Literatura e Palavras

Poemas neste tema

Fernando Fabião

Fernando Fabião

Guardo na Pele

Guardo
na pele a luz da tinta
É aí que as palavras ardem
À passagem do sangue

Na pele, tudo é profundo
Ouve-se a água no início do sono
Flor estilhaçada na sombra dos dedos
E um talento vagaroso
Percorre as veias
Uma promessa de paz ilumina os roseirais

Dirás que o corpo é uma casa de sol
Um relâmpago breve na paisagem.

974
Eduardo Valente da Fonseca

Eduardo Valente da Fonseca

Poeta citadino

Talvez vocês não saibam quem foi o Alberto Caeiro,
mas eu vou dizer-vos o que se passa.
Ele era um grande poeta que não tem nada a ver comigo
porque guardava rebanhos e fazia os possíveis para ser simples,
enquanto eu sou um sindicalizado
e faço os possíveis para não morrer atropelado na cidade.

1 132
Angela Santos

Angela Santos

Palavra

Sempre que possam
trair
as palavras vêm como um veneno

Mas que outra porta abrir
no final deste caminho?

Só a palavra urgente,
só a palavra possível
que de mim e das coisas
venha decifrar o sentido.

777
Angela Santos

Angela Santos

Gestação

De
silêncio
também se faz o canto
gestação da palavra nunca dita
que à obscuridade a luz traz
e o esquecimento transfigura

em que lugar
o prenhe ventre gera
o milagre da palavra?

1 044
Angela Santos

Angela Santos

Cifra

Regresso
à minha forma
de ser
inscrita nas palavras

às palavras regresso
como a um espelho…

profano o silencio,
quem sabe, a verdade
no regresso indevido
ou inexacto às cifras
que não dizem.

961
Mauricio Segall

Mauricio Segall

Poesia

Poesia
é feminino
poema não o é
quisera mais poesia
no universo do meu verso.

Mulher é feminino
macho não o é
quisera mais feminilidade
na minha vida masculina.

Ternura é feminino
masculino não o é
quisera mais doçura
no dia-a-dia com minha amiga.

Vida é feminino
morte também o é
vida só é vida
junto ao ventre de uma mulher

928
Almandrade

Almandrade

V

O universo é incerto
sob meus pés
infinito como a língua
rebelde
uma cidade
na inmensidão da fala
sábios em silêncio
escutando a melodia
de um inseto
e o sopro do mar.

902
Silvaney Paes

Silvaney Paes

Sega

Sega
Pela manhã
Menor que ti
Me viu o Sol
Não teus olhos
E se rasgou a poesia da Noite
Passada
Mais não finda
Viva ainda
Apenas não lida
Passou
Rugiu
Mais não se viu
Fugiu
E de ti
Poesia
Apenas cega
Esdrúxula
Sem métrica
Silêncio e vela
De nova era
Do nascer já cega
E pôr saber já negas
Esse amar barrela
E te fazes apenas.

971
Almandrade

Almandrade

II

O tema ronda
a lógica
invade
a língua
disparidades
não faz
insiste
inquebrável
ao menos
não diz
a razão
é um pensamento
sem saída.

985
Almandrade

Almandrade

I

A
mão escuta
o papel
toca a letra
um corpo
vaza o desenho
a boca resume
o traço
pássaros
cachoeiras
um bordado
que imita
a virtude e a transparência
das águas.

886
Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar

Psicografia

Também eu
saio á revelia
E procuro uma síntese nas demoras
Cato obsessões com fria têmpera e digo
Do coração: não soube e digo
Da palavra: não digo(não posso ainda acreditar
Na vida) e demito o verso como quem acena
E vivo como quem despede a raiva de Ter visto.

3 558
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Nasci poeta abstruso

Nasci poeta abstruso.
Amo as palavras que estão
Entre o arcaico e o difuso
No cerne da indecisão.

Prefiro adrede e gomil.
Digo delíquo e fanal.
E só descrevo um funil
Em termos-vaso-de-graal.

Mas nesta minha importância,
Neste sol que me irradia,
Nem Deus preenche a distância
Que vai de mim à Poesia.

1 839
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Volver às rimas suaves

Volver às rimas suaves,
Aos metros embaladores,
Cantar o canto das aves,
A aurora, a brisa e as flores...

Vibrar na deposta lira
Dos trovadores sepulcrais
Delidas queixas dElvira,
Zelos de bardo, fatais...

Para que nessa ficção,
De outras apenas diferente,
Ao fogo do coração
Arda a razão descontente.

1 789
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

No amplo e ermo degredo

No amplo e ermo degredo
Da Noite enorme incriada,
Acesso ao átrio do medo,
Reverso a negro do Nada.

Erra uma asa, partida,
Dum qualquer pássaro morto,
Que só porque erra tem vida
No mar do nada sem porto.

É quando passa e projecta
Na Sombra sombra erradia
Que nasce a mãe dum poeta
E se concebe a poesia.

1 895
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Componho para a hora em que for lido

Componho para a hora em que for lido,
Para aquela, entre todas improvável,
Em que, estando eu já morto e já esquecido,
O que escrevo for póstumo e for estável.

Componho com receio do desdoiro
De quem sonho hei-de ser. Fito o futuro.
O que é grosseiro em mim, eu o apuro,
O que é vago e banal, o pulo e doiro.

1 369
Rogério Bessa

Rogério Bessa

Crer Diário

Prólogo Menos:
3

o que o CRER DIÁRIO diz
o CREDIÁRIO não faz

no CRER: a cara do CREDOR
no CRÉDULO: A DO CREDULIÁRIO

no CREDIÁRIO: o perdulário
no CRER DIÁRIO: o escapulário.

960
Rogério Bessa

Rogério Bessa

Do Canto IV:

A Retirada:
Antimitos Lua e Viagem ao (Im)Possível

gracilianos entre ramos
mortos e rumos épicos
deparar é o que vamos;

fabianos sem vitórias
régias ao mor março tépidos
entre telúricas glórias;

todos seres patagônias
à procura de pasárgadas,
sonhos leves, amazônias.

714
Rogério Bessa

Rogério Bessa

Praxiscópio

práxis ópionão vãocontraópioprocopopráxis copacabanhapráxis copoeoencorpadocopodebanda
705
Rogério Bessa

Rogério Bessa

Hora da Morte

7

a coisa:a casa,
a luta contra o casoo dobro do pensar
o ocaso:o caso:

cada coisa em seu lugara dobra do penso lar
o acasoa casa
a coisa em sua casao cobro do comprar

o quase:
o qual dobro penso ar
o caso:
o qualquer logro pendurar
o quase:
o modo loquaz a par
o caso:
o quasimodo sem modo.

735
Rogério Bessa

Rogério Bessa

Redescoberta de Orfeu ou O Mundo Nunca Encontrado

Do Canto I:
Prólogo Menos

lhe envio meu canto órfico
com o encanto de meu povo,
fala a lira em lira mor,
diz de orfeu o seu encanto.

sede e fome fomentaram
sua música, seu ritmo,
a queimar-lhe o sol a pele,
nasceu-lhe a redescoberta.

grande estalo resultou
num mundo nunca encontrado
e embora o canto doesse,
entremente não choveu.

793
Rogério Bessa

Rogério Bessa

Do Canto IX:

O Mundo Encontrado:
Inércia Calada e Mudez Falante do Sol

no impacto do cacto intacto,
o olho de intáctil tacto,
viaduto da em sol ação;

no pacto do cacto intacto,
o sol de olho por olho
no tacto incacto da mão.

no pacto, o cacto e o tacto
contrátil do contratante,
chão por chantão malsão.

898
Moranno Portela

Moranno Portela

Poethomem

É pouco o peito do homem
para o poeta guardar:
ele está como represa
Quando vai arrebentar.

É pouco o peito do homem
para o rio que dentro dele
quer, sôfrego, navegar.

Mas o homem é necessário,
dele o poeta precisa:
um é uno — o outro vário,
um voa — o outro pisa.

895
João Luiz Pacheco Mendes

João Luiz Pacheco Mendes

Desencanto

Não seria
Bela Adormecida
se sonhasse um dia
retornar à
vida.

968
Francisco Tribuzi

Francisco Tribuzi

Poetando

Eu faço versos como quem
conserta sapatos
não como quem comanda uma empresa.
São tão simples os meus atos
como simples é a natureza.

Eu faço versos com pureza
não vou além da surpresa
que me inspiram os relatos
mas vou além do que sinto
eu faço versos não minto
e fazer versos é amar.

904