Morte e Luto

Poemas neste tema

Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Sêmen

Não quero poluir
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.

O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.

A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.

892
Geir Campos

Geir Campos

Haicai

Vento da manhã
varre as folhas pelo chão
do dia que nasce.

Olhos de afogado:
são de ver coisas terríveis
no fundo do mar.

1 221
Ana Garrett

Ana Garrett

Entre o ser ou o não ser

Entre o ser ou o não ser
escolho o ter
medo de te ver assim,
num sossego pálido
e tranquilo demais.

De entre todas as armas
escolho aquelas,
lindas rosas amarelas,
pintadas timidamente
nos teus imponentes vitrais.

870
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

V - Como se cada beijo

Como se cada beijo
Fora de despedida,
Minha Cloe, beijemo-nos, amando.
Talvez que já nos toque
No ombro a mão, que chama
À barca que não vem senão vazia;
E que no mesmo feixe
Ata o que mútuos fomos
E a alheia soma universal da vida.

2 999
Urhacy Faustino

Urhacy Faustino

ad immortalitatem

para Mário Quintana

Agora que pertence à Grande Constelação,

do outro lado da vida,

ele ri

da estrela terrena que era.

984
Emílio Moura

Emílio Moura

Toada dos que não Podem Amar

Os que não podem amar
estão cantando.
A luz é tão pouca, o ar é tão raro
que ninguém sabe como eles ainda vivem.
Os que não podem amar
estão cantando,
estão cantando,
e morrendo.

Ninguém ouve o canto que soluça
por detrás das grades.

1 284
Elisa Lucinda

Elisa Lucinda

Incompreensão dos Mistérios

Saudades de minha mãe.
Sua morte faz um ano e um fato
Essa coisa fez
eu brigar pela primeira vez
com a natureza das coisas:
que desperdício, que descuido
que burrice de Deus!
Não de ela perder a vida
mas a vida de perdê-la.
Olho pra ela e seu retrato.
Nesse dia, Deus deu uma saidinha
e o vice era fraco.

1 896
Elisa Sayeg

Elisa Sayeg

De Nicole Sangue de Nuvem

A Porta do Amor gira sobre os gonzos
Pesadamente
Deixando-nos o Lado de Fora

Ao passante solitário
nenhum revide o espera
no cemitério.

Nenhum violento se erga
da campa dourada
Onde a lápide é folheada
com o sol morto.
Não o enjoe uma névoa incensada
Nenhum violento
sono se erga.

732
Elielson Rodrigues

Elielson Rodrigues

Clâmide Sepulcral

Não te atreles ao passado,
Ilumina teu céptico futuro,
e caminha ao meu lado,
sucumbindo em lugar seguro.

Dentre a bruma que cobre teu túmulo,
vi voar um anjo que me disse o quanto,
aquele lugar é santo,
queimando o velário que te torna nulo.

O Areópago me condena
à vida cenobial...
que outra gangrena,
me vestiria a clâmide sepulcral?

832
Edimilson de Almeida Pereira

Edimilson de Almeida Pereira

Magnificat

Porque não há ofício
espero desaparecer.
O vão desejado
poreja
(para aquele tempo,
talvez)
não para a secura
que implode a memória.

O céu virá limpo,
depois.

1 019
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Notícias

As crianças morrem

Em piscinas
lagoas
no centro da cidade

o corte na testa
barrigas inchadas
costas afundadas

As crianças
elas também nos abandonam

746
Emílio Burlamaqui

Emílio Burlamaqui

De uma Notícia de Jornal

Disseram à menininha de quatro anos,
Sobrevivente única de um desastre de avião
Em Detroit,
Que ela iria rever seus pais
Nunca mais.

E a menininha perguntava:
O que quer dizer "nunca mais"?

Infortunadamente, meu anjo,
É nunca jamais para todo o sempre,
É o nunca mais de corvo
Que Drumond, triste, lembrou,
Que Allan, trágico, criou.

706
Dimas Macedo

Dimas Macedo

Subitamente

Subitamente
é preciso que os relógios parem,
porque tudo será pedra sobre pedra,
e tudo.
Não mais restarão
as tuas mãos que necessito,
as tuas palavras sem gestos
que eu procuro...
não mais restará o teu silêncio
que o meu silêncio pede,
pois as armas e os brasões
hão de florir por sobre a infância,
e tudo será rocha.

889
Clinio Jorge de Souza

Clinio Jorge de Souza

Haicai

Seca... urubus
na vida vazia o vento
assobia blues

Cigarra vadia:
vida-melodia escorrida
da casca vazia

1 113
Camilo Mota

Camilo Mota

Alice

As palavras fundiram-se à montanha
sem nada dizerem
...
tempo consumido memória
...
grita o coração: te amo,
incógnita mulher!
metamorfose de cidade
e nuvem,
istmo do beijo anônimo
inaugurando rugas

Na tarde dourada e rósea
vovó virou neblina

820
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

Bichinho

Desmontei
as 11 peças
de um siri.
Sua alminha
toda branca
saiu de banda
por aí.

613
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

O Banco da Gare

tu que estás morto
sentado num banco da gare
esperando
- vieste pegar o trem?

não não
vim esperar o trem passar:
- vim pegar o tempo.
mas para tu que estás morto
- o tempo não já
passou?
sim sim
o tempo já passou
- Mas eu vim pega-lo.

934
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

O Vento

Já tão velhinho
o velhinho
que não envelhece
mais -
Se dissipa
em cabelos e olhares
Vai no vento
como os jornais

774
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

Os Olhos Idos

oh por que
o olho morre antes da vida
como se o pássaro
antes do vôo
e o homem antes do sonho
como se tudo fosse apenas
uma grande lua
sem haver noite

554
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

Substantivo Concreto

No quarto do morto
ainda sentíamos
das noites mais fundas
A matéria dos seus sonhos
--
Tocar-nos

907
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

O Passado

Tudo vive a cair
lentamente
Lentamente
indo ao chão
como um som
vem caindo
em busca de repouso
- lentamente
à sua cova de silêncio

982
Casimiro de Brito

Casimiro de Brito

46

A guerra dos homens não inibiu
As cores do arco-íris: O mundo está pois
No seu caminho, no campo raso onde respiram
Os insetos silenciosos da morte. Os homens
Deslizam insaciáveis com o desejo
Virado para o céu. O corpo está pois
No bom caminho: A boca na terra
De quem vive apenas
Este momento.

1 635
Barroso Gomes

Barroso Gomes

Réquiem

A cigarra enquanto
fenece a mortalha tece
com os fios do canto.

934
Barroso Gomes

Barroso Gomes

Arrebatamento

O cão uiva ou canta?
Eu penso que morre: o imenso
lua na garganta.

694