Sol amanhecer e pôr do sol
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
Não consentem os deuses mais que a vida. [2]
Não consentem os deuses mais que a vida.
Por isso, Lídia, duradouramente
Façamos-lhe a vontade
Ao sol e entre as flores.
Camaleões pousados na Natureza
Tomemos sua calma e alegria
Por cor da nossa vida,
Por um jeito do corpo.
Como vidros às luzes transparentes
E deixando cair a chuva triste,
Só mornos ao sol quente,
E reflectindo um pouco.
Por isso, Lídia, duradouramente
Façamos-lhe a vontade
Ao sol e entre as flores.
Camaleões pousados na Natureza
Tomemos sua calma e alegria
Por cor da nossa vida,
Por um jeito do corpo.
Como vidros às luzes transparentes
E deixando cair a chuva triste,
Só mornos ao sol quente,
E reflectindo um pouco.
1 085
Fernando Pessoa
A manhã raia. Não: a manhã não raia.
A manhã raia. Não: a manhã não raia.
A manhã é uma coisa abstracta, está, não é uma coisa.
Começamos a ver o sol, a esta hora, aqui.
Se o sol matutino dando nas árvores é belo,
É tão belo se chamarmos à manhã «Começarmos a ver o sol»
Como o é se lhe chamarmos a manhã,
Por isso se não há vantagem em por nomes errados às coisas,
Devemos nunca lhes por nomes alguns.
A manhã é uma coisa abstracta, está, não é uma coisa.
Começamos a ver o sol, a esta hora, aqui.
Se o sol matutino dando nas árvores é belo,
É tão belo se chamarmos à manhã «Começarmos a ver o sol»
Como o é se lhe chamarmos a manhã,
Por isso se não há vantagem em por nomes errados às coisas,
Devemos nunca lhes por nomes alguns.
1 436
Florbela Espanca
A Voz de Deus
Ó rosas que baixais as castas frontes
Quando, à tarde, vos beija o sol poente,
Dizei-me que murmúrios vos segreda
O sol que vos beija docemente?...
Ó Luar cristalino e abençoado
Porque entristeces tu em noites belas
Quando chora baixinho o rouxinol
Um choro só ouvido pelas estrelas?...
Mistério das coisas! Em tudo existe
Um coração que sente e que palpita
Desde o sol rubro até à urze triste!
Ó mistério das coisas! Voz de Deus
Em tudo eternamente sê bendita
Na terra imensa assim como nos céus!
Quando, à tarde, vos beija o sol poente,
Dizei-me que murmúrios vos segreda
O sol que vos beija docemente?...
Ó Luar cristalino e abençoado
Porque entristeces tu em noites belas
Quando chora baixinho o rouxinol
Um choro só ouvido pelas estrelas?...
Mistério das coisas! Em tudo existe
Um coração que sente e que palpita
Desde o sol rubro até à urze triste!
Ó mistério das coisas! Voz de Deus
Em tudo eternamente sê bendita
Na terra imensa assim como nos céus!
2 426
Florbela Espanca
Sou Eu!
À minha ilustre camarada Laura Chaves
Pelos campos em fora, pelos combros,
Pelos montes que embalam a manhã,
Largo os meus rubros sonhos de pagã,
Enquanto as aves poisam nos meus ombros...
Em vão me sepultaram entre escombros
De catedrais duma escultura vã!
Olha-me o loiro sol tonto de assombros,
E as nuvens, a chorar, chamam-me irmã!
Ecos longínquos de ondas... de universos..
Ecos dum Mundo... dum distante Além,
Donde eu trouxe a magia dos meus versos!
Sou eu! Sou eu! A que nas mãos ansiosas
Prendeu da vida, assim como ninguém,
Os maus espinhos sem tocar nas rosas!
Pelos campos em fora, pelos combros,
Pelos montes que embalam a manhã,
Largo os meus rubros sonhos de pagã,
Enquanto as aves poisam nos meus ombros...
Em vão me sepultaram entre escombros
De catedrais duma escultura vã!
Olha-me o loiro sol tonto de assombros,
E as nuvens, a chorar, chamam-me irmã!
Ecos longínquos de ondas... de universos..
Ecos dum Mundo... dum distante Além,
Donde eu trouxe a magia dos meus versos!
Sou eu! Sou eu! A que nas mãos ansiosas
Prendeu da vida, assim como ninguém,
Os maus espinhos sem tocar nas rosas!
2 032
Florbela Espanca
Alentejano
À Buja
Deu agora meio-dia; o sol é quente
Beijando a urze triste dos outeiros.
Nas ravinas do monte andam ceifeiros,
Na faina, alegres, desde o sol nascente.
Cantam as raparigas meigamente.
Brilham os olhos negros, feiticeiros.
E há perfis delicados e trigueiros
Entre as altas espigas d’oiro ardente.
A terra prende aos dedos sensuais
A cabeleira loira dos trigais
Sob a bênção dulcíssima dos céus.
Há gritos arrastados de cantigas...
E eu sou uma daquelas raparigas...
E tu passas e dizes: “Salve-os Deus!”
Deu agora meio-dia; o sol é quente
Beijando a urze triste dos outeiros.
Nas ravinas do monte andam ceifeiros,
Na faina, alegres, desde o sol nascente.
Cantam as raparigas meigamente.
Brilham os olhos negros, feiticeiros.
E há perfis delicados e trigueiros
Entre as altas espigas d’oiro ardente.
A terra prende aos dedos sensuais
A cabeleira loira dos trigais
Sob a bênção dulcíssima dos céus.
Há gritos arrastados de cantigas...
E eu sou uma daquelas raparigas...
E tu passas e dizes: “Salve-os Deus!”
2 911
Florbela Espanca
Sol Posto
Sol posto. O sino ao longe dá Trindades
Nas ravinas do monte andam cantando
As cigarras dolentes... E saudades
Nos atalhos parecem dormitando...
É esta a hora em que a suave imagem
Do bem que já foi nosso nos tortura
O coração no peito, em que a paisagem
Nos faz chorar de dor e d’amargura...
É a hora também em que cantando
As andorinhas vão p’lo meio das ruas
Para os ninhos, contentes, chilreando...
Quem me dera também, amor, que fosse
Esta a hora de todas a mais doce
Em que eu unisse as minhas mãos às tuas!...
Nas ravinas do monte andam cantando
As cigarras dolentes... E saudades
Nos atalhos parecem dormitando...
É esta a hora em que a suave imagem
Do bem que já foi nosso nos tortura
O coração no peito, em que a paisagem
Nos faz chorar de dor e d’amargura...
É a hora também em que cantando
As andorinhas vão p’lo meio das ruas
Para os ninhos, contentes, chilreando...
Quem me dera também, amor, que fosse
Esta a hora de todas a mais doce
Em que eu unisse as minhas mãos às tuas!...
2 412
Joaquim Cardozo
Imagens do Nordeste
Sobre o capim orvalhado
Por baixo das mangabeiras
Há rastros de luz macia:
Por aqui passaram luas,
Pousaram aves bravias.
Idílio de amor perdido,
Encanto de moça nua
Na água triste da camboa;
Em junhos do meu Nordeste
Fantasma que me povoa.
Asa e flor do azul profundo,
Primazia do mar alto,
Vela branca predileta;
Na transparência do dia
És a flâmula discreta.
És a lâmina ligeira
Cortando a lã dos cordeiros,
Ferindo os ramos dourados;
- Chama intrépida e minguante
nos ares maravilhados.
E enquanto o sol vai descendo
O vento recolhe as nuvens
E o vento desfaz a lã;
Vela branca desvairada,
Mariposa da manhã.
Velho calor de Dezembro,
Chuva das águas primeiras
Feliz batendo nas telhas;
Verão de frutas maduras,
Verão de mangas vermelhas.
A minha casa amarela
Tinha seis janelas verdes
Do lado do sol nascente;
Janelas sobre a esperança
Paisagem, profundamente.
Abri as leves comportas
E as águas duras fundiram;
Num sopro de maresia
Viveiros se derramaram
Em noites de pescaria.
Camarupim, Mamanguape,
Persinunga, Pirapama,
Serinhaém, Jaboatão;
Cruzando barras de rios
Me perdi na solidão.
Me afastei sobre a planície
Das várzeas crepusculares;
Vi nuvens em torvelinho,
Estrelas de encruzilhadas
Nos rumos do meu caminho.
Por baixo das mangabeiras
Há rastros de luz macia:
Por aqui passaram luas,
Pousaram aves bravias.
Idílio de amor perdido,
Encanto de moça nua
Na água triste da camboa;
Em junhos do meu Nordeste
Fantasma que me povoa.
Asa e flor do azul profundo,
Primazia do mar alto,
Vela branca predileta;
Na transparência do dia
És a flâmula discreta.
És a lâmina ligeira
Cortando a lã dos cordeiros,
Ferindo os ramos dourados;
- Chama intrépida e minguante
nos ares maravilhados.
E enquanto o sol vai descendo
O vento recolhe as nuvens
E o vento desfaz a lã;
Vela branca desvairada,
Mariposa da manhã.
Velho calor de Dezembro,
Chuva das águas primeiras
Feliz batendo nas telhas;
Verão de frutas maduras,
Verão de mangas vermelhas.
A minha casa amarela
Tinha seis janelas verdes
Do lado do sol nascente;
Janelas sobre a esperança
Paisagem, profundamente.
Abri as leves comportas
E as águas duras fundiram;
Num sopro de maresia
Viveiros se derramaram
Em noites de pescaria.
Camarupim, Mamanguape,
Persinunga, Pirapama,
Serinhaém, Jaboatão;
Cruzando barras de rios
Me perdi na solidão.
Me afastei sobre a planície
Das várzeas crepusculares;
Vi nuvens em torvelinho,
Estrelas de encruzilhadas
Nos rumos do meu caminho.
1 538
Giuseppe Ungaretti
Manhã
Manhã
Ilumino-me
de imenso
Tradução de Sérgio Wax
Mattina
M'illumino
d'immenso
3 657
Florbela Espanca
Alvorecer
A noite empalidece. Alvorecer...
Ouve-se mais o gargalhar da fonte...
Sobre a cidade muda, o horizonte
É uma orquídea estranha a florescer.
Há andorinhas prontas a dizer
A missa d’alva, mal o sol desponte.
Gritos de galos soam monte em monte
Numa intensa alegria de viver.
Passos ao longe... um vulto que se esvai...
Em cada sombra Colombina trai...
Anda o silêncio em volta a q’rer falar...
E o luar que desmaia, macerado,
Lembra, pálido, tonto, esfarrapado,
Um Pierrot, todo branco, a soluçar...
Ouve-se mais o gargalhar da fonte...
Sobre a cidade muda, o horizonte
É uma orquídea estranha a florescer.
Há andorinhas prontas a dizer
A missa d’alva, mal o sol desponte.
Gritos de galos soam monte em monte
Numa intensa alegria de viver.
Passos ao longe... um vulto que se esvai...
Em cada sombra Colombina trai...
Anda o silêncio em volta a q’rer falar...
E o luar que desmaia, macerado,
Lembra, pálido, tonto, esfarrapado,
Um Pierrot, todo branco, a soluçar...
2 603
Antidio Cabal
Epitáfio de Luis Puente, vulgo O Rato
Sepultado nessa terra atmosférica e produtiva, enfim dela desfruto,
enfiado num caixão feito de uma árvore dourada,
que é como uma biografia, pois eu a plantei,
recebo a chuva e os ingredientes do céu,
os conteúdos das quatro estações,
pela lápide infiltra-se o cheiro do antúrio,
escorre o orvalho até meu submundo,
o dom calefaciente do sol aquece meu substrato arenoso,
aqui tudo é suficiente.
enfiado num caixão feito de uma árvore dourada,
que é como uma biografia, pois eu a plantei,
recebo a chuva e os ingredientes do céu,
os conteúdos das quatro estações,
pela lápide infiltra-se o cheiro do antúrio,
escorre o orvalho até meu submundo,
o dom calefaciente do sol aquece meu substrato arenoso,
aqui tudo é suficiente.
532
Maria José de Carvalho
o iniciado
que nome te dar
na faca e no gume
na lima e no lume
na lama dos limos
na lança no laço
na trança no traço
na trama dos limbos
que névoa te envolve
e densa
turva
teu sacro perfil
se destravando
a treva
emerso a iluminaste
e
na dança do templo
que o corpo enlaça
a pupila embaça
o passo trava
e o sangue desata
em salva de prata
contido o lábio
na doce taça
que nome te dar
que medo te impele
que tolhida asa
o vôo te impede
que secreta chaga
de ferida pluma
te enluta o âmago
e que maga imagem
te dispara a seta
que o peito afeta
em bruma
e arfagem
ó
iniciado
que êxtase
nos espera
que ardente
dardo
através da estirpe
de transe
e treva
a dor
extirpa
o ir
é nosso rio
ao bramir
do touro
o ouro
de teu corpo
ao sol
o manso bezerro
o túrgido úbere
a plúmbea ave
o fruto maduro
lança e raiz
o chão e o sal
tua urdidura são
ao sol posto
evocamos
a chaga
que a taça embaça
e o violáceo laço
de obscura trama
neste agosto
deposto
nos envolve o rosto
a palavra
o chá
.
.
.
753
Dantas Motta
Breviarium de Frei Jeremias
Está amanhecendo o dia, minha amiga!
E os nossos sentimentos tão iguais!
Tão longas as nossas dores,
Tão breves os nossos risos.
Paira em tudo uma indecisão amarga
E eu não sei o que fazer
Nesta manhã tão clara, tão branca,
Em que as névoas são inúteis,
Os passarinhos proverbiais.
O sol, que nasceu ontem,
É o mesmo de hoje e será o mesmo
De amanhã, de depois, de depois.
Só nossos corpos em nossas almas
Se mudarão e com eles o mundo
Que é tão vasto e, entanto,
Não comporta minhas tristezas,
Minhas alegrias. Está amanhecendo!
O sono da noite, que correu bravia,
Não comporta os trabalhos do dia
E este sofrimento afinal não é tão breve.
Certo, amanhã morreremos e eu não deixarei
Mais fundas lembranças que não os teus
Outonos sobre as memórias repetidos,
Nem outro bem que não a amargura
De ter vivido.
Os amigos de São Paulo, Rio,
Belo Horizonte,
Pensam que este riso é meu,
E com eles até Israel, em Irati,
No Paraná.
Mercedes, porém, apesar de estúpida,
Sabe-o apenas um disfarce
Com que oculto esta tristeza,
Esta dor.
.
.
.
E os nossos sentimentos tão iguais!
Tão longas as nossas dores,
Tão breves os nossos risos.
Paira em tudo uma indecisão amarga
E eu não sei o que fazer
Nesta manhã tão clara, tão branca,
Em que as névoas são inúteis,
Os passarinhos proverbiais.
O sol, que nasceu ontem,
É o mesmo de hoje e será o mesmo
De amanhã, de depois, de depois.
Só nossos corpos em nossas almas
Se mudarão e com eles o mundo
Que é tão vasto e, entanto,
Não comporta minhas tristezas,
Minhas alegrias. Está amanhecendo!
O sono da noite, que correu bravia,
Não comporta os trabalhos do dia
E este sofrimento afinal não é tão breve.
Certo, amanhã morreremos e eu não deixarei
Mais fundas lembranças que não os teus
Outonos sobre as memórias repetidos,
Nem outro bem que não a amargura
De ter vivido.
Os amigos de São Paulo, Rio,
Belo Horizonte,
Pensam que este riso é meu,
E com eles até Israel, em Irati,
No Paraná.
Mercedes, porém, apesar de estúpida,
Sabe-o apenas um disfarce
Com que oculto esta tristeza,
Esta dor.
.
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593
Pedro Xisto
Soledade
Sobre a tarde me aplico. As sombras ou trabalho
como quem plumas colhe: as almofadas ponho
nos cantos vivos; toda a casa espera o sonho;
e a nuvem de alto mar é ninho no carvalho.
Mas, inda, Soledade, eu não sei do tristonho
carinho - último toque, a modo desse orvalho,
pelo vazio olhar de mármore que talho.
E, insone e vago, em vão a mim me recomponho:
Os braços abre o rio e se perde no estuário;
A despedida face, inclina o girassol;
Ao pé do mastro a vela hesita; o leme é vário;
e tão alheia a espuma; em névoas cego, o sol;
de longe cai o vento — o gratuito sudário.
(Sobre nós dois, que fria estendes teu lençol...)
1 196
Pedro Xisto
abro após as sombras
abro após as sombras
de par em par as vidraças:
alçam vôo as pombas
812
Daniel Varoujan
Campo maduro
A minha terra é dourada...
Parece chama.
O grão se queima
e não se consome.
A minha terra é dourada...
o céu é de fogo,
o solo é imóvel
sob as estrelas.
A minha terra é dourada...
As espigas em quatro filas
revestiram-se
de sombra e sol.
A minha terra é dourada...
Passam como relâmpagos,
no meio das espigas,
as abelhas e os zangões.
A minha terra é dourada...
Do mar, das ondas de ouro
voa o pardal
levado pelo vento.
Dorme, terra dourada,
dorme, campo maduro,
colherei o teu ouro
com a foice de prata.
(Tradução de Carlos Freire, in Babel de Poemas, editora L&PM, 2004)
761
João Apolinário
ecologia lírica
A incógnita
acontece
na cor
que nasce
e reverdece
na flor
até ao limite
de olhá-la
como ela
é
____
O que é que cicia
o mistério (a essência)
desta atmosfera
de sol do meio dia
cuja transparência
parece que gera
o que a terra cria
____
Todos os mitos
imortais
cabem
subitamente
nos alicerces
originais
da semente
____
A pétala sabe
o destino oculto
de todas as coisas
onde o sol começa
____
Criar primeiro o ovo
para a raiz
do pássaro que voa
aquém da casca
Mudar depois as asas
da natureza
sem deixar de ser ave
e ser flor
gerar o movimento
assim eterno
da origem de ser
o que já é
____
O orvalho
respira
a solidão
da noite
na boca
da manhã
____
Um sopro
de luz
abre
no espaço
uma fenda
clara
para o dia
que nasce
acontece
na cor
que nasce
e reverdece
na flor
até ao limite
de olhá-la
como ela
é
____
O que é que cicia
o mistério (a essência)
desta atmosfera
de sol do meio dia
cuja transparência
parece que gera
o que a terra cria
____
Todos os mitos
imortais
cabem
subitamente
nos alicerces
originais
da semente
____
A pétala sabe
o destino oculto
de todas as coisas
onde o sol começa
____
Criar primeiro o ovo
para a raiz
do pássaro que voa
aquém da casca
Mudar depois as asas
da natureza
sem deixar de ser ave
e ser flor
gerar o movimento
assim eterno
da origem de ser
o que já é
____
O orvalho
respira
a solidão
da noite
na boca
da manhã
____
Um sopro
de luz
abre
no espaço
uma fenda
clara
para o dia
que nasce
1 167
Ai Qing
Mensagem do Sol
Janelas, abri-vos!
Portas, abri-vos!
Deixai-me entrar, deixai-me entrar,
Deixai-me pôr os pés na vossa casa humilde.
Entro com ramos de flores douradas,
Entro com a fragrância fresca da floresta,
Entro com a luz e o calor,
Entro com o corpo molhado de orvalho.
Levantai-vos, depressa!
Erguei as cabeças da almofada,
Abri os olhos estremunhados,
Para presenciar a minha chegada.
Abre-me os corações, casa humilde, construída de tábuas.
Abre-me as janelas de há muito fechadas,
Deixa-me encher os teus corações de flores, fragrância, luz,
[calor e orvalho.
14 de Junho de 1942
.
.
.
1 096
Juan L. Ortiz
Sim, as escamas do crepúsculo...
Sim, as escamas do crepúsculo
no fio, último?, de Novembro sobre o rio:
ou o êxtase dos véus de Novembro
fluindo até a noite, e mais além? ...
incrível de ecos
e de fugas e passagens
de não se sabe já
que despedida ou que chamado
Sim, o fluido profundo, sobre ouro,
que nimba o barranco
e inscreve misticamente uma árvore alta,
e irradia, até quando?
umas vagas pétalas de íris...
Sim, sim,
o verde e o celeste, revelados,
que tremem por volta das dez porque partem,
e na meia tarde se desfazem ou se perdem
em sua mesma água fragílima...
Sim, sim, sim
Mas veio a luz, estava só a luz
detrás das persianas da manhã íntima:
veio a criatura eterna, o sentimento das estrelas,
a eucaristia dos mundos, a alma primeira
antes, antes do prisma,
com essa flauta branca, inefavelmente branca, sempre imposta sobre o caos...
Veio a luz, veio a menina essencial,
impossivelmente pura das folhas e de suas próprias asas,
até um esquecimento cheio dela
como do olhar, único, de uma estiagem nunca vista....
(tradução de Idelber Avelar)
:
Sí, las escamas del crepúsculo...
Juan L. Ortiz
Sí, las escamas del crepúsculo
en el filo, último?, de Noviembre sobre el río:
o el éxtasis de los velos de Noviembre
fluyendo hasta la noche, y más allá?...
increíble de ecos
y de fugas y pasajes
de no se sabe ya
qué despedida o qué llamado...
Sí, el fluido profundo, sobre oro,
que nimba la barranca
e inscribe místicamente un árbol alto,
y radia, hasta cuándo?,
unos vagos pétalos de iris...
Sí, sí,
el verde y el celeste, revelados,
que tiemblan hacia las diez porque se van
y en la media tarde se deshacen o se pierden
en su misma agua fragilísima...
Sí, sí, sí...
Pero vino la luz, estaba sólo la luz
detrás de las persianas de la mañana íntima:
vino la criatura eterna, el sentimiento de las estrellas,
la eucaristía de los mundos, el alma primera
antes, antes del prisma,
con esa flauta blanca, inefablemente blanca, siempre impuesta
sobre el caos…
Vino la luz, vino la niña esencial,
imposiblemente pura de las hojas y de sus propias alas,
hasta un olvido lleno de ella
como de la mirada, única, de un estío nunca visto…
483
Maya Deren
A F.M.
Eu esperei por você nos campos do entardecer
Olhos fechados, eu me deito sobre a grama
Ouvindo o som dos passos no balançar das árvores;
Esperando meus lábios sentirem lábios onde a brisa suave esteve;
Corpo tenso para sentir o calor das mãos onde o calor do sol brilhou.
Você não veio. Eu entrei
Queixando-me que o sol se pôs
E que o vento estava tão frio
E que as árvores faziam tanto barulho
Que era melhor tirar um cochilo dentro de casa.
:
To F.M.
I waited for you in the fields of afternoon’
Eyes closed, I lay upon the grass
Listening for the sound of steps in the swaying of the trees;
Waiting for my lips to feel lips where the soft breeze had been;
Body tense to feel the warmth of hands where warmth of sun had shone.
You did not come. I went inside
Complaining that the suns go down
And that the wind is far too chill
And that trees make so much noise
A person’d better take her nap indoors
Olhos fechados, eu me deito sobre a grama
Ouvindo o som dos passos no balançar das árvores;
Esperando meus lábios sentirem lábios onde a brisa suave esteve;
Corpo tenso para sentir o calor das mãos onde o calor do sol brilhou.
Você não veio. Eu entrei
Queixando-me que o sol se pôs
E que o vento estava tão frio
E que as árvores faziam tanto barulho
Que era melhor tirar um cochilo dentro de casa.
:
To F.M.
I waited for you in the fields of afternoon’
Eyes closed, I lay upon the grass
Listening for the sound of steps in the swaying of the trees;
Waiting for my lips to feel lips where the soft breeze had been;
Body tense to feel the warmth of hands where warmth of sun had shone.
You did not come. I went inside
Complaining that the suns go down
And that the wind is far too chill
And that trees make so much noise
A person’d better take her nap indoors
951
Juan Gelman
Chega
chega
não quero mais morte
não quero mais dor ou sombras chega
meu coração é esplêndido como uma palavra
meu coração tornou-se belo como o sol
que sai voa canta meu coração
é cedo um passarinho
e depois teu nome
teu nome sobe todas as manhãs
aquece o mundo e se põe
só em meu coração
sol em meu coração
(Tradução de Ricardo Domeneck)
Basta
basta
no quiero más de muerte
no quiero más de dolor o sombras basta
mi corazón es espléndido como una palabra
mi corazón se há vuelto bello como el sol
que sale vuela canta mi corazón
es de temprano un pajarito
y después es tu nombre
tu nombre sube todas las mañanas
calienta el mundo y se pone
solo en mi corazón
sol en mi corazón.
.
.
.
não quero mais morte
não quero mais dor ou sombras chega
meu coração é esplêndido como uma palavra
meu coração tornou-se belo como o sol
que sai voa canta meu coração
é cedo um passarinho
e depois teu nome
teu nome sobe todas as manhãs
aquece o mundo e se põe
só em meu coração
sol em meu coração
(Tradução de Ricardo Domeneck)
Basta
basta
no quiero más de muerte
no quiero más de dolor o sombras basta
mi corazón es espléndido como una palabra
mi corazón se há vuelto bello como el sol
que sale vuela canta mi corazón
es de temprano un pajarito
y después es tu nombre
tu nombre sube todas las mañanas
calienta el mundo y se pone
solo en mi corazón
sol en mi corazón.
.
.
.
1 366
Lorine Niedecker
Poema
O varal está posto
mas totem nenhum diferencia a tribo Niedecker
das outras; a cada sete dias vão às águas:
veneram o sol; temem a chuva e, dos vizinhos, os olhos;
erguem aos céus as mãos desde o solo
e penduram ou despencam pela brancura de seu todo.
(tradução de Ricardo Domeneck)
///
Poem
Lorine Niedecker
The clothesline post is set
yet no totem-carvings distinguish the Niedecker tribe
from the rest; every seventh day they wash:
worship sun; fear rain, their neighbors' eyes;
raise their hands from ground to sky,
and hang or fall by the whiteness of their all.
mas totem nenhum diferencia a tribo Niedecker
das outras; a cada sete dias vão às águas:
veneram o sol; temem a chuva e, dos vizinhos, os olhos;
erguem aos céus as mãos desde o solo
e penduram ou despencam pela brancura de seu todo.
(tradução de Ricardo Domeneck)
///
Poem
Lorine Niedecker
The clothesline post is set
yet no totem-carvings distinguish the Niedecker tribe
from the rest; every seventh day they wash:
worship sun; fear rain, their neighbors' eyes;
raise their hands from ground to sky,
and hang or fall by the whiteness of their all.
754
Sei Shônagon
Da primavera, o amanhecer
(1) Da primavera, o amanhecer. É quando palmo a palmo vão se definindo as esmaecidas linhas das montanhas e no céu arroxeado tremulam delicadas nuvens.
Do verão, a noite. Em especial, os tempos de luar, mas também as trevas, de vaga-lumes entrecruzando-se em profusão. Ou então, os solitários ou mesmo em pares que seguem com brilhos fugazes. A chuva também é igualmente bela.
Do outono, o entardecer. São os momentos do arrebol da tarde em que o sol se acha prestes a tocar as colinas, quando se tornam comoventes os corvos que se apressam para os ninhos em grupos de três ou quatro, ou dois e três, e o que diríamos então, ao avistarmos os minúsculos gansos selvagens seguindo em fila, que encantadores! O sol já posto, melancólico soa o ciciar do vento e o canto dos insetos.
Do inverno, o despertar. Indescritível é com a neve caindo e nele incluo a ofuscante brancura da geada. Mesmo na ausência destas, em manhãs de um frio cortante, o apressar das pessoas em acender o fogo e o corre-corre entre os aposentos com os carvões acesos são cenas típicas desta estação. O sol já nas alturas e o frio mais ameno, não nos cativa mais que a brasa já quase tornada cinzas no braseiro portátil.
(3) Coisas que são iguais embora soem diferentes. A fala do religioso. A fala do homem, a fala da mulher. Na fala dos medíocres sempre sobram palavras. O comedimento, sim, soa elegante.
(21) Mulheres que se satisfazem com uma felicidade singela e um futuro previsível e estável são deprimentes e desprezíveis. Acho, pois, que as jovens de boas famílias deveriam prestar serviço na Corte para alargar sua visão de mundo e acumular experiências como Vice-Chefe do Setor de Atendentes da Ala Feminina do Palácio Imperial. […]
(23) Coisas que deixamos de cumprir: a prática da abstinência religiosa, preparativos para compromissos num futuro distante, Reclusão prolongada no tempo.
(24) Coisas que são desdenhadas: muros danificados, pessoas conhecidas por seu coração bom demais.
(27) Coisas passadas que nos causam saudades. Flores ressequidas de malva. Ornamentos do Dia das Meninas.
Momentos em que nos deparamos com um retalho tingido de roxo-carmesim e roxo claro avermelhado prensado entre págians de uma brochura. Ou, em tedioso dia de chuva, encontrar cartas que outrora nos comoveram.
O leque do ano que passou.
(60) Para aqueles que deixam a casa da amada antes do amanhecer, parece desnecessário ter de ajeitar devidamente todos os trajes ou de atar firmemente o cordão do chapéu laqueado. Desleixados e desalinhados em trajes palacianos ou cotidianos, haveria quem deles zombasse ou criticasse quando com eles se deparassem? [...]
(66) Quanto a temas de poemas, a Capital. A planta trepadeira kuzu. A espadana d’água. O cavalo. O granizo.
(113) Quanto ao inverno, o bem frio. Quanto ao verão, o de calor sem igual.
(134) Coisas que são desprezadas. Pessoas feias e de mau caráter. Cola de arroz cozido e apodrecida. São coisas que todas as pessoas evitam, mas nem por isso vou deixar de registrá-las. Elas existem no mundo, como ainda a remanescente tenaz de bambu do cerimonial fúnebre. Esta brochura não foi escrita para as pessoas lerem e eu me propus a nela anotar inclusive as coisas estranhas e detestadas.
(154) Por estar de luto pelo falecimento do Conselheiro-Mor [...]
Preservar com cuidado os fatos passados é um gesto elegante. As mulheres não os esquecem, o que não se observa entre os homens, e é realmente muito divertido porque eles falham até na tentativa de rememorar seus próprios poemas. [...]
(160) Coisas distantes que parecem próximas. A Terra Pura. A travessia de um barco. A relação entre um homem e uma mulher.
(171) A casa de uma dama que vive sozinha apresenta-se bastante danificada: muro de terra batida por terminar, plantas aquáticas que invadem o lago e, embora o jardim ainda não esteja totalmente coberto de artemísias, podem-se ver as ervas daninhas verdes por entre as pedrinhas – uma imagem de tanta solidão chega a comover. É tão desinteressante quando nada há para ser consertado, com o portão bem trancado e tudo na mais devida ordem que nos enfastiamos muito.
(183) Em meio a uma tarde muito quente, pensava no que fazer para amenizá-la; o leque trazia-me apenas ares mornos e eu me deliciava molhando a mão na água com gelo, quando alguém me trouxe uma carta, em papel fino do mais puro vermelho, amarrada a um galho de cravina-chinesa em plena floração carmesim. Aquilo me fez sentir o cuidado profundo e a delicadeza que por mim nutria quem me escrevia em meio a tal calor e me levou a abandonar o leque que teimava em usar mesmo sem trazer alívio.
(188) Quanto a ventos [...]
Nada há de mais admirável e comovente do que a manhã seguinte ao tufão. [...]
(215) Ao atravessar o rio sob o intenso brilho do luar, é lindo ver as gotas d’água se espalhando como cristais a se fragmentar à medida que os bois caminham.
(232) Quanto ao que cai, a neve. O granizo. A neve chuvosa é detestável, mas é encantadora a brancura que se destaca quando cai. É maravilhosa a neve sobre o telhado de casca de cipreste, sobretudo quando está para derreter um pouco. É também verdadeiramente fascinante quando a neve, ainda pouca, se acumula no telhado plano e o sombreado de seu contorno faz ver formas curvas.
A chuva fina e intermitente de outono e o granizo sobre o telhado de tábuas. Também a geada sobre o telhado de tábuas. Ou no jardim.
(241) Coisas que simplesmente passam e... passam. O barco à vela. A idade das pessoas. A primavera, o verão, o outono, o inverno.
(252) Nas faces humanas, uma parte especialmente bonita é sempre digna de apreciação e admiração, por mais que a contemplemos. As pinturas, por exemplo, não mais atraem os olhos quando vistas com frequência. As pinturas de biombos que estão sempre ao lado, também, apesar de bastante apreciáveis, não mais nos prendem os olhos. As fisionomias, por sua vez, exercem uma atração intrigante.
Mesmo os objetos frios sempre têm uma parte bonita que chama a atenção. É uma pena que, do mesmo modo, também nos chama a atenção uma parte feia.
(285) Coisas que incitam à imitação. Bocejo. Criancinhas.
1 637
Jaroslav Seifert
Vi apenas uma vez
Vi apenas uma vez
um sol tão ensanguentado.
E nunca mais
Descia funesto sobre o horizonte
e parecia
que alguém havia escancarado as portas do inferno.
Perguntei pelo observatório astronômico
e hoje sei o porquê.
O inferno, conhecemos: está em toda parte
e caminha sobre duas pernas.
E o paraíso?
Talvez o paraíso nada mais seja
além de um sorriso
por muito tempo esperado
e lábios
que murmuram o nosso nome.
E aquele frágil instante fabuloso
quando depressa podemos esquecer-nos
do inferno.
(tradução de Aleksandar Jovanovic)
934
Isabel Câmara
I.
I.
Se por acaso ao cruzar a luz
teu pé não se apegar a mim e o
trespassar em ti a espada
fruto masculino prazer de dolorosa e umbrática sombra
Saiba que por ti
ignorantemente passei sem querer
sem que sequer presumisses
e se supunhas
então era eu o tempo devido
fossem Outroras ou não
quando Aurora
(ah sacra palavra)
Aurora
AURORA
que em inglês também pressupõe pés sujos
de americanos forjadores de matracas...
...não fique aí parado
escoou – foi para baixo e sumiu na Noite
DAWN
E quando todo lógico-poema
não quiser assinalar-se à ponta da escrita
aquieta-te pássaro e força o prazer de pássaro
olhando à revelia o céu
porém ali
sentadinho mas num poleirinho.
II.
Se fosse moça (se moça fora) não teria nome
chamar-se-ia em boa gramática
de escrita antiga apenas Moça.
Só se faria maiúsculo o m de três pernas
que duas já devera de ter por causa dos sustos
e do medo de perder. A terceira perda
a perna terceira
tecera infindável
o recomeço
para o Futuro...
Quanta estranheza senhor Deus
nas orações de dona Rozenda.
Toda Ave-Maria era um coroar-se de rei
e de salve-rainhas a perder de vista
Depois
se por acaso alguém perdesse o dom de Ver
A Visão
até isso era um coroar-se da Vida
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