Beleza
Poemas neste tema
Tomás Pinto Brandão
DÉCIMAS
Senhoras, eu ‘stou picado;
Tenham Vossas Excelências
todas quantas paciências
eu tive no seu chamado;
cuidei que por achacado,
doídas da minha tosse
a meter-me-iam na posse
de uma merenda afamada,
e que achava quando nada
cinco condessas de doce.
Não me enganei, porque alfim
todas vinham cheias grátis
de vanitas vanitatis,
que isto é fofa em latim.
Tomara eu para mim,
por bem ganhada fazenda,
quanta folhage’ estupenda
traziam nas suas rodas,
mas com tal donaire todas
que puxam por muita renda.
Oh! quem pudera cantar
(para bem me vingar dela)
uma que à sua janela
mil vezes vejo Assumar!
Mas obriga-me a calar.
Outra da mesma feição
que é capaz, e com razão,
de prantar-me no focinho,
que farto de S. Martinho
tenho sede a S. João.
Outra branca em demasia
não era tão confiada,
posto que estava enfiada
talvez do que não queria:
mas na flor, na louçania,
na suavidade e na cor,
podia largar o amor
por ela redes e barcos,
porque debaixo dos Arcos
não vi semelhante flor.
Outra tesa de pescoço
me chamou, por embeleco,
magro, quando não sou seco:
velho, quando sou seu moço;
desdentado, quando eu posso
morder (como bem se prova
no estilo da minha trova).
Mas, se a chamar nomes vai,
ouça novas de seu pai,
folgará de Ouvi-la nova.
Outra prezada de prosa,
e em tudo perliquiteta,
bem mostra no ser discreta
quanto seria formosa:
por criar sangue, teimosa
comigo esteve a intender,
e a picar; mas a meu ver
creio que escusava tal;
Pois de sangue em Portugal
veias tem como é mister.
Uma hora de ajoelhar
me tiveram posto ali;
mas se faltaram a si,
eu a mim não sei faltar;
que não quero arrebentar
disso que vim embuchado,
pois sem comer um bocado
por tão vergonhoso meio,
não deixei de vir bem cheio,
porque sal muito inchado.
Enfim, se neste tratado
alguma tenho ofendido,
já me prostro arrependido
de ser tão arrazoado:
já tenho desabafado;
já disse tudo o que quis;
porém neste, enquanto diz
a musa praguejadora,
que qualquer é mui senhora
do seu doce, e seu nariz.
Tenham Vossas Excelências
todas quantas paciências
eu tive no seu chamado;
cuidei que por achacado,
doídas da minha tosse
a meter-me-iam na posse
de uma merenda afamada,
e que achava quando nada
cinco condessas de doce.
Não me enganei, porque alfim
todas vinham cheias grátis
de vanitas vanitatis,
que isto é fofa em latim.
Tomara eu para mim,
por bem ganhada fazenda,
quanta folhage’ estupenda
traziam nas suas rodas,
mas com tal donaire todas
que puxam por muita renda.
Oh! quem pudera cantar
(para bem me vingar dela)
uma que à sua janela
mil vezes vejo Assumar!
Mas obriga-me a calar.
Outra da mesma feição
que é capaz, e com razão,
de prantar-me no focinho,
que farto de S. Martinho
tenho sede a S. João.
Outra branca em demasia
não era tão confiada,
posto que estava enfiada
talvez do que não queria:
mas na flor, na louçania,
na suavidade e na cor,
podia largar o amor
por ela redes e barcos,
porque debaixo dos Arcos
não vi semelhante flor.
Outra tesa de pescoço
me chamou, por embeleco,
magro, quando não sou seco:
velho, quando sou seu moço;
desdentado, quando eu posso
morder (como bem se prova
no estilo da minha trova).
Mas, se a chamar nomes vai,
ouça novas de seu pai,
folgará de Ouvi-la nova.
Outra prezada de prosa,
e em tudo perliquiteta,
bem mostra no ser discreta
quanto seria formosa:
por criar sangue, teimosa
comigo esteve a intender,
e a picar; mas a meu ver
creio que escusava tal;
Pois de sangue em Portugal
veias tem como é mister.
Uma hora de ajoelhar
me tiveram posto ali;
mas se faltaram a si,
eu a mim não sei faltar;
que não quero arrebentar
disso que vim embuchado,
pois sem comer um bocado
por tão vergonhoso meio,
não deixei de vir bem cheio,
porque sal muito inchado.
Enfim, se neste tratado
alguma tenho ofendido,
já me prostro arrependido
de ser tão arrazoado:
já tenho desabafado;
já disse tudo o que quis;
porém neste, enquanto diz
a musa praguejadora,
que qualquer é mui senhora
do seu doce, e seu nariz.
400
Herberto Helder
As Palavras 5
As flores que devoram mel ficam negras em frente dos espelhos.
Os animais que devoram estrelas em frente dos espelhos ficam brancos por detrás dos pêlos ou das plumas da idade.
As pedras por onde circula a água ficam vivas de tanto cantar e, quando se voltam, atingem a sua maior velocidade interior.
Se vêm às portas ver quem bate, os lençóis cobrem-se de imagens respiradoras — quando regressam ao sono, deixam as mãos abertas.
Se é uma estátua que bate, corre-lhe o sangue pela boca, e sobre os ombros torcem-se os cabelos, e as asas tremem em frente da porta.
Se é um retrato, sorri sufocado pela noite adiante.
Os espelhos são negros como os jacintos da loucura.
Os crimes que olham para o espelho têm uma vibração silenciosa.
Se é uma criança, diz: eu cá sou cor-de-laranja.
Porém às vezes é bom ser branco, é bom estar deitado.
O mel faz bem às pedras, atrai os olhos dos anjos.
Quem aplaina tábuas acumula uma obscura sabedoria.
Olha para os espelhos, tens um talento assimétrico de assassino.
Vê-se nos teus ramos frutos negros contra a paisagem móvel.
Se fosses um peixe, a porta estaria nas águas mais íntimas, frias, límpidas e caladas.
E não batias — cantavas a tua síncope terrível.
Nada se veria na vertente do espelho.
Serias como uma máquina cor de cal respirando.
Por isso te ofereço este ramo de lâminas e um fato de perfil — e andas nos labirintos.
Por isso te sento numa cadeira de ar.
Por isso somos os dois um quadrúpede de seda de uma beleza truculenta.
Temos toda a vigília para encher de silêncios.
Pensamos os dois o mesmo corpo inaugurado.
As flores que devoram mel tornam negros os espelhos.
As colinas vão olhando, e tremem na nossa carne as estampas de ouro extenuante.
Por isso, por isso, por isso — somos assim obscuros.
Os animais que devoram estrelas em frente dos espelhos ficam brancos por detrás dos pêlos ou das plumas da idade.
As pedras por onde circula a água ficam vivas de tanto cantar e, quando se voltam, atingem a sua maior velocidade interior.
Se vêm às portas ver quem bate, os lençóis cobrem-se de imagens respiradoras — quando regressam ao sono, deixam as mãos abertas.
Se é uma estátua que bate, corre-lhe o sangue pela boca, e sobre os ombros torcem-se os cabelos, e as asas tremem em frente da porta.
Se é um retrato, sorri sufocado pela noite adiante.
Os espelhos são negros como os jacintos da loucura.
Os crimes que olham para o espelho têm uma vibração silenciosa.
Se é uma criança, diz: eu cá sou cor-de-laranja.
Porém às vezes é bom ser branco, é bom estar deitado.
O mel faz bem às pedras, atrai os olhos dos anjos.
Quem aplaina tábuas acumula uma obscura sabedoria.
Olha para os espelhos, tens um talento assimétrico de assassino.
Vê-se nos teus ramos frutos negros contra a paisagem móvel.
Se fosses um peixe, a porta estaria nas águas mais íntimas, frias, límpidas e caladas.
E não batias — cantavas a tua síncope terrível.
Nada se veria na vertente do espelho.
Serias como uma máquina cor de cal respirando.
Por isso te ofereço este ramo de lâminas e um fato de perfil — e andas nos labirintos.
Por isso te sento numa cadeira de ar.
Por isso somos os dois um quadrúpede de seda de uma beleza truculenta.
Temos toda a vigília para encher de silêncios.
Pensamos os dois o mesmo corpo inaugurado.
As flores que devoram mel tornam negros os espelhos.
As colinas vão olhando, e tremem na nossa carne as estampas de ouro extenuante.
Por isso, por isso, por isso — somos assim obscuros.
986
Herberto Helder
Todos Os Dedos da Mão 1
As cabeças de mármore: um raio
as fenda, E fiquem
queimadas de dentro até à boca,
Ou uma faca lhes corte
as carótidas:
que as deslumbre
o sangue deslumbrante — A garganta: se a faca
as encharca, Anéis de mármore
rude o pêlo
a auréola,
Tudo alagado desde os recessos,
Brilhando tudo,
Que a ferida elementar assome
como ao espelho: como à maneira de
cicatriz de imagem,
A força das janelas, O odor do leite
opulento
na lembrança,
E a úlcera da boca no centro da máquina
circulatória: os braços — tudo
crispado como um sistema de astros,
A estátua é um pulmão dos pés à cara,
Devora
o ar levantado, A beleza é operatória,
Uma coroa da carne da cabeça como
se a juba lhe ardesse, De mármore,
Brecha anatómica para o soluço dessa
massa salgada — o medo: o temerário movimento
da dança:
a riqueza: o sono:
as voragens,
Estás cheio de esperma,
Transpiras na raiz da cabeleira,
A língua treme dentro de ti que és
uma fala,
Respiradouro assombrado,
A mulher a cada dedo que apontavas:
a cada poro dela:
a cada choque lunar na levedura: ao teu
bafo: a leveza que
te
contemplava: o fôlego
dela:
estremecendo fincada no chão como uma estaca
de fruta, Tu és o raio dela: a rapidez: ela
é o teu sopro,
Estala,
O suspiro da lenha suada gota a gota,
Que lhe apura o corpo e o aprova,
Que o apavora,
Potência múltipla desordenando os nomes: mantendo
o mundo
pela desordem
as fenda, E fiquem
queimadas de dentro até à boca,
Ou uma faca lhes corte
as carótidas:
que as deslumbre
o sangue deslumbrante — A garganta: se a faca
as encharca, Anéis de mármore
rude o pêlo
a auréola,
Tudo alagado desde os recessos,
Brilhando tudo,
Que a ferida elementar assome
como ao espelho: como à maneira de
cicatriz de imagem,
A força das janelas, O odor do leite
opulento
na lembrança,
E a úlcera da boca no centro da máquina
circulatória: os braços — tudo
crispado como um sistema de astros,
A estátua é um pulmão dos pés à cara,
Devora
o ar levantado, A beleza é operatória,
Uma coroa da carne da cabeça como
se a juba lhe ardesse, De mármore,
Brecha anatómica para o soluço dessa
massa salgada — o medo: o temerário movimento
da dança:
a riqueza: o sono:
as voragens,
Estás cheio de esperma,
Transpiras na raiz da cabeleira,
A língua treme dentro de ti que és
uma fala,
Respiradouro assombrado,
A mulher a cada dedo que apontavas:
a cada poro dela:
a cada choque lunar na levedura: ao teu
bafo: a leveza que
te
contemplava: o fôlego
dela:
estremecendo fincada no chão como uma estaca
de fruta, Tu és o raio dela: a rapidez: ela
é o teu sopro,
Estala,
O suspiro da lenha suada gota a gota,
Que lhe apura o corpo e o aprova,
Que o apavora,
Potência múltipla desordenando os nomes: mantendo
o mundo
pela desordem
994
Matilde Campilho
Avarandado
Quarta nota para
a manhã infinita:
Afinal o grande amor
Não garante nada mais
Do que as 12 graças
Desdobradas pelos
Corredores do mundo
Agora isso é mais
Do que suficiente
E apesar dos bofetões
Do tempo invertido
Apesar das visitas
Breves do pavor
A beleza é tudo
O que permanece
a manhã infinita:
Afinal o grande amor
Não garante nada mais
Do que as 12 graças
Desdobradas pelos
Corredores do mundo
Agora isso é mais
Do que suficiente
E apesar dos bofetões
Do tempo invertido
Apesar das visitas
Breves do pavor
A beleza é tudo
O que permanece
1 361
António de Carvalhal Esmeraldo
Belo Naris
Belo Naris para quem guarda intacta
Arábia aromas e Pancaya olores.
Que eras nessa república de flores
Marco de gelo em campos de escarlata:
Emblema de jasmim, cifrada nata,
Brinquinho de diamante, alvo de amores,
Torre de Faro, ornada de esplendores,
Em dous mares de rosa, isthmo de prata:
Porém suspenda o rasgo e pluma errante,
Que nenhum epíteto hoje se atreve
Ser de tal perfeição cópia bastante.
Só quem cala, e te admira é que te escreve;
Pois sobre um ponto de rubi flamante,
És hua admiração de pura neve.
Arábia aromas e Pancaya olores.
Que eras nessa república de flores
Marco de gelo em campos de escarlata:
Emblema de jasmim, cifrada nata,
Brinquinho de diamante, alvo de amores,
Torre de Faro, ornada de esplendores,
Em dous mares de rosa, isthmo de prata:
Porém suspenda o rasgo e pluma errante,
Que nenhum epíteto hoje se atreve
Ser de tal perfeição cópia bastante.
Só quem cala, e te admira é que te escreve;
Pois sobre um ponto de rubi flamante,
És hua admiração de pura neve.
505
Fernando Fitas
Ave te chamaria
Ave te chamaria(s) se não fosse
haver em teu olhar uma flor ausente
que derramando vai quanto perfume
vestiu o despontar (despertar) das madrugadas
que de afectos cobriram esta casa.
Por isso flor és não só de rosa
mas de aloendro — creio — e madressilva
e de acácia e de trigo e de poejo
p’ra que melhor nos saibam os desejos
que o marulhar de lábios mais incita.
Guardadora de ventos e de rios
e de nascentes e margens e afluentes
que despidos ainda se apresentem
de quanto néctar houvesse ao seu alcance
sem que tivesse sido recolhido.
haver em teu olhar uma flor ausente
que derramando vai quanto perfume
vestiu o despontar (despertar) das madrugadas
que de afectos cobriram esta casa.
Por isso flor és não só de rosa
mas de aloendro — creio — e madressilva
e de acácia e de trigo e de poejo
p’ra que melhor nos saibam os desejos
que o marulhar de lábios mais incita.
Guardadora de ventos e de rios
e de nascentes e margens e afluentes
que despidos ainda se apresentem
de quanto néctar houvesse ao seu alcance
sem que tivesse sido recolhido.
732
Matilde Campilho
Rua do Alecrim
Uma menina desenha uma estrela de cinco pontas
a esferográfica Bic na palma da mão de outra menina.
Chove, e mesmo assim o desenho não sangra:
é preciso muito mais do que certas condições
climatéricas para que o amor escorra.
Assisto a toda a cena e penso que esta visão,
real ou inventada,
é muito pior do que a verdade a bofetadas.
a esferográfica Bic na palma da mão de outra menina.
Chove, e mesmo assim o desenho não sangra:
é preciso muito mais do que certas condições
climatéricas para que o amor escorra.
Assisto a toda a cena e penso que esta visão,
real ou inventada,
é muito pior do que a verdade a bofetadas.
1 268
Pero da Ponte
Marinha Foça Quis Saber
Marinha Foça quis saber
como lh'ia de parecer;
e fui-lh'eu log'assi dizer,
tanto que m'ela preguntou:
- Senhor, nom houver'a nacer
quem vos viu e vos desejou!
E bem vos podedes gabar
que vos nom sab'hoj'home par,
enas terras, de semelhar;
de mais diss'um, que vos catou,
que nom s'houver'a levantar
quem vos viu e vos desejou!
E pois parecedes assi,
tam negra ora vos eu vi,
que o meu cor sempre des i
nas vossas feituras cuidou;
e mal dia naceu por si
quem vos viu e vos desejou!
Mais que fará o pecador
que viu vós e vossa coor
e vos nom houv'a seu sabor?
Dizer-vo-lo-ei já, pois me vou:
irad'houve Nostro Senhor
quem vos viu e vos desejou!
como lh'ia de parecer;
e fui-lh'eu log'assi dizer,
tanto que m'ela preguntou:
- Senhor, nom houver'a nacer
quem vos viu e vos desejou!
E bem vos podedes gabar
que vos nom sab'hoj'home par,
enas terras, de semelhar;
de mais diss'um, que vos catou,
que nom s'houver'a levantar
quem vos viu e vos desejou!
E pois parecedes assi,
tam negra ora vos eu vi,
que o meu cor sempre des i
nas vossas feituras cuidou;
e mal dia naceu por si
quem vos viu e vos desejou!
Mais que fará o pecador
que viu vós e vossa coor
e vos nom houv'a seu sabor?
Dizer-vo-lo-ei já, pois me vou:
irad'houve Nostro Senhor
quem vos viu e vos desejou!
388
Nuno Fernandes Torneol
Par Deus, Senhor, Em Gram Coita Serei
Par Deus, senhor, em gram coita serei
agora quando m'eu de vós quitar,
ca me nom hei d'al no mund'a pagar;
e, mia senhor, gram dereito farei,
pois eu de vós os meus olhos partir
e os vossos mui fremosos nom vir.
E bem mi o per devedes a creer
que me será mia mort', e m'é mester,
des quando vos eu veer nom poder;
nem Deus, senhor, nom me leixe viver,
pois eu de vos os meus olhos partir
e os vossos mui fremosos nom vir.
Pero sei-m'eu que me faço mal sem,
de vos amar, ca, des quando vos vi,
em mui gram coita fui, senhor, des i;
mais que farei, ai meu lum'e meu bem,
pois eu de vós os meus olhos partir
e os vossos mui fremosos nom vir?
E pois vos Deus fez parecer melhor
de quantas outras eno mundo som,
por mal de mim e do meu coraçom,
com'haverei já do mundo sabor,
pois eu de vós os meus olhos partir
e os vossos mui fremosos nom vir?
agora quando m'eu de vós quitar,
ca me nom hei d'al no mund'a pagar;
e, mia senhor, gram dereito farei,
pois eu de vós os meus olhos partir
e os vossos mui fremosos nom vir.
E bem mi o per devedes a creer
que me será mia mort', e m'é mester,
des quando vos eu veer nom poder;
nem Deus, senhor, nom me leixe viver,
pois eu de vos os meus olhos partir
e os vossos mui fremosos nom vir.
Pero sei-m'eu que me faço mal sem,
de vos amar, ca, des quando vos vi,
em mui gram coita fui, senhor, des i;
mais que farei, ai meu lum'e meu bem,
pois eu de vós os meus olhos partir
e os vossos mui fremosos nom vir?
E pois vos Deus fez parecer melhor
de quantas outras eno mundo som,
por mal de mim e do meu coraçom,
com'haverei já do mundo sabor,
pois eu de vós os meus olhos partir
e os vossos mui fremosos nom vir?
601
Fernão Garcia Esgaravunha
Ora Vej'eu o Que Nunca Cuidava,
Ora vej'eu o que nunca cuidava,
mentr'eu vivesse, no mundo veer:
vi ũa dona melhor parecer
de quantas outras eno mundo vi;
e por aquela logo me parti
de quant'eu al no mundo desejava.
E se eu ant'em mui gram coit'andava,
já m'esta dona faz maior haver,
ca me fez Deus por meu mal entender
tod'o seu bem; e poilo entendi,
mais em tam grave dia foi por mi,
ca mais coitad'ando ca ant'andava.
E [u] eu vi quam fremoso falava,
e lh'oí quanto bem disse dizer,
tod'outra rem me fez escaescer;
per bõa fé, pois lh'eu tod'est'oí,
nunca lh'ar pude rogar, des ali,
por nulha rem do que lh'ante rogava.
mentr'eu vivesse, no mundo veer:
vi ũa dona melhor parecer
de quantas outras eno mundo vi;
e por aquela logo me parti
de quant'eu al no mundo desejava.
E se eu ant'em mui gram coit'andava,
já m'esta dona faz maior haver,
ca me fez Deus por meu mal entender
tod'o seu bem; e poilo entendi,
mais em tam grave dia foi por mi,
ca mais coitad'ando ca ant'andava.
E [u] eu vi quam fremoso falava,
e lh'oí quanto bem disse dizer,
tod'outra rem me fez escaescer;
per bõa fé, pois lh'eu tod'est'oí,
nunca lh'ar pude rogar, des ali,
por nulha rem do que lh'ante rogava.
623
Nuno Fernandes Torneol
Ai Mia Senhor! U Nom Jaz Al
Ai mia senhor! U nom jaz al,
haverei mui ced'a morrer,
pois vosso bem nom poss'haver;
mais direi-vos do que m'é mal:
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
E praz-me, si Deus me perdom,
de morrer, pois ensandeci
por vós, que eu por meu mal vi;
mais pesa-me de coraçom
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
E de morrer m'é mui gram bem,
ca nom poss'eu mais endurar
o mal que mi amor faz levar;
mais pesa-me mais doutra rem
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
haverei mui ced'a morrer,
pois vosso bem nom poss'haver;
mais direi-vos do que m'é mal:
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
E praz-me, si Deus me perdom,
de morrer, pois ensandeci
por vós, que eu por meu mal vi;
mais pesa-me de coraçom
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
E de morrer m'é mui gram bem,
ca nom poss'eu mais endurar
o mal que mi amor faz levar;
mais pesa-me mais doutra rem
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
601
Rui Queimado
Cuidades Vós, Mia Senhor, Que Mui Mal
Cuidades vós, mia senhor, que mui mal
estou de vós e cuid'eu que mui bem
estou de vós, senhor, por ũa rem
que vos ora direi, ca nom por al:
se morrer, morrerei por vós, senhor;
se m'i ar fezerdes bem, aque melhor!
Tam mansa vos quis Deus, senhor, fazer
e tam fremosa e tam bem falar
que nom poderia eu mal estar
de vós, por quanto vos quero dizer:
se morrer, morrerei por vós, senhor;
se m'i ar fezerdes bem, aque melhor!
Amo-vos tant'e com tam gram razom,
pero que nunca de vós bem prendi,
que coid'eu est', e vós que nom é 'si;
mais tant'esforç'hei no meu coraçom:
se morrer, morrerei por vós, senhor;
se m'i ar fezerdes bem, aque melhor!
estou de vós e cuid'eu que mui bem
estou de vós, senhor, por ũa rem
que vos ora direi, ca nom por al:
se morrer, morrerei por vós, senhor;
se m'i ar fezerdes bem, aque melhor!
Tam mansa vos quis Deus, senhor, fazer
e tam fremosa e tam bem falar
que nom poderia eu mal estar
de vós, por quanto vos quero dizer:
se morrer, morrerei por vós, senhor;
se m'i ar fezerdes bem, aque melhor!
Amo-vos tant'e com tam gram razom,
pero que nunca de vós bem prendi,
que coid'eu est', e vós que nom é 'si;
mais tant'esforç'hei no meu coraçom:
se morrer, morrerei por vós, senhor;
se m'i ar fezerdes bem, aque melhor!
505
Rui Queimado
Por Mia Senhor Fremosa Quer'eu Bem
Por mia senhor fremosa quer'eu bem
a quantas donas vej'; e gram sabor
hei eu de as servir, por mia senhor
que amo muit'; e farei ũa rem:
porque som donas, querrei-lhes fazer
serviço sempr', e querrei-as veer
sempr'u puder e dizer delas bem,
por mia senhor, a que quero gram bem,
que servirei já, mentr'eu vivo for.
Mais enquant'ora nom vir mia senhor
servirei as outras donas por en,
porque nunca vejo tam gram prazer
com'em vee-las, pois nom hei poder
de veer mia senhor que quero bem.
Ca, de pram, est'é hoj'o mais de bem
que hei, pero que sõo sabedor
que assi morrerei por mia senhor,
veend'as outras, perdendo meu sem
por veer ela, que Deus quis fazer
senhor das outras em bem parecer
e em falar e em tod'outro bem.
E por aquesta cuid'eu a morrer,
a que Deus fez, por meu mal, tanto bem.
a quantas donas vej'; e gram sabor
hei eu de as servir, por mia senhor
que amo muit'; e farei ũa rem:
porque som donas, querrei-lhes fazer
serviço sempr', e querrei-as veer
sempr'u puder e dizer delas bem,
por mia senhor, a que quero gram bem,
que servirei já, mentr'eu vivo for.
Mais enquant'ora nom vir mia senhor
servirei as outras donas por en,
porque nunca vejo tam gram prazer
com'em vee-las, pois nom hei poder
de veer mia senhor que quero bem.
Ca, de pram, est'é hoj'o mais de bem
que hei, pero que sõo sabedor
que assi morrerei por mia senhor,
veend'as outras, perdendo meu sem
por veer ela, que Deus quis fazer
senhor das outras em bem parecer
e em falar e em tod'outro bem.
E por aquesta cuid'eu a morrer,
a que Deus fez, por meu mal, tanto bem.
605
Rui Queimado
Direi-Vos Que Mi Aveo, Mia Senhor
Direi-vos que mi aveo, mia senhor,
i logo quando m'eu de vós quitei:
houve por vós, fremosa mia senhor,
a morrer; e morrera... mais cuidei
que nunca vos veeria des i
se morress'... e por esto nom morri.
Cuidand'em quanto vos Deus fez de bem
em parecer e em mui bem falar,
morrera eu; mais polo mui gram bem
que vos quero, mais me fez Deus cuidar
que nunca vos veeria des i
se morress'... e por esto nom morri.
Cuidand'em vosso mui bom parecer
houv'a morrer, assi Deus me perdom,
e polo vosso mui bom parecer
morrera eu; mais acordei-m'entom
que nunca vos veeria des i
se morress'... e por esto nom morri.
Cuidand'em vós houv'a morrer assi!
E cuidand'em vós, senhor, guareci!
i logo quando m'eu de vós quitei:
houve por vós, fremosa mia senhor,
a morrer; e morrera... mais cuidei
que nunca vos veeria des i
se morress'... e por esto nom morri.
Cuidand'em quanto vos Deus fez de bem
em parecer e em mui bem falar,
morrera eu; mais polo mui gram bem
que vos quero, mais me fez Deus cuidar
que nunca vos veeria des i
se morress'... e por esto nom morri.
Cuidand'em vosso mui bom parecer
houv'a morrer, assi Deus me perdom,
e polo vosso mui bom parecer
morrera eu; mais acordei-m'entom
que nunca vos veeria des i
se morress'... e por esto nom morri.
Cuidand'em vós houv'a morrer assi!
E cuidand'em vós, senhor, guareci!
677
Rui Queimado
Fiz Meu Cantar E Loei Mia Senhor
Fiz meu cantar e loei mia senhor,
mais de quantas outras donas eu vi;
e se por est'ham queixume de mi
as outras donas, ou mi ham desamor,
hajam de seu quem delas diga bem
e a quem façam muito mal por en:
ca bem assi faz a mim mia senhor,
a mais fremosa dona nem melhor
de quantas hoj'eu sei, per bõa fé.
E vejam que farám, ca já 'si é.
E se me por aquest'ham desamor,
hajam de seu quen'as lo', e entom
nunca lhes por en façam se mal nom:
ca nom faz a mim a minha melhor!
E se m'eu hei, de mi a loar, sabor,
nom ham por en por que se mi assanhar,
mais ar hajam de seu quen'as loar
e a quem hajam por en desamor,
com'a mim faz aquela que eu já
loarei sempr'e sei bem que nom há,
de fazer a mim bem, nẽum sabor.
Ca se m'algum bem quisesse fazer,
já que que[r] m'en fezera entender,
des quant'há que a filhei por senhor.
mais de quantas outras donas eu vi;
e se por est'ham queixume de mi
as outras donas, ou mi ham desamor,
hajam de seu quem delas diga bem
e a quem façam muito mal por en:
ca bem assi faz a mim mia senhor,
a mais fremosa dona nem melhor
de quantas hoj'eu sei, per bõa fé.
E vejam que farám, ca já 'si é.
E se me por aquest'ham desamor,
hajam de seu quen'as lo', e entom
nunca lhes por en façam se mal nom:
ca nom faz a mim a minha melhor!
E se m'eu hei, de mi a loar, sabor,
nom ham por en por que se mi assanhar,
mais ar hajam de seu quen'as loar
e a quem hajam por en desamor,
com'a mim faz aquela que eu já
loarei sempr'e sei bem que nom há,
de fazer a mim bem, nẽum sabor.
Ca se m'algum bem quisesse fazer,
já que que[r] m'en fezera entender,
des quant'há que a filhei por senhor.
536
Fernão Garcia Esgaravunha
A Melhor Dona Que Eu Nunca Vi
A melhor dona que eu nunca vi,
per bõa fé, nem que oí dizer,
e a que Deus fez melhor parecer,
mia senhor est, e senhor das que vi,
de mui bom preço e de mui bom sem,
per bõa fé, e de tod'outro bem
de quant'eu nunca doutra dona oí.
E bem creede, de pram, que é 'ssi,
e será já, enquant'ela viver,
e quen'a vir e a bem conhocer,
sei eu, de pram, que dirá que é 'ssi.
Ainda vos de seu bem mais direi:
é muit'amada, pero que nom sei
quen'a tam muito ame come mim.
E por tod'esto mal dia naci,
porque lhe sei tamanho bem querer,
como lh'eu quer'e vejo-me morrer,
e non'a vej', e mal dia naci!
Mais rog'a Deus, que lhe tanto bem fez,
que El me guise com'algũa vez
a veja ced', u m'eu dela parti,
com melhor coraçom escontra mim.
per bõa fé, nem que oí dizer,
e a que Deus fez melhor parecer,
mia senhor est, e senhor das que vi,
de mui bom preço e de mui bom sem,
per bõa fé, e de tod'outro bem
de quant'eu nunca doutra dona oí.
E bem creede, de pram, que é 'ssi,
e será já, enquant'ela viver,
e quen'a vir e a bem conhocer,
sei eu, de pram, que dirá que é 'ssi.
Ainda vos de seu bem mais direi:
é muit'amada, pero que nom sei
quen'a tam muito ame come mim.
E por tod'esto mal dia naci,
porque lhe sei tamanho bem querer,
como lh'eu quer'e vejo-me morrer,
e non'a vej', e mal dia naci!
Mais rog'a Deus, que lhe tanto bem fez,
que El me guise com'algũa vez
a veja ced', u m'eu dela parti,
com melhor coraçom escontra mim.
702
Paio Soares de Taveirós
Vi Eu Donas Em Celado
- Vi eu donas em celado
que já sempre servirei
por que ando namorado;
pero nom vo-las direi
com pavor que delas hei,
assi mi ham lá castigado!
- Des que essas donas vistes,
falarom-vos rem d'amor?
Dizede, se as cousistes,
qual delas é [a] melhor?
Nom fostes conhecedor
quando as nom departistes.
- Ambas eran'as melhores
que homem pode cousir:
brancas eram come flores;
mais, por vos eu nom mentir,
nõn'as pudi departir,
tanto sam bõas senhores.
- Ali perdeste-l'o siso
quando as fostes veer,
ca no falar e no riso
podérades conhocer
qual há melhor parecer;
mais fali[u]-vos i o viso.
que já sempre servirei
por que ando namorado;
pero nom vo-las direi
com pavor que delas hei,
assi mi ham lá castigado!
- Des que essas donas vistes,
falarom-vos rem d'amor?
Dizede, se as cousistes,
qual delas é [a] melhor?
Nom fostes conhecedor
quando as nom departistes.
- Ambas eran'as melhores
que homem pode cousir:
brancas eram come flores;
mais, por vos eu nom mentir,
nõn'as pudi departir,
tanto sam bõas senhores.
- Ali perdeste-l'o siso
quando as fostes veer,
ca no falar e no riso
podérades conhocer
qual há melhor parecer;
mais fali[u]-vos i o viso.
461
Paio Gomes Charinho
Tanto Falam do Vosso Parecer
Tanto falam do vosso parecer
e da vossa bondade, mia senhor,
e da vossa mesura, que sabor
ham muitos, por esto, de vos veer;
mais nom vos digam que de coraçom
vos outro quer bem senom eu, ca nom
sabem quant'eu vós, de bom conhocer.
Ca poucos som que sábiam entender
quantos bẽes em vós há, nem amor
sábi[am] haver en - quem muito nom for
entendudo non'o pode saber;
mais lo gram bem, há i mui gram sazom,
eu vo-lo quer', e outro, com razom,
nom vo-lo pode tam grande querer.
Ca tanto bem ouvi de vós dizer
e tanto vos sodes vós a melhor
dona do mundo, que o que nom for
veer-vos logo nom cuid'a viver;
mais o gram bem – e peço-vos perdom –
eu vo-lo quer', e por vós quantos som
nom saberám, com'eu moiro, morrer.
e da vossa bondade, mia senhor,
e da vossa mesura, que sabor
ham muitos, por esto, de vos veer;
mais nom vos digam que de coraçom
vos outro quer bem senom eu, ca nom
sabem quant'eu vós, de bom conhocer.
Ca poucos som que sábiam entender
quantos bẽes em vós há, nem amor
sábi[am] haver en - quem muito nom for
entendudo non'o pode saber;
mais lo gram bem, há i mui gram sazom,
eu vo-lo quer', e outro, com razom,
nom vo-lo pode tam grande querer.
Ca tanto bem ouvi de vós dizer
e tanto vos sodes vós a melhor
dona do mundo, que o que nom for
veer-vos logo nom cuid'a viver;
mais o gram bem – e peço-vos perdom –
eu vo-lo quer', e por vós quantos som
nom saberám, com'eu moiro, morrer.
577
Martim Soares
Qual Senhor Devia Filhar
Qual senhor devia filhar
quen'a bem soubess'escolher,
essa faz a mim Deus amar
e essa me tem em poder
e essa est a mia senhor
e essa mi faz o maior
bem deste mundo desejar:
o seu bem, que nom há i par;
tam muito a faz Deus valer,
por bom prez e por bom falar,
per bom sem e per parecer.
E d'atal dona o seu bem
nom sei hoj'eu no mundo quem
o podesse saber osmar,
nen'a mia coit', a meu cuidar,
em que m'hoj'eu vejo viver;
ca m'hei de tal don'a guardar,
de qual mi ora oístes dizer:
de a veer; ca, se a vir,
fará-m'ela de si partir
mui trist'e muit'a meu pesar.
Por en nom devia quitar
os seus olhos de a veer
a quem Deus quisesse guisar
de lho querer ela sofrer;
por que os quitaria d'i?
Por tal coit'haver come mi?
Ante se devia matar!
quen'a bem soubess'escolher,
essa faz a mim Deus amar
e essa me tem em poder
e essa est a mia senhor
e essa mi faz o maior
bem deste mundo desejar:
o seu bem, que nom há i par;
tam muito a faz Deus valer,
por bom prez e por bom falar,
per bom sem e per parecer.
E d'atal dona o seu bem
nom sei hoj'eu no mundo quem
o podesse saber osmar,
nen'a mia coit', a meu cuidar,
em que m'hoj'eu vejo viver;
ca m'hei de tal don'a guardar,
de qual mi ora oístes dizer:
de a veer; ca, se a vir,
fará-m'ela de si partir
mui trist'e muit'a meu pesar.
Por en nom devia quitar
os seus olhos de a veer
a quem Deus quisesse guisar
de lho querer ela sofrer;
por que os quitaria d'i?
Por tal coit'haver come mi?
Ante se devia matar!
321
Martim Soares
Joam Fernandéz, Que Mal Vos Talharom
Joam Fernandéz, que mal vos talharom
essa saia que tragedes aqui,
que nunca eu peior talhada vi;
e sequer muito vo-la escotarom:
ca lhi talharom cabo do girom;
muit'i é corta, si Deus me perdom,
porque lhi cabo do girom talharom.
E porque vos lhi talharom atanto
sô o girom, vo-la talharom mal,
Joam Fernández; ar direi-vos al:
pois que dela nom tragedes o manto,
saia tam curta nom convém a vós,
ca muitas vezes ficades em cós
e faz-vos peior talhado já quanto.
Nom vos vestides de saia, guisado,
pois que a corta queredes trager,
ante fazedes i vosso prazer;
ca na corta sodes vós mal talhado
e a longa estar-vos-ia bem;
e a mui corta, senher, nom convém
a vós, que sodes cortês e casado.
essa saia que tragedes aqui,
que nunca eu peior talhada vi;
e sequer muito vo-la escotarom:
ca lhi talharom cabo do girom;
muit'i é corta, si Deus me perdom,
porque lhi cabo do girom talharom.
E porque vos lhi talharom atanto
sô o girom, vo-la talharom mal,
Joam Fernández; ar direi-vos al:
pois que dela nom tragedes o manto,
saia tam curta nom convém a vós,
ca muitas vezes ficades em cós
e faz-vos peior talhado já quanto.
Nom vos vestides de saia, guisado,
pois que a corta queredes trager,
ante fazedes i vosso prazer;
ca na corta sodes vós mal talhado
e a longa estar-vos-ia bem;
e a mui corta, senher, nom convém
a vós, que sodes cortês e casado.
465
Martim Soares
Quando Me Nembra de Vós, Mia Senhor
Quando me nembra de vós, mia senhor,
em qual afã me fazedes viver,
e de qual guisa leixades Amor
fazer em mi quanto x'el quer fazer,
entom me cuid'eu de vós a quitar;
mais pois vos vej'e vos ouço falar,
outro cuidad'ar hei log'a prender.
Porque vos vejo falar mui melhor
de quantas donas sei e parecer
e cuid'em como sodes sabedor
de quanto bem dona dev'a saber.
Este cuidado me faz destorvar
de quant'al cuid'e nom me quer leixar
partir de vós nem de vos bem querer.
E quand'ar soio cuidar no pavor
que me fazedes, mia senhor, sofrer,
entom cuid'eu, enquant'eu vivo for,
que nunca venha ao vosso poder;
mais tolhe-m'en[de], daqueste cuidar,
vosso bom prez e vosso semelhar
e quanto bem de vós ouço dizer.
Mais quem vos ousa, mia senhor, catar?
Deus!, como pod'o coraçom quitar
de vós, nen'os olhos de vos veer?
Nem como pode d'al bem desejar
senom de vós, que[m] sol oir falar
em quanto bem Deus em vós faz haver?
em qual afã me fazedes viver,
e de qual guisa leixades Amor
fazer em mi quanto x'el quer fazer,
entom me cuid'eu de vós a quitar;
mais pois vos vej'e vos ouço falar,
outro cuidad'ar hei log'a prender.
Porque vos vejo falar mui melhor
de quantas donas sei e parecer
e cuid'em como sodes sabedor
de quanto bem dona dev'a saber.
Este cuidado me faz destorvar
de quant'al cuid'e nom me quer leixar
partir de vós nem de vos bem querer.
E quand'ar soio cuidar no pavor
que me fazedes, mia senhor, sofrer,
entom cuid'eu, enquant'eu vivo for,
que nunca venha ao vosso poder;
mais tolhe-m'en[de], daqueste cuidar,
vosso bom prez e vosso semelhar
e quanto bem de vós ouço dizer.
Mais quem vos ousa, mia senhor, catar?
Deus!, como pod'o coraçom quitar
de vós, nen'os olhos de vos veer?
Nem como pode d'al bem desejar
senom de vós, que[m] sol oir falar
em quanto bem Deus em vós faz haver?
574
Paio Gomes Charinho
Senhor Fremosa, Por Nostro Senhor
Senhor fremosa, por Nostro Senhor,
e por mesura, e porque nom há
em mim senom mort' (e cedo será),
e porque sõo vosso servidor,
e polo bem que vos quer'outrossi,
ai, meu lume, doede-vos de mim!
Por mercêe que vos venho pedir,
e porque sõo vosso, e porque nom
cato por al (nem seria razom),
e porque sempre vos hei a servir,
e polo bem que vos quer'outrossi,
ai, meu lume, doede-vos de mim!
Porque vós nunca podedes perder
em haver dóo de mim, e por qual
vos fezo Nostro Senhor, e por al
- porque soub'eu, qual sodes, conhocer –
e polo bem que vos quer'outrossi,
ai, meu lume, doede-vos de mim!
Por quam mansa, e por quam de bom prez,
e por quam aposto vos fez falar
Nostro Senhor, e porque vos catar
fez mais fremoso de quantas El fez,
e polo bem que vos quer'outrossi,
ai, meu lume, doede-vos de mim!
e por mesura, e porque nom há
em mim senom mort' (e cedo será),
e porque sõo vosso servidor,
e polo bem que vos quer'outrossi,
ai, meu lume, doede-vos de mim!
Por mercêe que vos venho pedir,
e porque sõo vosso, e porque nom
cato por al (nem seria razom),
e porque sempre vos hei a servir,
e polo bem que vos quer'outrossi,
ai, meu lume, doede-vos de mim!
Porque vós nunca podedes perder
em haver dóo de mim, e por qual
vos fezo Nostro Senhor, e por al
- porque soub'eu, qual sodes, conhocer –
e polo bem que vos quer'outrossi,
ai, meu lume, doede-vos de mim!
Por quam mansa, e por quam de bom prez,
e por quam aposto vos fez falar
Nostro Senhor, e porque vos catar
fez mais fremoso de quantas El fez,
e polo bem que vos quer'outrossi,
ai, meu lume, doede-vos de mim!
701
Paio Gomes Charinho
A Dona Que Home "Senhor" Devia
A dona que home "senhor" devia
com dereito chamar, per boa fé,
meus amigos, direi-vos eu qual é:
ũa dona que eu vi noutro dia,
e nom lh'ousei mais daquesto dizer;
mais quen'a viss'e podess'entender
todo seu bem, "senhor" a chamaria.
Ca senhor é de muito bem; e vi-a
eu por meu mal, sei-o, per boa fé;
e de morrer por en gram dereit'é,
ca bem soub'eu quanto m'end'averria:
morrer assi com'eu moir'e perder,
meus amigos, o corp', e nom poder
veer ela quand'eu veer querria.
E tod'aquesto m'ant'eu entendia
que a visse; mais tant'oí falar
no seu bem, que me nom soube guardar;
nem cuidava que tam bem parecia
que log'eu fosse por ela morrer;
mais, u eu vi o seu bom parecer,
vi, amigos, que mia morte seria.
É por esto que bem conselharia
quantos oírem no seu bem falar:
non'a vejam e podem-se guardar
melhor ca m'end'eu guardei; que morria
e dixe mal: mais fez-me Deus haver
tal ventura, quando a fui veer,
que nunca dix'o que dizer querria.
com dereito chamar, per boa fé,
meus amigos, direi-vos eu qual é:
ũa dona que eu vi noutro dia,
e nom lh'ousei mais daquesto dizer;
mais quen'a viss'e podess'entender
todo seu bem, "senhor" a chamaria.
Ca senhor é de muito bem; e vi-a
eu por meu mal, sei-o, per boa fé;
e de morrer por en gram dereit'é,
ca bem soub'eu quanto m'end'averria:
morrer assi com'eu moir'e perder,
meus amigos, o corp', e nom poder
veer ela quand'eu veer querria.
E tod'aquesto m'ant'eu entendia
que a visse; mais tant'oí falar
no seu bem, que me nom soube guardar;
nem cuidava que tam bem parecia
que log'eu fosse por ela morrer;
mais, u eu vi o seu bom parecer,
vi, amigos, que mia morte seria.
É por esto que bem conselharia
quantos oírem no seu bem falar:
non'a vejam e podem-se guardar
melhor ca m'end'eu guardei; que morria
e dixe mal: mais fez-me Deus haver
tal ventura, quando a fui veer,
que nunca dix'o que dizer querria.
610
João Soares Coelho
Atal Vej'eu Aqui Ama Chamada
Atal vej'eu aqui ama chamada
que, dê'lo dia em que eu naci,
nunca tam desguisada cousa vi,
se por ũa destas duas nom é:
por haver nom'assi, per bõa fé,
ou se lho dizem porque est amada.
Ou por fremosa, ou por bem talhada
- se por aquest'ama dev'a seer,
é-o ela, podêde-lo creer,
ou se o é pola eu muit'amar;
ca bem lhe quer'e posso bem jurar:
poila eu vi, nunca vi tam amada.
E nunca vi cousa tam desguisada:
de chamar home ama tal molher,
tam pastorinh'é, se lho nom disser
por tod'esto que eu sei que lh'avém:
porque a vej'a todos querer bem,
ou porque do mund'é a mais amada.
[E] é-o de como vos eu disser:
que, pero me Deus bem fazer quiser,
sem ela nom me pode fazer nada!
que, dê'lo dia em que eu naci,
nunca tam desguisada cousa vi,
se por ũa destas duas nom é:
por haver nom'assi, per bõa fé,
ou se lho dizem porque est amada.
Ou por fremosa, ou por bem talhada
- se por aquest'ama dev'a seer,
é-o ela, podêde-lo creer,
ou se o é pola eu muit'amar;
ca bem lhe quer'e posso bem jurar:
poila eu vi, nunca vi tam amada.
E nunca vi cousa tam desguisada:
de chamar home ama tal molher,
tam pastorinh'é, se lho nom disser
por tod'esto que eu sei que lh'avém:
porque a vej'a todos querer bem,
ou porque do mund'é a mais amada.
[E] é-o de como vos eu disser:
que, pero me Deus bem fazer quiser,
sem ela nom me pode fazer nada!
551
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