Solidão

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Em torno ao candeeiro desolado

Em torno ao candeeiro desolado
Cujo petróleo me alumia a vida,
Paira uma borboleta, por mandado
Da sua inconsistência indefinida.


01/09/1928
4 714
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pelo plaino sem caminho

Pelo plaino sem caminho
O cavaleiro vem.
Caminha quieto e de mansinho,
Com medo de Ninguém.


07/05/1927
4 306
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Gostara, realmente,

Gostara, realmente,
De sentir com uma alma só,
Não ser eu só gente
De muitos, mete-me dó.

Não ter lar, vá. Não ter calma
Stá bem, nem ter pertencer.
Mas eu, de ter tanta alma,
Nem minha alma chego a ter.


24/08/1930
4 165
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Relógio, morre —

Relógio, morre –
Momentos vão...
Nada já ocorre
Ao coração
Senão, senão...

Bem que perdi,
Mal que deixei,
Nada aqui
Montes sem lei
Onde estarei...

Ninguém comigo!
Desejo ou tenho?
Sou o inimigo –
De onde é que venho?
O que é que estranho?


01/03/1930
4 056
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Velo, na noite em mim,

Velo, na noite em mim,
Meu próprio corpo morto.
Velo, inútil absorto.
Ele tem o seu fim
Inutilmente, enfim.


1927
4 261
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O LOUCO

O LOUCO

E fala aos constelados céus
De trás das mágoas e das grades
Talvez com sonhos como os meus...
Talvez, meu Deus!, com que verdades!

As grades de uma cela estreita
Separam-no de céu e terra...
Às grades mãos humanas deita
E com voz não humana berra...


30/10/1928
5 291
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pela rua já serena

Pela rua já serena
Vai a noite
Não sei de que tenho pena,
Nem se é penar isto que tenho...

Pobres dos que vão sentindo
Sem saber do coração!
Ao longe, cantando e rindo,
Um grupo vai sem razão...

E a noite e aquela alegria
E o que medito a sonhar
Formam uma alma vazia
Que paira na orla do ar...


18/06/1929
4 226
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pudesse eu como o luar

Pudesse eu como o luar
Sem consciência encher
A noite e as almas e inundar
A vida de não pertencer!


1920
4 662
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Hoje, neste ócio incerto

Hoje, neste ócio incerto
Sem prazer nem razão,
Como a um túmulo aberto
Fecho meu coração.

Na inútil consciência
De ser inútil tudo,
Fecho-o, contra a violência
Do mundo duro e rudo.

Mas que mal sofre um morto?
Contra que defendê-lo?
Fecho-o, em fechá-lo absorto,
E sem querer sabê-lo.


09/02/1923
3 745
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tudo quanto sonhei tenho perdido

Tudo quanto sonhei tenho perdido
Antes de o ter.
Um verso ao menos fique do inobtido,
Música de perder.

Pobre criança a quem não deram nada,
Choras? É em vão.
Como eu choro à beira da erma estrada.
Perdi o coração.

A ti talvez, que não te tens dado,
Daria enfim...
A mim... Sei eu que duro e inato fado
Me espera a mim?


1920
4 454
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No mal-estar em que vivo

No mal-estar em que vivo,
No mal pensar em que sinto,
Sou de mim mesmo cativo,
A mim mesmo minto.

Se fosse outro fora outro.
Se em mim houvesse certeza,
Não seria o fluido e neutro
Que ama a beleza.

Sim, que ama a beleza e a nega
Nesta vida sem bordão
Que contra si mesma alega
Que tudo é vão.


02/10/1933
3 930
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vento que passas

Vento que passas
Nos pinheirais,
Quantas desgraças
Lembram teus ais.

Quanta tristeza,
Sem o perdão
De chorar, pesa
No coração.

E ó vento vago
Das solidões
Traz um afago
Aos corações.

À dor que ignoras
Presta os teus ais,
Vento que choras
Nos pinheirais.


21/08/1921
4 628
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nos altos ramos de árvores frondosas

Nos altos ramos de árvores frondosas
O vento faz um rumor frio e alto,
Nesta floresta, em este som me perco
E sozinho medito.
Assim no mundo, acima do que sinto,
Um vento faz a vida, e a deixa, e a toma,
E nada tem sentido – nem a alma
Com que penso sozinho.


26/04/1928
2 245
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No mundo, só comigo, me deixaram

No mundo, só comigo, me deixaram
Os deuses que dispõem.
Não posso contra eles: o que deram
Aceito sem mais nada.
Assim o trigo baixa ao vento, e, quando
O vento cessa, ergue-se.


19/11/1930
2 025
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aqui, neste misérrimo desterro

Aqui, neste misérrimo desterro
Onde nem desterrado estou, habito,
Fiel, sem que queira, àquele antigo erro
Pelo qual sou proscrito.
O erro de querer ser igual a alguém
Feliz, em suma – quanto a sorte deu
A cada coração o único bem
De ele poder ser seu.


06/04/1933
2 273
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ninguém a outro ama, senão que ama

Ninguém a outro ama, senão que ama
O que de si há nele, ou é suposto.
Nada te pese que não te amem. Sentem-te
Quem és, e és estrangeiro.
Cura de ser quem és, amam-te ou nunca.
Firme contigo, sofrerás avaro
De penas.


10/08/1932
2 084
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Começo a conhecer-me. Não existo.

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.
3 311
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Noite de S. João para além do muro do meu quintal.

Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.


12/04/1919 (Athena, nº 5, Fevereiro de 1925)
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