Escritas

Morte

Poemas neste tema

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Los enigmas

Yo que soy el que ahora está cantando
seré mañana el misterioso, el muerto,
el morador de un mágico y desierto
orbe sin antes ni después ni cuándo.

Así afirma la mística. Me creo
indigno del Infierno o de la Gloria,
pero nada predigo. Nuestra historia
cambia como las formas de Proteo.

¿Qué errante laberinto, qué blancura
ciega de resplandor será mi suerte,
cuando me entregue el fin de esta aventura

la curiosa experiencia de la muerte?
Quiero beber su cristalino Olvido,
ser para siempre; pero no haber sido.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 227 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Cuarteta

Del Diván de Almotásam el Magrebí (siglo XII).

Murieron otros, pero ello aconteció en el pasado,
que es la estación (nadie lo ignora) más propicia a la muerte.
¿Es posible que yo, súbdito de Yaqub Almansur,
muera como tuvieron que morir las rosas y Aristóteles?


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 155 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Lucas, XXIII

Gentil o hebreo o simplemente un hombre
cuya cara en el tiempo se ha perdido;
ya no rescataremos del olvido
las silenciosas letras de su nombre.

Supo de la clemencia lo que puede
saber un bandolero que Judea
clava a una cruz. Del tiempo que antecede
nada alcanzamos hoy. En su tarea

última de morir crucificado
oyó, entre los escarnios de la gente,
que el que estaba muriéndose a su lado
era Dios y le dijo ciegamente:

Acuérdate de mí cuando vinieres
a tu reino, y la voz inconcebible
que un día juzgará a todos los seres
le prometió desde la Cruz terrible

el Paraíso. Nada más dijeron
hasta que vino el fin, pero la historia
no dejará que muera la memoria
de aquella tarde en que los dos murieron.

Oh amigos, la inocencia de este amigo
de Jesucristo, ese candor que hizo
que pidiera y ganara el Paraíso
desde las ignominias del castigo,

era el que tantas veces al pecado
lo arrojó y al azar ensangrentado.


"El hacedor" (1960)


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 146 e 147 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ii. Esse Que Humano Foi Como Um Deus Grego

Esse que humano foi como um deus grego
Que harmonia do cosmos manifesta
Não só em sua mão e sua testa
Mas em seu pensamento e seu apego

Àquele amor inteiro e nunca cego
Que emergia da praia e da floresta
Na secreta nostalgia de uma festa
Trespassada de espanto e de segredo

Agora jaz sem fonte e sem projecto
Quebrou-se o templo actual antigo e puro
De que ele foi medida e arquitecto

Python venceu Apolo num frontão obscuro
Quebrada foi desde seu eixo recto
A construção possível do futuro
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Meditação do Duque de Gandia Sobre a Morte de Isabel de Portugal

Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Encruzilhada

Onde é que as Parcas Fúnebres estão?
— Eu vi-as na terceira encruzilhada
Com um pássaro de morte em cada mão.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Carta(S) a Jorge de Sena

I

Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde
II

E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida
III

Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem —
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira
Não como filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse
Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
— Grandioso vencedor e tão amargo vencido —
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos
IV

E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Círculo

Num círculo se move
Num círculo fechado

Sua morte o envolve
Como uma borboleta

Seus verdugos o cercam
Como quem cerca o toiro

Em sua volta não vê
Nenhuma porta aberta

Grandes panos de sangue
Sobre os olhos lhe estendem

A sua hora estava
— Como se diz — marcada

Pegador não houve
Nem pega de caras

E as portas estavam
Sobre o grito fechadas
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Estelas Funerárias

Jovens sorridentes celebrando
Em todos os museus a própria morte

Tão direito e firme amor da vida
Aqueles que os amaram consagraram
A breve eternidade do seu povo

Agora expostos numa terra alheia
De seus ossos e cinza separados
Roubados ao lugar que os viu viver
O entreaberto lírio do sorriso
As paisagens sem luz iluminando
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Céu, Terra, Eternidade Das Paisagens

Céu, terra, eternidade das paisagens,
Indiferentes ante o rumor leve,
Que nós sempre lhes somos. Vento breve,
Heróis e deuses, trágicas passagens,
Cuja tragédia mesma nada inscreve
Na perfeição completa das imagens.

Todo o nosso tumulto é menos forte
Do que o eterno perfil de uma montanha.
Cala-se a terra ao nosso amor estranha
— Talvez um dia embale a nossa morte.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Goyesca

Um infinito ardor
Quase triste os veste,
Semelhante ao sabor
Que tem à noite o vento leste.

Bailam na doçura amarga
Da tarde brilhante e densa
E cada gesto que se alarga
Tem a morte em si suspensa.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Estranha Noite Velada

Estranha noite velada,
Sem estrelas e sem lua,
Em cuja bruma recua
Fantasma de si mesma cada imagem.

Jaz em ruínas a paisagem,
A dissolução habita cada linha.
Enorme, lenta e vaga
A noite ferozmente apaga
Tudo quanto eu era e quanto eu tinha.

E mais silenciosa do que um lago,
Sobre a agonia desse mundo vago,
A morte dança
E em seu redor tudo recua
Sem força e sem esperança.

Tudo o que era certo se dissolve;
O mar e a praia tudo se resolve
Na mesma solidão eterna e nua.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Teu Rosto

Onde os outros puseram a mentira
Ficou o testemunho do teu rosto
Puro e verdadeiro como a morte

Ficou o teu rosto que ninguém conhece
O teu desejo sempre anoitecido
Ficou o ritmo exacto da má sorte
E o jardim proibido.
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Susana Thénon

Susana Thénon

O Dançarino

O dançarino disse, danço,
meu vestido é ar e sombra,
meu cabelo é fumaça.
O passado e o futuro dançam em mim.
Cada minuto deixa uma âncora em meu rosto.
Sou o tempo a cada passo,
a morte em minha quietude.
Bailo todos os bailes, me desafogo
e me uno.
Sou mar, o homem do mar:
meu corpo é onda, minha mão é peixe,
minha dor é pedra e sal.
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Susana Thénon

Susana Thénon

Habitante do Nada

Vivo entre pedras
sua forma se parece à minha.
Eu sou uma pedra,
um brinquedo no túmulo de uma criança,
uma medalha escurecida?
Sou antes um espelho gasto
uma superfície que não reflete,
um rosto estranho
um dia que termina.
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Susana Thénon

Susana Thénon

Aqui

Crava-te, desejo
em meu lado raivoso
e molha suas pupilas
por minha última morte.
Aqui o sangue,
aqui o beijo dissoluto,
aqui a torpe fúria de deus
florescendo em meus ossos.
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Susana Thénon

Susana Thénon

Não

Me nego a ser possuída
por palavras, por jaulas
por geometrias abjetas.
Me nego a ser
rotulada
violentada
absorvida.
Só eu sei como me destruir
como bater minha cabeça
contra a cabeça do céu,
como cortar minhas mãos e senti-las à noite
crescendo para dentro.
Me nego a receber esta morte
esta dor
estes planos tramados, inconcebíveis
só eu conheço a dor
que leva meu nome
e só eu conheço a casa de minha morte.
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Susana Thénon

Susana Thénon

Minuto

Em todo instante
se renova
a fugaz memória dos espelhos,
o perfil tosco dos corpos oxidados,
o andaime de palavras
não habitadas por mãos
ou por bocas escuras.
O tempo enruga os caminhos,
apaga os olhares longínquos,
vai iluminando a morte nas esquinas.
E como não saber isto:
chegará um minuto vazio
que almeja nossos rostos.
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Requiem por muitos maios

Conheci tipos que viveram muito. Estão
mortos, quase todos: de suicídio, de cansaço.
de álcool, da obrigação de viver
que os consumia. Que ficou das suas vidas? Que
mulheres os lembram com a nostalgia
de um abraço? Que amigos falam ainda, por vezes,
para o lado, como se eles estivessem à sua
beira?

No entanto, invejo-os. Acompanhei-os
em noites de bares e insônia até ao fundo
da madrugada; despejei o fundo dos seus copos,
onde só os restos de vinho manchavam
o vidro; respirei o fumo dessas salas onde as suas
vozes se amontoavam como cadeiras num fim
de festa. Vi-os partir, um a um, na secura
das despedidas.

E ouvi os queixumes dessas a quem
roubaram a vida. Recolhi as suas palavras em versos
feitos de lágrimas e silêncios. Encostei-me
à palidez dos seus rostos, perguntando por eles - os
amantes luminosos da noite. O sol limpava-lhes
as olheiras; uma saudade marítima caía-lhes
dos ombros nus. Amei-as sem nada lhes dizer - nem do amor,
nem do destino desses que elas amaram.

Conheci tipos que viveram muito - os
que nunca souberam nada da própria vida.


Nuno Júdice | "Teoria geral do sentimento", 1999

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Raquel Nobre Guerra

Raquel Nobre Guerra

Bebo uma bica por dia

Bebo uma bica por dia, às vezes bebo-a fria
depois disto bem que podia morrer, diga-se
com as mãos ao redor de um pescoço amigo
quero dizer, de um livro.

Tenho o carácter objectivo de uma incompetência para a vida.
Sapato gordo, pé franzino, amor quase extinto.
Tanto nome derrotado às minhas mãos vazias.

Haverá certamente uma fórmula adequada
uma domesticidade última de perseverar
em ambas as condições: vivo e morto.
Ser imparcial a meia mão estendida
que frase estúpida para quem insiste
fazer de tudo fronteira com o absoluto.

A verdade é que na verdade não quero nada
como qualquer outra coisa que pudesse querer.
Refaço-me e peço a tal bica que me transfere
a atenção para a vocação de mendiga e altiva
no meu separado insulto ao grande cu do mundo.

Há uma mulher a mais aqui que se eu pudesse subia
e que me devolve o soco do anonimato
não há Buda que nos valha, menina, que fazer?

E eu vou ao café ainda assim para assegurar
que, pelo menos enquanto bebo, persisto
ou talvez seja Deus numa versão melhorada de mim.
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Raquel Nobre Guerra

Raquel Nobre Guerra

Não foi preciso muito

Não foi preciso muito para que a cidade
começasse a tomar o veneno do milho
e fechasse tudo. A Palmeira, o Estádio,
a Barateira, até os grandes candidatos
à última cadeira ficaram por sua conta.
Lisboa é uma azinhaga tristíssima.

Talvez queiram acabar com a música
as doenças tropicais, os sonhadores.
Fechá-los no foyer servir-lhes faisão
e orquídeas negras, preveni-los de que
no sopé da lixeira haverá sempre lugar
para mais uma mantinha.

Que dias estes em que o amor passou
para um tempo que não mexe.
Vida em troca de indícios
de que apenas depois percebemos
a dimensão furiosa do vazio.

Grandes clássicos da vida para quem acha
que por ter lido a Rayuela foi ao cu ao profeta.

Homem, se tiveres sorte saberás
que nunca foi preciso namorar Platão
para saber que o cocheiro vai louco e num só pé.

É importante esta narrativa agigantada de referências
para que tudo feche literalmente com o porteiro da discoteca.

E que não sejamos menos aqui, que ninguém nos ouve,
contra o jogo de não termos conseguido melhor:

I want to fuck everyone in the world
I want to do something that matters

Ficas a dever-me uma.
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José Miguel Silva

José Miguel Silva

Queixas de um utente

Pago os meus impostos, separo
o lixo, já. não vejo televisão
há. cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.

Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.
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José Miguel Silva

José Miguel Silva

Too big to fail

Como pode um investimento tão fiável
garantir este rendimento crescente, numa
diária distribuição de beijos e outras mais-
valias, ainda por cima livres de impostos?

Embora confiasse na tua competência
para criar valor, confesso que não esperava
tanto quando decidi aplicar nos teus títulos
sensíveis os meus parcos activos emocionais.

O mais estranho no mundo actual, é ser este
um negócio sem perdedores, aparentemente
imune ao nervosismo das tuas acções
ou às flutuações do meu comércio libidinal.

O meu único receio é que despertemos
a inveja dos deuses, no Olimpo de Bruxelas,
e que Mercado, o monstruoso titã, decida
baixar para lixo o "rating" da nossa relação,

deixando-nos sem crédito na praça romanesca
e em "default" o coração. Mas não sejamos
pessimistas. Aliás, ambos sabemos que Cupido
nos ampara com sua mão invisível. E mesmo

que entrássemos ambos em depressão, tenho
a certeza de que o Estado português nos daria
todo o apoio, concordando que um amor como
este é simplesmente demasiado grande para falir.
1 190
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Brief encounter - David Lean (1945)

Quando duas almas, e digo bem,
se enamoram uma da outra,
estamos perante um caso fragrante
de romantismo inglês. A princesa,
o dragão e o senhor chapéu de coco:
tanto basta para um drama
em que o remorso é o artista
principal. São assim os infelizes,
não conseguem partir um prato
sem ficar tolhidos pelo sentimento
de culpa. E por isso, sentem eles,
o melhor é estar quieto na berma
do sofá, e ter medo de tudo,
de tudo menos da infelicidade.
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