Morte e Luto

Poemas neste tema

Aymar Mendonça

Aymar Mendonça

in Certeza

Para onde irá minha alma
depois da apoteose?

Irá comigo
a certeza de quê?

Não sei se os anos idos
selarão o encontro
vida/morte
com fluxos de sol.

944
André Joffily Abath

André Joffily Abath

O Coronel Medo e o Calendário Assassino

A morte com hora marcada
evita o espanto da surpresa,
mas traz consigo a angústia,
um espanto que lateja.

Tira da vida o teatro
e a transforma em ensaio.
A peça: não foi escrita,
o autor:vive já assassinado.

Foi morto por um calendário
criado por ele mesmo,
ou melhor, por seu mandante,
o Coronel Medo.

1 094
Alexandre Marino

Alexandre Marino

O Relógio Da Matriz

toda noite
quando badala
o relógio da matriz

os homens da cidade
se recolhem
para conta carneiros
e sonhar dinheiros

e morrem
a cada batida
do relógio da matriz

os mortos da cidade
então festejam
as badaladas na igreja
remoçando a terra.

1 193
Ricardo Akira Kokado

Ricardo Akira Kokado

Inverno

Neste imenso azul
nenhuma nuvem no céu
somente urubus

825
Antônio Girão Barroso

Antônio Girão Barroso

As Três Pessoas

Eram três pessoas distintas mas uma só, na verdade:
eu, o Floro e o Assis.
Três corpos numa lama só.
(O povo dizia que nós éramos
três amizades perfeitas
e meninos de futuro, sim senhor.)
Depois veio o tempo mau
o tempo que tudo leva
e levou o Floro pro céu.
O Assis ficou na terra.
Eu não sei onde fiquei.

1 076
Amândio César

Amândio César

Par ou Pernão

Lançaram-se os dados
no par ou pernão
e uns foram
outros não.

E houve saudades nos que foram
e revolta nos que não:
os que foram não voltaram
os que ficaram cá estão...

Jogaram-se vidas,
como se jogam dados:
olhos sem luz,
membros amputados
e uns foram outros não...

Vida?... Amor?...
Lançaram-se os dados: Par ou Pernão?

972
Torquato Tasso

Torquato Tasso

NA MORTE DE MARGARIDA BENTIVOGLIO

Não é isto um morrer,
imortal Margarida,
ma, um passa,, mais cedo a uma, outra vida;
nem dessa ignota via
dor te descore ou prema,
mas só piedade na partida extrema.
De nós penosa e pia,
de ti feliz, segura,
te despedes do mundo, ó alma pura.

1 111
Marcial

Marcial

VI, 18 - A PRISCO, EPITÁFIO DE SALONINO

Santa de Salonino dorme em terra ibérica
Qual melhor o Stix não viu sombra nunca.
Mas chorar é nefasto, pois que vive em ti
Na parte que possuiu e mais durável quis.

496
Augusto de Campos

Augusto de Campos

Soldado

I
O sol poente desatava, longa,
a sua sombra pelo chão
e
protegido por ela -
braços longamente abertos,
face volvida para os céus -
- um soldado descansava.
Descansava...
havia três meses.

II
- braços longamente abertos,
rosto voltado para os céus,
para os sóis ardentes,
para os luares claros,
para as estrelas fulgurantes...

1 581
Emily Dickinson

Emily Dickinson

MINHA VIDA ACABOU DUAS VEZES

Já morri duas vezes, e vivo.
Resta-me ver enfim
Se terceira vez na outra vida
Sofrerei assim

Dor tão funda e desesperada,
O pungir quotidiano e eterno.
Só sabemos do Céu que é adeus,
Basta a saudade como Inferno.

(Tradução
de Manuel Bandeira)

1 991
Alfred Edward Housman

Alfred Edward Housman

WITH RUE MY HEART

De mágoa o coração me pesa
Por áureos amigos que tive,
Donzelas de lábios rosados
E moços ligeiros e esbeltos.

De rios que um salto não vence
Os moços repousam nas margens;
E estão dormindo as donzelas
Em campos que às rosas descoram.

957
Alfred Edward Housman

Alfred Edward Housman

FAREWELL TO A NAME

Adeus a um número e um nome
Que foi chamado
À treva, silêncio e sono
Do sangue derramado.

Assim cessa em acto
E volta ao fim.
Soldado à pátria barato
E caro para mim.

Assim em sangue se afoga
O chamejante açoite
De uma verdade que volta
Ao pó e à noite.

1 187
Alfred Edward Housman

Alfred Edward Housman

THE SIGTH THAT HEAVES

O suspiro que erva ondula
Onde jamais te hás-de erguer,
É só do ar que ali passa
Sem de suspiros saber.

As lágrimas de diamante
Que adornam teu leito ali
São por certo da manhã -
Que chora, mas não por ti.

1 034
Archibald Mcleish

Archibald Mcleish

CHARTRES

Pedras, o que me espanta
Não é que tenhais resistido
Por tanto tempo a tanto vento e a neve tanta:
Pois não vos tinham construído
Para arrostar nesta colina
O inverno e o vento desabrido?

Meu espanto é que suportais,
Sem vos gastardes, nossos olhos,
Nossos olhos mortais.

(Tradução
de Manuel Bandeira)

1 007
José Augusto Seabra

José Augusto Seabra

Ícone

Cada lado de Deus tem a sua sombrailuminando a morte: a luz só
pousalevemente em seus ombros:entre a luz e a rosa,sobre a
sombrae a sombra

896
Luiza Neto Jorge

Luiza Neto Jorge

Algo se me assemelha

Algo se me
assemelhae me quer para sime desembainhaquando
menos esperoDistorção do espíritopara a
mortecomo o corpo num
saltoirremediavelmentelentoe alto

de Terra Imóvel

1 352
Jorge Melícias

Jorge Melícias

O homem está dobrado sobre a mesa,

as palmas das mãos presas ao tampo,

a morte na nuca.

Em redor as mulheres delimitam a casa,

são os pulsos da casa,

e há um silêncio como um pedra rasgada.

Mas hão-de apagar-se as mulheres

primeiro que o fogo.

de A Luz nos Pulmões(2000)

809
José Augusto Seabra

José Augusto Seabra

Sístole

"Cerra,coração,as pálpebras!" (Lucian Blaga)

Entreabres as pálpebras quando o sangue já gela na última diástole do coração que cega e sossega,
sem lágrimas, na luz que se descerra
1 164
Jorge Melícias

Jorge Melícias

O homem inclinou-se para trás

e a sua fornte acendeu-se

nome a nome.

souberam então que morria,

e precipitaram-se sobre a sua cabeça

bebendo-lhe a luz.

Era um homem como um átrio,

transbordante,

à boca da casa.

de Iniciação ao Remorso(1998)

888
Carlos Figueiredo

Carlos Figueiredo

Eu, da Morte, quase não morro

Eu, da Morte, quase não morro.
Morro mais de mim que morro dela.

E em cada encruzilhada que me tem acontecido
eu me tenho visto
escolher caminho sempre aquele que a ela
torna mais fácil o mister que tem comigo.

1 143
Carlos Figueiredo

Carlos Figueiredo

Flores de Paraguay

Begonias
Y, en Paraguay,
Crisantemos.

No Brasil, o mato.

Plateños
lírios
en tumbas
porteñas.

778
Luís Amaro

Luís Amaro

Intermédio

Alguém que se ignora
Passeia a sua mágua
Lá pela noite fora.

Já sem saber se existe,
Entre silêncio e treva,
Nem alegre nem triste,

Alguém que a própria sorte
Enjeita, vai absorto
Num sonho que é a morte
E é vida — sendo morto.

(In Antologia de Poetas Alentejanos,
de Orlando Neves)

939
Daniel Faria

Daniel Faria

O meu projecto de morrer

O meu projecto de morrer é o meu ofício
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 113
Carlos de Oliveira

Carlos de Oliveira

Desço

pelo cascalho interno da terra,
onde o esqueleto da vida
se petrifica protestando.
Como um rio ao contrário,de águas povoadas
por alucinações mortas boiando levadas
para a alma da terra,
procuro os úberes do fogo.

de Descida Aos Infernos

2 295