Animais e Natureza

Poemas neste tema

João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Um Cavalo Nom Comeu

Um cavalo nom comeu
há seis meses, nem s'ergeu;
mais proug'a Deus que choveu,
       creceu a erva,
e per cabo si paceu,
       e já se leva!

Seu dono nom lhi buscou
cevada, nen'o ferrou;
mailo bom tempo tornou,
       creceu a erva,
e paceu, e arriçou,
       e já se leva!

Seu dono nom lhi quis dar
cevada, nen'o ferrar;
mais, cabo d'um lamaçal,
       creceu a erva,
e paceu, arriçou [ar],
       e já se leva!
1 193
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Dom Pero Núnez Era Em Cornado

Dom Pero Núnez era em Cornado
e ia-s'a Santiag'albergar;
e o agüiro sol el bem catar,
ca muitas vezes l'houv'afaçanhado;
e indo da cas[a] ao celeiro,
houv'um corvo viaraz e faceiro,
de que Dom Pero nom foi rem pagado.

E pois lo el houve muito catado,
diz: - Deste corvo nom posso escapar
que del nom haja 'scarnho a tomar,
com gram perda do que hei gaanhado,
ou da maior parte do que houver,
per ventur', ou do corpo ou da molher,
segund'eu hei o agoiro provado.

E tornou-se contra seu gasalhado
e diz: - Amiga, muit'hei gram pesar,
ca me nom posso de dano guardar
deste corvo, que vejo tam chegado
a nossa casa, pois filha perfia
e corvej'aqui sempr'o mais do dia
e diz de noute "Crás, crás", [a]fumado!
541
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Ua Dona, Nom Dig'eu Qual

Ũa dona, nom dig'eu qual,
nom aguirou ogano mal:
polas oitavas de Natal,
ia por sa missa oir,
e [houv'] um corvo carnaçal,
       e nom quis da casa sair.

A dona, mui de coraçom,
oíra sa missa entom,
e foi por oír o sarmom,
e vedes que lho foi partir:
houve sig'um corv'a carom,
       e nom quis da casa sair.

A dona disse: - Que será?
E i o clérig'está já
revestid'e maldizer-m'-á
se me na igreja nom vir.
E diss'o corvo: – Quá, cá;
       e nom quis da casa sair.

Nunca taes agoiros vi
des aquel dia em que naci
com'aquest'ano houv'aqui;
e ela quis provar de s'ir
e houv'um corvo sobre si
       e nom quis da casa sair.
763
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Os Que Dizem Que Veem Bem E Mal

Os que dizem que veem bem e mal
[e]nas aves e d'agoirar pre[i]t'ham,
querem corvo seestro quando vam
algur entrar; e digo-lhis eu al:
que Iésu Cristo nom me perdom
se ant'eu nom queria um capom
que um gram corvo carnaçal.

E o que diz que é mui sabedor
d'agoir'e d'aves, quand'algur quer ir,
quer corvo seestro sempr'ao partir;
e por en dig'eu a Nostro Senhor
que El[e] me dê, cada u chegar,
capom cevado pera meu jantar
e dê o corvo ao agoirador.

Ca eu sei bem as aves conhoscer
e com patela gorda mais me praz
que com bulhafre, voutre, nem viaraz,
que me nom pode[m] bem nem mal fazer;
e o agoirador torpe que diz
que mais val o corvo que a perdiz,
nunca o Deus leixe melhor escolher.
437
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Pelo Souto de Crexente

Pelo souto de Crexente
ũa pastor vi andar,
muit'alongada da gente,
alçando voz a cantar,
apertando-se na saia,
quando saía la raia
do sol, nas ribas do Sar.

E as aves que voavam,
quando saía l'alvor,
todas d'amores cantavam
pelos ramos d'arredor;
mais nom sei tal qu'i 'stevesse,
que em al cuidar podesse
senom todo em amor.

Ali 'stivi eu mui quedo,
quis falar e nom ousei,
empero dix'a gram medo:
- Mia senhor, falar-vos-ei
um pouco, se mi ascuitardes,
e ir-m'hei quando mandardes,
mais aqui nom [e]starei.

- Senhor, por Santa Maria,
nom estedes mais aqui,
mais ide-vos vossa via,
faredes mesura i;
ca os que aqui chegarem,
pois que vos aqui acharem,
bem dirám que mais houv'i.
307
D. Dinis

D. Dinis

Amad'e Meu Amigo

Amad'e meu amigo,
       valha Deus!
vede'la frol do pinho
       e guisade d'andar.

Amig'e meu amado,
       valha Deus!
vede'la frol do ramo
       e guisade d'andar.

Vede la frol do pinho,
       valha Deus!
selad'o baiozinho
       e guisade d'andar.

Vede la frol do ramo,
       valha Deus!
selad'o bel cavalo
       e guisade d'andar.

Selad'o baiozinho,
       valha Deus!
treide-vos, ai amigo,
       e guisade d'andar.

[Selad'o bel cavalo,
       valha Deus!
treide-vos, ai amado,
       e guisade d'andar.]
839
D. Dinis

D. Dinis

Joam Bolo Jouv'em Ua Pousada

Joam Bolo jouv'em ũa pousada
bem des ogano que da era passou,
com medo do meirinho, que lh'achou
ũa mua que tragia negada;
pero diz el que se lhi for mester
que provará ante qual juiz quer
que a trouxe sempre dês que foi nada.

Esta mũa pod'el provar por sua,
que a nom pod'home dele levar
pelo dereito, se a nom forçar,
ca moram bem cento naquela rua,
per que el poderá provar mui bem
que aquela mua, que ora tem,
que a teve sempre, mentre foi mua.

Nõn'a perderá se houver bom vogado,
pois el pode per enquisas põer
como lha virom criar e trager
em cas sa madr[e], u foi el criado;
e provará per maestre Reinel
que lha guardou bem dez meses daquel
cerro, ou bem doze, que trag'inchado.
285
D. Dinis

D. Dinis

Joam Bol'anda Mal Desbaratado

Joam Bol'anda mal desbaratado
e anda trist'e faz muit'aguisado,
ca perdeu quant'havia gaanhado
e o que lhi leixou a madre sua:
[pois] um rapaz que era seu criado
       levou-lh'o rocim e leixou-lh'a mua.

Se el a mua quisesse levar
a Joam Bol'e o rocim leixar,
nom lhi pesara tant', a meu cuidar,
nem ar semelhara cousa tam crua;
mais o rapaz, por lhi fazer pesar,
       levou-lh'o rocim e leixou-lh'a mua.

Aquel rapaz que lh'o rocim levou,
se lhi levass'a mua que lhi ficou
a Joam Bolo, como se queixou
nom se queixar'andando pela rua;
mais o rapaz, por mal que lhi cuidou,
       levou-lh'o rocim e leixou-lh'a mua.
416
D. Dinis

D. Dinis

Deus! Com'ora Perdeu Joam Simiom

Deus! Com'ora perdeu Joam Simiom
três bestas - nom vi de maior cajom,
nem perdudas nunca tam sem razom:
ca, teendo-as sãas e vivas
e bem sangradas com [boa] sazom,
morrerom-lhi toda[s] com olivas.

Des aquel[e] dia em que naci
nunca bestas assi perdudas vi,
ca as fez ant'el sangrar ante si;
e ante que saíssem daquel mês,
per com'eu a Joam Simiom oí,
com olivas morrerom todas três.

Ben'as cuidara de morte guardar
todas três, quando as fez[o] sangrar;
mais havia-lhas o Dem'a levar,
pois se par [a]tal cajom perderom;
e Joam Simiom quer-s'ora matar
porque lhi com olivas morrerom.
600
D. Dinis

D. Dinis

De Joam Bol'and'eu Maravilhado

De Joam Bol'and'eu maravilhado
u foi sem siso, d'home tam pastor
e led'e ligeiro cavalgador,
que tragia rocim bel'e loução,
e disse-m'ora aqui um seu vilão
que o havia por mua cambiado.

E deste câmbio foi el enganado,
d'ir dar rocim [a]feit'e corredor
por ũa muacha revelador
que nom sei hoj'home que a tirasse
fora da vila, pero o provasse
- se x'el nom for, nom será tam ousado.

Mais nom foi esto senom seu pecado
que el mereceu a Nostro Senhor:
ir seu rocim, de que el gram sabor
havia, dar por mua mal manhada,
que nom queria, pero mi a doada
dessem, nem andar dela embargado.

Melhor fora dar o rocim dõado
ca por tal muacha remusgador,
que lh'home nom guardará se nom for
el, que x'a vai já quanto conhocendo;
mais se el fica, per quant'eu entendo,
sem cajom dela, est aventurado.

Mui mais queria, besta nom havendo,
ant'ir de pé, ca del'encavalgado.
580
D. Dinis

D. Dinis

Ua Pastor Bem Talhada

Ũa pastor bem talhada
cuidava em seu amigo
e estava, bem vos digo,
per quant'eu vi, mui coitada;
e diss': "Oimais nom é nada
de fiar per namorado
nunca molher namorada,
pois que mi o meu há errado".

Ela tragia na mão
um papagai mui fremoso,
cantando mui saboroso,
ca entrava o verão;
e diss': "Amigo loução,
que faria per amores?
Pois m'errastes tam em vão!"
E caeu antr'ũas flores.

Ũa gram peça do dia
jouv'ali, que nom falava,
e a vezes acordava
e a vezes esmorecia;
e diss': "Ai Santa Maria!
que será de mim agora?"
E o papagai dizia:
"Bem, per quant'eu sei, senhora."

"Se me queres dar guarida",
diss'a pastor, "di verdade,
papagai, por caridade,
ca morte m'é esta vida".
Diss[e] el: "Senhor comprida
de bem, e nom vos queixedes,
ca o que vos há servida,
erged'olho e vee-lo-edes".
401
Afonso X

Afonso X

Nom Me Posso Pagar Tanto

Nom me posso pagar tanto
do canto
das aves nem de seu som
nem d'amor nem de missom
nem d'armas - ca hei espanto
por quanto
mui perigo[o]sas som
- come d'um bom galeom
que mi alongue muit'aginha
deste demo da campinha,
u os alacrães som;
ca dentro, no coraçom,
senti deles a espinha.

E juro par Deus lo santo
que manto
nom tragerei, nem granhom,
nem terrei d'amor razom,
nem d'armas, porque quebranto
e chanto
vem delas tod'a sazom;
mais tragerei um dormom,
e irei pela marinha
vendend'azeite e farinha,
e fugirei do poçom
do alacrã, ca eu nom
lhi sei outra meezinha.

Nem de lançar a tavolado
pagado
nom sõo, se Deus m'ampar,
adés, nem de bafordar;
e andar de noute armado,
sem grado
o faço, e a roldar;
ca mais me pago do mar
que de seer cavaleiro;
ca eu foi já marinheiro
e quero-m'oimais guardar
do alacrã, e tornar
ao que me foi primeiro.

E direi-vos um recado:
pecado
já me nom pod'enganar
que me faça já falar
em armas, ca nom m'é dado
- doado
m'é de as eu razõar,
poilas nom hei a provar;
ante quer'andar sinlheiro
e ir come mercadeiro
algũa terra buscar
u me nom possam culpar
alacrã negro nem veiro.
333
Airas Nunes

Airas Nunes

Que Muito M'eu Pago Deste Verão

Que muito m'eu pago deste verão,
por estes ramos e por estas flores
e polas aves que cantam d'amores,
por que ando i led'e sem cuidado;
e assi faz tod'homem namorado:
sempre i anda led'e mui loução.

Cand'eu passo per algũas ribeiras,
sô bõas árvores, per bõos prados,
se cantam i pássaros namorados,
log'eu com amores i vou cantando,
e log'ali d'amores vou trobando
e faço cantares em mil maneiras.

Hei eu gram viç[o] e grand'alegria
quando mi as aves cantam no estio.
801
Airas Nunes

Airas Nunes

Oí Hoj'eu Ua Pastor Cantar

Oí hoj'eu ũa pastor cantar
u cavalgava per ũa ribeira,
e a pastor estava senlheira
e ascondi-me pola ascuitar;
e dizia mui bem este cantar:
"Sô lo ramo verd'e frolido
vodas fazem a meu amigo,
e choram olhos d'amor".

E a pastor parecia mui bem,
e chorava e estava cantando,
e eu mui passo fui-mi achegando
pola oír e sol nom falei rem;
e dizia este cantar mui bem:
"Ai estorninho do avelanedo,
cantades vós e moir'eu e pen'
e d'amores hei mal".

E eu oí-a sospirar entom,
e queixava-se estando com amores,
e fazi'[ũ]a guirlanda de flores,
des i chorava mui de coraçom
e dizia este cantar entom:
"Que coita hei tam grande de sofrer:
amar amig'e non'ousar veer!
E pousarei sô lo avelanal".

Pois que a guirlanda fez a pastor,
foi-se cantando, indo s'en manselinho,
e tornei-m'eu logo a meu caminho,
ca de a nojar nom houve sabor;
e dizia este cantar bem a pastor:
"Pela ribeira do rio
cantando ia la virgo
d'amor:
«quem amores há
como dormirá,
ai bela frol?»".
780
Afonso X

Afonso X

Mester Havia Dom Gil

Mester havia Dom Gil
um falconcinho bornil
que nom voasse,
nemigalha nom filhasse;

[e] um galguilinho vil
que ũa lébor, de mil,
non'[a] filhasse,
mais rabejasse e ladrasse;

podengo de riba Sil
que en fiass'um nihil
que lhi mejasse,
a Dom Gil,
quando lébor i achasse;

e osas d'um javaril
que dessem per seu quadril
[e s'embargasse],
[i] Dom Gil,
quando lébor levantasse.
561
Afonso X

Afonso X

Penhoremos o Daiam

Penhoremos o daiam
       na cadela, polo cam.

Pois que me foi el furtar
meu podeng'e mi o negar
- e quant'é, a meu cuidar,
destes penhos, pesar-lh'-am:
ca o quer'eu penhorar
na cadela, polo cam.
       Penhoremos o daiam
       na cadela, polo cam.

Mandou-m'el furtar alvor
o meu podengo melhor
que havia; e sabor
de penhorar lh'hei, de pram,
e filhar-lh'-ei a maior
sa cadela, polo cam.
       Penhoremos o daiam
       na cadela, polo cam.

Pero querrei-mi aviir
com el, se [mi o] consentir;
mais, se o el nom comprir,
os seus penhos ficar-mi-am;
e querrei-me bem servir
da cadela, polo cam.
       Penhoremos o daiam
       na cadela, polo cam.
574
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

Cegarrega para crianças

A Velha dormindo
o rato roendo
a Velha zumbindo
o rato correndo
a Velha rosnando
o rato rapando
a Velha acordando
o rato calando
a Velha em sentido
o rato escondido
a Velha marchando
o rato mirando
a Velha dizendo
o rato escutando
a Velha ordenando
o rato fazendo
a Velha correndo
o rato fugindo
a Velha caindo
o rato parando
a Velha olhando
o rato esperando
a Velha tremendo
o rato avançando
a Velha gritando
o rato comendo
812
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

Origem dos sonhos esquecidos

Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca

Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar

Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado

Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante

Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras

qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente

Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu

Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo
631
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

Viver com a crueldade

Viver com a crueldade
Da criança que
Tira os olhos ao pássaro
Um desconhecido movendo-se
constantemente
No deserto
Em que cada pegada deixa
Bem marcada na areia
A imagem dessa
Outra existência em que a morte e a
Memória
Ainda nada significam
Mais alto
Muito mais alto talvez
Que a claridade
Do voo das aves que
Partem para o desconhecido
O próprio corpo nada mais é
Do que a sombra
Bem simples por sinal
Dos braços que nos rodeiam
Por erro nosso ou dos outros
Já não existe
A persistência do que
Foi perdido
E as mãos que sentimos
Bem presas seguras aptas
Essas
Todos sabemos
Que podem ainda cada vez mais
Esmagar com cuidado com extremo
cuidado
Dilacerar suavemente
Nos olhos está o amor
553
Baltazar Dias

Baltazar Dias

História da Imperatriz Porcina

Como a noite foi chegada
às horas que anoitecia,
manda que seja levada
por dois homens de valia;
com ela, duas mulheres,
para ir em companhia
para que fosse guardada
sua honra como devia.
Em um navio veleiro,
a Imperatriz se metia
com lágrimas de seus olhos
da terra se despedia.
Chegaram à dita ilha,
à noite do outro dia,
a princesa deixam em terra
com grão choro em demasia.
Tornaram-se com o navio
porque assim fazer cumpria.
Quando a nobre imperatriz
em tal lugar só se via
numa ilha tão deserta,
onde ninguém não vivia
senão bravos animais
de que ela manjar seria,
chorando lágrimas tristes
desta maneira dizia:
― Ó meu nobre Imperador
meu bem e minha alegria
não pouca é vossa lembrança
de quem tanto vos queria.
Quão pouco tempo durou
vossa doce companhia!
Sempre cuidei de vos ver,
algum tempo ou algum dia,
agora por meus pecados,
eu mais nunca vos veria.
Deus perdôe a vosso irmão,
a Virgem Sancta Maria,
que eu lhe perdôo aqui
todo o mal que me fazia.
Ó Senhor, e ó meu pai,
Príncipe e Rei da Ungria,
quão triste vida será
a vossa, sem alegria,
em ouvindo tão má fama
que em Roma de mim corria!
Mais sinto vosso pezar,
que minha grande agonia,
porque morrerei uma vez,
vós morrereis cada dia.
A vossa desonra sinto,
que a morte não a temia;
porque mais há-de temer
que tão sem culpa, morria.
Estas palavras dizendo
mui grande ruido ouvia,
tão terrível e espantoso
que sofrer-se não podia,
Ouvindo isto a Senhora
a força lhe falecia,
como era delicada,
Estes eram animais
em terra logo caía
de muitos que na terra havia,
que tanto que a sentiram
com gram pressa em demasia,
correram para a comerem
cada um qual mais podia.
Antes que a ela chegassem
um resplendor aparecia.
Ficaram todos quedos,
com o temor de uma Senhora
de quem o inferno tremia,
logo vinha com majestade
a Virgem Santa Maria,
para guardar a limpeza
de quem se a ela recorria.
872
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

UMA DAS LIBERDADES

Um pequeno coelho
a correr
com o desespero
entre as pernas

e a erva a crescer

um cão babando
a correr
com a obediência
entre as pernas

e a erva a passar

um caçador rindo
a correr
com a espingarda
entre a morte

e a erva a fugir

um tiro gritando
a parar
com o caçador
entre o estômago

e a erva a esperar

um pequeno coelho
a correr
com a liberdade
entre as pernas

e a erva a sorrir
640
Sérgio Medeiros

Sérgio Medeiros

Tudo para atiçar o riso dos…

Coça-se o passarinho num fio diante do mar
Enquanto avançam recrutas correndo e vociferando
Pela praia iluminada
— o passarinho decerto compara o pelotão que se aproxima com as ondas do mar; e o vê afastar-se
— só diante do mar ele bica com determinação os seus piolhos
719
Sérgio Medeiros

Sérgio Medeiros

Quase

– entre folhas molengas
uma única folha tenra
a oscilar majestosa como um
pássaro negro num galho
que olha do alto para a estrada
em frente

653
Francesca Angiolillo

Francesca Angiolillo

Antropológica

cada mancha do
jaguar adivinha a
mão que seguindo língua
estrangeira hoje morta
a talhou

a serpente era um ser
poderoso
que harmonizava
os princípios
contrários
do universo

u baah k’uhul ajaw
esta é a imagem do
sagrado soberano

o sagrado soberano usava
adornos tingidos com o
pigmento extraído de
Spondylus princeps
uma concha avermelhada
do Pacífico

no lambe-lambe fora
do museu
a serpente
se engole
infinito amor tempo

infinito como o cão
que corre atrás
do próprio rabo
668