Literatura e Palavras
Poemas neste tema
Ieda Estergilda
Anúncio Urgente
Procura-se um poeta
com estrela na testa
e voz de profeta.
Apareça, poeta
enxergarei a estrela
entenderei a parábola.
Precisa-se de um poeta
do tamanho do seu tempo
pode vir de marte, do mato
ou no vento.
Precisa-se de um poeta
dispensa-se currículo
o nome do barco é poesia.
com estrela na testa
e voz de profeta.
Apareça, poeta
enxergarei a estrela
entenderei a parábola.
Precisa-se de um poeta
do tamanho do seu tempo
pode vir de marte, do mato
ou no vento.
Precisa-se de um poeta
dispensa-se currículo
o nome do barco é poesia.
800
João Luiz Pacheco Mendes
Por Outro Lado
Tem poeta fingidor
fingindo tão completamente
que chega a fingir-se autor
do verso que a outro pertence...
fingindo tão completamente
que chega a fingir-se autor
do verso que a outro pertence...
1 060
Carlos Vogt
Pragmatismo Estético
A disciplina é quase tudo
menos o dia-a-dia
o poema é quase nada
mais a inspiraçäo
na falta solidária do mesmo quase
faz-se o poema
vive a poesia
(1991)
menos o dia-a-dia
o poema é quase nada
mais a inspiraçäo
na falta solidária do mesmo quase
faz-se o poema
vive a poesia
(1991)
914
Adriana Abdenur
Ser quase
Sou quase poeta --
falta pouquinho.
Ser-lo-ei
devagarinho.
Cato minhas pequenas vaidades
e as guardo numa bolsinha de feltro azul,
dentro de uma caixa de sapatos
la no fundo do armario laqueado.
E aguardo.
Meus poemas -- quando os escrever --
terao o cheiro da memoria bem-guardada,
da nostalgia, da naftalina.
falta pouquinho.
Ser-lo-ei
devagarinho.
Cato minhas pequenas vaidades
e as guardo numa bolsinha de feltro azul,
dentro de uma caixa de sapatos
la no fundo do armario laqueado.
E aguardo.
Meus poemas -- quando os escrever --
terao o cheiro da memoria bem-guardada,
da nostalgia, da naftalina.
977
Carlos Vogt
Obsesssäo
Outra vez o poema sonâmbulo
o sonho do poeta outra vez
agora perto
os pés
näo a forma
a mesma
ardente lisa fugidia pronta:
um ângulo reto
uma estrela de sombras
um poema ao revés.
(1991)
o sonho do poeta outra vez
agora perto
os pés
näo a forma
a mesma
ardente lisa fugidia pronta:
um ângulo reto
uma estrela de sombras
um poema ao revés.
(1991)
1 098
Wanda Cristina
Aliteração
Eu quero dançar contigo
dentro do poesia,
como dança o povo dentro do Estado.
Eu quero rebolar contigo em cada rima,
como rebola o povo dentro do salário.
Eu escolho uma aliteração
para a nossa vida:
filhos, felicidade, família, feijão, farinha...
como o povo, em fé,
faz folia, forra a fome com futebol e fantasia.
dentro do poesia,
como dança o povo dentro do Estado.
Eu quero rebolar contigo em cada rima,
como rebola o povo dentro do salário.
Eu escolho uma aliteração
para a nossa vida:
filhos, felicidade, família, feijão, farinha...
como o povo, em fé,
faz folia, forra a fome com futebol e fantasia.
1 127
Vitor Casimiro
Quem Mais Poderia Ser?
Lembro-me bem
Das primeiras palavras
Que sussurraste junto a mim:
"Acorda, abre bem os olhos,
E grita, o mais alto...
Não resta dúvidas: É você!"
Lembro-me, foste tu,
Poesia.
Das primeiras palavras
Que sussurraste junto a mim:
"Acorda, abre bem os olhos,
E grita, o mais alto...
Não resta dúvidas: É você!"
Lembro-me, foste tu,
Poesia.
961
Vitor Casimiro
Problema de Pontuação
Será Ponto-e-vígula
Diferente
De ponto ou
Vírgula,
Somente?
Que nada!
São esses dois pontos,
Reticentes
Que muito dizem
Entre parênteses!
Diferente
De ponto ou
Vírgula,
Somente?
Que nada!
São esses dois pontos,
Reticentes
Que muito dizem
Entre parênteses!
649
Gilberto Mendonça Teles
No Foz do Tejo
E todavia a trave na garganta
e a grossa mão medrosa sem poder
interpretar sequer o que repete,
o que soletra, o que rumina há séculos,
nós, gagos de Babel, babamos versos.
Jorge de Lima
e a grossa mão medrosa sem poder
interpretar sequer o que repete,
o que soletra, o que rumina há séculos,
nós, gagos de Babel, babamos versos.
Jorge de Lima
1 640
Marcelo Tápia
ironia do destino
Ayds emagrece com segurança 4,5 kg por mês.
Já emagreceu milhares de americanos.
(...) logo, logo, Ayds estará em todo o Brasil.
anúncio publicitário em revista Cláudia, c. 1972
no anúncio antigo de produto dietético
o humor tétrico adivinho da palavra:
poder intemporal, primitivo, insone
a se trair só por um ipsilone?
Já emagreceu milhares de americanos.
(...) logo, logo, Ayds estará em todo o Brasil.
anúncio publicitário em revista Cláudia, c. 1972
no anúncio antigo de produto dietético
o humor tétrico adivinho da palavra:
poder intemporal, primitivo, insone
a se trair só por um ipsilone?
865
Rodrigo Carvalho
Livro
à Soares Feitosa,
sobre o seu espantoso
"Requiem em Sol da Tarde"
Quem ao ler um livro,
chora,
como à morte de um querido ente,
sente,
o peso e a dor das palavras,
e cada gota de sangue e lágrimas,
como manchas,
em cada página.
E tem a alma leve, pura,
voando livremente...
Salvador, 12 de novembro de 1996
sobre o seu espantoso
"Requiem em Sol da Tarde"
Quem ao ler um livro,
chora,
como à morte de um querido ente,
sente,
o peso e a dor das palavras,
e cada gota de sangue e lágrimas,
como manchas,
em cada página.
E tem a alma leve, pura,
voando livremente...
Salvador, 12 de novembro de 1996
871
Sá Júnior
Disputa Literária
Anunciam um concurso,
e um poema novo
tem que me nascer.
Aflora-me uma oportunidade
de compor um poema industrial,
com data, finalidade e número de série.
A proposta me insinua
vantajosa e fácil,
e nem minha emoção
pondera o peso
de tamanha aventura.
A disputa literária
que espere meus olhos
lacrimejarem na próxima esquina...
e um poema novo
tem que me nascer.
Aflora-me uma oportunidade
de compor um poema industrial,
com data, finalidade e número de série.
A proposta me insinua
vantajosa e fácil,
e nem minha emoção
pondera o peso
de tamanha aventura.
A disputa literária
que espere meus olhos
lacrimejarem na próxima esquina...
763
Roberto Pontes
Contracanto
Estou em meu poema
como os amantes se estão.
Moro nas vogais e consoantes
circunflexos
ós e xizes cantantes.
Estou nos casebres tristes
da imaginação.
Sou nas quase
vírgulas de ouro
que faço sem porquês.
O alfabeto habito
como me moram
muitas vezes muitas
meu coração.
como os amantes se estão.
Moro nas vogais e consoantes
circunflexos
ós e xizes cantantes.
Estou nos casebres tristes
da imaginação.
Sou nas quase
vírgulas de ouro
que faço sem porquês.
O alfabeto habito
como me moram
muitas vezes muitas
meu coração.
1 174
Roberto Pontes
Colóquio
A chuva tamborila
pingos de prata
contra a noite.
A borboleta cinza
se enamora do poeta.
(In: revista O Saco. Fortaleza, ano 1, n. 5, 1976)
pingos de prata
contra a noite.
A borboleta cinza
se enamora do poeta.
(In: revista O Saco. Fortaleza, ano 1, n. 5, 1976)
900
Raniere Rodrigues dos Santos
Sou Poeta
Para provar que sou poeta
Tenho que poetizar.
Para poetizar,
Tenho que inspirar-me.
Para inspirar-me,
Tenho que amar,
Para amar,
Tenho que sentir.
Para sentir,
Tenho que ver.
Para ver,
Tenho que crer.
Para crer,
Tenho que viver
Para viver,
Tenho que ser.
Ser Poeta.
Tenho que poetizar.
Para poetizar,
Tenho que inspirar-me.
Para inspirar-me,
Tenho que amar,
Para amar,
Tenho que sentir.
Para sentir,
Tenho que ver.
Para ver,
Tenho que crer.
Para crer,
Tenho que viver
Para viver,
Tenho que ser.
Ser Poeta.
795
Rodrigo Guidi Peplau
Poêmio
Poêmio
sou eu
um poêmio
que foge se o sol nasceu
que tem várias paixões
mas nenhuma namorada
que é amigo das ilusões
e dorme com a tristeza
agarrada.
Poêmio
e toda sua papelada
o poêmio
que sem ela não é nada
que trata cada emoção
como sua afilhada
e cria seu coração
com as dores que tomou
das pancadas
sou eu
um poêmio
que foge se o sol nasceu
que tem várias paixões
mas nenhuma namorada
que é amigo das ilusões
e dorme com a tristeza
agarrada.
Poêmio
e toda sua papelada
o poêmio
que sem ela não é nada
que trata cada emoção
como sua afilhada
e cria seu coração
com as dores que tomou
das pancadas
1 087
Pedro Paulo de Sena Madureira
Affonso Romano de Sant’ana
Entre escolhos e rombos
sem temer os tombos
narras a exata fúria de teus versos.
Professas um carvão implacável
que me queima e não hesita, aceso,
ante a cinza provável
que o anula.
No fundo e fim de teus poemas
devassas o tempo, seus casulos e traves.
Rezas, e não sabes.
sem temer os tombos
narras a exata fúria de teus versos.
Professas um carvão implacável
que me queima e não hesita, aceso,
ante a cinza provável
que o anula.
No fundo e fim de teus poemas
devassas o tempo, seus casulos e traves.
Rezas, e não sabes.
730
Paulo F. Cunha
Pseudônimos
Amor tem vários pseudônimos :
Se longe se chama saudade
Se perto se chama desejo,
concomitante se chama cópula
com raiva se chama desgosto
Feliz se chama de enlevo
Desconfiado se chama desespero,
São tantos os nomes , tantos
que melhor seria p’ra todo mundo
guardar , no armário , o dicionário
e apenas falar em amor
Se longe se chama saudade
Se perto se chama desejo,
concomitante se chama cópula
com raiva se chama desgosto
Feliz se chama de enlevo
Desconfiado se chama desespero,
São tantos os nomes , tantos
que melhor seria p’ra todo mundo
guardar , no armário , o dicionário
e apenas falar em amor
929
Luís Palma Gomes
Windows 95
Eram pequenas palavras,
as grandes janelas
Nem as procurei
achei-as
uma a uma
por debaixo das pedras
por detrás das luas cheias
Eram o meu pequeno segredo,
as grandes janelas
Eram apenas palavras,
palavras a medo,
as grandes janelas...
as grandes janelas
Nem as procurei
achei-as
uma a uma
por debaixo das pedras
por detrás das luas cheias
Eram o meu pequeno segredo,
as grandes janelas
Eram apenas palavras,
palavras a medo,
as grandes janelas...
1 067
Oswald de Andrade
O Gramático
Os negros discutiam
Que o cavalo sipantou
Mas o que mais sabia
Disse que era
Sipantarrou.
Que o cavalo sipantou
Mas o que mais sabia
Disse que era
Sipantarrou.
5 788
Olga Savary
David
Não sendo bicho nem deus
nem da raiz tendo a força
ou a eternidade da pedra,
o poeta nas palavras
põe essa força de nada:
sua funda é o poema.
nem da raiz tendo a força
ou a eternidade da pedra,
o poeta nas palavras
põe essa força de nada:
sua funda é o poema.
1 264
Ona Gaia
Cacófato Mental
Não importa a marca
semente com mente
não mente
semente sem mente
demente
semente demente
somente.
semente com mente
não mente
semente sem mente
demente
semente demente
somente.
982
Neide Archanjo
Da Poesia
Esculpo a página a lápis
e um cheiro de bosque
então me aparece.
Que a poesia é feita de romãs
daquilo que é eterno
e de tudo que apodrece.
e um cheiro de bosque
então me aparece.
Que a poesia é feita de romãs
daquilo que é eterno
e de tudo que apodrece.
1 245
Marcelo Penido Silva
O que é a Poesia?
Poesia é como pó
que num sôpro é
o que não sopro
e que jamais seria.
Poesia é
sem ser
meu querer, meu dis ser
e cobre
de prata e ouro
a mais preciosa linha.
Meu veio de Vida
nas mãos de outro.
que num sôpro é
o que não sopro
e que jamais seria.
Poesia é
sem ser
meu querer, meu dis ser
e cobre
de prata e ouro
a mais preciosa linha.
Meu veio de Vida
nas mãos de outro.
929
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