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Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ELEGY

On the marriage of my dear friend Mr. Jinks
(but which may with equal aptness be applied
to the marriage of many other gentlemen)

I

Ye nymphs whose beauties all your hills
                Adorn,
Embodied graces of the sun‑traced rills,
                Mourn;
For gentle Corydon henceforth,
In this hard world where all must pass,
Will feel as icy as the North.
                Alas!

II

        Ah, Corydon! Ah, Corydon!
        And hast thou left all happiness,
        Immoraled joy and whiskied liberty?
                Ah, Corydon!
        Great is our distress.
        And art thou no more free?
Bars shall be useless now. Alas! in vain
The music‑hall shall ring with voices known,
In vain the horse shall course the plain
        And the struck sparrer groan.
        And dogs and beasts and women,
        And brandy, gin and wine,
        And brutish brutes and human ­-
Oh, say, shall all these joys no more be thine?

lll

        Ah, frailness of mankind!
Thou who didst laugh at woman and didst hold
Thyself superior, now, alas! wilt find,
Amid thy waning joy and waning gold,
        Thou learnedst in a sorry school
        That taught thee to disdain
The seeming‑tender being whose dread rule
Shall now wreak on thee horrid pain.
        Too late now wilt thou learn, too late,
        When thy voice is low and humble thy gait,
        When thy soul is crushed and thy dress sedate,
The greatest of all ills the gods on humans rain.

IV

Ah, what avails all mourning? Thou art gone
From life and youth and gaudy loveliness,
From that deep rest that men call drunkenness.
        Ah, Corydon! Ah, Corydon!
        Thou the first hope of all our race
Hast left the blessed paths of peace and love.
        Ah, wilt thou be content to rove
From shop to shop with her, thy mother‑in‑law,
        Or tremble full to hear at night,
        With horror deep and deep affright.
The wordy torrent from thy spouse's jaw?

V

Oh, the troubles to come to thee can ever I dare name?
To work in the day, and at night to walk the bedroom's length,
On a seeming‑heavy baby to waste thy seeming‑waning strength,
And as the husband of thy wife to reach the light of fame.
Now my voice is broke with weeping, and mine eyes red, as with sand,
And my spirit worn with sighing, and with sighing worn my breast ­
Ah, farewell, that thou art gone now to the dreaded obscure land
Where the wicked cease from troubling and the weary never rest.
1 639
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

V - Braços cruzados, sem pensar nem crer.

V

Braços cruzados, sem pensar nem crer,
Fiquemos pois sem mágoas nem desejos.
Deixemos beijos, pois o que são beijos ?
A vida é só o esperar morrer.

Longe da dor e longe do prazer,
Conheçamos no sono os benfazejos
Poderes únicos; sem urzes, brejos,
A sua estrada sabe apetecer.

Coroado de papoilas e trazendo
Artes porque com sono tira sonhos,
Venha Morfeu, que as almas envolvendo,

Faça a felicidade ao mundo vir
Num nada onde sentimo-nos risonhos
Só de sentirmos nada já sentir.
1 277
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

FRAGMENT OF DELIRIUM

I know not whether my mind is broken
Nor do I know if my mind is ill;
I know not if love is but the last token
Of God to me, or a word unspoken
        In a chaos of will.

My thoughts are such as the mad must have
        And dead things guard my soul
Grotesque and odd are the shapes that rule
In my brain as worms in a grave
1 250
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Cabeça de ouro mortiço

Cabeça de ouro mortiço
Com olhos de azul do céu,
Quem te ensinou o feitiço
De me fazer não ser eu?
1 280
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quem és, não o serás, que o tempo e a sorte

Quem és, não o serás, que o tempo e a sorte
        Te mudarão em outro.
Para quê pois em seres te empenhares
        O que não serás tu?
Teu é o que és, teu o que tens, de quem
        E o que outro tiveres?
1 209
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Concentra-te, e serás sereno e forte;

Concentra-te, e serás sereno e forte;
Mas concentra-te fora de ti mesmo.
Não sê mais para ti que o pedestal
No qual ergas a estátua do teu ser.
Tudo mais empobrece, porque é pobre.
1 126
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

The day is sad as I am sad,

The day is sad as I am sad,
But that no moment can abate
That pang that is all I have had
To take with me and see and feel
While life goes by like a mere wheel.

No. Deeper things than skies and plains
Are dark and lower'd o'er in me.
My sorrows are more empty pains
Than of which plains landscapes can symbols be.
And my own [?] weight of life and self
Resembles nothing but itself.
1 301
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quem fui é externo a mim. Se lembro, vejo;

Quem fui é externo a mim. Se lembro, vejo;
E ver é ser alheio. Meu passado
        Só por  visão relembro.
Aquilo mesmo que senti me é claro.
Alheia é a alma antiga; o que me sinto
         Chegou hoje à estalagem.
Quem pode conhecer, entre tanto erro
De modos de sentir-se, a exacta forma
         Que tem para consigo?
790
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Lá vem o homem da capa

Lá vem o homem da capa
Que ninguém sabe quem é...
Se o lenço os olhos te tapa
Vejo os teus olhos por fé.
2 546
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Duas vezes jurei ser

Duas vezes jurei ser
O que julgo que sou,
Só para desconhecer
Que não sei para onde vou.
1 144
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Deixaste o dedal na mesa

Deixaste o dedal na mesa
Só pelo tempo da ausência —
Se eu to roubasse dirias
Que eu não tinha consciência.
742
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando te vais a deitar

Quando te vais a deitar
Não sei se rezas se não.
Devias sempre rezar
E sempre a pedir perdão.
1 219
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

TRAMWAY

TRAMWAY

Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).

Amanhã elas, postas em verso, serão
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)
Triunfo meta, início, clarão
Que talvez não acabe.

E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado
Por quem entra primeiro.

Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,
O resto, o que aqui está sentado, sou eu,
Vestido, visual, regular, sempre em mim,
Sob o azul do céu.

Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo
Senso essencial, mas certeiro e conciso
Da vida e do mundo!

Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo
Que este carro vai com os bancos cheios
Para onde eu sigo.

E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?
Onde é que está aqui o erro que sinto?
A minha razão enternecida aqui perde pé
E pensando minto,

Mas a que verdade minto, que ponte,
Há entre o que é falso aqui e o que é certo?
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,
Se o que está a descoberto

Agora no meu meditar é uma treva e um abismo
Que hei-de fazer da minha consciência dividida?
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?
De que lado é que é a vida?
867
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tens um anel imitado

Tens um anel imitado
Mas vais contente de o ter.
Que importa o falsificado
Se é verdadeiro o prazer.
1 517
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quê? Eu morrer?

Quê? Eu morrer?
Morrer? (...) onde centralizar
Sensação (...) e pensamento,
Suprema realidade, único Ser
Passar, deixar de ser! A consciência
Tornar-se inconsciente? E como? O Ser
Passar a Não-Ser? É impensável.
E contudo é impensável o Real.
— Vida (...) inconsciente —
E ela é o Real.
1 207
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Longe de mim em mim existo

Longe de mim em mim existo
À parte de quem sou,
A sombra e o movimento em que consisto.
1 226
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Já oiço o impetuoso

Já oiço o impetuoso
Circular ruído de arrastadas folhas,
E num vago abrir d'olhos na luz sinto
As amarelidões e palidezes
Onde o outono sopra nuamente.
Deixá-lo que assim seja — que me importa?
Como um fresco lençol eu quereria
Puxar sombra e silêncio sobre mim
E dormir — ah dormir! — num deslizar
Suave e brando para a inconsciência
Num apagar sentido docemente.
1 165
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Monólogo à Noite

Tenha eu a dimensão e a forma informe
Da sombra e no meu próprio ser sem forma
Eu me disperse e suma!
Toma-me, ó noite enorme, e faz-me parte
Do teu frio e da tua solidão,
Consubstancia-me com os teus gestos
Parados, de silêncio e de incerteza,
Casa-me no teu sentido de (...)
E anulamente... Que eu me torne parte
Das raízes nocturnas e dos ramos
Que se agitam ao luar... Seja eu p'ra sempre
Uma paisagem numa encosta em ti...
Numa absoluta e (...) inconsciência
Eu seja o gesto irreal do teu beijo
E a cor do teu luar nos altos montes
Ou, negrume absoluto teu, que eu seja
Apenas quem tu és e nada mais...
Suspende-me no teu aéreo modo,
Comigo envolve as estrelas e espaço!
E que o meu vasto orgulho se contente
De teu ter infinito, e a vida tenha
Piedade por mim próprio no consolo
Da tua calma inúmera e macia...
1 383
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Perdido / No labirinto de mim mesmo, já

Perdido
No labirinto de mim mesmo, já
Não sei qual o caminho que me leva
Dele à realidade humana e clara
Cheia de luz, onde sentir-me irmãos.
Por isso não concebo alegremente,
Mas com profunda pesadez em mim,
Esta alegria, esta felicidade,
Que odeio e que me fere.
                                         Ouvir um riso
Amarga-me a alma — mas por quê não sei.
Sinto como um insulto esta alegria...
Toda a alegria. Quase que sinto
Que rir é rir... não de mim mas, talvez
Do meu ser.
Um insulto ao mistério estar a rir
E tendo o horror, do poder durar eterno
Do incompreendido! Estranho!

Felicidade, (...) composto
De sensualidade e infantilismo...
Como te posso eu ter, felicidade?
1 231
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não tenhas nada nas mãos [2]

Não tenhas nada nas mãos
Salvo uma memória na alma

Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último

Nada terás deixado.
Tu serás só tu próprio

Não poderão roubar-te
O que nunca tiveste.

Que trono te querem dar
Que Atropos to não tire?...

Que Coroa que não fane
No arbítrio de Minos?

Que horas que não te tornem
Da estatura da sombra

Que serás quando fores
O fim da tua estrada?

Colhe as flores. Abdica
E sê Rei de ti próprio.
2 057
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

DEATH IN LIFE

Another day is past, and while it past,
What have I pondered or conceived or read?
Nothing! Another day has gone to waste.
Nothing! Each hour as it is born is dead.

I have done nothing. Time from me has fled,
And unto Beauty not a statue raised!
By thought's firm power no creed nor lie debased
By this young useless and wearied.

Is it my lot then ever to remain
Like a grain of sand upon the beach,
A thing at will of wind, at will of sea?

Alas, that aught that wishes and has pain,
Because e'er fall'n from what its power should reach
Less than a thing inanimate should be!
1 460
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah não poder tirar de mim os olhos,

Ah não poder tirar de mim os olhos,
Os olhos da minh'alma da minh'alma
(Disso a que alma eu chamo)!
Só sei de duas cousas, nelas absorto
Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo
O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.

Oh vulgar, oh feliz! Quem sonha mais
Eu ou tu? Tu que vives inconsciente ,
Ignorando este horror que é existir,
Ser perante o pensamento
Que o não resolve em compreensões, tu
Ou eu, que, analisando e discorrendo
E penetrando (...) nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido,
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta,
Fosse apenas sonhando mais profundo...
E esta ideia nascida do cansaço
E confusão do meu pensar, consigo
Traz horrores inúmeros, porque traz
Matéria nova para o mistério eterno,
Matéria metafísica em que eu
Me perco a analisar.

Pensar fundo é sentir o desdobrar
Do mistério, ver cada pensamento
Resolver em milhões de incompreensões,
Elementos (...)

Oh tortura, tortura, longa tortura!
872
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O horror metafísico de Outrem!

O horror metafísico de Outrem!
O pavor de uma consciência alheia,
Como um deus a espreitar-me! Quem me dera
Ser a única consciência animal
Para não ter olhares sobre mim!

Dos olhos de cada um me fita, vivo,
O mistério de ver; e o horror de verem-me
Abisma-me.

Não posso conceber-me outro, ou pensar
Que a consciência que de mim é gémea
Possa ter outra forma, e um conteúdo
Diferentemente diferente. Só vejo
Homens, bichos, as feras e as aves,
Horrivelmente vivas e fitando.
Sou como um Deus supremo que se houvesse
Reconhecido em mim o único,
E a cujo olhar inúmero se abeira
O horror de mais inúmeros olhares.

Ah, se em mim se reflecte o transcendente
Brilho além de Deus!
1 234
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Em cada Consciência o Grande Horror

Em cada Consciência o Grande Horror
Mostra através da máscara os seus olbos.
E o carnal,
Em toda a sua extensão
De nudez da carne e da alma, mirra
Minha alma do pavor de colocar
A mão, na escuridão, sobre a fronte
Do Mistério.

A cópula dos entes, o contacto
Carnal das almas, pávido encontrar-se
Do horror de uma alma com o de outra alma,
Do mistério de um ser com o de outro ser,
Quintessenciar-se local, tangível
Do Mistério, (...)
                                    Escrever
Em palavras de carne, sentindo
O horror e o mistério do Universo.

        Com que gesto de alma
Dou o passo de mim até à posse
Do corpo de outro, horrorosamente
Vivo, consciente, atento a mim, tão ele
Como eu sou eu.
1 019