Escritas

Quotidiano

Poemas neste tema

Fernando Assis Pacheco

Fernando Assis Pacheco

Chula das fogueiras

Amor amor meu big amor
eu dizia shazam e tu não me ligavas
pus Mandrake a seguir-te hábil nos truques
e tu não me ligavas
em qualquer planeta verde e avançadíssimo
tu não me ligavas
estendi o meu braço Homem de Borracha até S. Martinho do Bispo
e tu não me ligavas ponta nenhuma
tu querias era casar na Sé Nova
branquingénua abusar do meu livre alvedrio
fiz-te pois um manguito do tamanho dum choupo
e cá estou pai de filhos um bocado estragado
mas não por tua causa que já não existes
ó sombra de sombra à esquina da farmácia
1 306
Donizete Galvão

Donizete Galvão

Invenção do branco

“...all this had to be imagined
as an inevitable knowledge.”
Wallace Stevens
O tanque é o avesso da casa.
A rebarba.
A ferrugem tomando conta da boca.
O tanque é a parenta decaída,
que machuca os olhos das visitas
com suas carnes rachadas.
O tanque é onde se lava o coador
e o pó de café de seguidas manhãs
desenha uma poça de água preta.
Uma arraia-miúda,
ervas e craca e limo,
flora sem -vergonha,
infiltra-se em suas paredes.
À beira do poço,
alguém imaginou copos-de-leite.
Bebendo a umidade,
em verde e branco brotaram.
Reinventados pela distância,
erguem-se vívidos,
mais brancos que o branco,
artifício de vidro.
Recém-nascidos.
Só porque eles existem,
o tanque e seu corpo saloio
foram salvos do esquecimento.
757
Moacy Cirne

Moacy Cirne

A praça

joão da paraíba oferece a alguém,
com
muito
amor
e carinho,
"lábios que beijei", na voz de orlando silva
(in Cinema Pax, 1983)
1 122
Fernando Assis Pacheco

Fernando Assis Pacheco

A namoradinha de organdi

Como na dança ritual dos patos colhereiros se te amei
foi a cem por cento da minha capacidade metafórica
mas copiado de livros onde o herói sempre enviuvava
cruzei imensas vezes sob a tua varanda com glicínias
pensando numa cena infeliz à moda do Harold
eu sonhava contigo?
eu assoava-me ao pijama!
979
Confúcio

Confúcio

Transporta um punhado de terra

Transporta um punhado de terra todos os dias e farás uma montanha.
3 401
Confúcio

Confúcio

Estudo sem pensamento é trabalho

Estudo sem pensamento é trabalho perdido, pensamento sem estudo é perigoso.
3 076
Voltaire

Voltaire

Entendo e quase invejo a

Entendo e quase invejo a gentil e inocente alegria dos comuns, mas amo a angústia de ser incomum.
3 050
Thomas Edison

Thomas Edison

Um gênio é 1% de

Um gênio é 1% de inspiração e 99% de transpiração.
3 813
Thomas Edison

Thomas Edison

Tudo alcança aquele que trabalha

Tudo alcança aquele que trabalha duro enquanto espera.
3 023
Pablo Picasso

Pablo Picasso

A inspiração existe, mas tem

A inspiração existe, mas tem que te encontrar trabalhando.
3 336
Henry Ford

Henry Ford

Ninguém pode construir uma reputação

Ninguém pode construir uma reputação com base no que vai fazer.
2 760
Friedrich Nietzsche

Friedrich Nietzsche

Não vos aconselho o trabalho,

Não vos aconselho o trabalho, mas a luta. Não vos aconselho a paz, mas a vitória! Seja o vosso trabalho uma luta! Seja vossa paz uma vitória!
3 249
Charlie Chaplin

Charlie Chaplin

A persistência é o caminho

A persistência é o caminho do êxito.
3 445
Abraham Lincoln

Abraham Lincoln

Se eu tivesse nove horas

Se eu tivesse nove horas para cortar uma árvore, passaria seis horas afiando o meu machado
4 082
Juan Gelman

Juan Gelman

Costumes

não é para ficar em casa que fazemos uma casa
não é para ficar no amor que amamos
e não morremos para morrer
temos sede e
paciências de animal
1 833
António José Forte

António José Forte

Reservado ao Veneno

Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras



António José Forte

Uma Faca nos Dentes
Prefácio de Herberto Helder
Parceria A.M. Pereira
Livraria Editora, Lda.
3 298
Mário Dionísio

Mário Dionísio

No cais

Ó quarteirões de casas escuras
sem cortinados nas janelas
O dia é como a noite a noite é como o dia
e o Tejo aqui ao lado traz nas águas
pedaços de óleo e restos da cidade
Ó quarteirões de casas escuras
por trás de montes de carvão
que sabeis vós das nuvens dos poetas?
As vossas nuvens são de fumo
do fumo negro dos navios de carga
e de outros fumos negros da cidade
Ruas sem nome Iguais iguais
como estas mãos e essas mãos
como estes pés e esses pés
que a vida deformou
Ó quarteirões de casas escuras
o que enche aqui o ar é este grito repetido
dos guindastes no cais
e a matraca repetida dos comboios
de mercadorias
Ó quarteirões de casas escuras
os barracões engolem homens
os barracões vomitam homens
Rio
foste tu que inspiraste as ninfas ao Poeta?
Rio
és tu que inspiras os poetas?
Ó quarteirões de casas escuras
é impossível que não haja
nenhum sonho escondido e adormecido lá no fundo
destas vidraças partidas Que não haja
nenhum riso abafado nos barris de alcatrão
E nenhum canto aqui nestas águas do rio
nestas águas soturnas soturnas tão soturnas do rio
Velho sentado à porta da taberna
há tantos anos sentado com a perna de pau
à porta da taberna
com teu cachimbo e tua voz tão serena contando
histórias antigas e lendárias
à porta da taberna
Dá teu lugar a outro A qualquer outro
que quebre o fado do velho gramofone da taberna
e conte histórias um pouco mais felizes e mais claras
em vez do vinho na taberna
1 559
Mário Dionísio

Mário Dionísio

Casa deserta

Ah nada pior que a casa deserta,
sozinha, sozinha.

O fogão apagado e tudo sem interesse.
O mundo lá longe, para lá da floresta.
E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...

Ah nada pior que estes dias e dias,
de cachimbo aceso, com as mãos inertes,
com todas as estradas inteiramente barradas,
ouvindo a floresta.
Com tudo lá longe, na casa deserta,
o vento soprando
e a chuva caindo, na noite caindo...

Há uma cancela que range nos gonzos
um velho cão de guarda que ladra sem motivo-
parece que é gente que vem a entrar...

E é só vento soprando, soprando
e a chuva caindo...

Mudaram muita vez as folhas da floresta.
Os olhos do homem são olhos de doido.
Fogão apagado, aceso o cachimbo, o mundo lá longe.

E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...
2 135
Herberto Helder

Herberto Helder

As Musas Cegas - Ii

Apagaram-se as luzes. É a primavera cercada
pelas vozes.
E enquanto dorme o leite, a minha casa
pousa no silêncio e arde pouco a pouco.
No círculo de pétalas veementes cai a cabeça —
e as palavras nascem.
— Límpidas, amargas.

Eis um tempo que começa: este é o tempo.
E se alguém morre num lugar de searas imperfeitas,
é o pensamento que verga de flores actuais e frias.
A confusão espalha sobre a carne o recôndito peso do ouro.
E estrelas algures aniquilam-se para um campo sublevado
de seivas, para a noite que estremece
fundamente.

Melancolia com sua forma severa e arguta,
com maçãs dobradas à sombra do rubor.
Aqui está a primavera entre luas excepcionais e pedras soando
com a primeira música de água.
Apagaram-se as luzes. E eu sorrio, leve e destruído,
com esta coroa recente de ideias, esta mão
que na treva procura o vinho dos mortos, a mesa
onde o coração se consome devagar.

Algumas noites amei enquanto rodavam ribeiras
antigas, degrau a degrau subi o corpo daquela que se enchera
de minúsculas folhas eternas como uma árvore.
Degrau a degrau devorei a alegria —
eu, de garganta aberta como quem vai morrer entre águas
desvairadas, entre jarros transbordando
húmidos astros.

Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer
com os olhos queimados pelo poder da lua.
Por isso é de noite, é primavera de noite, e ao longe
procuro no meu silêncio uma outra forma
dos séculos. Esta é a alegria coberta de pólen, é
a casa ligeira colocada num espaço
de profundo fogo.
E apagaram-se as luzes.

— Onde aguardas por mim, espécie de ar transparente
para levantar as mãos? onde te pões sobre a minha palavra,
espécie de boca recolhida no começo?
E é tão certo o dia que se elabora.
Então eu beijo, degrau a degrau, a escadaria daquele corpo.
E não chames mais por mim,
pensamento agachado nas ogivas da noite.

E primavera. Arde além rodeada pelo sal,
por inúmeras laranjas.
Hoje descubro as grandes razões da loucura,
os dias que nunca se cortarão como hastes sazonadas.
Há lugares onde esperar a primavera
como tendo na alma o corpo todo nu.
Apagaram-se as luzes: é o tempo sôfrego
que principia. — É preciso cantar como se alguém
soubesse como cantar.
5 277
António Lobo de Carvalho

António Lobo de Carvalho

Soneto CXXXIX

A um sargento-mor de Alcácer, por nome Pedro de tal,
que mandava o seu retrato à sua noiva

Soneto CXXXIX

Um olho cor de esponja, outro albacento,
cinco dentes fronteiros putrefactos,
casaca, veste, e todos os mais fatos
tudo roupa de preso, assaz nojento:

A peruca, de pêlo de jumento;
a bolsa, ninho de um casal de ratos,
as tombas sempre avulsas nos sapatos,
besuntadas as meias de ungento:

Este o Pedro primeiro galicado,
que tem sido da história para adorno
do exército de putas atacado:

Com que, Filis, falemos sem suborno:
veja você, depois de estar casado,
se um traste destes deixa de ser corno?

(Poesias Joviais e Satíricas)
1 321
Mário Dionísio

Mário Dionísio

Arte poética

A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou prague­jando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
- e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.

A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.
2 669
António Maria Lisboa

António Maria Lisboa

Que Pensar destes Poemas

Que pensar destes poemas: mundo sem classificações, esquemas, meios diversos e opostos de ser e conhecer, de se comportar e fazer comportar, de amar e ser amado, pulverizando as escalas, aparências, arbitrariedades dialécticas do Bem e do Mal, da sua reversibilidade, da sua interconexão? - Porque funde num só corpo: porque contém a Lei e contém o que destrói a Lei, é o Paradoxo a forma do Saber Oculto.

1 714
João Maria Vilanova

João Maria Vilanova

Canção na morte de nga-Caxombo

Olho nga-Caxombo ali
na esteira
deitado morto
a todo comprimento

Vejo-o caminhar sem descanso
do Amboim ao Seles
do Seles ao quipeio
outra vez ao Seles
rotas sem rota mato longe
quem que sabia?

Tipoia o ombro pesava que pesava
duramente Zua
e voz de Kalandu
voz serena do sertão
ele a escutava
através do fogo
através da água
o geito sem raizes
de amar o coração das coisas.

Olho-o pela vez última
na luz rasante desse dez de Julho
a barba á monangamba
cavada sua negra face
morto
deitado morto
a todo o comprimento.
1 427
Cândido da Velha

Cândido da Velha

As idades da pedra - II

As pálidas luas das tuas ma~os negras,
os olhos da paisagem insular,
teu corpo conspirando com a noite,
(beijo africano de hu'midas presso~es),
toda a claridade da hora aprofundada
no ventre generoso e farto.

A viagem regressiva aos ancestrais:
O reencontro para la' da linha quebrada,
oculta no tempo; justificac,a~o
de sermos outra vez humanos, simples,
tudo nas pa'lidas palmas das ma~os
quando, materna, apresentaste o peito
à concha do ouvido para que ouvisse
o rumor da noite longinqua
e permitiste ao sono que viesse, ama'vel,
na grande verdade a nosso respeito.
e em toda aquela aurora sem mentira
arborizando o corpo quebrantado
ansia'vamos o dia para celebrarmos
o cacimbo matinal em nosso olhar
no fresco odor da casa de madeira.
1 034