E por isso, deponho.
Contudo, nada herdei que dome
A grandeza nova que transmito,
Não apenas sede, fome e sonho
De vinho, de pão ou de infinito,
Desejo, posse e fecundidade
Coragem forjada no segredo
Medo que se chore ou se brade
Guerra de amigo ou de inimigo,
Não própriamente o enredo
Mas esta seiva elementar
De África nos versos que digo
E os homens a saibam cantar.
1 219
António Jacinto

António Jacinto

Vadiagem

Naquela hora já noite
quando o vento nos traz mistérios a desvendar
musseque em fora fui passear as loucuras
com os rapazes das ilhas:
Uma viola a tocar
o Chico a cantar
(que bem que canta o Chico!)
e a noite quebrada na luz das nossas vozes
Vieram também, vieram também
cheirando a flor de mato
- cheiro gravido de terra fértil -
as moças das ilhas
sangue moço aquecendo
a Bebiana, a Teresa, a Carminda, a Maria.
Uma viola a tocar
o Chico a cantar
a vida aquecida com o sol esquecido
a noite é caminho
caminho, caminho, tudo caminho serenamente negro
sangue fervendo
cheiro bom a flor de mato
a Maria a dançar
(que bem que dança remexendo as ancas!)
E eu a querer, a querer a Maria
e ela sem se dar
Vozes dolentes no ar
a esconder os punhos cerrados
alegria nas cordas da viola
alegria nas cordas da garganta
e os anseios libertados
das cordas de nos amordaçar
Lua morna a cantar com a gente
as estrelas se namorando sem romantismo
na praia da Boavista
o mar ronronante a nos incitar
Todos cantando certezas
a Maria a bailar se aproximando
sangue a pulsar
sangue a pulsar
mocidade correndo
a vida
peito com peito
beijos e beijos
as vozes cada vez mais bebadas de liberdade
a Maria se chegando
a Maria se entregando
Uma viola a tocar
e a noite quebrada na luz do nosso amor...
3 186
Eduardo Guimaraens

Eduardo Guimaraens

Carnaval

Andaluzíssimas Manolas
que faz mais lindas a peineta,
soai, vibrai as castanholas
e a pandeireta!

E vós, dos bandós empoados,
ó Marquesinhas de Watteau,
que abrís os lábios recortados
em formas de ô!

Napolitanas, de escarlate
lenço à cabeça em cada orelha
um argolão, seios "di latte"
e de groselha!

Lascivas Zíngaras de olheiras,
ó pestanudas e fatais,
esfarrapadas feiticeiras
que adivinhais,

lendo nas mãos, sortes de amores,
fados de morte, ó desgraçadas
que, entre esses trapos de mil cores,
sois como Fadas!

Vinde, gementes Colombinas
que abandonou, sem pena, o amor,
ao triste som de mandolinas
da noite em flor!

E vós, soberbas Odaliscas
que Harum-al-Rachild invejara,
tendo um incêndio de faíscas
na carne clara!

Ó Nubianas d'azeviche
e brancos dentes de marfim,
como a giz, postos num fetiche
feito a nanquim!

Ó Gueixas dos jardins de Yeddo:
Nuvem que passa, Arco de jade,
Sonho de luz, casto Segredo,
Sol de bondade,

na graça alacre e flutuante
de aves e peixes e dragões
dos quimonos, à luz berrante
dos seus balões,

vinde! E vós, de que os grandes laços
à testa voam, gráceis lhanas,
para trazer-vos há cem braços,
Alsacianas!

Agora, ó Girls de saiote,
é vossa vez: eia, ao tan-tan
dumone-step, dum fox-trot...
troa o jazz-band!

Ó Baiadeiras! Eh, floristas!
Vós, Escocesas! Midinettes!
Ó saias-curtas! Sufragistas
e gigolettes!

Dai-vos as mãos: e andai à roda,
que a mascarada às ruas sai,
andai à roda, à roda toda!
E desandai!

E queira o céu que a água não role,
que não desbote o rico traje,
mas o divino emplastro mole
dos "maquillages"...

Dirija a ronda a minha Musa
que apenas usa pó de arroz,
pois quanto ao "rouge" que a lambuza,
foi Deus que o pôs...

Imagem - 00350001


In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Estâncias de um Peregrino
1 047
Torquato Neto

Torquato Neto

A Rua

toda rua tem seu curso
tem seu leito de água clara
por onde passa a memória
lembrando histórias de um tempo
que não acaba

de uma rua de uma rua
eu lembro agora
que o tempo ninguém mais
ninguém mais canta
muito embora de cirandas
(oi de cirandas)
e de meninos correndo
atrás de bandas

atrás de bandas que passavam
como o rio parnaíba
rio manso
passava no fim da rua
e molhava seu lajedos
onde a noite refletia
o brilho manso
o tempo claro da lua

ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão
ê parnaíba passando
separando a minha rua
das outras, do maranhão

de longe pensando nela
meu coração de menino
bate forte como um sino
que anuncia procissão

ê minha rua meu povo
ê gente que mal nasceu
das dores que morreu cedo
luzia que se perdeu
macapreto zé velhinho
esse menino crescido
que tem o peito ferido
anda vivo, não morreu

ê pacatuba
meu tempo de brincar
já foi-se embora
ê parnaíba
passando pela rua
até agora
agora por aqui estou
com vontade
e eu vou volto pra matar
essa saudade

ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão.


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Gilberto Gi
1 864
Eduardo Guimaraens

Eduardo Guimaraens

Sedução

Sedução, atração secreta, inexplicável
das criaturas que mal se conhecem, quer
se compreendam ou não, ó sentido inefável,
do desejo que quer sem saber por que quer!

Por trás de uma vidraça, às vezes, o semblante
que vês, e de que o olhar lembra um raio autunal
de sol enquanto chove, e cuja enfeitiçante
graça é como a de um filtro amoroso e fatal...

Passas... E o teu olhar, que sonha, por acaso,
sente a fixá-lo o azul desse olhar, sem razão...
Levas, de volta, após, a tristeza do acaso
e a alegria do amor dentro do coração.

Ora por um instante, o momento que dura
quanto dura esse olhar que no teu se fitou,
sem querer — adoraste a estranha criatura
que não sabes quem seja, e que te deslumbrou!

Passaste... agonizava a última claridade.
Perdiam os jardins a forma, a luz, a cor...
Punge-te agora o coração uma saudade:
a do amor que morreu, um grande, um velho amor.

Outras vezes, o véu que um sorriso velava,
a teu lado alvejou... Branco. Leve... e fugiu.
Entretanto, essa boca ardeu, por ser a escrava
do teu beijo — e por ele é que no véu sorriu...

Quando cessou a orquestra, e a mãozinha enluvada
de pele da Suécia entre as tuas ficou
esquecida... foi teu esse corpo de fada,
mas do qual sabes só que contigo bailou.

De que amores sem nome evocas a lembrança,
se olhas bem esta boca? este queixo sutil?
Negro, aquele cabelo? E esse olhar de criança?
E aquelas nobres mãos? E este fino perfil?

Se assim não fora, o amor se igualaria à chama
que, à falta de ar, se extingue, ou como uma ânsia vã...
Nem fora belo amar, quando é de amor que se ama,
sem a alma de Romeu e os olhos de don Juan!


In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Estâncias de um Peregrino
1 151
Basílio da Gama

Basílio da Gama

Canto Terceiro (II)

(...)
Mas a enrugada Tanajura, que era
Prudente, e experimentada, e que a seus peitos
Tinha criado em mais ditosa idade
A mãe da mãe da mísera Lindóia,
E lia pela história do futuro.
Visionária, supersticiosa,
Que de abertos sepulcros recolhia
Nuas caveiras, e esburgados ossos,
A uma medonha gruta, onde ardem sempre
Verdes candeias, conduziu chorando
Lindóia, a quem amava como filha;
E em ferrugento vaso licor puro
De viva fonte recolheu. Três vezes
Girou em roda, e murmurou três vezes
Co'a carcomida boca ímpias palavras,
E as águas assoprou: depois com o dedo
Lhe impõe silêncio, e faz que as águas note.
Como no mar azul, quando recolhe
A lisonjeira viração as asas,
Adormecem as ondas, e retratam
Ao natural as debruçadas penhas,
O copado arvoredo, e as nuvens altas:
Não de outra sorte à tímida Lindóia
Aquelas águas fielmente pintam
O rio, a praia, o vale, e os montes, onde
Tinha sido Lisboa; e viu Lisboa
Entre despedaçados edifícios,
Com o solto cabelo descomposto,
Tropeçando em ruínas encostar-se
Desamparada dos habitadores
A Rainha do Tejo, e solitária,
No meio de sepulcros procurava
Com seus olhos socorro; e com seus olhos
Só descobria de um, e de outro lado
Pendentes muros, e inclinadas torres.
Vê mais o Luso Atlante, que forceja
Por sustentar o peso desmedido
Nos roxos ombros. Mas do Céu sereno,
Em branca nuvem Próvida Donzela
Rapidamente desce, e lhe apresenta
De sua mão, Espírito Constante,
Gênio de Alcides, que de negros monstros
Despeja o Mundo, e enxuga o pranto à praia.
Tem por despojos cabeludas peles
De ensanguentados, e famintos lobos,
E fingidas raposas. Manda, e logo
O incêndio lhe obedece; e de repente
Por onde quer que ele encaminha os passos,
Dão lugar as ruínas. Viu Lindóia
Do meio delas, só a um seu aceno,
Sair da terra feitos, e acabados
Vistosos edifícios. Já mais bela
Nasce Lisboa de entre as cinzas: glória
Do grande Conde, que co'a mão robusta
Lhe firmou na alta testa os vacilantes
Mal seguros castelos. Mais ao longe
Prontas no Tejo, e ao curvo ferro atadas
Aos olhos dão de si terrível mostra,
Ameaçando o mar, as poderosas
Soberbas naus. (...)

Imagem - 00200006


In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941

NOTA: Poema composto de 5 canto
2 545
Augusto Frederico Schmidt

Augusto Frederico Schmidt

Pequena Igreja

Eu queria louvar-te, pequena e humilde igreja
Desta cidadezinha que está morrendo.
Eu queria agradecer-te a compreensão que me deste
Das coisas humildes e eternas.

Eu queria saber cantar a tua tranqüilidade
E a tua pura beleza,
Ó igreja da roça, adormecida diante do jardim cheio de rosas!
Ó pequena casa de Jesus Cristo, irmã das outras casas solenes
[e graves.
Escondida e modesta, com as tuas torres e os teus sinos
Que sabem encher o ar matinal com um tão doce apelo,
E no instante vesperal lembram que é hora de dormir para a
[grande família dos passarinhos inquietos,
Dos passarinhos que tumultuam o pobre jardim cheio de flores!


Publicado no livro Estrela solitária (1940).

In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
1 410
Tomás Antônio Gonzaga

Tomás Antônio Gonzaga

Lira XV

Eu, Marília, não fui nenhum Vaqueiro,
fui honrado Pastor da tua Aldeia;
vestia finas lãs e tinha sempre
a minha choça do preciso cheia.
Tiraram-me o casal e o manso gado,
nem tenho, a que me encoste, um só cajado.

Para ter que te dar, é que eu queria
de mor rebanho ainda ser o dono;
prezava o teu semblante, os teus cabelos
ainda muito mais que um grande Trono.
Agora que te oferte já não vejo,
além de um puro amor, de um são desejo.

(...)

Propunha-me dormir no teu regaço
as quentes horas da comprida sesta,
escrever teus louvores nos olmeiros,
toucar-te de papoilas na floresta.
Julgou o justo Céu que não convinha
que a tanto grau subisse a glória minha.

Ah! minha bela, se a fortuna volta,
se o bem, que já perdi, alcanço e provo,
por essas brancas mãos, por essas faces
te juro renascer um homem novo,
romper a nuvem que os meus olhos cerra,
amar no céu a Jove e a ti na terra!

Fiadas comprarei as ovelhinhas,
que pagarei dos poucos do meu ganho;
e dentro em pouco tempo nos veremos
senhores outra vez de um bom rebanho.
Para o contágio lhe não dar, sobeja
que as afague Marília, ou só que as veja.

Se não tivermos lãs e peles finas,
podem mui bem cobrir as carnes nossas
as peles dos cordeiros mal curtidas,
e os panos feitos com as lãs mais grossas.
Mas ao menos será o teu vestido
por mãos de amor, por minhas mãos cosido.

Nós iremos pescar na quente sesta
com canas e com cestos os peixinhos;
nós iremos caçar nas manhãs frias
com a vara enviscada os passarinhos.
Para nos divertir faremos quanto
reputa o varão sábio, honesto e santo.

Nas noites de serão nos sentaremos
c'os filhos, se os tivermos, à fogueira:
entre as falsas histórias, que contares,
lhes contarás a minha, verdadeira:
Pasmados te ouvirão; eu, entretanto,
ainda o rosto banharei de pranto.

Quando passarmos juntos pela rua,
nos mostrarão c'o dedo os mais Pastores,
dizendo uns para os outros: — Olha os nossos
exemplos da desgraça e sãos amores.
Contentes viveremos desta sorte,
até que chegue a um dos dois a morte.

Imagem - 00170003


Publicado no livro Marília de Dirceu: Segunda Parte (1799).

In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
6 349
Murilo Mendes

Murilo Mendes

O Fósforo

Acendendo um fósforo
acendo Prometeu, o futuro, a liquidação dos falsos deuses,
o trabalho do homem.

o

O fósforo: tão rabbioso quanto secreto. Furioso, deli-
cado. Encolhe-se no seu casulo marrom; mas quando cha-
mado e provocado, polêmico estoura, esclarecendo tudo.
O século é polêmico.

o

O gás não funciona hoje. Temos greve dos gasistas. A
Itália tornou-se a Grevelândia. Mas preferimos essa semi-
-anarquia à "ordem" fascista.
O fósforo, hoje em férias, espera paciente no seu casulo
o dia de amanhã desprovido de greves. O dia racional, o
dia do entendimento universal, o dia do mundo sem classes,
o dia de Prometeu totalizado.

o

O fósforo é o portador mais antigo da tradição viva. Eu
sou pela tradição viva, capaz de acompanhar a correnteza
da modernidade. Que riquezas poderosas extraio dela!
Subscrevo a grande palavra de Jaures: "De l'autel des
ancêtres on doit garder non les cendres mais le feu."


Poema integrante da série Setor Micro-Lições de Coisas.

In: MENDES, Murilo. Poliedro: Roma, 1965/66. Pref. Eliane Zagury. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1972
2 157
Sebastião Uchoa Leite

Sebastião Uchoa Leite

Perguntas a H P Lovecraft

Por que sempre as cidades ciclópicas com altas torres de cantaria
negra? Por que formas e cores inimagináveis vindas do espaço, vozes
estaladas ou zumbidas e os cheiros insuportáveis? Por que ventos
frios e pesadelos que são reais? Por que o ignoto nos repugna e por
que o fascínio do repulsivo? Por que mundos perdidos no tempo
anterior ao homem? Por que os Antigos eram sempre superiores, mas
repelentes? Por que algo, sempre, deve calar-se? Por que os reinos
informes da infinitude? Por que sempre as substâncias viscosas e
verdes? Por que Aqueles são ameaçadores? Por que as coisas se
evaporam? Por que a incógnita nos causa horror?

1989


Poema integrante da série Máquina de Signos.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
1 030
Renata Pallottini

Renata Pallottini

Macunaíma

(...)

Meu filho, cresce ligeiro,
para ir pra São Paulo
e ganhar dinheiro.

Adeus mato cheiroso orvalho da manhã
adeus água de prata cascata
adeus ramo de arruda hortelã
a mata está a pique de acabar
jandaia buriti jussara aracuã
cresce depressa pra dandar
meu filho
pra ganhar
vintém
cresce depressa e entrega a mata
ao invasor
meu filho pra ganhar
vintém
Quanta floresta! É ouro verde na divisa
brasileiro vai ganhar
vintém

cresce depressa e sem caráter brasileiro
e vende a mata
pra ganhar
vintém

Na cidade das máquinas doente
Macunaíma sobrevive e pensa:
nas ruas, cipoal de muita gente,
só o ato de brincar
é que compensa.

Para a tristeza, o amor;
para a preguiça
o amor, e para a febre
mordidas de saúva da paixão.

Muita saudade
e muita pouca ação
os males do Brasil
são.

Macunaíma, audaz tumucumaque,
menino inventador, herói de araque,
lá vai ele, criador de boi-bumbá;
voltando para a terra antes que acabe,

para o seu galho em antes que desabe,
para as florestas
cada vez mais menos,
para as montanhas, já
montes de Vênus,
para os campos,
agora mais pequenos...

Macunaíma encolhe igual sanfona
na charanga brasílico-amazona.

(...)


In: PALLOTTINI, Renata. Cantar meu povo. São Paulo: Massao Ohno, 198
3 021
Lindolf Bell

Lindolf Bell

Paulicéia Desvairada 1972

Olhei as vitrinas da cidade.
Olhei através.
(Outra vez,
outra voz.)
Olhei através de mim
através do vidro,
olhei através da cidade
dentro de mim.

Olhei através da imagem
dentro do vidro
atravessada pelas vibrações
(vidrações)
de meus corações
atravessados pelos vidros
desta viagem precária,
defronte de mim de mim
dentro dos vidros
de pupilas claras
eu vim.

Olhei o inverso
dentro dos espelhos do improviso,
improverso.

O código móvel
da imóvel travessia
da cidade dentro de si
dentro de mim
se atravessando,
se atraverssando
na pupila no vidro
no papel a formiga
na papoula na nuvem,
o coração dentro fora de si
(sim e não)
e o silêncio
e o lenço das contradições
mais alto
e acima de todos os arranha-céus
— oh! esplêndida floreza
desta dura transversia.

(...)


Poema integrante da série Incorporação.

In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
1 882
Alice Ruiz

Alice Ruiz

na esquina da consolação

na esquina da consolação
com a paulista
me perdi de vista
virei artista
equilibrista
meio mãe
meio menina
meio meia-noite
meio inteira
inteiramente alheia
toda lua cheia


In: RUIZ, Alice. Vice-versos. São Paulo: Brasiliense, 1988. (Cantadas literárias
2 075
Péricles Eugênio da Silva Ramos

Péricles Eugênio da Silva Ramos

Fonte

Passado, sombra de uma nuvem
na água trêmula


Publicado no livro Lua de Ontem (1960). Poema integrante da série Um Homem e seus Fantasmas.

In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Poesia quase completa. Rio de Janeiro: J. Olympio, 197
1 048
Sebastião Uchoa Leite

Sebastião Uchoa Leite

Numa Incerta Noite

Calculo as ruas que atravesso
Vendo a copa das árvores
Guiado pelas folhagens
Profusamente imerso
Na vertigem inversa
Da hemorragia verde
Do ciclópico olho vegetal
Que me contempla

1991


Poema integrante da série Incertezas.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A ficção vida. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993
1 221
Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Assim é o Medo

Assim é o medo:
cinza
Verde.
Olhos de lince.
Voz sem timbre
Torvo e morno
Melindre.

Da sombra espreita
à espera de algo

que o alente.
Não age: tenta
porém recua
a qualquer bulha.

No campo assiste
junto ao títere
à cruz que esparze
vivo gazeio
de nervosismo
com vidro moído
grácil granizo
de pássaros.

E que rascante
violino brusco
não arrepia
ao longo o azul
dos meus veludos
se, a noite em meio
cá no fundo
quarto escuro,
a lua arrisca
numa oblíqua
o olhar morteiro.

Dentro da jaula
(mundo inapto)
do domador
em fúria à fera
subsinuosa-
mente resvala.

Aos frios reptos
do ziguezague
em choque, súbito
relampagueio,

as duas forças
se opõem dúbias
se atraem foscas
para a luta
pelo avesso:
despiste e fuga
ouro e vermelho
desde a entranha.

As duas forças
antagônicas:
qual delas ganha
acaso
ou perde
o medo
frente a
frente ao
medo?


Publicado no livro Além da Imagem (1963).

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 846
Sosigenes Costa

Sosigenes Costa

Índio Bom é Índio Morto

"Índio bom é índio morto",
pensamento natural
de quem se apossou do porto
desta Índia Ocidental.

O cristão é que é a bondade.
Vivo ou morto. É natural.
Na estrita fidelidade
a Cristo e a seu ideal,
o seu sonho de bondade
é espalhar a caridade,
a pureza e a santidade
nesta Índia Ocidental.

Sonho de luz, em verdade,
sonho de santo e de frade
é o que empolga a cristandade
trazendo para este porto
a armada do Santo Graal.

Mas o índio fica absorto,
vendo esta armada no porto,
ante o ditado fatal:
"Índio bom é índio morto".

Burilado em ouro e jade,
esse conceito fatal
é um ruim verso de jade
da epopéia ocidental.

(1956)


Publicado no livro Obra Poética (1958).

In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 823
Glauco Mattoso

Glauco Mattoso

Haicais Paulistanos, 1983-1991 [2

Domingão no estádio.
A torcida invade o campo.
E o cego sem rádio.

Casa com mansarda
não tarda a ser demolida.
Obra de vanguarda.

Liberdade é pão,
mas Consolação é prêmio.
Paraíso é Adão.

Se vê da Paulista.
Se avista do Martinelli.
É um balão bairrista.

Vila Ida a pé
é fora de mão. Melhor
ir pra Vila Ré.

Cena original:
Vaginal como um paquete,
flui a Marginal.

Farol na Paulista
mancha a pista de vermelho.
Quadro modernista.


In: MATTOSO, Glauco. Poemas de Glauco Mattoso: amostra quase grátis. São Paulo: U. Tavares, 1993 (Poesia já, 2)
1 488
Glauco Mattoso

Glauco Mattoso

Haicais Paulistanos, 1983-1991 [1

Cadáver no asfalto.
Do alto do viaduto
aplaudem o salto.

No trânsito lento
tento entrar na transversal.
Engarrafamento.

Se engana quem passa
pela Praça da República
querendo de graça.

Chuva na avenida.
Cão desbrida na enxurrada.
Luta pela vida.

Ator principal.
Palmas para o pipoqueiro
do Municipal.

De noite chuvisca.
Sem som, faísca a Paulista:
É a torre que pisca.

Fuga da FEBEM.
No Belém já tem refrega.
E o cego é refém.

Vai correr pelado
lá do vale até o túnel.
Morre atropelado.


In: MATTOSO, Glauco. Poemas de Glauco Mattoso: amostra quase grátis. São Paulo: U. Tavares, 1993 (Poesia já, 2)
1 569
Carlos Frydman

Carlos Frydman

Viaduto do Chá

"E me largo desarmado nos transes da enorme cidade."
(Mário de Andrade)

IV

Perpassam, o viaduto
carrancas petrificadas em carnes rijas,
sorrisos sofridos deflagram estigmas
de alegrias pálidas e seriedades temerárias.
Viaduto,
destino impingido, caminho sem escolha,
ultrajante travessia,
aorta da evasão,
perdição de filosofias e blasfêmias;
patamar das discordâncias unissonantes,
murmúrios monocórdios de vulcões soterrados.
Viaduto,
inabalável frieza de serventia petrificada,
estático aos retornos inevitáveis,
de sobreviventes desfalcados, diuturnos.

Mas, se no ímpio transcurso
alguém salta do viaduto,
já não é mais drama:
faz parte do panorama.

Domingo, o viaduto será belo e ameno
em sua feição exata e domingueira.
Na segunda, a vida desfilará desvivida.


In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
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Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

Pergunta

para Jerusa

O que mais vale:
a poesia ou a vida?
cidade iluminada ou
beleza dividida?

Na Paulicéia des-
vairada, sem razão,
cantar o pôr-do-sol
já é consolação.

Antes, ensolação:
o sol do teu canto
que vermelho se põe
não é canto mas pranto.

E o sol perguntará
(rubro, medonho,
um dia): o que mais vale,
a poesia ou o sonho?

E o teu canto
com sol(ação) dirá:
tendo poesia e vida
nada me faltará.

Sol do sul, céu aberto,
se eu merecesse pedia:
planta em meu peito deserto
sonho vida poesia.

(João Pessoa 1977)


Poema integrante da série III. Pessoal.

In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
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Antonio Fernando De Franceschi

Antonio Fernando De Franceschi

Capitão Blood

no assalto
em que me lanço
temeroso
ancas acima
desato ao vento
dorso e cabelos

mas teus velames
travo firme
sustenidos
em meu medo:

a que porto
afinal
me destina
esta viagem?

em que ilha
me socorro
se o mar
me der vertigem?


In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
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