Morte e Luto

Poemas neste tema

Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Monafa

Notícia de Jornal
"Morreu ninguém
nesse dia qualquer
a tal hora
não carece cuidados"

M aria
O ndulava
R eluzia
T ranscendia
A brangia a essência de "ser"

N ascia com a brancura do dia
A manhecia

F estiva do
A mor que
V ivia
E xalava
L eve
A ragem, feito brisa

Renascia com a morte que lhe sorria

992
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

A menina do lago azul

Clarice morava
perto de um lago azul
como seus sonhos de menina.
Trazia nos lábios um sorriso
que era a própria vida
formosa cantiga.

Teve uma irmã, Maria
que cedo partira
sempre dizia:
"— quero ir onde está Maria".

Agora mora perto do céu
onde somente os anjos vivem.

1 268
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Perda

Tolos dormiam
quando trouxeram
a notícia
"Sebastião perdera a vida"

Itinerário interrompido
O sexo interrompido
O salário inerrompido
(salário família)
que em vida lhe servira
para saldar as dívidas.
Agora choram a perda
do bastião da Nhá Maria
que parte deixando filhos,
dívidas e um salário
"FAMÍLIA"

719
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Menino de favela

Na favela
à favela
uma vela
vela o menino

pálido
frágil
sem vida

1 101
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Velório

Sinto-me só neste velório
As pessoas estão distantes, alheias
o que farão aqui?

Sussurram problemas diários
preço do arroz, sindicato
sucessão presidencial, sucessos do
[rádio . . .

Estou só, na minha lucidez
E embora seja o morto
Me sinto vivo mais do que nunca.

906
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Hoje tem festa no céu

HOJE TEM FESTA NO CÉU
E OS HOMENS CHORAM NA TERRA

Morreu "mundinho"
filho de Izabel
que brincava às manhãs
com seu barco de papel

HOJE TEM FESTA NO CÉU
E OS HOMENS CHORAM NA TERRA

No céu preparam a chegada
do "mundinho de Izabel"
na terra ficou o barquinho
e o menino foi pro céu
HOJE TEM FESTA NO CÉU

1 071
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Sutilezas

Brinco com seus lábios
já ausentes de meus olhos.
Imagino o relógio de sol
marcando peles brancas.
Lembranças envolvem sutilezas
que suas mãos ofereciam.
Doçuras carregam água de geleiras
e em cada verso que te oferto vejo
minha morte.

954
Marco Antônio Rosa

Marco Antônio Rosa

Aos Curdos

As dobras do tempo
me assustam
por sua precisão
em faces há muito conhecidas
e reencontradas
depois de eras
em uma curva qualquer
da estrada
onde seguimos rumo
a estranho compromisso
de pó e cordite,
lágrimas
nos olhos.

817
Maria Aparecida Reis Araújo

Maria Aparecida Reis Araújo

Passos

Do exílio à execração
o tempo se extingue
abrindo caminho de urzes.

do lenho à caída, holocausto
sangra sudário suor e sede.

E desde a profecia sem limites, o amor.

893
Maria Aparecida Reis Araújo

Maria Aparecida Reis Araújo

Faces do Silêncio

Pedras escondidas em prateleiras
de encostas
e guizos de aljôfar - silêncio
é o guia, o selo e a viagem.

O desembarcar de ossos
em asas do vento

o borbulhar de espuma
em corpos de areia

o riso milenar no roteiro de cinzas.

838
Marcos A. P. Ribeiro

Marcos A. P. Ribeiro

12 SETEMBRO 1977

Robert Lowell morto num táxi em Manhattan.

O sol parece infantil.

929
Luiz Nogueira Barros

Luiz Nogueira Barros

Luta

Luta mais feroz não há que a dos erros
saindo das cavernas mais recônditas
de portas derrubadas aos últimos instantes:
quando a morte é certa e a vida uma tolice !...

905
Lyad de Almeida

Lyad de Almeida

Haicai

Favela. A lua
faz das latas dos barracos
finas pratarias.

Finados.
Sacrifício das flores
para embelezar a morte.

815
Luciano Matheus Tamiozzo

Luciano Matheus Tamiozzo

Fim

É o fim...
Eu vim de um sonho
E para este sonho
Eu voltarei.

Não me procures
Pois contigo estarei
Povoando tua mente,
Teus sonhos de rei.

Estou desaparecendo,
Entre brumas e névoas
Eu vou sumir...

Me procure nos sonhos,
Lá sempre estarei,
Lá sempre ficarei.

960
Leão Moysés Zagury

Leão Moysés Zagury

Não Está na Hora

Não está na hora
de acordar.
Não é hora
de dormir sob as inquietudes poéticas
dum tempo incerto.

Nunca é o momento
do...
nem o despertar quotidiano.

Nunca temos tempo
para...
Nunca pertencemos a lugar algum.

A vida corre e nem
queremos participar
de suas coisas.
Nunca temos tempo.

Será que já morremos?

750
João Fortunato

João Fortunato

Estela

Para Manuel Ribeiro de Paiva

Orgulho natural,
Integridade,
Um corpo que não se vende,
Humilha, ou trai.

Só agora,
Toda claridade,
Sua alma a nós se rende
E não se retrai.

E alva,frágil,
Agreste como flor de esteva,
Acima do turbilhão
Da cidade que a colheu,
Liberta, se eleva…

737
Jorge Fonseca Jr.

Jorge Fonseca Jr.

Haicai

Este abacateiro
acende, ante a luz do luar,
suas suaves lâmpadas...

Ah! Uns olhos sem luz
vêm ver jasmins florescer
diante de uma cruz...

1 217
Hélio Pellegrino

Hélio Pellegrino

Catacumbas

Somos argila, noite
onde os dedos se afundam,
hemorragia de espantoso silêncio
nas galerias do corpo.

O resto,
o resto é pura perda
e transitória insônia.

1 294
Hélio Pellegrino

Hélio Pellegrino

LHomme Révolté

Venho de um negro tempo irredutível,
anterior a mim.
Vou para um negro tempo desmedido,
infinito campo de ébano
onde me apagarei.
De uma escarpa a outra,
transfixado entre negro e negror,
danço — centelha breve — o meu furor.

1 254
Iracema de Camargo Aranha

Iracema de Camargo Aranha

Primavera

Menino chora
Pipa sumiu no espaço
Linha partida.

Galhos curvados
como a pedir perdão
Nobre chorão.

Finados... Mortos
Presença dos ausentes
Quanta saudade...

923
Gonçalo Soares da Franca

Gonçalo Soares da Franca

Epitáfio

A que vês, ó caminhante,
(em desenganos da vida)
fixa Estrela hoje luzida,
Luminar ontem errante,
a golpes dois num instante
deve a mudança, em que gira;
ao ponto da morte expira,
mas tanto sem sobressalto,
que acertou alvo tão alto,
porque pôs tão Alta a mira.

645
Goulart Gomes

Goulart Gomes

Mariniello

agosto seis
havia um cogumelo na história
mega-tons de Hiroxima:
um talo, a rosa

caído de joelhos
e o corpo
numa curva
para traz
teus ais

tudo era tão justo
que o mais
nobre
dos mortais
se renderia
às tuas ancas
brancas
frias; quadris
chuva ácida asperjada

e um clarão
denovo
dia
no espírito
paz...

834
Helena Ortiz

Helena Ortiz

Os Que Não

como é que eu ia saber
que era teu último abraço
e que a tranquilidade
com que te foste
era apenas a de quem
afinal
desvenda o mistério?

Aqui ficaram os que não vêem
não percebem
não ouvem
não respondam

823
Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Fastio

Mais noites hão de vir
que as que se foram?
Os braços rejeitados
aguardam
o desmoronamento protelado.

A angústia do nada
não logra vencer a ampulheta.
As portas não são ainda
o assomo do consumado.

785